29 de novembro de 2006

UM LUGAR PARA A MITOLOGIA GRECO ROMANA NO SÉCULO XXI

Não, de início os deuses não desvendaram tudo aos mortais;
Mas, com o tempo, procurando, estes descobriram o melhor. – Xenófones

Dá-se o nome de Mitologia ao conjunto de mitos e lendas de um povo e também ao estudo desses mitos e lendas. A palavra Mitologia vem do grego mythos que significa fábula, e de logos, significando tratado. Porém não podemos confundir esse significado com o conceito atual de fábula uma vez que toda narrativa mítica, ao contrário da fábula, esconde em seu núcleo uma verdade. As narrativas mitológicas referem-se sempre à “criação”, contam como algo passou a existir, seja algo concreto como a terra e os rios; seja algo abstrato como um padrão de comportamento ou mesmo alguma atividade como plantar e colher.
Usando a razão e, a princípio também um pouco de mitologia, o homem foi encontrando respostas às questões que o intrigavam e criou a Filosofia, e conseqüentemente todas as demais ciências.
É claro que não seria verdadeiro afirmar que as ciências todas nasceram da filosofia sem que, antes delas houvesse qualquer espécie de conhecimento prático. Os egípcios conheciam muito de anatomia graças à mumificação, os comerciantes conheciam matemática pela necessidade de cálculos práticos que sua profissão exigia, os navegantes conheciam astronomia porque usavam as estrelas como meio de orientação. Porém, todos esses conhecimentos eram vinculados às necessidades do dia-a-dia ou à pratica religiosa. O desmembramento da filosofia em ciências independentes (mas não muito) foi o que realmente fez com que a matemática se tornasse mais do que a habilidade de calcular lucros e perdas, a astronomia mais do que faróis indicando o caminho e a anatomia mais do que um meio de permitir aos faraós que desfrutassem da vida eterna.
A Mitologia com suas histórias fantásticas e seus personagens fascinantes influenciou o homem desde a antiguidade grega até os dias atuais. Ao longo da história da humanidade, a Mitologia tem desempenhado um papel tão importante como fonte de inspiração que, em conseqüência, quanto mais a conhecemos, maiores serão as oportunidades que teremos de captar e desfrutar a mensagem que esse fenômeno cultural concreto que é a arte nos quer transmitir. Não se pode, por exemplo, captar toda a beleza de certas obras literárias sem a ajuda que o conhecimento da mitologia proporciona, o mesmo se pode dizer da escultura, da pintura, da arte em geral. Citações provenientes da mitologia adornam os textos e discursos de nossos oradores, escritores e políticos.
E a mitologia foi o ponto de partida de todos os conhecimentos. Mesmo que sua presença não seja um aspecto transcendental de todas as ciências, ainda assim, o fato de investigarmos e relacionarmos essas marcas pode resultar em um processo interessante que nos trará satisfação, método de trabalho, curiosidade científica e o aumento de nossa formação cultural. Muitas palavras e expressões de uso corrente, ou no campo semântico mais técnico, adquirem um sentido novo e sugestivo à luz do conhecimento mitológico que encerram.
Vejamos como exemplo lúdico o significado mitológico dos signos do zodíaco, cuja crença orienta muitos dos homens e mulheres que, ainda hoje, não saem de casa sem ler seu horóscopo.

Signos do zodíaco:

Áries – É o carneiro do velocino de ouro. Carneiro voador que foi ofertado por Zeus aos irmãos Frixo e Hele para salvá-los da perseguição da madrasta que pretendia sacrificá-los no altar do próprio Zeus. Durante a fuga, Hele caiu no mar, o lugar de sua queda ficou conhecido como Helesponto (Mar de Hele). Frixo conseguiu salvar-se, e hospedou-se no reino de Eetes, lá sacrificou o carneiro a Zeus e ofereceu sua pele (o velocino de ouro) ao rei que o acolhera. O velocino foi guardado por um dragão até que o Herói Jasão organizou uma expedição (os Argonautas) para roubá-lo.

Touro – Animal cuja forma Zeus tomou para raptar Europa. Ou, em outra versão, é Io, a amada que Zeus transformou em uma novilha para salvá-la da ira de Juno, sua esposa ciumenta.

Gêmeos – São os Gêmeos Castor e Pólux, filhos de Leda, argonautas e heróis da guerra de Tróia. Leda foi seduzida por Zeus sob a forma de um cisne. A seguir, ela pôs dois ovos, de um ovo nasceram Helena e Pólux, filhos de Zeus, e de outro Castor e Clitemnestra, filhos de Tíndaro, marido de Leda. Quando Castor morreu, Pólux recusou a imortalidade porque não queria viver sem o irmão. Zeus os transformou em constelação.

Câncer – Caranguejo que, a serviço de Juno, mordeu o pé de Hércules durante sua luta com a Hidra de Lerna (2º trabalho) Juno o transformou em constelação.

Leão – O leão da Neméia, derrotado por Hércules em seu primeiro trabalho.

Virgem – Erígone, que hospedou a Dionísio quando este veio à terra, teve com ele um filho, Estáfilo, que foi morto por pastores embriagados. Ela, quando soube da morte do filho, enforcou-se. Dionísio vingou-se de sua morte e, depois, transformou-a em constelação. Outra versão diz que é Astréia, antiga representação da Justiça que, decepcionada com os homens e suas maldades, resolve desistir deles e se transforma em constelação.

Libra – Símbolo de Astréia, a Justiça.

Escorpião – Órion era um caçador que tentou violentar Ártemis. A deusa fez brotar da terra um escorpião que o picou no calcanhar. Zeus transformou-os em constelação. Por isso, nos céus da Grécia, a constelação de Órion está eternamente fugindo da de escorpião.

Sagitário – Segundo uma versão é Croto, filho de Pã e irmão de leite das musas. Não era centauro, mas foi representado como tal devido a seu gosto por cavalgar. Segundo outra versão, é o centauro Quirão, que foi o professor de vários heróis, entre eles Jasão e Aquiles. Pacificou a luta entre os centauros e Hércules e foi morto por ele, por engano. O primeiro centauro foi Ixião, que depois de ser salvo e agraciado com a imortalidade por Zeus, foi ingrato e tentou seduzir Hera, tomou a nuvem por engano e daí nasceram os centauros. Foi condenado a vagar eternamente nos céus preso a uma roda de fogo.

Capricórnio – É Amaltéia, a cabra ou a ninfa que alimentou Zeus quando este nasceu. Outra versão diz ser Pã, que com um instrumento feito com uma concha de caracol provocou a fuga dos titãs, o primeiro pânico.

Aquário – É Ganimedes, o jovem que foi raptado por Zeus e tornou-se copeiro no Olimpo, encarregado de servir o néctar aos Deuses.

Peixes – Existem várias versões, esta é a mais bonita: são os dois delfins que encontraram Anfitrite em seu esconderijo nas profundezas do mar e a levaram em meio a um grande cortejo a Netuno, convencendo-a a casar-se com ele.


PS – O presente texto é uma pequena amostra do tema da monografia que foi apresentada como trabalho final no curso de pós-graduação concluído em setembro de 2002 por Divina de Jesus Scarpim

