21 de dezembro de 2006

RESTOS DE SOMBRAS DE NINGUÉM

Abre os olhos sonolento e um pouco envergonhado. Olha devagar para o grande relógio à sua frente: duas e vinte. Como os ponteiros são lerdos nas horas tristes! Olha as pessoas ao seu redor, todos aqueles rostos enrugados, aqueles olhos sem brilho e os gestos lentos, tão lentos quanto os seus próprios. A vida na velhice tem um arrastar de lesmas. Algumas pessoas também dormem, ele não é o único a não resistir mais com os olhos abertos durante muito tempo.

A mesa, a grande mesa gelada onde um dia todos se deitarão, a pedra indiferente que conhecerá o peso de cada velhice naquela sala parece sorrir com suas velas acesas, trepidando luz sobre um rosto branco, com as rugas mais aprofundadas, mergulhado em flores murchas em um grande caixão preto.

Pensa no morto, quando ele chegara já estava lá, era um velho agradável, que gostava de falar muito balançando o pedaço de cigarro apagado entre os lábios. Gostava dele, não era forte. A velhice enfraquece o corpo e a alma. Lembrava de tê-lo visto chorar algumas vezes e se perguntavam fazia bico, chorava mais, demorava para responder com voz rouca e fraca: Eram os filhos, os filhos o desprezavam, logo que ficara velho internaram-no naquele asilo triste e esperavam apenas que morresse, felizes por se verem livres dele. Para os filhos ele era um assassino, fora um pai ruim, severo, duro. Mas ele sabia que estava certo, tinha que ser assim, se não, não seriam homens bons. Certo que bebia muito, saía com mulheres e chegava em casa bêbado e nervoso, se falavam com ele, fosse a mulher, fossem os filhos, apanhavam.

15 de dezembro de 2006

O BRILHO DO TROFÉU

Coloca-o novamente na estante, só agora vê como ela está velha; as prateleiras lascadas, as pernas bambas e a madeira riscada pelo patinar dos anos. Mesmo assim o troféu está lá, imponente e valioso. Valioso não, precioso! Afasta-se dois passos e continua olhando com olhos vidrados. Sim, ele brilha. É a coisa mais linda que já viu.

Decididamente hoje foi o dia mais feliz de toda a sua vida. Sente orgulho de si mesmo, uma alegria grande como se tivesse uma bexiga de festa dentro do peito tão cheia que só mais um assoprãozinho ela estoura fazendo aquele barulho enorme. Tem até um pouco de medo: a mulher e os filhos já foram dormir.

Sentiram orgulho dele, não sentiram mesmo? A mulher estava feliz, sentada na cadeira do salão com o vestido que pegou emprestado da vizinha. Um pouco sem jeito coitada, não está acostumada com lugar tão cheio de gente importante; mas ela sorria para ele e fazia perguntas, ele contando tudo: aquele lá, de terno cinzento e gravata amarelada é o gerente; o outro, aquele ali que virou a cabeça agora, viu? É o diretor. A mulher olhava e balançava a cabeça confirmando, admirada. Ele conhece todos esses homens engravatados com sorriso fácil e voz repousante, não é mesmo? Tudo bem que nunca nenhum deles falou com ele na fábrica, mas ele entende. Esse pessoal é muito ocupado, estão sempre trabalhando muito. Além disso numa fábrica grande são tantos funcionários, não é possível lembrar de todo mundo mesmo, não é?

13 de dezembro de 2006

VIDA BESTA

Casas entre bananeiras,
Mulheres entre laranjeiras
Pomar, amor, cantar

Um homem vai devagar
Um cachorro vai devagar
Um burro vai devagar

Devagar... as janelas olham
Êta vida besta, meu Deus.
C.D.A

Êta vida besta, meu Deus! Como o Drummond estava certo! Que merda de vida essa! De que adianta tudo que a gente faz, qual é a perda por tudo que a gente não faz?

Olha para mim. De que serve tudo? O que eu sou agora? Qual é a diferença entre Ter sido linda ou feia, honesta ou não, triste ou alegre, rica ou pobre?

Agora sou velha, sou feia, sou triste, sou pobre. Se me olho no espelho uma tristeza tão funda! Se me recordo de algum fato, uma raiva surda, uma imensa frustração.

8 de dezembro de 2006

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

o sentimento do mundo
é amargo, ó meu poeta irmão!
se eu me chamasse Raimundo!...
não, não era solução.
Para dizer a verdade,
o nome que invejo a fundo
é Carlos Drummond de Andrade.
(Manuel Bandeira)

MOMENTO HISTÓRICO

No ano em que nasce Carlos Drummond de Andrade, inicia-se o governo do presidente Rodrigues Alves. O poeta vive sua infância e parte da sua juventude durante a República do Café-com-Leite. A antiga oligarquia açucareira havia sido substituída pela nova oligarquia do café. Durante a Política-do-Café-com-Leite, revezavam-se na presidência da República políticos de São Paulo e de Minas Gerais, os Estados mais poderosos da época. Esse período foi marcado por intensas lutas políticas. Ocorreram rebeliões militares e revoluções populares que sempre foram energicamente reprimidas pelo governo.
Podemos acrescentar a todos esses acontecimentos a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), da qual o Brasil participou como fornecedor de gêneros alimentícios e transporte marítimo. Esse evento é retratado por Carlos Drumond de Andrade em Boitempo, no poema “1914”:

“Desta guerra mundial
não se ouve uma explosão
sequer nem mesmo um grito
do soldado partido
em dois no campo raso...”

Verificou-se no plano internacional a disputa entre a Inglaterra e os Estados Unidos pela produção e mercado mundiais. Os Estados Unidos superaram a Inglaterra como o mais importante país capitalista, dominando consequentemente, o comércio com o Brasil. Contudo, isso em nada modificou nossa situação de exportadores de matéria-prima e importadores de manufaturados. Não se alterou nossa relação de dependência; mudou apenas o país do qual dependíamos.

No oriente, a Revolução Russa de 1917 estava construindo na União Soviética a primeira sociedade socialista da História. No Brasil a adaptação aos novos tempos também passou a ser exigida. Parcelas da população que até então eram simplesmente excluídas da participação política e econômica, começaram a pressionar para ter maior influência nos destinos do país. Intensificaram-se também os movimentos operários, geralmente reprimidos a força. Carlos Drummond em seu livro Sentimento do Mundo revela a situação do operário oprimido:


“Na rua passa um operário. Como vai firme! Não tem blusa. No conto, no drama, no discurso político, a dor do operário está na sua blusa azul, de pano grosso, nas mãos grossas, nos pés enormes, nos desconfortos enormes...”

A burguesia urbana, nascida com a industrialização unida a setores jovens das forças armadas passa a combater as regras políticas vigentes, configuradas no coronelismo e na política do café-com-leite. Começaram assim, a pregar a necessidade de uma revolução. Juntando esses fatores à crise econômica sem precedentes, que se intensificou na segunda metade da década de vinte, temos o cenário propício para as várias revoltas ocorridas na época, as quais terminaram na derrubada do presidente Washington Luiz em 1930.

O período que vai de 1930 a 1945 reflete na produção poética de Carlos Drummond de Andrade um conturbado período histórico. A década de 30 inicia-se com um forte impacto provocado pelo craque da Bolsa de Valores de Nova Yorque. O sistema financeiro internacional foi profundamente abalado. Essa depressão leva ao agravamento das questões sociais e ao avanço dos partidos comunistas e socialistas.

No Brasil, em novembro de 1935, os comunistas iniciaram um movimento revolucionário, que foi vencido pelas tropas do governo. Seus principais líderes, entre os quais Luís Carlos Prestes, foram presos.

A repressão ao movimento de 1935 alimentou o autoritarismo de Vargas, com o apoio de amplos setores do exército e das classes dominantes, e inspirado, pelo menos em parte, no exemplo do fascismo italiano e do nazismo alemão, Vargas passou a conspirar para perpetuar-se no poder.
À expansão do nazi-fascismo soma-se às conseqüências da derrota dos alemães na Primeira Guerra Mundial, fazendo florescer o cenário ideal à Segunda Guerra Mundial. A poesia de caráter socio-político drummondiana por muitas vezes descreve esta guerra. Drummond exalta a ideologia comunista que pode superar o modelo fascista:

“A noite dissolve as pátrias,
apagou os almirantes
cintilantes! Nas suas fardas.”
..............................................
“Aurora,
entretanto eu te diviso, ainda tímida,
inexperiente das luzes que vais acender
e dos bens que repartirás com todos os homens.
Sob o úmido véu de raiva, queixas e humilhações,
Adivinho que sobes, vapor róseo expulsando a treva noturna.
O triste mundo fascista se decompõe ao contato de teus dedos,
Teus dedos frios, que ainda não se modelaram
Mas que avançam na escuridão como um sinal verde e peremptório.”

Em agosto de 1945, a morte cai sobre Hiroshima e Nagasaki. A bomba atômica provoca a morte de milhares de pessoas e culmina com o término da Guerra Mundial. Inicia-se agora um novo tipo de guerra, a Guerra Fria:

“A bomba
é uma flor de pânico apavorando os floricultores
.............................................................................
A bomba
Envenena as crianças, antes que comecem a nascer
A bomba
Continua a envenená-las no curso da vida
...................................................................
a bomba
é câncer
...............................................................................
A bomba
Não destruirá a vida
O homem
(tenho esperança) liquidará a bomba.”

Após a Segunda Guerra, vários setores das classes dominantes, do Capital Internacional e das Forças Armadas concluíram que Getúlio não mais representava seus interesses, e retiraram o apoio que antes proporcionaram ao Estado Novo. Em outubro de 1945, os chefes militares obrigaram Getúlio a renunciar.