27 de novembro de 2006

DIZER NÃO

Antes de morrer Ana tinha vinte anos e um medo enorme de si mesma. Não podia dizer não. Aos quinze anos foi violada com sua autorização por um homem bem mais velho que se ofereceu para levá-la para casa em seu carro quando a encontrou na rua à noite, saindo da escola e indo para o ponto de ônibus, sozinha. No caminho parou diante de um motel e disse que deveriam entrar um pouco para conversarem e tomarem uma bebida, jurou que não passaria disso e que tudo o que fazia era porque estava emocionado com o brilho triste de seu olhar. Ela não acreditou e sabia que seria violada. Chegou em casa pela madrugada com dois tipos de dor, a mais profunda não se curou nunca.
Evitava sair de casa porque sabia que alguma coisa iria acontecer, e sempre acontecia. Não contava a ninguém que tudo que fazia era sem querer, nem a melhor amiga sabia que, depois de ir com um homem, jovem ou velho, solteiro ou casado, preto ou branco para um motel ou um terreno baldio, voltava para casa de ônibus, ou era deixada na rua de baixo pelo eventual amante, de carro ou de moto, entrava no quarto e trancava a porta, deitava-se na cama sentindo frustração, arrependimento, tristeza e um profundo nojo de si mesma.
No bar onde conheceu Júlio, todos os estudantes costumavam parar, esporadicamente para comprar chicletes e chocolates ou todas as noites depois das aulas para tomar cerveja e, entre risos e gargalhadas, falar mal dos professores. Às vezes até mesmo um ou outro professor mais liberal vinha ao bar e entrava na animada conversa dos alunos. Nesse dia aquele professor não fazia parte do assunto, ou até fazia, mas não com tanto veneno.
Julio entrou no bar para comprar cigarros e, porque viu Ana ficou. Ela sorria. E se tinha alguma coisa que sabia fazer era sorrir. Sorria para parecer o que não era, sorria para esconder o que não queria ser, sorria para não falar o que sua alma gritava, sorria para esconder de si mesma seus pensamentos, seus sentimentos, sua incapacidade.
Ana não percebeu Júlio e não sentiu medo, aquele bar era sua segurança, cercada de colegas de classe e eventualmente com um ou outro professor sentia-se protegida, não receberia propostas porque estava em turma, sairia com a turma e voltaria para casa sem o peso. Mas Júlio não conhecia essa dor e se aproximou num momento que conseguiu furar a conversa de grupo, conseguiu atravessar a barreira dos sorrisos comuns e dizer um chiste, brincar uma palavra, brilhar um olhar e, quando percebeu, Ana estava perdida. Mas ele não sabia e ela jamais lhe diria, como jamais diria a ninguém. Disse sim e saíram quarenta minutos depois. O carro de Júlio era novo, cheirava a fábrica ainda, Ana elogiou sem interesse, para dizer alguma coisa, perguntou sobre o trabalho, respondeu sobre a escola e se deitou sobre os lençóis do motel que já tinha conhecido mais de uma vez a sua humilhação.
Julio não desapareceu como devia, ficou na saída da escola, ficou na porta da casa e até entrou um dia e conversou sobre eletricidade, fio terra, positivo, negativo, curto circuito com o pai de Ana. Júlio trouxe presente no aniversário da mãe de Ana, deu um chocolate recheado bem grande para a irmãzinha de Ana e levou Ana para sua própria casa onde sorriu muito para mostrar que era seu lar e que sua mãe era uma cozinheira pouco criativa mas muito especial. Exibiu o som, os discos mais raros e os mais modernos, os livros de aventuras e o quarto arrumadinho, com tapete do lado da cama e uma parede onde ele dizia vê-la em suas noites de saudade. Ana sorria e dizia sim. Júlio estava apaixonado.
Começou a voltar para casa sem culpa, mesmo quando voltava do motel sentia-se bem, não tinha mais nojo de si mesma porque estivera com o namorado e isso não era pecado. Chegou a ter ilusão de que agora estava salva, livre para sempre da dor. Era uma mulher comum, tinha um namorado e saía com ele e só com ele. Júlio falou casamento e Ana disse sim. Viu uma prisão onde estaria livre das perguntas, dos convites. Uma mulher casada, respeitada, teria até filhos. Havia uma luz no caminho da sua vida, existia um futuro possível sem lágrimas escondidas no travesseiro, sem sorriso-muralha escondendo desespero.
Era feliz, mas precisou ir ao médico e ficou demasiado tempo na sala de espera. Lá estava um loiro alto que convidou. Disse sim e voltou pra casa sofrendo mais, chorou tanto que teve que inventar uma dor de cabeça. Depois pensou que talvez ninguém ficasse sabendo e então estaria bem, poderia continuar a ser feliz, mas sabia que não, não estava a salvo do pavor. Foi depois na loja onde aquele homem sorridente que estava comprando um velocípede para o filho a levou, tinha no porta-malas o mais infeliz velocípede do mundo e levou até perto de casa uma Ana com uma pedra de chumbo no peito. Quanto peso!
Queria terminar o namoro que não era salvação. Dizer que não podia casar porque sabia que não havia a prisão que pensou, ficou triste e sorriu mais, brincou e até levou uma saia florida de presente para a mãe de Júlio, sua inocente futura sogra que não sabia do menino que encontrou no ônibus e que a levou até uma escadaria de um edifício em construção, nem do carteiro que carregava na mala das cartas uma revistinha pornô e que conhecia um terreno baldio onde tinha um sofá ainda bastante confortável. Nem desconfiava do marido da mulher do fim da rua, que tinha um carro barulhento e de medo de ser descoberto só ia a motéis muito escondidos, em lugares que ela não conseguia encontrar depois, quando passeava de carro com Júlio.
Júlio quis marcar a data do casamento, a futura sogra preparou um jantar especial, os pais de Ana ouviram sorrindo quando Júlio propôs o dia e justificou a escolha fazendo as contas do feriado e dos dias a mais que podia pegar de férias para a viagem de lua-de-mel. Perguntou se ela concordava e Ana disse sim. Queria pedir socorro, queria sair correndo ou desaparecer num passe de mágica, então sorriu muito e até aceitou um copo bem cheio daquele vinho doce que subia logo e deixava o corpo tão leve que parecia flutuar.
Mais tarde, no motel, Júlio falou dos filhos, seriam três, duas meninas e um menino. O nome da menina poderia ser Débora, se ela concordasse, ou outro qualquer, desde que não seja nome de travesti, mas um dos meninos teria por força que se chamar Vítor, disso ele não abria mão. Sempre, sempre, desde quando estava na sexta série e viu o filho de sua professora de geografia que já tinha uns vinte anos e estava fazendo faculdade de arquitetura, que tinha o olhar decidido de quem sabe muito bem o caminho que vai seguir e está certo do sucesso, desejou que seu filho, quando tivesse um, também mostrasse essa força e desse a ele, pai, e à mulher que seria sua esposa o orgulho que via na voz molhada da professora de geografia. O nome do rapaz era Vítor e esse passou a ser o nome do seu filho. Era tão certo que era quase como se ele já existisse. Ana concordou quando perguntada. Sim, Vítor é um belo nome.
Ainda faltavam três anos para o Vítor nascer quando Ana precisou ir até o clube levar o cheque para pagar pela festa do casamento. Entrou e caminhou devagar até a secretaria do clube lembrando o dia, não muito tempo atrás, em que havia entrado por esse mesmo portão, seguido por esse mesmo caminho e chegado até essa mesma secretaria com um recorte de jornal na mão procurando um emprego. Será que a menina morena e baixinha da secretaria se lembraria dela?
No guichê havia um rapaz muito alto, negro e vestido com um moletom de ginasta, estava com uma carteirinha e um cheque na mão, provavelmente pagando a mensalidade do clube. Olhou para Ana e sorriu, ela respondeu o sorriso e baixou os olhos procurando na bolsa os papéis e o cheque, esperou ser atendida e fez o pagamento. Quando voltava pelo mesmo caminho viu que o rapaz a esperava sentado em um tronco de árvore caído, na beira da estradinha que ia da secretaria ao portão do clube, levantou-se quando ela estava mais perto e começou a conversar com a naturalidade das pessoas para as quais timidez é apenas uma palavra. Avisou que estava com o carro logo ali e podia levá-la até em casa. A casa era um motel recém inaugurado que tinha a novidade de ter o quarto todo forrado de espelhos, inclusive no teto, e uma carta de bebidas com drinks sem álcool e batizados com nomes maliciosos. Pediu um "sexo seguro" e fez com Ana um sexo de malabarista, embalado por uma alegria infantil e eterna. Saiu do motel contando histórias de família e de crianças que praticavam esporte como meio de se distanciar das drogas e do peso da vida nas ruas. Parou o carro onde Ana pediu que parasse e começou a ensaiar um convite para que se vissem novamente quando virou a cabeça para o lado porque ouviu uma batida no vidro da sua janela.
Ana viu o rosto transtornado de Júlio antes de ouvir o disparo e sentiu um golpe forte no peito antes de ver a cabeça do rapaz tombar sobre o volante e antes de ouvir o segundo disparo. Sentiu uma dor profunda no peito, mas estava tão habituada a senti-la que não percebeu que morria até que fosse tarde demais.
Divina de Jesus Scarpim

25 de novembro de 2006

ABANDONO

Queria te dar o meu planeta desabitado
E girar em tua órbita.
Chorar um oásis no abandono da tua vida,
ser serpente enroscada em teu presente
ser pedra lascada em teu passado.
Fechar os olhos devagar e ver o mundo na tua respiração.

Queria ser muda e chorar um filho para te sorrir
Cantar com harpas canções de ninar
Para teus problemas e tuas tristezas.
Como um rio lavar teu tédio
Encher de som teu silêncio de morte.
Queria não ser erro para corrigir tua vida.

Mas sou abandono,
Sou um até logo com som de adeus,
A que parte mesmo na chegada,
Por tuas lágrimas só posso te dar os olhares piedosos
Dos insetos que vagam sobre minha epiderme.

Sou a sujeira dos tempos do mundo.
Ao invés de te purificar,
Egoisticamente,
Lavo em tua limpidez minha lama negra.

Sou o suspiro cansado
Que busca a morte e grita a vida.
Quem pensa amar e não sabe ao menos quem é.

Deveria me purificar em ares remotos,
Viver mil vidas,
Vagar mil mundos
Para então ousar chegar perto do teu planeta.

Você foi o sol que não olhou a quem iluminar
E penetrou meu ser,
Minha alma estéril e infecunda lampeja como vaga-lume
Iluminada por você,
Mas jamais poderá deixar de rastejar
Entre esses tantos pontos de interrogação.


Vou destruir tua lua
E te apagar o calor.
Serei teu demônio negro
você não sentirá sequer o peso dos meus pés
Calçando plumas,
Pisando em você.

Chorei tantos mares,
E não soube lavar nem mesmo esse sorriso podre
Que se abre noite e morre de dor
Na alma de quem enganou sem querer.
Divina de Jesus Scarpim

24 de novembro de 2006

SOBRE A VELHICE

A velhice é uma realidade que não existe para a consciência do homem. O jovem a ignora porque está ocupado em viver a própria idade, o adulto a ignora graças ao medo que sua proximidade causa e o velho está procurando coisas saudáveis como a dança de salão, anestésicas como a religião ou prejudiciais como o álcool para não ter que pensar nela até perder a consciência de si próprio e da própria morte.
Os que convivem com um velho procuram mostrar-se capazes de abnegação, paciência e bondade para despertar a admiração dos outros e de si mesmos ou então ficam ocupados em se irritar com os transtornos que esse velho está causando na família. Não pensam na velhice, pensam naquele velho em particular para fugir da consciência do espelho de todas as velhices que uma velhice é.
Os meios de comunicação, principalmente as revistas femininas, quando abordam o tema trazem matérias sobre como se pode manter a saúde e o ânimo por mais tempo, dão exemplos de pessoas ou grupos que encontraram uma maneira de continuar vivos e alegres apesar da idade, dizem sempre e de todas as formas coloridas e otimistas que a velhice não é ruim se a pessoa não se deixar abater por ela. A grande maioria dos que não são ou não admitem o fato de serem velhos acredita ou se obriga a acreditar nisso, e acrescentam aos exemplos dados pelos meios de comunicação outros avôs e avós que viveram lúcidos e felizes até muito depois dos setenta, oitenta, e alguns chegam até a passar dos noventa anos de idade.
Essa crença cega naquele que diz que a vida é o que queremos que seja é muito parecida com a “cegueira” que costuma atingir muitos pais e mães que, por mais evidências com que deparem, se negam a acreditar que um filho seu está usando drogas, trilhando os caminhos do crime, ou é homossexual. É parecida também com a maneira seletiva com que se escolhe uma religião ou doutrina, como o espiritismo; acreditamos em tudo que está de acordo com o que desejamos acreditar.
O que acontece com o indivíduo acontece também com a sociedade.
Nos países pobres, como nas famílias que têm muitos filhos e baixa renda, as pessoas envelhecem mais cedo porque são mal nutridas e mal cuidadas, têm muito trabalho e pouca ou nenhuma assistência médica e os velhos são ignorados e deixados sem amparo porque o país já tem dificuldade para dar vida digna às crianças e aos jovens. Nos países ricos, como nas famílias que têm poucos filhos e alta renda, dão a eles todo o respeito e amparo possível e são felizes por serem bons e não permitir que seus velhos se sintam excluídos da sociedade da qual o excluem. O velho não trabalha e pode viajar e viver na companhia de outras pessoas, leia-se outros velhos, para não se sentirem solitários e infelizes. Além disso, eles têm todo tipo de assistência médica para que não sofram por causa das doenças que a velhice traz.
A convivência com a velhice, própria ou alheia, consiste em não se permitir pensar nela. Tudo é colocado pelo homem para possibilitar o esquecimento desse fato que em si e por si é muito pior do que a morte. Quando pensa na morte o homem encontra o descanso e o esquecimento caso não acredite na vida após a morte, o paraíso ou até mesmo o inferno que, por pior que seja, é algo que está reservado para o outro nunca para si mesmo. Pode pensar na reencarnação e no retorno à vida na terra, o que traz a esperança de uma outra vida melhor, na qual se será mais saudável, mais rico, mais bonito, mais inteligente, mais famoso, mais qualquer coisa que se queira ser e que nessa vida não foi possível, inclusive e principalmente mais bom e digno de receber o preço da bondade que é a felicidade completa e total, seja lá o que isso for.
A velhice não tem beleza, não tem poesia e não tem recompensa visível porque um velho não é bom nem ruim, é apenas um velho e seu futuro é apenas a morte. Uma das coisas boas de se estar vivo é poder fazer planos a longo prazo. O velho não pode fazer planos a longo prazo, ele não tem longo prazo. Não pode pensar no amanhã para corrigir os erros de hoje e não pode pensar no amanhã para se compensar dos sofrimentos de hoje. Não pode nem mesmo pensar em ver um ente querido, neto ou sobrinho, crescer e se tornar adulto espelhando nessa vida seus desejos de realização como os pais às vezes costumam fazer com os filhos. O velho não tem cura, sua doença é mortal e seu futuro não existe. Se pensar sobre isso o velho não resiste, por isso procura algo para fazer hoje, por isso toma antidepressivos e por isso se preocupa com a vida de seus familiares e de quem está perto dele até tornar-se inconveniente e incômodo.
E se a velhice é ruim para o ser humano, ela é pior ainda para a mulher. À mulher tudo é perdoado se tiver beleza física e todas as qualidades são escondidas se a beleza não estiver presente. E porque a beleza é relativa toda mulher é bela, é sua sina e sua obrigação, é seu castigo e seu êxtase. A beleza é parte da personalidade da mulher mais do que o instinto maternal e mais do que todos os sentimentos e pensamentos que podem habitar seu mundo. A beleza é a felicidade da mulher, inclusive da mulher que não dá valor à beleza, que se diz intelectualizada, que acha que o cérebro é mais valioso que a bunda ou os seios. Toda mulher é bela e toda beleza é feminina. Uma velha é uma mulher que perdeu a beleza. Uma velha é uma mulher que perdeu a essência de ser mulher. Uma velha não é. Não é mulher, não é feminina, não é pessoa. Um velho não perde sua condição de homem, uma velha perde sua condição de mulher. A velhice é uma sombra que paira sobre a mulher desde a primeira ruga, desde o primeiro fio de cabelo branco, desde a primeira vez que uma criança a trata de tia ou um jovem a chama se senhora. A mulher continua sorrindo depois dessa primeira e de muitas outras manifestações dessa sombra porque o sorriso é feminino e belo, continua frente ao espelho à procura da beleza que ainda resta mesmo quando toda a beleza que resta é aquela que sobreviveu apenas na sua imaginação. Quando desiste da beleza a mulher desiste da vida e deixa de ser mulher para se tornar algo nem vivo nem humano que caminha para o próprio túmulo.
(um dia esse texto será terminado. Ou não.)
Divina de Jesus Scarpim

22 de novembro de 2006

UM HOMEM PRETO

Ele é preto. Tem a pele uniformemente preta, o corpo esguio e os olhos tristes. Seu sorriso é brilhante, mostra os dentes claros como teclas de piano e a sonoridade cristalina das músicas da natureza, pena que esse sorriso seja raro.
Ele é lindo!
Sempre foi lindo, desde o dia em que nasceu, pequenino e forte, em uma casa humilde de um bairro humilde na periferia de uma cidade grande dominada pela força do dinheiro, da moeda fria que não julga. A cidade, com seu concreto e suas árvores magras, é habitada por homens que se julgam predestinados à superioridade pela cor da pele. E a pele deles é branca, não branca como a folha de papel onde cabe a poesia, mas branca como a mentira da omissão, que engana até mesmo olhos que não são daltônicos.
E pelo orgulho infundado, pela irracionalidade mal disfarçada, eles não podem ver a beleza dessa pele preta, não conseguem ouvir a sonoridade desse sorriso, e foram eles que plantaram a tristeza nesses olhos.
Desde muito pequeno ele ouviu dizer de si mesmo que é preto, que é feio, que é sujo. Desde muito pequeno ele foi muitas e muitas vezes convidado sem nenhuma gentileza a “se pôr no seu lugar”, e muito cedo o fizeram entender que seu lugar era sempre o de baixo.
Apostando uma corrida injusta ele vem de lá de trás, de onde traz a força que é minada pela injustiça, a inteligência que é abafada pela necessidade, a coragem que é suplantada pela opressão.
E é assim que ele vai crescendo e sendo lindo, de uma beleza envergonhada, que se desconhece, que não se vê no espelho porque não há olhos que a espelhem como real.
Um dia ele passa pela rua empurrando uma carriola de pedreiro, o peito sem camisa veste-se de suor e o hábito da humildade faz com que mantenha a cabeça baixa.
Quisera, ah, quanto quisera! que esse homem tivesse um filho preto e lindo como ele, e que esse filho pudesse ter o direito que roubaram do seu pai: o direito de ser desde sempre olhado, tratado, pensado, visto, como gente...
Divina de Jesus Scarpim

AS LEIS E A LÍNGUA

Leis regem nossa vida desde antes do nosso nascimento até muito depois de nossa morte. Cada atitude que tomamos, tudo que fazemos ou que fazem conosco está sob a fiscalização, a validade, a possibilidade de violação ou a necessidade do cumprimento de alguma lei.
Podemos ou não ser mortos antes do nosso nascimento dependendo do lugar e da situação em que somos concebidos porque existem leis que proíbem ou autorizam o aborto. Somos cuidados e amparados pela família e pelo Estado de acordo com as leis que os obrigam a isso e até a data que estas leis determinam. Estudamos em instituições públicas ou privadas que nos transmitem alguns conhecimentos que e da maneira que as leis permitem e determinam. Uma vez formados trabalhamos em empresas que nos pagam e exigem de nós o tempo e a dedicação ao trabalho de acordo com o que rezam as leis; ou, se abrimos ou administramos uma empresa, o fazemos, remuneramos e exigimos dos nossos funcionários de acordo com as determinações legais. E quando morremos a transmissão dos nossos bens, o que é feito dos nossos corpos, nossos registros de óbito e até o tempo para e de sepultamento são determinados de acordo com as leis.
E as leis são escritas, lidas e interpretadas; são relacionadas e comparadas com e são complementadas por outras leis em situações e de formas diversas. E são manipuladas, desvirtuadas, distorcidas e mutiladas de acordo com o que sua redação e sua leitura permitem. Leis podem ajudar a promover e consolidar a justiça ou a injustiça de acordo com a adequação ou inadequação à situação em que se aplicam; correção ou incorreção do seu texto; clareza ou ambigüidade de seus alvos e objetivos e uniformidade ou variedade de sua interpretação.
Em cada uma de nossas atitudes individuais ou coletivas estamos obedecendo ou transgredindo uma ou várias leis, por essa razão importa a nós sempre e qualquer que seja nossa atividade, nossa idade, grau de instrução ou nível de conhecimento saber a forma como essas leis são discutidas, redigidas e postas em vigor e as punições determinadas no caso da transgressão dessas leis. A existência e eficácia desse conhecimento será sempre diretamente proporcional ao conhecimento que temos da língua. Ou seja, quanto maior for o conhecimento da língua em que são redigidas as leis, maior será nossa possibilidade de compreensão do teor e da aplicação dessas leis e, conseqüentemente, das implicações que essas leis terão sobre nossa vida pessoal ou profissional.
Isso é verdade independentemente de sermos os idealizadores, legisladores e responsáveis pela elaboração e redação das leis; os policiais, juízes e promotores responsáveis pelo seu cumprimento ou os cidadãos obrigados a agir de acordo com essas leis. Qualquer que seja nossa atividade e posição, qualquer que seja nosso grau de envolvimento, o fato é que estamos sempre e a todo momento envolvidos com as leis e precisamos, em benefício até da nossa sobrevivência ou da sobrevivência de nossos valores saber ler, compreender, conhecer e interpretar leis.
Se para nada mais servisse o conhecimento da língua e de sua estrutura, bastaria essa realidade para fazer com que todos necessitassem estudá-la e conhecê-la. O senador, deputado ou vereador para melhor idealizar, elaborar e redigir as leis; o presidente, governador ou prefeito para melhor compreendê-las antes de colocá-las em vigor; o policial, o juiz e o promotor para melhor aplicá-las e o advogado para melhor relacioná-las com a realidade do seu cliente.
E para saber de que forma elas interferem em suas vidas e evitar que elas os prejudiquem ou prejudiquem suas atividades e até para que não venham a cometer transgressões que os tornem criminosos em maior ou menor grau; isso, claro, se não quiserem sofrer as penalidades dessas leis, precisam conhecer mais e melhor sua língua o empregado de uma empresa, qualquer que seja sua atividade e qualquer que seja a atividade da empresa, o desempregado que foi demitido sem ou com justa causa, o empresário, o prestador de serviço, o profissional da saúde, o educador, o pai, a mãe, o marido, a esposa, o filho, o morador, o proprietário, o locador, o locatário, o comprador, o vendedor, o cliente, o reclamante, o pedestre, o motorista, o passageiro, o turista, o cidadão, o contribuinte, o estudante, o adolescente, o paciente, o ouvinte, o expectador, o consumidor, o profissional liberal, o aposentado, o deficiente físico, o segurado, o acompanhante, a parturiente, o doador, o voluntário, o fiel, o crente, o religioso, o negro, o branco, o índio, o estrangeiro, a vítima, o suspeito, o detido, o viciado, o usuário de drogas, o doente, o padrasto, o filho natural, o companheiro, a concubina, o produtor, o posseiro, o importador, o exportador, o vestibulando, o candidato, o formando, o atleta, o participante, o torcedor, o treinador, o grevista, o assinante, o investidor, o artista, o inventor, o descobridor, o explorador, o piloto, o cobrador, o devedor, o cientista, o pacifista, o naturalista, o leitor, o escritor, o ator, o internauta, o haker, o programador, o usuário, o pirata, o pesquisador, o declarante, o procurador, o financiador, o avalista, o curador, o tutor, o responsável, o visitante, o profissional, o especialista, o homem, a mulher, a criança.
Se você não é e não será um representante de nenhuma dessas atividades ou situações em nenhum momento de sua vida então você pode dizer que o conhecimento da língua, de sua estrutura, variedades lingüísticas e possibilidades interpretativas é assunto que absolutamente não lhe diz respeito e que você não precisa e não vai precisar nunca desses conhecimentos. Caso contrário faça da gramática um instrumento de cidadania, um objeto de pesquisa, um aliado e um alicerce para as grandes realizações, descobertas e vitórias que o futuro trará para você.
Professora Divina de Jesus Scarpim