No período que vai de 1945 a 1964, houve uma indefinição de rumos, além de tentativas diversas de dar contornos reais à democracia expressa na Constituição de 1946. Entretanto, a democracia de fato não é apenas política, mas também econômica e social, só poderia existir se houvesse mudanças profundas que tornassem mais justas a distribuição da terra e das rendas, com o que a classe dominante jamais concordaria.

Os anos 50 são caracterizados pela Política Desenvolvimentista e pela política de aproximação das massas. Getúlio Vargas é Re-eleito, mas logo no início do seu governo houve manobras para tentar derrubá-lo. Pressionado, Getúlio suicida-se.

Os anos 60 são marcados pela ascensão de Juscelino Kubitchek e pela fundação de Brasília. A crônica de Drummond vai retratar fielmente a revolta ocorrida entre as décadas de 60 e 70:

“Ninguém controla mais as mulheres, a moda, o mundo cheio de guerras particulares, atentados, segregação, suspeita, 007, unissex, trissex, pílula anticoncepcional, estudantes zangados. Marcuse e Macluhan, que ninguém leu, mas todo mundo cita, a Igreja de Roma para frente, a da Holanda mais ainda, homem chegando da lua e trazendo de lá umas pedrinhas, umas poeirinhas iguais às tristes poeirinhas e pedrinhas deste manjadíssimo planeta que habitamos... 60, que confusão! Não estou cansado, mas assim também é demais. Pelo menos a mini saia é clara, direta, saudável, comunicante. Mas tramam um complô contra ela, a explodir em 70.

Em 70 navegamos, caríssimos. Que vai suceder ao barco? Salvamo-nos todos, ou todos nos afundamos? Parece que é para valer. Cartomante virou futurólogo, profissão de nível mais alto, mas o que essa gente diz não se escreve. Está chegando aí o bebê-proveta. Eu gostaria de viver para conhecê-lo já crescido, fazendo leis de proveta – quem sabe – mais eficazes que as dos parlamentos. Mas a década de 70 tem isto de infame: também vou chegando a este número muito ligado à gerontologia, ciência sem graça. Não me conformo com a “ordem natural”: a gente devia nascer velho e acabar luminosamente jovem.”

POEMA DE SETE FACES


Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.


As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.


O bonde passa cheio de pernas;
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu: Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada,


O homem atrás do bigode
é serio, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
O homem atrás dos óculos e do bigode.


Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus,
se sabias que eu era fraco


Mundo mundo vasto mundo,
Se eu me chamasse Raimundo
Seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo
Mais vasto é meu coração


Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.
CDA

Em “poema de sete faces”, Carlos Drummond de Andrade nos fala, em sete estrofes (faces), de seus conceitos pessoais acerca de si mesmo, dos relacionamentos humanos, de sua ignorância diante das coisas da vida, do homem, de Deus e do mundo.

O poeta inicia por nos contar como foi enviado ao mundo, justificando a si mesmo, pois o anjo que o “lança para a vida” é bastante peculiar, diferente da concepção que temos de anjo:

“... um anjo torto
desses que vivem na sombra”

E da boca desse anjo torto sai a definição de seu destino:

“...disse: Vai, Carlos! Ser gauche na vida.”

O poeta atribui aos homens, ou melhor, ao desejo dos homens, quase uma culpa pela ausência de serenidade:

“as casas espiam os homens
que correm atrás das mulheres
a tarde talvez fosse azul
não houvesse tantos desejos.”

As indagações vindas do coração sobre as pessoa, a não-compreensão de seu interior, faz com que o poeta clame a Deus:

“o bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.”

Tudo vem do coração, porque os olhos apenas atestam:

“porém meus olhos
não perguntam nada.”

A máscara que vestimos também não escapa ao poeta:

“o homem atrás do bigode
é sério, simples, forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
O homem atrás dos óculos e do bigode.”

Revelando-se fraco clama o favor de Deus numa paráfrase de Jesus, o homem se sentindo abandonado:

“meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era deus
se sabias que eu era fraco.”

O tamanho do mundo não é maior do que um coração de poeta:

“Mundo mundo vasto mundo,
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
Mais vasto é meu coração.”

E na última estrofe, Carlos Drummond de Andrade parece dirigir-se aos leitores (nós), confidenciando e justificando sua poesia:

“Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.”

EXPLICAÇAO


Meu verso é minha consolação.
Meu verso é minha cachaça. Todo mundo tem sua cachaça.
Para beber, um copo de cristal, canequinha de folha-de-flandres,
Folha de taioba, pouco importa: tudo serve.
Para louvar a Deus como para aliviar o peito,
Queixar o desprezo da morena, cantar minha vida e trabalhos
É que faço meu verso. E meu verso me agrada.


Meu verso me agrada sempre...
Ele às vezes tem um ar sem-vergonha de quem vai dar uma cambalhota,
Mas não é para o público, é para mim mesmo essa cambalhota.
Eu bem me entendo.
Não sou alegre, sou até muito triste.
A culpa é da sombra das bananeiras de meu país, esta sombra mole, preguiçosa.
Há dias em que ando na rua de olhos baixos
Para que ninguém desconfie, ninguém perceba
Que passei a noite inteira chorando.
Estou no cinema vendo fita de Hoot Gibson,
De repente ouço a voz de uma viola...
Saio desanimado.
Ah, ser filho de fazendeiro!
À beira do São Francisco, do Paraíba ou de qualquer córrego vagabundo,
É sempre a mesma se-si-bi-li-da-de.
E a gente viajando na pátria sente saudades da pátria.
Aquela casa de nove andares comerciais
É muito interessante.
A casa colonial da fazenda também era...
No elevador penso na roça,
Na roça penso no elevador.


Quem me fez assim foi minha gente e minha terra
E eu gosto bem de ter nascido com esta tara.
Para mim, de todas as burrices a maior é suspirar pela Europa.
A Europa é uma cidade muito velha onde só fazem caso de dinheiro
E tem umas atrizes de pernas adjetivas que passam a perna na gente.
O francês, o italiano, o judeu falam uma língua de farrapos.
Aqui ao menos a gente sabe que tudo é uma canalha só,
Lê o seu jornal, mete a língua no governo,
Queixa-se da vida (a vida está tão cara)
E no fim dá certo.


Se meu verso não deu certo, foi seu ouvido que entortou.
Eu não disse ao senhor que não sou senão poeta?


O poema “explicação” dispensa qualquer comentário, pois fala por si próprio.
O indivíduo, o ser humano Carlos Drummond de Andrade, a essência do poeta está contida nos versos do poema que, pelo título, já explica tudo...


SENTIMENTO DO MUNDO


Tenho apenas duas mãos
e o sentimento do mundo,
mas estou cheio de escravos,
minhas lembranças escorrem
e o corpo transige
na confluência do amor.


Quando me levantar, o céu
estará morto e saqueado,
eu mesmo estarei morto,
morto meu desejo, morto
o pântano sem acordes.


Os camaradas não disseram
que havia uma guerra
e era necessário
trazer fogo e alimento.
Sinto-me disperso,
anterior a fronteiras,
humildemente vos peço
que me perdoeis.


Quando os corpos passarem,
eu ficarei sozinho
desfiando a recordação
do sineiro, da viúva e do microcopista
que habitavam a barraca
e não foram encontrados
ao amanhecer


esse amanhecer
mais noite que a noite.

Nesse poema, o poeta é o portador de todo o sentimento do mundo, isto porque as pessoas perderam seus sentimentos e foram massificadas pelo cotidiano

“Tenho apenas duas mãos
e o sentimento do mundo,
mas estou cheio de escravos,...”

Há uma previsão pessimista do futuro. Aqui, o indivíduo sente-se ainda exilado, e pede perdão por não ter conseguido alertar a humanidade quanto aos acontecimentos.

“Quando me levantar, o céu
estará morto e saqueado,
eu mesmo estarei morto,
morto meu desejo, morto
o pântano sem acordes....”
............................................


Sinto-me disperso,
anterior a fronteiras,
humildemente vos peço
que me perdoeis....”


MUNDO GRANDE


Não, meu coração não é maior que o mundo.
É muito menor.
Nele não cabem nem as minhas dores.
Por isso gosto tanto de me contar.
Por isso me dispo.
Por isso me grito,
Por isso freqüento os jornais, me exponho cruamente nas livrarias
Preciso de todos.


Sim, meu coração é muito pequeno.
Só agora vejo que nele não cabem os homens.
Os homens estão cá fora, estão na rua.
A rua é enorme. Maior. Muito maior do que eu esperava.
Mas também a rua não cabe todos os homens,
As diferentes dores dos homens,
Sabes como é difícil sofrer tudo isso, amontoar tudo isso
Num só peito de homem... sem que ele estale.


Fecha os olhos e esquece.
Escuta a água nos vidros,
Tão calma. Não anuncia nada.
Entretanto, escorre nas mãos,
Tão calma! Vai inundando tudo...
Renascerão as cidades submersas?
Os homens submersos – voltarão?
Meu coração não sabe.
Estúpido, ridículo e frágil é meu coração.
Só agora descubro
Como é triste ignorar certas coisas.
(na solidão de indivíduo
desaprendi a linguagem
com que os homens se comunicam.)


outrora escutei os anjos,
as sonatas, os poemas, as confissões patéticas.
Nunca escutei a voz de gente.
Em verdade sou muito pobre.


Outrora viajei
Países imaginários, fáceis de habitar,
Ilhas sem problemas, não obstante exaustivas e convocando ao suicídio.
Meus amigos foram às ilhas.
Ilhas perdem o homem.
Entretanto alguns se salvaram e
trouxeram a notícia
de que o mundo, o grande mundo está crescendo todos os dias,
entre o fogo e o amor.


Então meu coração também pode crescer.
Entre o amor e o fogo,
Meu coração cresce dez metros e explode.
— Ó vida futura! Nós te criaremos.

Nesse poema, temos o indivíduo voltado para os grandes problemas do mundo e da vida. Agora, seu coração é pequeno e não pode conter o sentimento do mundo:

“...Sabes como é difícil sofrer tudo isso, amontoar tudo isso
Num só peito de homem... sem que ele estale.”