21 de novembro de 2006

CALÚNIA

O caso aconteceu quando estava nos dias de ter pressa de crescer. Sim porque férias escolares para ela se dividiam em três partes: os primeiros dias, quando acordava mais tarde, brincava mais tempo e todas as coleguinhas da rua estavam em casa e podiam brincar o dia inteirinho; os dias de ir com os pais para o interior, na casa da avó, quando revia os tios, brincava na roça, comia muita manga, melancia, curau de milho verde e pamonha; e os dias que ainda faltavam para começarem as aulas quando voltava da casa da avó. Dias que contava um a um achando que estavam demorando cada vez mais para acabar, para chegar o primeiro dia de aula. Que delícia que seria então! Conhecer os novos professores, novos colegas de classe, aprender as novas matérias e, quando visse os alunos que estariam na série que ela freqüentou no ano anterior, todos eles muito crianças em comparação a ela, descobriria assombrada que de repente tinha se tornado mais velha, maior do que o ano passado. Tinha experiência de férias, era a segunda vez e já estava na terceira parte delas. Pegou a moeda que ganhou do tio Mariano e foi até a casa onde morava o homem que fazia paçoquinha. Chegou na casa e empurrou o portão sem cuidado, como todo mundo que ia comprar paçoquinha fazia, chamou ô de casa porque não sabia o nome do homem e apareceram três crianças. Não os conhecia muito bem porque moravam há pouco tempo no bairro e não os tinha visto na escola. Havia um menino grande que já devia estar na quarta série, um outro pequeno que devia ser da primeira ainda e uma menina que parecia do mesmo tamanho dela. Os três disseram que o pai não estava, mas que ela entrasse que eles pegariam as paçoquinhas que ela queria. Entrou. Os três mostraram a ela aquele montão de paçoquinhas que estavam prontas e depois deixaram que ela também lambesse uma colher suja das paçoquinhas que ainda estavam sendo preparadas, brincaram um pouco e logo os meninos começaram a dizer algumas coisas que não entendia muito bem mas sabia que não eram coisas que eles falariam se os pais estivessem em casa, mas a outra menina ria então riu, e quando todos concordaram em brincar de papai e mamãe concordou também. Durante a brincadeira os três disseram que para dormir as mamães precisavam tirar a calcinha, tirou. O menino menor pegou correndo a calcinha e a escondeu. Pensou que se chegasse em casa e contasse para a mãe que tinha deixado um menino esconder sua calcinha e voltava sem ela porque não pôde encontrá-la a mãe daria nela uma surra de cinta e até poderia contar ao pai quando chegasse em casa do trabalho e ele lhe daria uma surra muito maior. Então toda a brincadeira deixou de ser brincadeira e começou a chorar e a pedir que lhe devolvessem sua calcinha. As três crianças riam dela e só lhe devolveram a calcinha quando ouviram os pais que vinham chegando. Estava escondida debaixo de uma frigideira muito grande que era usada para preparar as paçoquinhas. Saiu da casa ainda chorando e sem levar as paçoquinhas que havia comprado. Teve que se esconder numa moita antes de chegar em casa para vestir a calcinha e enxugar as lágrimas. Que a mãe não percebesse que tinha chorado. Jurou que nunca mais iria àquela casa nem por todas as paçoquinhas do mundo e que, quando começassem as aulas não seria amiga de nenhuma daquelas três crianças que sentiam prazer em torturar os outros.
O primeiro dia de aula chegou finalmente! No caminho da escola ouviu alguém gritar de trás de uma moita na beira da estrada cadê minha calcinha! Lembrou do dia que foi comprar paçoquinha e sentiu medo e raiva ao mesmo tempo, mas como não viu quem gritava pensou que fosse o moleque menor, planejou ameaçar bater nele se ele não parasse com essa brincadeira boba. Se sua mãe ouvisse, poderia apanhar. Na escola se assustou tanto que não soube bem o que fazer. Muitos meninos olhavam para ela e riam, faziam a brincadeira de um perguntar cadê a minha calcinha e outro responder tá debaixo da frigideira e depois os dois caírem na gargalhada. Por medo e vergonha, optou por fazer de conta que não sabia do que se tratava, não sabia o que eles queriam dizer com aquilo. Afirmou para as amigas que não estava entendendo nada e que não se importava nem um pouco com aquela brincadeira de palhaços que não têm o que fazer. A verdade é que estava se sentindo mal, muito mal. O primeiro dia de aula não teve o gosto bom que esperou.
No dia seguinte uma menina cujo irmão ficara rindo dela contou que a brincadeira era porque ela foi na casa do vendedor de paçoquinha e “fez besteira” com os dois filhos dele, que eles até esconderam a calcinha dela debaixo da frigideira e que ela tinha chorado e pedido que devolvessem a calcinha pra ela. Como no dia anterior tinha dito que não sabia de nada, sentiu que não podia voltar atrás e afirmou que era mentira, que não tinha acontecido nada daquilo e que nunca tinha nem brincado com aqueles meninos. Foi bastante firme na negação, tanto que algumas meninas acreditaram nela e tomando suas dores passaram a defendê-la sempre que possível. Mas não foi tão convincente a ponto de conseguir que os meninos parassem com a brincadeira de mau gosto e a coisa toda chegou até sua casa. Sua mãe soube, seu pai soube e vieram perguntar a ela o que aconteceu. Aí então é que foi convincente de verdade! Impulsionada pelo medo de apanhar negou tudo, chorou com a verdade que havia em toda a humilhação pela qual estava passando dia após dia desde que começaram as aulas. As lágrimas convenceram e enfureceram seu pai que saiu de casa e foi até a casa dos meninos para pedir que parassem com a brincadeira. A mãe ficou assustada, temerosa de que o pai, levado pela raiva, fizesse alguma loucura mas o viu voltar ainda mais raivoso e humilhado. Disse que os meninos confirmaram tudo e que os pais dos meninos deram apoio aos filhos e disseram que a filha dele é que devia ser repreendida por andar “fazendo besteira” com os moleques.
Não pôde fazer nada para se defender além de continuar negando e negando sempre e mostrar de todas as formas possíveis, que não eram muitas, o desprezo e a raiva que tinha daqueles meninos que a humilhavam tanto. Pôde fazê-lo no dia que jogou uma pedra em um grupo que fazia as brincadeiras de sempre contra ela. Acertou as costas de um deles. O menino saiu muito machucado, foi levado ao médico e teve que levar ponto no ferimento. A mãe foi até a casa dela disposta a brigar em troca da agressão. Quando contou que atirara a pedra porque ele estava, junto com outros meninos, falando mal dela a mãe, uma mulher cuja lembrança guardaria com carinho o resto da vida, virou para o filho e disse raivosa. Então é isso? E você me faz vir até aqui seu desgraçado! Se eu soubesse teria te esfregado o machucado com pimenta. Deu vários tabefes no filho, desculpou-se com ela e sua mãe e aquele menino nunca mais participou das humilhações que faziam a ela.
Outra vez aconteceu na sala de aula na quarta série. Todos tinham medo da professora, ouviam contar que ela batia com a régua e puxava a orelha com tanta força que chegava a cortar e sangrar e ficava vermelha durante vários dias. Era começo de ano e ninguém tinha visto nenhum daqueles horrores. Procurava ser ainda mais comportada do que o normal para não correr o risco de ter as orelhas arrancadas. Nem se espantou quando um menino novo na escola, mas que tinha aderido com muito entusiasmo ao passatempo de humilhá-la, virou-se na carteira e falou baixinho cadê minha calcinha. A professora perguntou o que ele estava dizendo e ouviu a história que todos contavam e que o menino repetiu sorrindo meio nervoso, ela olhou pra fora da sala para esconder as lágrimas. Iria se lembrar durante toda a vida o som do soco forte que a professora deu na mesa e iria lembrar para todo o sempre com respeito e muito carinho a expressão da professora quando olhou para o menino e falou com os lábios contraídos, os olhos bem abertos e uma força na voz que não admitia discussão dentro da minha sala de aula eu não admito esse tipo de brincadeira idiota e de mau gosto, e continuou falando muito e fez com que o menino pedisse desculpas e o jeito e as coisas todas que ela falou fizeram com que a classe inteira sentisse vontade de pedir desculpas e fizeram com que chorasse ainda mais nem de tristeza nem de alegria mas de amor por essa professora, que sentiu como uma mulher forte e humana, como ela queria muito ser um dia.
O menino continuou fazendo a brincadeira do cadê minha calcinha no caminho da escola e em qualquer lugar onde a encontrava mas nunca dentro da sala de aula e alguns dos que estudavam na mesma sala mudaram o comportamento para com ela e não participavam mais das brincadeiras nem fora da sala de aula. Aos poucos, muito aos poucos, foi diminuindo e quando chegou na quinta série já não eram tantos os gritos de cadê a minha calcinha que ouvia no caminho da escola. Mas sabia quais eram os donos dos gritos e os donos dos risos e por isso quando a professora de educação física começou a organizar os pares para a quadrilha e a colocou com um menino cujo riso ela conhecia muito bem afirmou com ele eu não danço. A professora tentou impor sua vontade pelo medo; ameaçou, ordenou, afirmou que era por causa da altura e que teria que dançar com ele de qualquer jeito. O menino ficou calado e seu rosto ficou muito vermelho, só era corajoso em grupo. Não voltou atrás sob nenhum tipo de ameaça. Recusou-se a ficar perto do menino, cruzou os braços e a tudo que a professora falava ela apenas respondia que com aquele menino ela não dançaria.
A professora então não pôde encontrar outra solução senão procurar em outra sala um menino da altura certa e pedir-lhe que dançasse com ela. Não o conhecia mas dançou com ele e fez dele um de seus amigos mais queridos até o final da oitava série.
Durante vários anos suportou a humilhação de ser, aos nove anos de idade, tratada como uma prostituta. Quando encontrou na rua o pai de uma amiga cuja casa freqüentava ele falou com ela de forma muito simpática e ela ficou feliz por ser tratada com tanta deferência pelo homem que sempre parecera tão bravo e sério. Mas de repente ele começou a falar dos seus peitinhos que já estavam apontando e disse que como tinha feito besteira com outro menino, ela devia experimentar fazer com um homem de verdade, veria que era bem mais gostoso. Ficou muda e saiu andando sem olhar direito pra onde, voltou pra casa muito triste mas continuou a freqüentar a casa da amiga, apenas nunca mais se deixou pegar a sós pelo pai dela, e nunca contou a ninguém o que aconteceu no meio da rua. Uma menina muito bonitinha e delicada que estava brincando com ela teve que correr para casa quando a mãe gritou filha, vem já pra casa. Você sabe que teu pai não quer que você brinque com certas crianças. Sua mãe ouviu e sentiu uma mágoa que não se apagou nunca e ela nem se importou muito, não sabia que a mãe ouviu, já estava acostumada com aquilo, apenas ficou sozinha no campinho onde brincavam, deitou-se na grama e ficou olhando o céu. As nuvens passavam tão altas! acima das nuvens tinha tanto e tanto céu que ela se sentiu pequena e viu que a mãe da menina tinha razão, ela era muito pequena, muito pequena mesmo e não tinha nenhuma importância. Mas as outras pessoas, todas, diante daquele céu imenso eram pequenas também. O pai de sua amiga que a magoou e a mãe da menina frágil também eram pequenos, muito pequenos.
Divina de Jesus Scarpim