Aqui, o indivíduo não é mais o exilado:

“outrora escutei os anjos,
as sonatas, os poemas, as confissões patéticas.
Nunca escutei a voz de gente.
Em verdade sou muito pobre.”

Há uma visão otimista do futuro e a esperança de um mundo melhor, resultado da união de todos os homens:

“Então meu coração também pode crescer.
Entre o amor e o fogo,
Meu coração cresce dez metros e explode.
— Ó vida futura! Nós te criaremos.”


A FLOR E A NÁUSEA


Preso à minha classe e a algumas roupas,
vou de branco pela rua cinzenta.
Melancolias, mercadorias espreitam-me.
Devo seguir até o enjôo?
Posso, sem armas, revoltar-me?


Olhos sujos no relógio da torre:
Não, o tempo não chegou da completa justiça.
O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.
O tempo pobre, o poeta pobre
fundem-se no mesmo impasse.


Eu não me tento explicar, os muros são surdos.
Sob a pele das palavras há cifras e códigos.
O sol consola os doentes e não os renova.
As coisas. Que tristes são as coisas consideradas sem ênfase.


Vomitar esse tédio sobre a cidade.
Quarenta anos e nenhum problema
resolvido, sequer colocado.
Nenhuma carta escrita nem recebida.
Todos os homens voltam para casa.
Estão menos livres mas levam jornais
e soletram o mundo, sabendo que o perdem.


Crimes da terra, como perdoá-los?
Tomei parte em muitos, outros escondi.
Alguns achei bobos, foram publicados.
Crimes suaves, que ajudam a viver.
Ração diária de erro, distribuída em casa.
Os ferozes padeiros do mal.
Os ferozes leiteiros do mal.


Pôr fogo em tudo, inclusive em mim.
Ao menino de 1918 chamavam anarquista.
Porém meu ódio é o melhor em mim.
Com ele me salvo
e dou a poucos uma esperança mínima.


Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.


Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor.


Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde
e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.
É feia, mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.

Nesse poema, o poeta faz um triste balanço da vida, da inutilidade, do que se perdeu. Lamenta a perda da liberdade, proclama seu ódio, mas deixa ao final uma triste flor, uma esperança insegura, uma esperança que basta apenas para permitir que a vida continue.

O leitor pode sentir também nesse poema a amargura, a tristeza e a secura características de Carlos Drummond de Andrade, sente-se a presença desta alma que pertence ao um homem “triste, orgulhoso: de ferro.”

VERSOS À BOCA DA NOITE


Sinto que o tempo sobre mim abate
sua mão pesada. Rugas, dentes, calva...
uma aceitação maior de tudo,
e o medo de novas descobertas.


Escreverei sonetos de madureza?
Darei aos outros a ilusão de calma?
Serei sempre louco? Sempre mentiroso?
Acreditarei em mitos? Zombarei do mundo?


Há muito suspeitei o velho em mim.
Ainda criança, já me atormentava.
Hoje estou só. Nenhum menino salta
de minha vida, para restaurá-la.


Mas se eu pudesse recomeçar o dia!
Usar de novo minha adoração,
meu grito, minha fome... Vejo tudo
impossível e nítido no espaço.


Lá onde não chegou minha ironia,
entre ídolos de rosto carregado,
ficaste, explicação de minha vida,
como os objetos perdidos na rua.


As experiências se multiplicaram:
viagens, furtos, altas solidões,
o desespero, agora cristal frio,
a melancolia, amada e repelida,


e tanta indecisão entre dois mares,
entre duas mulheres, duas roupas.
Toda essa mão para fazer um gesto
que de tão frágil nunca se modela,


e fica inerte, zona de desejo
selada por arbustos agressivos.
(um homem se contempla sem amor,
se despe sem qualquer curiosidade.)


Mas vêm o tempo e as idéias de passado
visitar-te na curva de um jardim.
Vem a recordação e te penetra
dentro de um cinema, subitamente.


E as memórias escorrem do pescoço,
do paletó, da guerra, do arco-íris,
enroscam-se no sono e te perseguem,
à busca de pupila que as reflita.


E depois das memórias vem o tempo
trazer novo sentimento de memórias,
até que, fatigado, te recuses
e não saibas se a vida é ou foi.


Esta casa, que miras de passagem,
estará no Acre? Na Argentina? Em ti?
Que palavra escutaste? E onde? E quando?
Seria indiferente ou solidária?


Um pedaço de ti rompe a neblina,
voa talvez para a Bahia e deixa
outros pedaços, dissolvidos no Atlas,
em País-do-riso e em tua ama preta.


Que confusão de coisas ao crepúsculo!
Que riqueza! Sem préstimo, é verdade.
Bom seria captá-las e compô-las
num todo sábio, posto que sensível:


Uma ordem, uma luz, uma alegria
baixando sobre o peito despojado.
E já não era o furor dos vinte anos
nem a renúncia às coisas que elegeu,


mas a penetração no lenho dócil,
um mergulho em piscina, sem esforço,
um achado sem dor, uma fusão,
tal uma inteligência do universo


comprada em sal, em rugas e cabelo.

Há nesse poema a constatação da velhice, a tristeza de saber que o tempo passa, a dúvida de como agir, de como parecer. Se usando de sinceridade, se aparentando o que é esperado.

Começa o poema em primeira pessoa, depois muda e, em terceira pessoa, o eu poético parece conversar consigo mesmo e com o leitor e olhar de perto a alma amadurecida e perdida no medo dessa maturidade.

A constatação do fim próximo, que deve ser tranqüilo porque custou caro.

LEGADO


Que lembrança darei ao país que me deu
tudo que lembro e sei, tudo quanto senti?
Na noite do sem-fim, breve o tempo esqueceu
minha incerta medalha, e a meu nome se ri.


E mereço esperar mais do que os outros, eu?
Tu não me enganas, mundo, e não te engano a ti.
Esses monstros atuais, não os cativa Orfeu,
a vagar, taciturno, entre o talvez e o se.


Não deixarei de mim nenhum canto radioso,
uma voz matinal palpitando na bruma
e que arranque de alguém seu mais secreto espinho.


De tudo quanto foi meu passo caprichoso
na vida, restará, pois o resto se esfuma,
uma pedra que havia no meio do caminho.

A primeira característica marcante do poema “legado” é a dúvida a respeito do papel que cabe ao poeta em seu mundo, em seu país, no espaço em que ele acredita. Será esquecido como uma “incerta medalha”, no entanto, o tempo é inevitável, e mais uma vez, a dúvida “se”, a brevidade de um nome ou talvez os versos de alguém que realmente mereça o mundo e a lembrança.

Tudo isso não faz muita diferença para o poeta que tem como legado a sua voz para o belo e também para o feio. Afinal, de uma vida inteira, restarão apenas seus versos, ou com suas próprias palavras “uma pedra que havia no meio do caminho.”

AMOR – POIS QUE É PALABRA ESSENCIAL


Amor – pois que é palavra essencial
comece esta canção e toda a envolva.
Amor guie o meu verso, e enquanto o guia,
reúna alma e desejo, membro e vulva.


Quem ousará dizer que ele é só alma?
Quem não sente no corpo a alma expandir-se
até desabrochar em puro grito
de orgasmo, num instante de infinito?


O corpo noutro corpo entrelaçado,
fundido, dissolvido, volta à origem
dos seres que Platão viu completados:
é um, perfeito em dois; são dois em um.


Integração na cama ou já no cosmo?
Onde termina o quarto e chega aos astros?
Que força em nossos flancos nos transporta
a esta extrema região, etérea, eterna?


Ao delicioso toque do Clitóris,
já tudo se transforma num relâmpago.
Em pequenino ponto desse corpo,
a fonte, o fogo, o mel se concentraram.


Vai a penetração rompendo nuvens
e devassando sóis tão fulgurantes
que nunca a vista humana os suportara,
mas, varado de luz, o coito segue.


E prossegue e se espraia de tal sorte
que, além de nós, além da própria vida,
como ativa abstração que se faz carne,
a idéia de gozar está gozando.


E num sofrer de gozo entre palavras,
menos que isto, sons, arquejos, ais,
um só espasmo em nós atinge o clímax:
é quando o amor morre de amor, divino.


Quantas vezes morremos um no outro,
no úmido subterrâneo da vagina,
nessa morte mais suave do que o sono:
a pausa dos sentidos satisfeita.


Então a paz se instaura. A paz dos deuses,
estendidos na cama qual estátuas
vestidas de suor, agradecendo
o que a um deus acrescenta o amor terrestre

Neste poema, o primeiro do livro, o poeta parece querer explicar ao leitor o que o levou a escrever os poemas seguintes. Parece dizer a nós. Mais do que dizer, gritar a nós: “sou humano mais do que poeta!”
Quer fazer com que o leitor entenda que os sentimentos humanos e carnais, aliados aos sentimentos divinos e espirituais, guardados em uma caixa de pele e sangue, formam esse ser chamado Homem.
Parece nos dizer, e provar, que o homem é um deus porque pode usar seu corpo como instrumento para ir além do paraíso. E o amor, sentimento tão abstrato, se torna concreto e pode ser olhado, tocado, provado quando dois corpos se unem e se tornam um só corpo. E se tornam um só deus.

ESTUDO COMPARATIVO

Análise do desenvolvimento do tema “o indivíduo” na obra de Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade nos fala sobre os seus primeiros poemas: “traduzem uma grande inexperiência do sofrimento e uma deleitação ingênua com o próprio indivíduo.”

Realmente, em Alguma Poesia podemos sentir no poeta o individualismo. Ele vê o mundo, ele critica o mundo e coloca-se à parte desse mundo. Por essa extrema sensibilidade, por sua tímida tristeza talvez, ele se sente um exilado nesse mundo e como observador-crítico olha sem complacência a seu redor, com a mesma dureza vê a si próprio e não se poupa. Sua crítica e sua amargura são muitas vezes vestidas de uma finíssima ironia, uma ironia melancólica e contemplativa.