20 de novembro de 2006

A MENINA DE LÁ

O conto é todo doçura, todo afetividade. A primeira coisa a chamar a atenção é que o título “A menina de lá” coloca o acontecimento longe mas, já na primeira linha, o nome do lugar aproxima do narrador, como vai depois aproximar do leitor essa menina: Serra do Mim, esse mim, pronome, liga o acontecimento ao narrador, mas onde o narrador? Liga só pela ternura?
O apelido da menina a descreve. Nhinhinha, é mais que pequena, é aquele pequeno-grande no afeto, o pequeno-grande de importância; e vê-se a menina, pequena, miúda, quieta e agigantada no seu Dom de ser especial.
Seu comportamento marca, suas histórias tocam e principalmente nos toca a profundidade da última; “ou da precisão de se fazer lista da coisas todas que no dia por dia a gente vem perdendo. Só a pura vida.”
Nhinhinha, a menina tão quieta, a menina que “fazia vácuos”, que podia docemente ralhar com o pai, com a mãe, e que não era repreendida porque era suasibilíssima, ( de suasório = persuasivo (?) de suave, que é o que a palavra sugere?) inábil como uma flor. Só ao final desse parágrafo o narrador se personaliza, e o faz com a mesma palavra, a palavra que nomeia o lugar onde, ou atrás de onde, ficava a casa da menina: “E Nhinhinha gostava de mim.” E o conversar do narrador com a menina é o que ela dizia, e “no escorregar do tempo” o narrador é primeira pessoa, é mais perto de Nhinhinha, ele a toca, ele é tocado pela afetividade dela, mas é breve, breve o toque como breve o tempo da vida da criança, como pequena a própria criança. E o mim “Nunca mais vi Nhinhinha.”
Fica sabendo que a menina começou a fazer milagres e se some novamente na terceira pessoa, sem dar ao leitor nenhuma certeza de quem era, de que ligação tinha com a menina e com sua família; era um irmão? Era um conhecido que vez ou outra visitava a família? Ou é o Mim, o lugar atrás de onde Nhinhinha vivia, o criador e possuidor principal da doçura desse anjo? Ou ele é simplesmente mais um que, como eu e como cada leitor, foi breve e profundamente tocado pela criança pequena e frágil de doçura?
A morte de Nhinhinha é descrita de forma tão rápida que surpreende embora previsível: “E, vai, Nhinhinha adoeceu e morreu.” e parece que na última frase, ele explica um tanto dessa morte tão repentina: “Todos os vivos atos se passam longe demais.”, e por se passarem longe, quando chegam é como notícia, e a notícia é breve, não entra em detalhes, não dá o dia-a-dia de uma dor com culminância em morte.
E a dor que vem depois justifica mais essa rapidez, e a morte é repentina e a dor é “um de-repente enorme” como definir de outra forma esse travar de forças?
E o caixãozinho que ela queria era cor-de-rosa com verde funebrilhos, teria porque o quis e tudo ela tinha como queria porque era Santa Nhinhinha, a santa a quem o leitor, terminada a leitura do conto, dedica um minuto de silêncio contrito e um pensamento que não se torna palavra mas que, se pudesse fazê-lo, seria outro conto de amor.
Divina de Jesus Scarpim
PS: Esse texto trata do conto "A menina de lá" de João Guimarães Rosa - em Primeiras Histórias

19 de novembro de 2006

DOMINGO

Pela abertura da janela entrou
um raio de luz que se deitou confortavelmente no tapete da sala.
Acomodou-se quieto,
instalou uma paz silenciosa e alegre a seu lado
e adormeceu.
Todos andam pela casa, silenciosos,
calmos e guardando no fundo da alma uma alegria
tão discreta que a confundimos com uma profundíssima melancolia.
O raio de luz adormecido sobre o tapete sonha com fadas,
gnomos, duendes e seres vindos do mundo das fantasias.
Seres que andam pela casa e a pesquisam
e olham curiosos para as pessoas,
que suspiram profundamente sem poder vê-los.
Não sabem que esse suspiro é de pura lamentação.
Sua alma secreta chora uma lágrima doce
por não serem capazes de ver figuras tão belas.
O raio de luz tem um suave ressonar de descanso e beleza,
a beleza mágica de não saber que é belo.
E pequenas,
minúsculas e quase invisíveis fadinhas coloridas e brilhantes
aproveitam esse ressonar
para bailar alegres pelo raio de luz adormecido.
Passam lentas todas as horas do dia
e carregam com força,
com maldade e para sempre
o sol.
Enquanto o sol,
sob protestos e gritos imensos de agonia,
tão agudos,
tão altos que perturbam levemente o sono do raio de luz
que muda de lugar no tapete,
é arrastado,
a alma das pessoas é tomada sem que elas saibam porque
de uma verdadeira melancolia
prima ou irmã da morte.
E o sol é arrastado para a prisão do esquecimento eterno
no momento em que o raio de luz acorda,
abandona correndo a sala,
a casa, a vida das pessoas,
levando nos sonhos as imagens fantásticas
e deixando mortas e tristes as microscópicas fadazinhas.
As pessoas então se esquecem de que tanta coisa aconteceu
porque não viram nada.
Só o tapete da sala conserva com respeito e adoração
um tênue calor deixado pelo raio de luz
e um invisível desbotado em sua cor,
que é a tristeza de perder aquele anjo mágico
que sobre ele adormeceu.
Divina de Jesus Scarpim

18 de novembro de 2006

EDUCAR E AMAR, VERBOS DE PRIMEIRA CONJUGAÇÃO

Os verbos educar e amar têm muito em comum. No livro de gramática, porque ambos têm a terminação ar, são denominados verbos de primeira conjugação. Na nossa sociedade, são ações de primeira necessidade, portanto: primeira conjugação. E são complementares: impossível educar sem amar, impossível amar sem educar, ou, sem ensinar, mesmo que seja apenas (apenas?) ensinar a amar.
E são regulares: na gramática porque seguem o paradigma da primeira conjugação, na sociedade porque são ações que devem ser praticadas regularmente, todos os dias e toda a vida. Quando amamos educamos, aprendemos, crescemos... Quando educamos de verdade, amamos e nos amamos. Quem não ama não educa e não é educado (nos dois sentidos). Quem não educa não ama, não se ama, não cresce, não aprende...
Os sujeitos desses verbos somos todos nós, nós adultos, nós professores, nós pais, nós cidadãos, nós seres humanos, nós homens, nós mulheres e nós crianças — sim, nós crianças! — porque crianças educam outras crianças e a criança que existe dentro de cada um de nós é uma grande educadora.
Esses dois verbos também são reflexivos: Quem ama e educa se ama e se educa, é amado e aprende, porque quem é amado ama e quem educa aprende. E quanto mais ama mais é amado, quanto mais educa mais é educado.
A escola é, portanto — tem que ser — um templo de amor. Cada casa, cada lar, cada família deve também ser um templo de amor e cabe a cada pessoa fazer de si um educador e um educando porque essa é a única forma de cada pessoa fazer de si mesma um mundo melhor. E torcer para que seja contagioso.
Divina de Jesus Scarpim

17 de novembro de 2006

AMIGO

A barriga cresce e com ela o desprezo dos olhares. Uma moça grávida e solteira não merece mesmo consideração. Que uma barriga tem sentimentos e sabe chorar ninguém sabe, ninguém vê, ninguém percebe, ninguém pensa.
Mas foi para amenizar as dores incuráveis que Deus criou a amizade. E a amizade tem forma de apoio, de conversas alegres, de passeios e de laranjas geladas. A amizade brinca de confeitar bolo, canta cantigas ao som do violão, ensina pontos de crochê e tricô. A amizade vai a uma festa, faz uma festa. A amizade vai a uma boate gay onde a barriga sorri feliz de se ver toda cercada de atenção. Ah tanto bem faz tão bem!
E um dia a barriga vai ao hospital, e quando volta é só um sorriso de esperança com um pacotinho azul no colo. E esperando pelo sorriso, com o sorriso amigo e o abraço fraterno, está a amizade, e traz uma surpresa feita às escondidas com linha suave e pontos caprichados. É um casaquinho com capuz, é também um par de botinhas enfeitado com fitinha brilhante. É um presente tão lindo que vai ficar nas fotos, eternizado na lembrança da infância que começou...
Aquele amigo está morto, sobraram as lembranças, sobrou a saudade e sobraram as fotos de uma criança com casaquinho de capuz e botinhas com fitinha brilhante...
Divina de Jesus Scarpim