O poeta olha o mundo de fora e não se sente parte dele, apesar de não se sentir melhor por isso; sente-se “gauche”, e como “gauche” se trata, como “gauche” se castiga. E não se poupa como não poupa nada que o rodeia.

Casas entre bananeiras
mulheres entre laranjeiras
pomar amor cantar


Um homem vai devagar.
Um cachorro vai devagar.
Um burro vai devagar.


Devagar ... as janelas olham.
Eta vida besta, meu Deus.

Em Sentimento do Mundo, o poeta começa a olhar o mundo e olhar a si mesmo como parte desse mundo e não apenas um observador, parece sair de seu individualismo exacerbado e até mesmo se arrepender dele. Mas o leitor não se deixa enganar e vê que esse individualismo apenas mudou de forma, mas continua presente com tanta ou mais força do que antes.

Quando fala de forma impessoal, quando generaliza o seu personagem, quando constata fatos e até mesmo quando usa a terceira pessoa em lugar da primeira, tão freqüente até então, pode-se sem esforço notar que o seu eu está por trás de tudo que diz. Pode-se sentir sua presença marcante e saber que certamente o impessoal, o homem qualquer, o que constata fatos e o personagem que não mais se chama Carlos ainda é o poeta, ainda é sua visão de mundo, seus sentimentos, seu eu mais profundo o que vem retratado.

É claro que esse individualismo disfarçado não diminui em nada o valor do grande poeta que sabe usar de criações impessoais para se esconder e se revelar, e revelar ao leitor que o poeta é um ser humano e nunca pode deixar de colocar a si mesmo em sua arte, que toda a beleza de sua poesia é sua própria beleza, comovente, triste e suave como a expressão desse humilde senhor que vemos nas fotos e que nos mostra o doce sorriso de quem sabe o que é a vida e quanto ela vale.

Em A Rosa do Povo, sob influência certamente, do período histórico em que vivia, das crises políticas e financeiras nacionais e mundiais, o poeta deixa um pouco do individualismo e se põe a olhar e a se preocupar com o mundo a seu redor. Começa a fazer denúncias, a relatar fatos relevantes e tem então uma participação social maior.

Mas dizer que o individualismo foi abandonado em função dos problemas sociais é dizer uma inverdade. E não poderia deixar de ser, já que o poeta coloca em sua poesia a sua impressão, o seu espanto, a sua revolta. E coloca também a sua esperança de que tudo seja passageiro, de que o passar do tempo traga consigo dias melhores e de que o homem seja capaz de construir um mundo melhor plantando uma pequena e tímida flor no coração da humanidade.

Aqui tem início também uma preocupação, esta bastante individualista, com o tempo que passa e deixa suas marcas, com a velhice que se aproxima rapidamente e o pega desprevenido, tão desprevenido que o poeta não sabe que tipo de atitude deve tomar, tão desprevenido que o poeta não consegue esconder sua decepção, seu medo, sua tristeza e, como não poderia deixar de ser, sua pequena e melancólica esperança de que as coisas não sejam tão ruins assim.

Em Claro Enigma, onde o próprio título tem guardado em si toda uma poesia, o poeta volta-se novamente para dentro de si próprio e, depois de tudo que fez e viu, não é mais como o principiante, nem o poderia ser. Mostra uma profunda decepção com o mundo, com a vida e consigo mesmo; há, nitidamente, uma certa apatia, um desinteresse por qualquer coisa que possa vir a acontecer e sobre a qual ele não pode nem deseja ter nenhuma influência. O poeta faz perguntas que não responde porque não tem a resposta e o fato não o entristece, ele se desinteressa de todas as buscas que possa ter empreendido ao longo de sua vida e de sua poesia e não se preocupa mais em tentar saber qual é o Sentimento do Mundo.

O Amor Natural não pode ser avaliado, quanto a esse tema, da mesma forma que os demais livros de Carlos Drummond de Andrade porque esse livro é composto de uma série de poemas que foram escritos ao longo de muitos anos e não em um determinado período de sua vida ou de seu amadurecimento poético.

Só o que podemos afirmar com segurança é que esse livro tem em comum com todos os outros livros do poeta a individualidade. Em seus poemas temos retratados os sentimentos do poeta, suas opiniões e sua visão do mundo sensual, da força que esse mundo tem o poder de exercer sobre os homens em geral e sobre o homem que o poeta é.

Encerrando esse breve estudo resolvemos nos deter um pouco sobre um poema desse poeta tão fascinante e escolhemos aquele que escandalizou a tantos e marcou uma época, o poema é “no meio do caminho”, poema que não temos a preensão de analisar, já que tanto e tanto já se falou e escreveu sobre ele. Mas o sentimos como de citação obrigatória em um trabalho que pretende mais do que falar sobre um poeta, mostrar a quem o ler a emoção e o interesse que esse poeta despertou nas pessoas que se dedicaram a comentar sua obra e que, para isso, se detiveram com mais cuidado sobre sua poesia, sobre seu mundo, sobre sua vida.

NO MEIO DO CAMINHO

No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra,
no meio do caminho tinha uma pedra


Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.

Depois de ler um pouco do tudo que foi dito a respeito desse pequeno poema que o poeta Drummond chamou de insignificante e que a história de nossa literatura chamaria de marco, nós só temos a dizer que, se o caminho é uma metáfora da vida e a pedra uma metáfora da própria poesia, fica em nós a certeza de que no meio do caminho de Carlos Drummond de Andrade realmente tinha uma pedra, e essa pedra era uma pedra preciosa. E essa pedra é um diamante que brilha sobre nós, que brilha dentro de nós e nos ajuda a por vezes achar linda essa vida que Drummond afirmou que “não presta”.

COMENTÁRIOS ACERCA DO POETA


“Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.”

Carlos Drummond de Andrade nasceu a 31 de outubro de 1902 em Itabira, Minas Gerai. Itabira, a cidade que o poeta chamaria em seu livro Confissões de Minas de “Vila de Utopia”, a cidade da qual diria em sua poesia:

Alguns anos vivi em Itabira.
Principalmente nasci em Itabira.
Por isso sou triste, orgulhoso, de ferro.
..............................................................
A vontade de amar que me paralisa o trabalho,
vem de Itabira, de suas noites brancas, sem mulheres
e sem horizontes.
E o hábito de sofrer, que tanto me diverte,
é doce herança itabirana.
(...)

A vida escolar do poeta tem início em Itabira, depois em Belo Horizonte e, mais tarde no Rio de Janeiro onde acontece, em 1919 sua expulsao do Colégio Anchieta, em Nova Friburgo. Sobre esse fato o poeta diria mais tarde: “A saída brusca do colégio teve influência enorme no desenvolvimento dos meus estudos e de toda a minha vida. Perdi a fé. Perdi tempo. E sobretudo perdi a confiança na justiça daqueles que me julgavam. Mas ganhei vida e fiz alguns amigos inesquecíveis.”

Em 1918 o poeta é publicado pela primeira vez, em Itabira, na revista Maio. Mas é em Belo Horizonte, em 1922, que o adolescente Carlos, recebe seu primeiro prêmio como escritor. Desse início com as letras Carlos Drummond de Andrade diria em um dos seus poemas:

O menino ambicioso
não de poder ou de glória
mas de soltar a coisa
oculta no seu peito
escreve no caderno
e vagamente conta
à maneira de sonho
sem sentido nem forma
aquilo que não sabe.

Sobre sua juventude e amigos, o poeta diria: “Éramos cinco ou seis poetas, e todas as noites tomávamos cerveja ou média no Café Estrela, um café que não existe mais, numa cidade que não existe mais.

“Um dia apareceu na faculdade de direito um calouro que tinha opinião diferente das oficiais; era o Martins de Almeida; de Juiz de Fora, veio um rapaz – era o Nava. De Dores do Indaiá, veio o pernalta Emílio; de Mariana, João Alphonsus; e outros de outras terras. Essa gente se farejou e se identificou logo. Então tomamos de assalto o “Diário de Minas”, gravíssimo órgão do Partido Republicano Mineiro, o partido que dominava a política estadual e dava as cartas no Brasil. Seus chefes não tomavam de literatura e não liam o jornal. Deixaram que nos esbaldássemos em artigos, poesias, entrevistas, polêmicas, concursos literários, piadas e o mais. Só uma coisa o governo não admitia: que publicássemos caricatura no “Diário”. Por causa de uma que saiu lá, fui repreendido pelo presidente do Estado.”

Mais tarde, como estudante na Escola de Odontologia e Farmácia de Belo Horizonte, Drummond troca intensa correspondência com Mário de Andrade, a respeito da qual nos conta:

“As cartas de Mário de Andrade ficaram sendo o acontecimento mais formidável de nossa vida intelectual belo-horizontina. Depois de recebê-las, ficávamos diferentes do que éramos antes.
E diferentes no sentido de mais lúcidos. Quase sempre ele nos matava ilusões, e a morte era tão completa que só podia deixar-nos ofendidos e infelizes. Então reagíamos com injustiças, tolices, o que viesse de momento ao coração envinagrado. Mário recebia essas tolices, mostrava que eram simplesmente tolices, e ficávamos mais amigos...

Porque a amizade se formou numa base de literatura, e devia nutrir-se dela, até que fossem chegando outros motivos de interesse e abandono, certas confidências difíceis, pedidos de conselho. Isto que nas relações comuns só o conhecimento pessoal e o trato diário costumam permitir, o conhecimento postal e literário suscitara imprevistamente e era mesmo uma festa receber carta de Mário, (...)”

Em 1928 a “Revista de Antropofagia”, de São Paulo, publica seu poema “no meio do caminho”, sobre o qual o poeta diz em uma crônica: “...sou o autor confesso de certo poema, insignificante em si, mas que a partir de 1928 vem escandalizando meu tempo, e serve até hoje para dividir no Brasil as pessoas em duas categorias mentais(...)”