MENDIGOS

Dobrou a esquina e foi caminhando devagar, falava sozinho com voz meio rouca e cuspindo saliva junto com palavras soltas e sem sentido. Gesticulava com as mãos e com a cabeça como se diante de si tivesse uma multidão atenta a observá-lo e a beber suas palavras.
Chegou ao ponto de ônibus e se encostou no poste desprezando a fila, esperaria por aquele motorista que ele sabia, o deixaria entrar e o levaria sem cobrar nada para onde quer que ele desejasse ir, enquanto esperava continuou seu discurso sem dar atenção às pessoas que passavam apressadas e nem lhe dirigiam um olhar, salvo uma ou outra criança que virava a cabeça para ver por um momento aquele mendigo cujo aspecto, mais que pena, dava nojo.
Seu único olho vivo olhava para a platéia imaginária, enquanto o outro, vazado, estava morto e dele escorria uma água amarelada. O paletó preto com uma manga só, rasgada mas no lugar, balançava seus pedaços quase soltos ao vento. Os pés grotescos descansavam um sobre o outro e um dos joelhos, visível pelo enorme buraco rasgado na calça exibia uma ferida vermelha e suja como tudo o resto.
As pessoas que na fila aguardavam o ônibus estavam visivelmente incomodadas por aquela estranha companhia e por aquele cheiro horrível que o vento favorável trazia.
Finalmente o ônibus chegou e ele foi o último a entrar, sentou em um dos últimos bancos e o discurso continuou. Do seu lado, como era de se esperar, ninguém se atreveria a sentar, por mais que o ônibus enchesse.
Quatro paradas depois subiu uma mulher e sentou-se ao lado dele. Usava uma saia xadrez de cores indefinidas pela sujeira, tinha os cabelos emaranhados e um dos ombros era bem visível pelo enorme rasgão na blusa escura tão ou mais suja do que a saia. Na boca, que exibia um sorriso constante pelo qual se identificava facilmente uma deficiência mental, mostrava apenas dois caninos amarelos e quebrados.
Sem nenhuma apresentação prévia os dois, que eram iguais também pelas folhas de jornais amassados que traziam debaixo do braço, começaram a conversar, falavam como duas crianças coisas sem nexo e quase ininteligíveis.
Quando ele se levantou para descer do ônibus convidou-a com um “vamo” e os dois juntos ganharam a rua deixando um suspiro de alívio geral dentro do ônibus.
Caminharam dois quarteirões e sentaram-se sob um viaduto ainda em construção onde por longo tempo continuaram sua conversa. Já anoitecia quando ele se levantou e de um saco de papel engordurado que já estava lá tirou um pedaço de pão duro, repartiu-o em dois e comeram gulosamente.
Conversando animados e sorridentes estenderam os jornais na terra e se deitaram um ao lado do outro. O ato de se deitarem coincidiu com o silêncio e ele, com a cabeça apoiada nas mãos, ficou longo tempo olhando com seu único olho sadio o concreto que se estendia sobre eles, ouvia a respiração dela, que também estava imóvel deitada a seu lado.
De repente, ele se lembrou de um fato ao qual não tinha dado nenhuma importância: ela era uma mulher! E fazia tanto tempo... Sua mente começou a agitar seu corpo. por que não? é uma mulher, e tem, e pode, e está aqui...por que não? Então ele se virou devagar e pousou a mão na perna dela, ela tremeu mas não se moveu, ele levantou sua saia e levou um enorme susto.
Lá estava uma ferida, um amontoado de carne disforme, ela tinha sido cortada, ou queimada, a sujeira cobria uma pele que tinha sido criada para cobrir o que restou de toda a carne e pêlos que, ele não sabia como, tinham sido arrancados dali.
O susto o deixou imóvel, ela se cobriu e começou a acariciá-lo como a pedir desculpas, a carícia o foi levando devagar ao mundo que procurara no corpo dela e então ele teve o prazer que há tanto tempo não tinha. Fechou os olhos e esperou que sua alma voltasse ao corpo devagar. Ajeitou a roupa e buscou a cabeça dela que num gesto de carinho repousou no peito. Dormiram.
No dia seguinte, quando abriu os olhos ela já estava de pé e recolhia a última folha de jornal, sentou-se, esfregou os olhos com as costas da mão e olhou-a. Ela sorriu seu sorriso debilóide novamente e lhe falou com palavras que enrolava na língua antes de atirar fora da boca banguela: Ninguém tenta mais... foi meu marido...Ele abriu os braços como quem despreza explicações.
Ela sai lentamente com o jornal embaixo do braço e ele se deita novamente para olhar por mais um pouco de tempo o concreto do viaduto.
Divina de Jesus Scarpim

16 de novembro de 2006

A CARTA PRAS ICAMIABAS

NO MEIO DO CAMINHO

No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra
(Carlos Drummond de Andrade)

Um livro é um caminho que seguimos e ao longo do qual vamos colhendo riquezas. Uma pérola aqui, uma pequena jóia mais adiante, depois um rico diamante. E até onde nos leva essa estrada? Até nós mesmos. Ao fim do caminho nos encontramos mais ricos e valemos mais a nossos próprios olhos. O livro é um caminho ao qual se quer voltar em alguns casos muitas vezes, porque a cada vez ele enriquece mais, os tesouros encontrados vão se acrescentando e vão ficando mais e mais valiosos.
Como uma Doroty, por uma estrada dos tijolos amarelos, calçando meus sapatos de rubi, pela terceira vez, fui caminhando pela estrada Macunaíma, colhendo jóias. Encontrei tesouros novos e antigos. Isso sempre acontece com um bom livro.
No capítulo I, colhi essa pequena pérola de descrição: “A água parara para inventar um ponteio de gozo nas folhas do javari. O longe estava bonito...”. Guardei-a cuidadosamente no bolso e segui, me sentindo mais leve e feliz porque essa pérola brilhava em meio a um texto gostoso e cheio de palavras casadas com arte e humor, eu estava gostando muito do passeio.
Mais adiante, no capítulo III, colhi essa jóia de humor e sensualidade: “Então pra animá-lo Ci empregava o estratagema sublime. Buscava no mato a folhagem do fogo da urtiga e sapecava com ela uma coça coçadeira no chuí do herói e na nalachítchi dela. Isso Macunaíma ficava que ficava um lião querendo. Ci também. E os dois brincavam que mais brincavam num deboche de ardor prodigioso.”. Parei um pouco, rindo de puro gosto antes de seguir, mais feliz ainda, pelo caminho que me fazia bem.
Logo em seguida, no capítulo IV, encontrei essa jóia valiosa: “Quando foi ali pela hora antes da madrugada a boiúna Capei chegou no céu. Estava gorducha de tanto fio comido e muito pálida do esforço. Todo o suor dela caia sobre a terra em gotinhas de orvalho novo. Por causa do fio geado é que Capei é tão fria. Dantes Capei foi a boiúna mas agora é a cabeça da Lua lá no campo vasto do céu. Desde essa feita as caranguejeiras preferem fazer fio de-noite.”. Com a jóia nas mãos, os olhos passeando por ela e colhendo seu brilho e suas várias cintilações, parei longo tempo, respirei fundo esse ar de delícia que só a descoberta de um bem precioso é capaz de nos infundir, guardei com todo carinho o valioso tesouro e segui, quase flutuando de tão leve e feliz, pela minha estrada dos tijolos amarelos. Amarelo-ouro.

“No meio do caminho tinha uma pedra”.