Hoje, Carlos Drummond de Andrade é, indiscutivelmente considerado o maior poeta brasileiro, sua poesia cheia de tristeza e ironia comove, afeta a todos os que o lêem e, qualquer pessoa que o conheça sente que o Carlos não atendeu ao anjo torto e, devido talvez ao seu grande talento e à sua enorme sensibilidade não conseguiu ser totalmente “gauche” na vida, conseguiu sim, ser uma “pedra no caminho” de nosso comodismo e otimismo exagerado e mentiroso.

De ferro é sua cidade natal, de ferro ele afirmou ser sua alma, de ferro sua força, com certeza. Mas sua poesia não é de ferro, sua poesia é de ouro: extremamente valiosa, extremamente linda, e é beleza que o tempo não pode enferrujar.

Quando interrogado acerca de sua liderança entre os modernistas:

“Essa minha liderança eu não levo muito a sério, não. Eu era o menos informado, o mais inculto dos rapazes de Minas e, ao mesmo tempo, o mais audacioso. A nossa roda era realmente maravilhosa. Nunca mais em Minas Gerais aconteceu um fenômeno como esse. Uma roda em que estavam juntos Milton Campos, Abgar Renaut, Emílio Moura, Pedro Nava, Cyro dos Anjos. Era a melhor gente de Minas. Todos estudiosos. Eles trabalhavam e eu era vadio, namorador, não levava a vida a sério.”

DO RECATO

“Eu era até muito assanhado. A pesar de tímido, eu era assanhado, queria muito aparecer. Quando se publicava alguma coisa sobre o meu livros – e eu trabalhava no Minas Gerais – eu transcrevia todos os elogios. Uma coisa de que depois fiquei com uma vergonha enorme. Mas publicava tanto os elogios como os ataques. Publiquei uma descompostura que o Albuquerque deu em mim. Ele dizia que o livro não tinha nenhuma poesia, tinha alguma tipografia. Paulo Prado mandava um cartão elogiando meu livro, eu publicava o cartão no Minas Gerais. Era uma coisa até escandalosa de minha parte, não sei onde é que estava com a cabeça para fazer aquelas bobagens.”

Bibliografia

ANDRADE, Carlos Drummond – O Amor Natural. Rio de Janeiro, Record, 1982
ANDRADE, Carlos Drummond – Obra Completa Volume único. Rio de Janeiro, Aguilar, 1964
BARBOSA, Rita de Cássia – Literatura Comentada. Sao Paulo, Abril Educaçao, 1980
COUTINHO, Afrânio – Obra Completa. Rio de Janeiro, Aguilar, 1967.
MORAES, Emanuel de – Drummond rima Itabira mundo. Rio de Janeiro, José Olímpio, 1972

Divina de Jesus Scarpim e grupo da faculdade

4 de dezembro de 2006

DOMÉSTICA

Abro a torneira. Lavo copo. Lavo copo. Lavo copo. Copo que Valquíria gostava. Copo bonito. Eram doze. Uma dúzia inteirinha. Ali, enfileirados. Um ao lado do outro no armário. Ninguém usava. Valquíria sim. Valquíria rebelde. Valquíria... Pensar em outra coisa. Pensar em Ana. Saudades de Ana. Saudades de Júlio. Saudades de João... Saudades de Valquíria. Ia pensar em Ana... Ana gostava de estudar. Ana sorria pouco, brigava pouco, falava pouco. Até hoje é assim. Até comer comia pouco. Só estudar era muito. Pelo menos conseguiu. Terminou o colégio. Casou. Agora tem boa casa, tem bom marido, tem os meninos. Sorri pouco. Fala pouco. Come pouco. Não estuda mais. Quando João foi embora todo mundo queria me levar. Vem morar comigo mãe. Vamos lá pra casa mãe. Vende essa casa e vem comigo Rosa. Todo mundo queria que eu fosse embora. Eu queria que João voltasse. Esperei tanto. Chorei tanto. Se fosse com alguém seria com Ana. No porão. Ficaria morando no porão. Colocava um portão no alto da escada. Não queria os meninos toda hora, vindo correndo, tomando conta da casa. Queria meu canto. Mas eu tenho meu canto. Sair por quê? Sair para onde? Em que lugar eu me sentiria melhor do que aqui? Não me sinto melhor aqui. Mas e se o João voltar? Esse prato tá tão sujo. Queijo derretido, difícil sair. Vou pegar Bombril. Todo mundo diz que foi bom João ir embora. Por que todo mundo tem mania de querer saber o que é bom pra gente? Que raiva! Será que ninguém sabe que eu fico sozinha? Não, ninguém liga... Acho que eu poderia morrer... Vontade de comer uma macarronada com frango. Engorda. E daí? Quem se importa se eu estou gorda ou magra? O molho tem que ser bem vermelho. É, eu poderia morrer, ninguém se importaria. Será que tem queijo ralado? Claro que todos chorariam, até o João. Deve ter sim, eu me lembro que comprei naquela despezinha. Seria divertido ver o João chorando no meu velório. Droga! Preciso pensar uma coisa de cada vez. Que mistureira.

1 de dezembro de 2006

ÁRVORES MORTAS

O Paulo está louco. Aliás, sempre foi, doutor, pois não é louco quem fala com árvores como se fossem gente?

Primeiro não incomodava ninguém, apenas ficava lá, cuidando de suas árvores.

Enquanto o pai era vivo acho que segurava um pouco, mas foi só o pai morrer e ele foi piorando dia a dia.

Acho que se o pai não o tivesse casado antes de morrer ele não teria se casado nunca. E talvez fosse melhor, pelo menos para a coitada da Dona Margarida. Ela talvez tivesse se casado com o Tião e viveria melhor.

Mas eu tô enrolando demais, ia contar como o Paulo ficou louco, louco varrido assim como está agora.

O senhor pode imaginar que cada árvore tinha um nome? Pois tinha, doutor, cada uma tinha o seu nome lá para ele, tinha a Lurdinha, o Seu Nicolau, a Pasqualina e sei lá mais quais nomes ele dava para elas.

E ficava lá, doutor, horas e horas falando com elas, o que acontecia em casa não interessava, Dona Margarida que cuidasse, ele não tomava conhecimento de nada.

E foi ficando cada vez pior. Acho que tanto Dona Margarida rezou para que alguma coisa acontecesse que o tirasse de perto daquelas árvores que o destino resolveu fazer piada e o Pedrinho ficou doente.
Ah, doutor, o moleque sumiu, foi ficando magrinho, amarelinho, amarelinho...

Levaram o pobrezinho para o hospital e Paulo teve que gastar o pouco que tinha, o moleque não sarava, o tempo foi passando e o Paulo foi obrigado a vender suas terras.

Os homens enganaram ele, doutor. Ele recomendou cuidado com cada árvore, ficou horas dizendo para eles o nome de cada uma, eles mostraram paciência e boa vontade.

Mas logo que virou as costas derrubaram tudo e construíram o mercado. O Paulo quando viu ficou desesperado, chorou como criança, começou a beber e foi ficando como está agora.

Ele conversa assim com mesas, cadeiras, móveis e tudo que é feito de madeira porque está procurando suas árvores. É essa a história.

O menino? Ah, o menino morreu mesmo.

Divina de Jesus Scarpim

29 de novembro de 2006

UM LUGAR PARA A MITOLOGIA GRECO ROMANA NO SÉCULO XXI

Não, de início os deuses não desvendaram tudo aos mortais;
Mas, com o tempo, procurando, estes descobriram o melhor. – Xenófones

Dá-se o nome de Mitologia ao conjunto de mitos e lendas de um povo e também ao estudo desses mitos e lendas. A palavra Mitologia vem do grego mythos que significa fábula, e de logos, significando tratado. Porém não podemos confundir esse significado com o conceito atual de fábula uma vez que toda narrativa mítica, ao contrário da fábula, esconde em seu núcleo uma verdade. As narrativas mitológicas referem-se sempre à “criação”, contam como algo passou a existir, seja algo concreto como a terra e os rios; seja algo abstrato como um padrão de comportamento ou mesmo alguma atividade como plantar e colher.
Usando a razão e, a princípio também um pouco de mitologia, o homem foi encontrando respostas às questões que o intrigavam e criou a Filosofia, e conseqüentemente todas as demais ciências.
É claro que não seria verdadeiro afirmar que as ciências todas nasceram da filosofia sem que, antes delas houvesse qualquer espécie de conhecimento prático. Os egípcios conheciam muito de anatomia graças à mumificação, os comerciantes conheciam matemática pela necessidade de cálculos práticos que sua profissão exigia, os navegantes conheciam astronomia porque usavam as estrelas como meio de orientação. Porém, todos esses conhecimentos eram vinculados às necessidades do dia-a-dia ou à pratica religiosa. O desmembramento da filosofia em ciências independentes (mas não muito) foi o que realmente fez com que a matemática se tornasse mais do que a habilidade de calcular lucros e perdas, a astronomia mais do que faróis indicando o caminho e a anatomia mais do que um meio de permitir aos faraós que desfrutassem da vida eterna.
A Mitologia com suas histórias fantásticas e seus personagens fascinantes influenciou o homem desde a antiguidade grega até os dias atuais. Ao longo da história da humanidade, a Mitologia tem desempenhado um papel tão importante como fonte de inspiração que, em conseqüência, quanto mais a conhecemos, maiores serão as oportunidades que teremos de captar e desfrutar a mensagem que esse fenômeno cultural concreto que é a arte nos quer transmitir. Não se pode, por exemplo, captar toda a beleza de certas obras literárias sem a ajuda que o conhecimento da mitologia proporciona, o mesmo se pode dizer da escultura, da pintura, da arte em geral. Citações provenientes da mitologia adornam os textos e discursos de nossos oradores, escritores e políticos.
E a mitologia foi o ponto de partida de todos os conhecimentos. Mesmo que sua presença não seja um aspecto transcendental de todas as ciências, ainda assim, o fato de investigarmos e relacionarmos essas marcas pode resultar em um processo interessante que nos trará satisfação, método de trabalho, curiosidade científica e o aumento de nossa formação cultural. Muitas palavras e expressões de uso corrente, ou no campo semântico mais técnico, adquirem um sentido novo e sugestivo à luz do conhecimento mitológico que encerram.
Vejamos como exemplo lúdico o significado mitológico dos signos do zodíaco, cuja crença orienta muitos dos homens e mulheres que, ainda hoje, não saem de casa sem ler seu horóscopo.

Signos do zodíaco:

Áries – É o carneiro do velocino de ouro. Carneiro voador que foi ofertado por Zeus aos irmãos Frixo e Hele para salvá-los da perseguição da madrasta que pretendia sacrificá-los no altar do próprio Zeus. Durante a fuga, Hele caiu no mar, o lugar de sua queda ficou conhecido como Helesponto (Mar de Hele). Frixo conseguiu salvar-se, e hospedou-se no reino de Eetes, lá sacrificou o carneiro a Zeus e ofereceu sua pele (o velocino de ouro) ao rei que o acolhera. O velocino foi guardado por um dragão até que o Herói Jasão organizou uma expedição (os Argonautas) para roubá-lo.

Touro – Animal cuja forma Zeus tomou para raptar Europa. Ou, em outra versão, é Io, a amada que Zeus transformou em uma novilha para salvá-la da ira de Juno, sua esposa ciumenta.

Gêmeos – São os Gêmeos Castor e Pólux, filhos de Leda, argonautas e heróis da guerra de Tróia. Leda foi seduzida por Zeus sob a forma de um cisne. A seguir, ela pôs dois ovos, de um ovo nasceram Helena e Pólux, filhos de Zeus, e de outro Castor e Clitemnestra, filhos de Tíndaro, marido de Leda. Quando Castor morreu, Pólux recusou a imortalidade porque não queria viver sem o irmão. Zeus os transformou em constelação.

Câncer – Caranguejo que, a serviço de Juno, mordeu o pé de Hércules durante sua luta com a Hidra de Lerna (2º trabalho) Juno o transformou em constelação.

Leão – O leão da Neméia, derrotado por Hércules em seu primeiro trabalho.

Virgem – Erígone, que hospedou a Dionísio quando este veio à terra, teve com ele um filho, Estáfilo, que foi morto por pastores embriagados. Ela, quando soube da morte do filho, enforcou-se. Dionísio vingou-se de sua morte e, depois, transformou-a em constelação. Outra versão diz que é Astréia, antiga representação da Justiça que, decepcionada com os homens e suas maldades, resolve desistir deles e se transforma em constelação.

Libra – Símbolo de Astréia, a Justiça.

Escorpião – Órion era um caçador que tentou violentar Ártemis. A deusa fez brotar da terra um escorpião que o picou no calcanhar. Zeus transformou-os em constelação. Por isso, nos céus da Grécia, a constelação de Órion está eternamente fugindo da de escorpião.

Sagitário – Segundo uma versão é Croto, filho de Pã e irmão de leite das musas. Não era centauro, mas foi representado como tal devido a seu gosto por cavalgar. Segundo outra versão, é o centauro Quirão, que foi o professor de vários heróis, entre eles Jasão e Aquiles. Pacificou a luta entre os centauros e Hércules e foi morto por ele, por engano. O primeiro centauro foi Ixião, que depois de ser salvo e agraciado com a imortalidade por Zeus, foi ingrato e tentou seduzir Hera, tomou a nuvem por engano e daí nasceram os centauros. Foi condenado a vagar eternamente nos céus preso a uma roda de fogo.

Capricórnio – É Amaltéia, a cabra ou a ninfa que alimentou Zeus quando este nasceu. Outra versão diz ser Pã, que com um instrumento feito com uma concha de caracol provocou a fuga dos titãs, o primeiro pânico.

Aquário – É Ganimedes, o jovem que foi raptado por Zeus e tornou-se copeiro no Olimpo, encarregado de servir o néctar aos Deuses.

Peixes – Existem várias versões, esta é a mais bonita: são os dois delfins que encontraram Anfitrite em seu esconderijo nas profundezas do mar e a levaram em meio a um grande cortejo a Netuno, convencendo-a a casar-se com ele.


PS – O presente texto é uma pequena amostra do tema da monografia que foi apresentada como trabalho final no curso de pós-graduação concluído em setembro de 2002 por Divina de Jesus Scarpim

27 de novembro de 2006

DIZER NÃO

Antes de morrer Ana tinha vinte anos e um medo enorme de si mesma. Não podia dizer não. Aos quinze anos foi violada com sua autorização por um homem bem mais velho que se ofereceu para levá-la para casa em seu carro quando a encontrou na rua à noite, saindo da escola e indo para o ponto de ônibus, sozinha. No caminho parou diante de um motel e disse que deveriam entrar um pouco para conversarem e tomarem uma bebida, jurou que não passaria disso e que tudo o que fazia era porque estava emocionado com o brilho triste de seu olhar. Ela não acreditou e sabia que seria violada. Chegou em casa pela madrugada com dois tipos de dor, a mais profunda não se curou nunca.
Evitava sair de casa porque sabia que alguma coisa iria acontecer, e sempre acontecia. Não contava a ninguém que tudo que fazia era sem querer, nem a melhor amiga sabia que, depois de ir com um homem, jovem ou velho, solteiro ou casado, preto ou branco para um motel ou um terreno baldio, voltava para casa de ônibus, ou era deixada na rua de baixo pelo eventual amante, de carro ou de moto, entrava no quarto e trancava a porta, deitava-se na cama sentindo frustração, arrependimento, tristeza e um profundo nojo de si mesma.
No bar onde conheceu Júlio, todos os estudantes costumavam parar, esporadicamente para comprar chicletes e chocolates ou todas as noites depois das aulas para tomar cerveja e, entre risos e gargalhadas, falar mal dos professores. Às vezes até mesmo um ou outro professor mais liberal vinha ao bar e entrava na animada conversa dos alunos. Nesse dia aquele professor não fazia parte do assunto, ou até fazia, mas não com tanto veneno.
Julio entrou no bar para comprar cigarros e, porque viu Ana ficou. Ela sorria. E se tinha alguma coisa que sabia fazer era sorrir. Sorria para parecer o que não era, sorria para esconder o que não queria ser, sorria para não falar o que sua alma gritava, sorria para esconder de si mesma seus pensamentos, seus sentimentos, sua incapacidade.
Ana não percebeu Júlio e não sentiu medo, aquele bar era sua segurança, cercada de colegas de classe e eventualmente com um ou outro professor sentia-se protegida, não receberia propostas porque estava em turma, sairia com a turma e voltaria para casa sem o peso. Mas Júlio não conhecia essa dor e se aproximou num momento que conseguiu furar a conversa de grupo, conseguiu atravessar a barreira dos sorrisos comuns e dizer um chiste, brincar uma palavra, brilhar um olhar e, quando percebeu, Ana estava perdida. Mas ele não sabia e ela jamais lhe diria, como jamais diria a ninguém. Disse sim e saíram quarenta minutos depois. O carro de Júlio era novo, cheirava a fábrica ainda, Ana elogiou sem interesse, para dizer alguma coisa, perguntou sobre o trabalho, respondeu sobre a escola e se deitou sobre os lençóis do motel que já tinha conhecido mais de uma vez a sua humilhação.
Julio não desapareceu como devia, ficou na saída da escola, ficou na porta da casa e até entrou um dia e conversou sobre eletricidade, fio terra, positivo, negativo, curto circuito com o pai de Ana. Júlio trouxe presente no aniversário da mãe de Ana, deu um chocolate recheado bem grande para a irmãzinha de Ana e levou Ana para sua própria casa onde sorriu muito para mostrar que era seu lar e que sua mãe era uma cozinheira pouco criativa mas muito especial. Exibiu o som, os discos mais raros e os mais modernos, os livros de aventuras e o quarto arrumadinho, com tapete do lado da cama e uma parede onde ele dizia vê-la em suas noites de saudade. Ana sorria e dizia sim. Júlio estava apaixonado.
Começou a voltar para casa sem culpa, mesmo quando voltava do motel sentia-se bem, não tinha mais nojo de si mesma porque estivera com o namorado e isso não era pecado. Chegou a ter ilusão de que agora estava salva, livre para sempre da dor. Era uma mulher comum, tinha um namorado e saía com ele e só com ele. Júlio falou casamento e Ana disse sim. Viu uma prisão onde estaria livre das perguntas, dos convites. Uma mulher casada, respeitada, teria até filhos. Havia uma luz no caminho da sua vida, existia um futuro possível sem lágrimas escondidas no travesseiro, sem sorriso-muralha escondendo desespero.
Era feliz, mas precisou ir ao médico e ficou demasiado tempo na sala de espera. Lá estava um loiro alto que convidou. Disse sim e voltou pra casa sofrendo mais, chorou tanto que teve que inventar uma dor de cabeça. Depois pensou que talvez ninguém ficasse sabendo e então estaria bem, poderia continuar a ser feliz, mas sabia que não, não estava a salvo do pavor. Foi depois na loja onde aquele homem sorridente que estava comprando um velocípede para o filho a levou, tinha no porta-malas o mais infeliz velocípede do mundo e levou até perto de casa uma Ana com uma pedra de chumbo no peito. Quanto peso!
Queria terminar o namoro que não era salvação. Dizer que não podia casar porque sabia que não havia a prisão que pensou, ficou triste e sorriu mais, brincou e até levou uma saia florida de presente para a mãe de Júlio, sua inocente futura sogra que não sabia do menino que encontrou no ônibus e que a levou até uma escadaria de um edifício em construção, nem do carteiro que carregava na mala das cartas uma revistinha pornô e que conhecia um terreno baldio onde tinha um sofá ainda bastante confortável. Nem desconfiava do marido da mulher do fim da rua, que tinha um carro barulhento e de medo de ser descoberto só ia a motéis muito escondidos, em lugares que ela não conseguia encontrar depois, quando passeava de carro com Júlio.
Júlio quis marcar a data do casamento, a futura sogra preparou um jantar especial, os pais de Ana ouviram sorrindo quando Júlio propôs o dia e justificou a escolha fazendo as contas do feriado e dos dias a mais que podia pegar de férias para a viagem de lua-de-mel. Perguntou se ela concordava e Ana disse sim. Queria pedir socorro, queria sair correndo ou desaparecer num passe de mágica, então sorriu muito e até aceitou um copo bem cheio daquele vinho doce que subia logo e deixava o corpo tão leve que parecia flutuar.
Mais tarde, no motel, Júlio falou dos filhos, seriam três, duas meninas e um menino. O nome da menina poderia ser Débora, se ela concordasse, ou outro qualquer, desde que não seja nome de travesti, mas um dos meninos teria por força que se chamar Vítor, disso ele não abria mão. Sempre, sempre, desde quando estava na sexta série e viu o filho de sua professora de geografia que já tinha uns vinte anos e estava fazendo faculdade de arquitetura, que tinha o olhar decidido de quem sabe muito bem o caminho que vai seguir e está certo do sucesso, desejou que seu filho, quando tivesse um, também mostrasse essa força e desse a ele, pai, e à mulher que seria sua esposa o orgulho que via na voz molhada da professora de geografia. O nome do rapaz era Vítor e esse passou a ser o nome do seu filho. Era tão certo que era quase como se ele já existisse. Ana concordou quando perguntada. Sim, Vítor é um belo nome.
Ainda faltavam três anos para o Vítor nascer quando Ana precisou ir até o clube levar o cheque para pagar pela festa do casamento. Entrou e caminhou devagar até a secretaria do clube lembrando o dia, não muito tempo atrás, em que havia entrado por esse mesmo portão, seguido por esse mesmo caminho e chegado até essa mesma secretaria com um recorte de jornal na mão procurando um emprego. Será que a menina morena e baixinha da secretaria se lembraria dela?
No guichê havia um rapaz muito alto, negro e vestido com um moletom de ginasta, estava com uma carteirinha e um cheque na mão, provavelmente pagando a mensalidade do clube. Olhou para Ana e sorriu, ela respondeu o sorriso e baixou os olhos procurando na bolsa os papéis e o cheque, esperou ser atendida e fez o pagamento. Quando voltava pelo mesmo caminho viu que o rapaz a esperava sentado em um tronco de árvore caído, na beira da estradinha que ia da secretaria ao portão do clube, levantou-se quando ela estava mais perto e começou a conversar com a naturalidade das pessoas para as quais timidez é apenas uma palavra. Avisou que estava com o carro logo ali e podia levá-la até em casa. A casa era um motel recém inaugurado que tinha a novidade de ter o quarto todo forrado de espelhos, inclusive no teto, e uma carta de bebidas com drinks sem álcool e batizados com nomes maliciosos. Pediu um "sexo seguro" e fez com Ana um sexo de malabarista, embalado por uma alegria infantil e eterna. Saiu do motel contando histórias de família e de crianças que praticavam esporte como meio de se distanciar das drogas e do peso da vida nas ruas. Parou o carro onde Ana pediu que parasse e começou a ensaiar um convite para que se vissem novamente quando virou a cabeça para o lado porque ouviu uma batida no vidro da sua janela.
Ana viu o rosto transtornado de Júlio antes de ouvir o disparo e sentiu um golpe forte no peito antes de ver a cabeça do rapaz tombar sobre o volante e antes de ouvir o segundo disparo. Sentiu uma dor profunda no peito, mas estava tão habituada a senti-la que não percebeu que morria até que fosse tarde demais.
Divina de Jesus Scarpim