Mas um caminho não será tão rico e tão compensador se ao longo dele o caminhante não se deparar com coisas que o surpreendam, que lhe causem o estranhamento de que nos fala chklóviski.
E o que faz o caminhante quando, no meio da jornada, se depara com uma pedra, uma grande pedra, impossível de não ser vista, uma pedra que obriga uma parada para maiores análises?
O caminhante pode afastar a pedra como obstáculo à sua passagem e, só depois, seguir em frente. Esse com certeza não está em condições de avaliar com justiça nem a pedra, nem o caminho que percorre. Assim fazem leitores como Tristão de Ataíde: “O livro lhe parece “longo demais”. Acha-o “cacete muitas vezes, como na imensa carta, em estilo médico-purista, que o nosso herói escreve às suas súditas”.
Outros podem parar, olhar para a pedra, apreciá-la e, depois, seguir em frente sentindo que a parada foi um intervalo da caminhada, um merecido repouso, agradável e útil para reconstituir as forças, em meio à uma caminhada não árdua, porém instigante e curiosa. Assim parece ter sentido Haroldo de Campos pois, de acordo com Gilda Mello e Souza, Haroldo de Campos, em seu “Morfologia de Macunaíma”, entre outras coisas: “não levou em conta o fato da seqüência de Vei constituir, juntamente com a carta às Icamiabas, o centro do livro, estando portanto colocada na posição estratégica que, segundo Jakobson, marca em geral o clímax da ação; (...) não percebeu — como aliás grande parte dos amigos e contemporâneos do escritor — que a carta às Icamiabas desempenhava uma função importante na estrutura da obra; por isso tomou-a como um capítulo autônomo e ornamental, como pura exibição de virtuosismo lingüístico,”.
Haverá ainda aquele caminhante que, ao topar com a pedra nela tropeçará, baterá o dedão do pé e, com as estrelas da dor brilhando no espírito, encarará a pedra como um transtorno, algo desagradável em um caminho que deveria ser aprazível e livre de obstáculos. Este, mal olhará para a pedra. E quando olhá-la o fará com rancor e desejará removê-la. Dessa forma se sentiu talvez Manuel Bandeira que, de acordo com o próprio criador do “caminho Macuaníma”, não gostava da pedra: “No resto os argumento de você são de ordem puramente sentimental e não de ordem crítica e são inaceitáveis. Não gosto porque não, porque é pretensioso, porque me aporrinha são argumentos sem valor intelectual.”
E, finalmente, haverá aquele que, em função talvez da pedra, ou até sem influência dela, simplesmente encontra-se sem condições de avaliar o caminho e dele se desagrada como um todo. Para esse a caminhada será árdua e improdutiva, nada poderá ver que alguma atração lhe cause. Talvez nem conclua a caminhada e, se o fizer, chegará ao final apenas com um enorme sentimento de alívio e um imenso desejo de cobrar, por meio de críticas impiedosas, do criador de tal caminho, a dura travessia à qual foi obrigado. Assim sentiu com certeza João Ribeiro: “Se o Macunaíma fosse um livro de estréia, o autor nos causaria pena, como a de um próximo hóspede do manicômio”.
Mas, além de todos esse viajores, pode haver aquele para quem a pedra é uma pedra preciosa, merece mais do que ser guardada no bolso, merece ser olhada com carinho pois suas cintilações é que fazem o brilho de toda a caminhada. Assim senti eu e assim sentiram certamente muitos dos que enveredaram pelos caminhos de Macunaíma. Não fosse isso não teríamos tantos estudos a respeito dessa pedra que é o capítulo IX . A Carta pras Icamiabas.
Nessa pedra eu me sentei para pensar e é sobre ela que pretendo fazer meu discurso iletrado, meu discurso de leitora-caminhante sem brilho.
De cima da carta-pedra, iluminada e com o espírito colorido pelo seu brilho, segui o caminho Macunaíma, colhendo tesouros, sorrindo delícias que me faziam avançar a medo, não querendo mais nunca acabar de caminhar.
Encontrei uma personagem de outro livro gostoso de meu tempo de colégio e, depois, de faculdade. Ela estava lá, inteira, na passagem trazendo a saudade da outra leitura, a vontade de voltar: “Nem bem saiu da pensão topou com uma cunhã clara, loiríssima, filhinha-da-mandioca bem, toda de branco e o chapéu de tucumã vermelho coberto de margaridinhas. Chamava-se Fräulein e sempre carecia de proteção.” .
Encontrei mais adiante essa bonita e divertida história que começa assim: “No tempo de dantes, moços, o automóvel não era uma máquina que nem hoje não, era a onça parda.” E encontrei também a personagem abandonada sem explicação no antes do caminho: “Deixaram a linda Iriqui se enfeitando sentada nas raízes duma samaúma e avançaram cautelosos.”, retomada no agora, 118 páginas, 12 capítulos e muitas aventuras depois, como se não houvesse se perdido: “Entrou no mato bem, legua e meia e foi buscar a linda Iriqui,”
Depois de deixar a Ursa Maior brilhando no meu espírito como fosse um negrinho maravilhosamente simpático chamado Grande Otelo, deixei o caminho Macunaíma com vontade de conhecer mais — mais do que quis e desejei nas duas outras caminhadas — o caminho que percorrera. É como a curiosidade de olhar para trás, ver as próprias pegadas e confirmar ter deixado passar uma porção de tesouros que poderão ser recolhidos da próxima vez. Foi também a vontade de continuar mais um tempo sentada sobre a pedra, avaliar melhor seu brilho e saber o reflexo que esse brilho deixou por todo o caminho e no espírito de muitos dos caminhantes que por ela passaram.
Fui ver então a explicação da falta de caráter de Macunaíma. Encontrei algumas mas não sei se me convenceram: “A questão do caráter, ou da falta dele em Macunaíma me intriga mais ainda. Não seria ele assim, tão sem juízo e compostura, para contrapor-se ao senso comum da gente séria, ajuizada, bem comportada, ganhadora de dinheiro, virtuosa e servil? Os que fazem e conservam esse mundo feio e triste, tal qual é? O herói trickster, safado e moleque, aos olhos dos próprios índios — que já não são lá gente muito séria — convertido em Macunaíma, resulta numa gargalhada frente a tanta bobice circunspecta como as do mundo que rodeava Mário”. Essa é do Darcy Ribeiro, me pareceu bastante interessante mas algumas vezes, no livro, tive a impressão de um Macunaíma mais consciente do que engraçado, como quando resolve contar sua história ao papagaio de modo a preservar a memória de seu povo, já que não restaria, depois de sua ida para o céu, nenhuma pessoa que pudesse contá-la.
Outra coisa de que não gostei foi do comentário a respeito dos índios não serem sérios. Pode ser exagero da minha parte, mas ele me parece carregado com um tanto de preconceito.
Acho mais mesmo é que não ter nenhum caráter já é por si só um caráter. O caráter de uma hipérbole, a hipérbole de um povo que consegue rir do seu opressor e de si próprio, que tem defeitos — e muitos — mas sabe que não está sozinho e sabe também se valorizar. Para comprovar o que digo posso citar a insistência de Macunaíma em contradizer o “mulato da maior mulataria” no capítulo X. Pauí-Pódole. Quanto aos exageros o livro todo está pontilhado deles.
Busquei também o de onde do “AI! QUE PREGUIÇA !” que tanto marca a presença do herói desde o início do livro, e encontrei na Telê Porto Ancona Lopez: “AI! QUE PREGUIÇA...Desabafo-chave do herói Macunaíma, a expressão parece, à primeira vista, encerrar-se em si mesma, (.......). Entretanto, há razões para conjecturar que, ao cunhá-la, Mário de Andrade teve motivações mais complexas, ligadas a seu interesse pelas manifestações do caráter nacional na língua. (......) “Há outro animal que os índios chamam Aig e nós Preguiça” (......) A sonoridade chama a atenção: (........) A Mário, (...), não devem ter escapado as possibilidades de exploração de mais um amálgama entre o tupi e o português.”
Encontrei, dada pelo próprio Mário de Andrade, a explicação da gostosa e sugestiva expressão “agora estão se rindo um pro outro” , que aparece várias vezes no livro: “O “agora estão se rindo um pro outro” é dum reconto caxinauá.”
E, quanto à Carta, a pedra que havia no meio do caminho, a literatura é vasta. Muito se disse a respeito dela e muito o próprio Mário de Andrade escreveu sobre ela. Um bom resumo seria esse que nos dá Maria Augusta Fonseca: “Ao longo dos anos, os estudos abrangentes de Macunaíma têm dispensado atenção ao capítulo IX. Para Telê P. Ancona Lopez, é “ponto alto do texto e da prosa modernista”, como pastiche, arremedo de estilos, discurso do poder. Gilda de Mello e Souza acentua a importância da Carta na estrutura da obra como “um comentário satírico da escolha desastrada do herói” (trocar as filhas de Vei por uma portuguesa). Rastreando também a ligação entre capítulos, mas sem expandir-se, Cavalcanti Proença associa a linguagem rebuscada de Macunaíma ao discurso pernóstico do estudante no capítulo X (Pauí-Pódole). Alfredo Bosi ressalta o estilo paródico do parnasianismo. Haroldo de Campos, em seu longo estudo, confere importância estética à Carta, mas inclui o texto entre as “elaborações metalinguísticas dispersas” de Macunaíma.”
Eu acrescentaria que Alfredo Bosi faz um juízo bem estruturado, embora crivado de palavras que Macunaíma com certeza gostaria de acrescentar à sua Carta: “A “Carta pras icamiabas”, tão longa e pontilhada de intenções paródicas, é a expressão complexa dessa irrisão do academicismo bandeirante, de suas prosápias e sestros, fingindo o autor uma percepção selvagem, de fora; e aqui o modelo dos cronistas vernáculos é, ao mesmo tempo, imitado e invertido.”
Enfim, não é gratuitamente que esse capítulo IX chamou a atenção de tanta gente. Todos nós, leitores, tropeçamos nessa “pedra mágica do discurso”, como diz Eneida Maria de Souza e diante dela nos detemos antes de prosseguir a caminhada. É, sem dúvida, uma quebra na narrativa que nos faz pensar em Caminha e em Oswald de Andrade. Faz pensar também em Gregório de Matos e em Luíz Fernando Veríssimo, e até mesmo nos cartunistas como Angeli que, às vezes com muita criatividade, ironizam nossa cidade, nosso estado, nosso país e nossas próprias vidas.
E então descobrimos sem assombro que essa Carta preciosa que tanta polêmica gerou, que agradou Tarsila do Amaral e desagradou Manuel Bandeira. Carta que fez com que Mário de Andrade comentasse de forma bem humorada com Manuel Bandeira que: “Tenho me divertido é com o caso da Carta (.....) Osvaldo gosta muito dela. P.Prado também (........), diz que Prudentico, Rodriguinho também não gostam dela, (.......) Tarsila gosta da Carta. Tou com vontade de fazer uma estatística.” . Essa carta, na qual Macunaíma pede um dinheiro que não tem nenhuma chance de obter; já que, como nos alerta Maria Augusta Fonseca, é escrita em uma língua desconhecida das destinatária e, além disso, por falta aparente de um mensageiro bilingue, provavelmente nem sequer chegará às mãos das “caríssimas subditas”; é apenas um retalho da colcha de retalhos que forma o texto como um todo. Mário de Andrade não deixa quanto a isso nenhuma dúvida quando se “defende” de forma genial da acusação de plágio: “Copiei sim, meu querido defensor. O que me espanta e acho sublime de bondade, é os maldizentes se esquecerem de tudo quanto sabem, restringindo a minha cópia a Koch-Grünberg, quando copiei todos. E até o Sr., na cena da Boiúna. Confesso que copiei, copiei às vezes textualmente. Quer saber mesmo? Não só copiei os etnógrafos e os textos ameríndios, mas ainda, na Carta pras Icamiabas, pus frases inteiras de Rui Barbosa, de Mário Barreto, dos cronistas portugueses coloniais e devastei a tão precisa quão solene língua dos colaboradores da “Revista de Língua Portuguesa”. Isso era inevitável pois que o meu...isto é, o herói de Koch-Grünberg, estava com pretensões a escrever um português de lei.” E prossegue, se defendendo: “O sr. Poderá me contradizer afirmando que no estudo etnográfico do alemão, Macunaíma jamais teria pretensões a escrever um português de lei. Concordo, mas nem isso é invenção minha pois que é uma pretensão copiada de 99 por cento dos brasileiros! Dos brasileiros alfabetizados.”
Depois disso, só me resta invocar Darcy Ribeiro: “Quem negaria que Macunaíma é o texto mais jocoso e mais gozoso que se escreveu em nossa língua? Ou em outras? Sei lá eu. Para mim nem Rabelais se iguala a Mário. É visível o prazer com que ele compôs sua rapsódia — muito sorri escrevendo, confessou — se dando liberdades inimagináveis antes dele, tanto para fantasiar, brincalhão, como para questionar, implicar, ironizar.” e dizer que não, decididamente, eu não negaria.
Para concluir, afirmo que, ao final da leitura, não é o Monstro Ururau quem possui a muiraquitã, sou eu. A pedra preciosa e mágica está iconizada no livro. Mário de Andrade não só falou sobre a pedra, ele fez essa pedra no corpo do texto e, por isso, assim como eu, quem percorrer o caminho Macunaíma terminará por encontrar a muiraquitã, que nos dá de presente um Mário de Andrade sorridente, alegre e por vezes tão moleque, malandro e malicioso como o próprio Macunaíma.
E essa pedra preciosa não foi retirada da terra sem trabalho. Ela foi fabricada com todo o cuidado, polida, lapidada. Caprichosa e intencionalmente elaborada por Mário de Andrade para brilhar diante de nós.
O livro todo teve sua primeira redação feita em quatro dias seguidos, durante as férias que Mário passou na “chacra”. Isso é dito por vários críticos e estudiosos e pelo próprio Mário de Andrade. Porém, os ditos quatro dias aconteceram em 1926 e a primeira edição foi dada à luz apenas em 1928. Nesse intervalo, Mário muito burilou seu texto original, como deixou bem registrado em cartas a seus vários amigos. Um exemplo é a carta a Manuel Bandeira: - “Onde você me despertou bem a crítica e resolvi fazer que nem você fala é no caso de Ci. Vou fazer um capítulo só pros amores dela. O resto passa pra outro capítulo. Essa crítica foi uma revelação luminosa nesta carta. Vai melhorar enormemente o caso. Na Carta pras Icamiabas não cedo até agora mais do que cedi. Reduzo um pouco e isso mesmo porque já sentia que estava comprido demais. Você conseguiu fortificar o sentimento.”
Considerando-se ainda que o livro é essa colcha de retalhos que nos deixa ver todo o conhecimento de Mário a respeito de folclore; como um exemplo posso apontar a própria presença das icamiabas, música; Mário de Andrade nos autoriza a isso quando chama seu texto de rapsódia e a Carta de intermezzo, Brasil; então não é Macunaíma um índio brasileiro?, literatura e vida. Podemos até dizer que a elaboração de Macunaíma começou muito antes das férias famosas.
Portanto, não há perigo de erro em dizer que essa pedra preciosa que eu recebi como um rico presente exigiu trabalho árduo, como é de costume na criação artística, o esforço físico de um homem que trabalhou e se divertiu muito para criar para nosso deleite um Macunaíma malandro, que amou a vida doidamente e virou estrela porque “Não vim no mundo para ser pedra”. Mário também não.