25 de novembro de 2006

ABANDONO

Queria te dar o meu planeta desabitado
E girar em tua órbita.
Chorar um oásis no abandono da tua vida,
ser serpente enroscada em teu presente
ser pedra lascada em teu passado.
Fechar os olhos devagar e ver o mundo na tua respiração.

Queria ser muda e chorar um filho para te sorrir
Cantar com harpas canções de ninar
Para teus problemas e tuas tristezas.
Como um rio lavar teu tédio
Encher de som teu silêncio de morte.
Queria não ser erro para corrigir tua vida.

Mas sou abandono,
Sou um até logo com som de adeus,
A que parte mesmo na chegada,
Por tuas lágrimas só posso te dar os olhares piedosos
Dos insetos que vagam sobre minha epiderme.

Sou a sujeira dos tempos do mundo.
Ao invés de te purificar,
Egoisticamente,
Lavo em tua limpidez minha lama negra.

Sou o suspiro cansado
Que busca a morte e grita a vida.
Quem pensa amar e não sabe ao menos quem é.

Deveria me purificar em ares remotos,
Viver mil vidas,
Vagar mil mundos
Para então ousar chegar perto do teu planeta.

Você foi o sol que não olhou a quem iluminar
E penetrou meu ser,
Minha alma estéril e infecunda lampeja como vaga-lume
Iluminada por você,
Mas jamais poderá deixar de rastejar
Entre esses tantos pontos de interrogação.


Vou destruir tua lua
E te apagar o calor.
Serei teu demônio negro
você não sentirá sequer o peso dos meus pés
Calçando plumas,
Pisando em você.

Chorei tantos mares,
E não soube lavar nem mesmo esse sorriso podre
Que se abre noite e morre de dor
Na alma de quem enganou sem querer.
Divina de Jesus Scarpim

24 de novembro de 2006

SOBRE A VELHICE

A velhice é uma realidade que não existe para a consciência do homem. O jovem a ignora porque está ocupado em viver a própria idade, o adulto a ignora graças ao medo que sua proximidade causa e o velho está procurando coisas saudáveis como a dança de salão, anestésicas como a religião ou prejudiciais como o álcool para não ter que pensar nela até perder a consciência de si próprio e da própria morte.
Os que convivem com um velho procuram mostrar-se capazes de abnegação, paciência e bondade para despertar a admiração dos outros e de si mesmos ou então ficam ocupados em se irritar com os transtornos que esse velho está causando na família. Não pensam na velhice, pensam naquele velho em particular para fugir da consciência do espelho de todas as velhices que uma velhice é.
Os meios de comunicação, principalmente as revistas femininas, quando abordam o tema trazem matérias sobre como se pode manter a saúde e o ânimo por mais tempo, dão exemplos de pessoas ou grupos que encontraram uma maneira de continuar vivos e alegres apesar da idade, dizem sempre e de todas as formas coloridas e otimistas que a velhice não é ruim se a pessoa não se deixar abater por ela. A grande maioria dos que não são ou não admitem o fato de serem velhos acredita ou se obriga a acreditar nisso, e acrescentam aos exemplos dados pelos meios de comunicação outros avôs e avós que viveram lúcidos e felizes até muito depois dos setenta, oitenta, e alguns chegam até a passar dos noventa anos de idade.
Essa crença cega naquele que diz que a vida é o que queremos que seja é muito parecida com a “cegueira” que costuma atingir muitos pais e mães que, por mais evidências com que deparem, se negam a acreditar que um filho seu está usando drogas, trilhando os caminhos do crime, ou é homossexual. É parecida também com a maneira seletiva com que se escolhe uma religião ou doutrina, como o espiritismo; acreditamos em tudo que está de acordo com o que desejamos acreditar.
O que acontece com o indivíduo acontece também com a sociedade.
Nos países pobres, como nas famílias que têm muitos filhos e baixa renda, as pessoas envelhecem mais cedo porque são mal nutridas e mal cuidadas, têm muito trabalho e pouca ou nenhuma assistência médica e os velhos são ignorados e deixados sem amparo porque o país já tem dificuldade para dar vida digna às crianças e aos jovens. Nos países ricos, como nas famílias que têm poucos filhos e alta renda, dão a eles todo o respeito e amparo possível e são felizes por serem bons e não permitir que seus velhos se sintam excluídos da sociedade da qual o excluem. O velho não trabalha e pode viajar e viver na companhia de outras pessoas, leia-se outros velhos, para não se sentirem solitários e infelizes. Além disso, eles têm todo tipo de assistência médica para que não sofram por causa das doenças que a velhice traz.
A convivência com a velhice, própria ou alheia, consiste em não se permitir pensar nela. Tudo é colocado pelo homem para possibilitar o esquecimento desse fato que em si e por si é muito pior do que a morte. Quando pensa na morte o homem encontra o descanso e o esquecimento caso não acredite na vida após a morte, o paraíso ou até mesmo o inferno que, por pior que seja, é algo que está reservado para o outro nunca para si mesmo. Pode pensar na reencarnação e no retorno à vida na terra, o que traz a esperança de uma outra vida melhor, na qual se será mais saudável, mais rico, mais bonito, mais inteligente, mais famoso, mais qualquer coisa que se queira ser e que nessa vida não foi possível, inclusive e principalmente mais bom e digno de receber o preço da bondade que é a felicidade completa e total, seja lá o que isso for.
A velhice não tem beleza, não tem poesia e não tem recompensa visível porque um velho não é bom nem ruim, é apenas um velho e seu futuro é apenas a morte. Uma das coisas boas de se estar vivo é poder fazer planos a longo prazo. O velho não pode fazer planos a longo prazo, ele não tem longo prazo. Não pode pensar no amanhã para corrigir os erros de hoje e não pode pensar no amanhã para se compensar dos sofrimentos de hoje. Não pode nem mesmo pensar em ver um ente querido, neto ou sobrinho, crescer e se tornar adulto espelhando nessa vida seus desejos de realização como os pais às vezes costumam fazer com os filhos. O velho não tem cura, sua doença é mortal e seu futuro não existe. Se pensar sobre isso o velho não resiste, por isso procura algo para fazer hoje, por isso toma antidepressivos e por isso se preocupa com a vida de seus familiares e de quem está perto dele até tornar-se inconveniente e incômodo.
E se a velhice é ruim para o ser humano, ela é pior ainda para a mulher. À mulher tudo é perdoado se tiver beleza física e todas as qualidades são escondidas se a beleza não estiver presente. E porque a beleza é relativa toda mulher é bela, é sua sina e sua obrigação, é seu castigo e seu êxtase. A beleza é parte da personalidade da mulher mais do que o instinto maternal e mais do que todos os sentimentos e pensamentos que podem habitar seu mundo. A beleza é a felicidade da mulher, inclusive da mulher que não dá valor à beleza, que se diz intelectualizada, que acha que o cérebro é mais valioso que a bunda ou os seios. Toda mulher é bela e toda beleza é feminina. Uma velha é uma mulher que perdeu a beleza. Uma velha é uma mulher que perdeu a essência de ser mulher. Uma velha não é. Não é mulher, não é feminina, não é pessoa. Um velho não perde sua condição de homem, uma velha perde sua condição de mulher. A velhice é uma sombra que paira sobre a mulher desde a primeira ruga, desde o primeiro fio de cabelo branco, desde a primeira vez que uma criança a trata de tia ou um jovem a chama se senhora. A mulher continua sorrindo depois dessa primeira e de muitas outras manifestações dessa sombra porque o sorriso é feminino e belo, continua frente ao espelho à procura da beleza que ainda resta mesmo quando toda a beleza que resta é aquela que sobreviveu apenas na sua imaginação. Quando desiste da beleza a mulher desiste da vida e deixa de ser mulher para se tornar algo nem vivo nem humano que caminha para o próprio túmulo.
(um dia esse texto será terminado. Ou não.)
Divina de Jesus Scarpim