QUARENTA ANOS

“A vida é para mim, está se vendo,
Uma felicidade sem repouso;
Eu nem sei mais si gozo, pois que o gozo
Só pode ser medido em se sofrendo.

“Bem sei que tudo é engano, mas sabendo
Disso, persisto em me enganar...Eu ouso
Dizer que a vida foi o bem precioso
Que eu adorei. Foi meu pecado ...Horrendo

“Seria, agora que a velhice avança,
Que me sinto completo e além da sorte,
Me agarrar a esta vida fementida.

“Vou fazer do meu fim minha esperança,
Oh sono, vem!...Que eu quero amar a morte
Com o mesmo engano com que amei a vida.
(Grã Cão de Outubro) 13

Escrito por: Divina de Jesus Scarpim, a apaixonada por literatura...

O porquê do nome

Era uma adolescente irreverente, desafiadora e que, como todos os adolescentes, escondia seu desespero imenso na revolta vazia e inerte. Sabiam quando estava triste porque não falava com ninguém exceto com um ou outro gato que colocava no colo e cujos pêlos penteava com os dedos em meio às lágrimas desavergonhadas que molhavam a vaga do seu sorriso. Quando estava alegre não parava num mesmo lugar, corria e abraçava a todos, cantava com uma energia desafinada as músicas que entravam através do rádio e enchiam a casa de onde quase conseguiam expulsar os moradores mais velhos. Nesses dias de alegria, ela por vezes gritava com um agudo sorriso: Cadelo meu chinelo? Cadela minha blusa vermelha? Cadela minha caneta nova?...

O tempo passou tão rápido como costuma passar e aquela adolescente hoje tem os cabelos cheirando a amoníaco e a pele forrada com Natura Cronos+45, não chora com gatos no colo e não canta pela casa, agora grita apenas para dentro de si mesma e ninguém pode responder sua pergunta molhada: Cadela minha vida?

Vida, cadê ela? Vida cadela...

15 de novembro de 2006

GÊMEOS


Eram dois e eram um. Irmãos. Manos também em tudo. Solidariedade. Nem parecidos. Iguais. Olhos de Diogo, em Diego via-se. Vice versa vice. Gosto, carinho, vontade, alegria. Um. Um brinco a infância. Adolescência uma festa só. Um. Vestibular? Quem passar por último é um rato. Empate. Dois cobras. Medicina só.

Na festa os dois. Iguais. Chegaram olhando e sendo olhados. Conhecidos. Não menos espantados. Olhados. E que mulher, que menina se arriscava? Como namorar alguém que é dois? Por mais que se queira, não dá. Além disso. Desconfiavam. Eles sorriam, sem confirmar. Se um namorava, outro ia vez em quando. Revezar.


E conversa rola solta. Tanto, tanto que falar. Eu faço odonto. Nós, medicina. É. Eu gosto de ler, quase fiz jornalismo. Nós gostamos de ler, quase fizemos direito. Eu. Sorriso. Achei que jornalista é meio urubu. Nós achamos que advogado é meio urubu. Sorriso mais. Três. Gostoso olhar pra vocês. Gostoso olhar pra você. É. Olha que música legal. É mesmo, vem dançar. Onde? Aqui mesmo. Com qual de nós? Com os dois, oras. E ela abraça e se deixa abraçar. Assim, de três. Tão quente, tão musical. E o abraço faz o cheiro e faz o gosto. De conversa já foi tanto. Tão pouco. A boca descansa. Cansa. Reveza no beijar. Discreto. Excitante. Ela deixa que as bocas. Que as mãos. E relaxa no sonho da música. Devagar. A música acaba, ela solta. Arruma a blusa. Senta no chão. Grama. Chama. E de futuro, o que vão fazer? Montar consultório, os dois. Que legal, podia ser três. Sorri bem grande. É mesmo, por que não? Clínica médica e odontológica. Tem charme. Tem. Um de cada lado. Sorriso. Um de cada lado. Conversa. Um de cada lado e ela no meio sem meio sorriso. Conversa. Conversa tanta. Conversa muita. E o tempo. Que tempo? Quem viu? Quem pensou? Mulher sabe mais sobre tempo. Levanta rápida e nem é de embaraço. Nem é de fuga. É tempo. Vamos, a gente se despede, vocês me levam pra casa. Vão. Vão.

Entram na sala. Três. Mãos dadas. Olham sorrindo. Ela falando Oi, aqui e ali. Acham o dono da festa. A gente veio dizer tchau. Já vão? Deixei vocês lá fora, ia levar uma bebida, esqueci. Esquece, tá tudo bem. Isso, tchau. Beijinhos. Ela só beija no rosto. Vambora. Vãombora.
 

O carro é legal, gostei. É nosso. Sociedade. Mais fácil as coisas quando se divide tudo. É. Sorriso. Sorriso-significado. Posso sentar no meio? Pode. Dirige devagar. Tá. Ela senta e abraça. Dois braços abraçam. Dois. Ela no meio. Sorri mais. Amanhã? O que tem amanhã? A gente pode se ver amanhã? Não, não pode. Ela diz. Tem. Ufa, então vamos, que horas? Preciso tempo pra acordar. Duas? Não, posso estar no banho. Cinco. Melhor. Vai. Cinco. Abraço. Mão passeia nas nucas. Suave. Onde? Ali. Chegou. Espera. Beijo. Beijo. Direita. Esquerda. Mãos, quatro. Mãos, duas. Calma rapazes, amanhã. Ela beija último. Dois. Sai. Bem no meio do parque, às cinco, tchau. Anda um pouco, volta cabeça, faz tchau. Entra. O carro sai devagar. Dois pares de olhos brilham, dois sorrisos bobos bambeiam. Nada se diz. O carro vai.

Em casa a mãe. Todas as mães. Espera. Ainda acordada? Beijinho. Beijinho. Estava sem sono. Mentira, ficou esperando. É não. Tá, faz de conta que a gente acredita, vai dormir mãinha. Já vou. Boa noite. Três. E ela sai e eles vão pro quarto. Puxa vida, que mulher! É, demais! E amanhã, o que você acha que vai rolar? Nem sei, fiquei meio atrapalhado, ela nem tentou escolher um dos dois. É, parece que quer mesmo os dois. Se for assim, que bom, né?. É. Dormem.

O parque tem parque, tem crianças, tem gente correndo antes dos doces da sobremesa. O parque tem bancos e sombra e sol. Eles andam devagar, procurando. Um banco com um pouco de folhas-sombras sentadas inquietas. Sentam e elas saem um pouco do banco e dançam neles. Olham e ela vem vindo. Bonita. Sorri quando vê os dois, dá uma corridinha. Chega. Eles levantam, ela senta e chama. Oi. Um de cada lado. Oi. Beijo-direita, beijo-esquerda. Na boca. Saudade. Saudade. Saudade. Fiz um poema, querem ver? Sim. Sim. Papel.

Eles são dois
Um.
Eu sou uma
Duas.
Somos quatro

Quadrilha.

Isso é um poema? Sei lá, não entendo muito, mas eu gosto. Eu gosto, não preciso entender. Onde é que a gente vai? Onde vocês quiserem. Mesmo? Mesmo. Jura? Juro. Tem certeza? Tenho. Então vem. Os dois seguram o corpo de mulher que se abandona nos braços e andando o sorriso os três chegam no carro. Um vai no banco de trás. O carro sai. Anda e ela vê a placa luminosa apesar de ainda dia. M se confunde com H, indefinido. Ela olha para o lado, sorri. Olha para trás, sorri. Entram. A menina-recepção controla curiosidade. Séria. O carro estaciona. Saem. Um fecha a garagem. Volta. Os dois fazem rede com os braços e ela deita. Sorrisos altos. Entram. A rede coloca-joga a mulher na cama. Os dois, um de cada lado. Beijos. E ela vira a cabeça. Direita-esquerda. Mãos. E ela se solta nas mãos. Roupas voam. Mãos. Corpos três. Um de cada lado. Ela no meio. Bocas três. Mãos seis. Corpos três. Não se diz nada. Gemidos. Braços. Ai. Pernas duas. Seios-boca dois. Sexo três. Entram. Ai.
 

Depois ficam deitados olhando pra cima. Teto com espelho é legal, a gente se vê. Eu me adorei assim, tenho um homem dois, delícia! Riem os três. Sentados na cama comem. Comem. Brincam mais e muito e muito e mais sorriem e saem brilhando prazer. São três. Gêmeos.