22 de novembro de 2006

UM HOMEM PRETO

Ele é preto. Tem a pele uniformemente preta, o corpo esguio e os olhos tristes. Seu sorriso é brilhante, mostra os dentes claros como teclas de piano e a sonoridade cristalina das músicas da natureza, pena que esse sorriso seja raro.
Ele é lindo!
Sempre foi lindo, desde o dia em que nasceu, pequenino e forte, em uma casa humilde de um bairro humilde na periferia de uma cidade grande dominada pela força do dinheiro, da moeda fria que não julga. A cidade, com seu concreto e suas árvores magras, é habitada por homens que se julgam predestinados à superioridade pela cor da pele. E a pele deles é branca, não branca como a folha de papel onde cabe a poesia, mas branca como a mentira da omissão, que engana até mesmo olhos que não são daltônicos.
E pelo orgulho infundado, pela irracionalidade mal disfarçada, eles não podem ver a beleza dessa pele preta, não conseguem ouvir a sonoridade desse sorriso, e foram eles que plantaram a tristeza nesses olhos.
Desde muito pequeno ele ouviu dizer de si mesmo que é preto, que é feio, que é sujo. Desde muito pequeno ele foi muitas e muitas vezes convidado sem nenhuma gentileza a “se pôr no seu lugar”, e muito cedo o fizeram entender que seu lugar era sempre o de baixo.
Apostando uma corrida injusta ele vem de lá de trás, de onde traz a força que é minada pela injustiça, a inteligência que é abafada pela necessidade, a coragem que é suplantada pela opressão.
E é assim que ele vai crescendo e sendo lindo, de uma beleza envergonhada, que se desconhece, que não se vê no espelho porque não há olhos que a espelhem como real.
Um dia ele passa pela rua empurrando uma carriola de pedreiro, o peito sem camisa veste-se de suor e o hábito da humildade faz com que mantenha a cabeça baixa.
Quisera, ah, quanto quisera! que esse homem tivesse um filho preto e lindo como ele, e que esse filho pudesse ter o direito que roubaram do seu pai: o direito de ser desde sempre olhado, tratado, pensado, visto, como gente...
Divina de Jesus Scarpim

AS LEIS E A LÍNGUA

Leis regem nossa vida desde antes do nosso nascimento até muito depois de nossa morte. Cada atitude que tomamos, tudo que fazemos ou que fazem conosco está sob a fiscalização, a validade, a possibilidade de violação ou a necessidade do cumprimento de alguma lei.
Podemos ou não ser mortos antes do nosso nascimento dependendo do lugar e da situação em que somos concebidos porque existem leis que proíbem ou autorizam o aborto. Somos cuidados e amparados pela família e pelo Estado de acordo com as leis que os obrigam a isso e até a data que estas leis determinam. Estudamos em instituições públicas ou privadas que nos transmitem alguns conhecimentos que e da maneira que as leis permitem e determinam. Uma vez formados trabalhamos em empresas que nos pagam e exigem de nós o tempo e a dedicação ao trabalho de acordo com o que rezam as leis; ou, se abrimos ou administramos uma empresa, o fazemos, remuneramos e exigimos dos nossos funcionários de acordo com as determinações legais. E quando morremos a transmissão dos nossos bens, o que é feito dos nossos corpos, nossos registros de óbito e até o tempo para e de sepultamento são determinados de acordo com as leis.
E as leis são escritas, lidas e interpretadas; são relacionadas e comparadas com e são complementadas por outras leis em situações e de formas diversas. E são manipuladas, desvirtuadas, distorcidas e mutiladas de acordo com o que sua redação e sua leitura permitem. Leis podem ajudar a promover e consolidar a justiça ou a injustiça de acordo com a adequação ou inadequação à situação em que se aplicam; correção ou incorreção do seu texto; clareza ou ambigüidade de seus alvos e objetivos e uniformidade ou variedade de sua interpretação.
Em cada uma de nossas atitudes individuais ou coletivas estamos obedecendo ou transgredindo uma ou várias leis, por essa razão importa a nós sempre e qualquer que seja nossa atividade, nossa idade, grau de instrução ou nível de conhecimento saber a forma como essas leis são discutidas, redigidas e postas em vigor e as punições determinadas no caso da transgressão dessas leis. A existência e eficácia desse conhecimento será sempre diretamente proporcional ao conhecimento que temos da língua. Ou seja, quanto maior for o conhecimento da língua em que são redigidas as leis, maior será nossa possibilidade de compreensão do teor e da aplicação dessas leis e, conseqüentemente, das implicações que essas leis terão sobre nossa vida pessoal ou profissional.
Isso é verdade independentemente de sermos os idealizadores, legisladores e responsáveis pela elaboração e redação das leis; os policiais, juízes e promotores responsáveis pelo seu cumprimento ou os cidadãos obrigados a agir de acordo com essas leis. Qualquer que seja nossa atividade e posição, qualquer que seja nosso grau de envolvimento, o fato é que estamos sempre e a todo momento envolvidos com as leis e precisamos, em benefício até da nossa sobrevivência ou da sobrevivência de nossos valores saber ler, compreender, conhecer e interpretar leis.
Se para nada mais servisse o conhecimento da língua e de sua estrutura, bastaria essa realidade para fazer com que todos necessitassem estudá-la e conhecê-la. O senador, deputado ou vereador para melhor idealizar, elaborar e redigir as leis; o presidente, governador ou prefeito para melhor compreendê-las antes de colocá-las em vigor; o policial, o juiz e o promotor para melhor aplicá-las e o advogado para melhor relacioná-las com a realidade do seu cliente.
E para saber de que forma elas interferem em suas vidas e evitar que elas os prejudiquem ou prejudiquem suas atividades e até para que não venham a cometer transgressões que os tornem criminosos em maior ou menor grau; isso, claro, se não quiserem sofrer as penalidades dessas leis, precisam conhecer mais e melhor sua língua o empregado de uma empresa, qualquer que seja sua atividade e qualquer que seja a atividade da empresa, o desempregado que foi demitido sem ou com justa causa, o empresário, o prestador de serviço, o profissional da saúde, o educador, o pai, a mãe, o marido, a esposa, o filho, o morador, o proprietário, o locador, o locatário, o comprador, o vendedor, o cliente, o reclamante, o pedestre, o motorista, o passageiro, o turista, o cidadão, o contribuinte, o estudante, o adolescente, o paciente, o ouvinte, o expectador, o consumidor, o profissional liberal, o aposentado, o deficiente físico, o segurado, o acompanhante, a parturiente, o doador, o voluntário, o fiel, o crente, o religioso, o negro, o branco, o índio, o estrangeiro, a vítima, o suspeito, o detido, o viciado, o usuário de drogas, o doente, o padrasto, o filho natural, o companheiro, a concubina, o produtor, o posseiro, o importador, o exportador, o vestibulando, o candidato, o formando, o atleta, o participante, o torcedor, o treinador, o grevista, o assinante, o investidor, o artista, o inventor, o descobridor, o explorador, o piloto, o cobrador, o devedor, o cientista, o pacifista, o naturalista, o leitor, o escritor, o ator, o internauta, o haker, o programador, o usuário, o pirata, o pesquisador, o declarante, o procurador, o financiador, o avalista, o curador, o tutor, o responsável, o visitante, o profissional, o especialista, o homem, a mulher, a criança.
Se você não é e não será um representante de nenhuma dessas atividades ou situações em nenhum momento de sua vida então você pode dizer que o conhecimento da língua, de sua estrutura, variedades lingüísticas e possibilidades interpretativas é assunto que absolutamente não lhe diz respeito e que você não precisa e não vai precisar nunca desses conhecimentos. Caso contrário faça da gramática um instrumento de cidadania, um objeto de pesquisa, um aliado e um alicerce para as grandes realizações, descobertas e vitórias que o futuro trará para você.
Professora Divina de Jesus Scarpim