22 de dezembro de 2007

INEVITÁVEL

O primeiro encontro é numa noite fria de sábado. Está parada e vê um sorriso caminhando em sua direção. O sorriso atrai, agrada, prende e ela vai chegando muito perto, tão perto que acaba por se fundir nesse sorriso crioulo.

É uma jovem um tanto quanto amalucada, tem uma vida pela frente e não está sabendo muito bem o que fazer com ela. Sabe, embora sem admitir com todas as palavras, que um sentimento forte a governa e a perde: o medo.

É sensível, sente muito todas as coisas. O que vê a toca mais fundo do que as pupilas, ela sente e sente medo. Medo de ter um futuro igual ao futuro das mulheres que conhece desde sempre, medo de cumprir o papel sem surpresas que lhe está reservado. Junto ao medo, outro sentimento a domina; é como uma sede, é uma quase tristeza, um desejo enorme de se transformar em uma massa de amor. Só assim sente que será material e verdadeira. Só com esse amor desejado sente que existirá. Seu desejo vira sonho, pode se transformar em um pequeno óvulo e caminhar pelo seu corpo, repousar no calor do seu útero e se desenvolver, sentir um corpinho pequeno e indefeso que é seu, se transformar em amor e envolver esse ser. Acorda e tem as mãos vazias, tem um vazio no peito e é inútil porque não é amor. Chora então pelo seu sonho perdido. Lava o rosto, prega novamente seu sorriso apavorado e ninguém sabe que chorou.

6 de dezembro de 2007

Me perguntaram por que gosto tanto de criticar e questionar deus...

Tantos religiosos vêm tentar me converter de todas as maneiras que não tenho outra saída se não pensar no assunto!

Eles vêm à minha casa no domingo de manhã, único dia que eu tenho pra dormir um pouquinho mais, coisa que não consigo por causa deles que invadem minha rua em bandos portando as revistinhas que eles parece que decoraram antes e querem recitá-las todinhas pra mim!

Eles enchem a minha caixa postal com os e-mails coloridos e cheios de musiquinhas que, em pps, querem me convencer definitivamente de que a religião deles é solução para todos os problemas meus e do mundo.

Eles invadem a minha página do orkut com recadinhos cheios de brilho que afirmam que Jesus me ama, isso porque eles não se contentam em acreditar que deus existe, eles também sabem tudo sobre os sentimentos, pensamentos e vontades tanto de deus quanto dos outros seres em que acreditam sejam esses santos, Jesus ou o diabo.

13 de novembro de 2007

SEGUNDA CHANCE

Como é que pode uma mesma coisa ser tão gostosa e tão nojenta? Que droga! Se tentava lembrar do lado bom do sexo se ferrava. Não podia. Era só aquela nojeira. Vontade de matar aquele FDP que virava seu corpo do jeito que bem entendia e socava. Aquilo era coisa de bicho. Não gostava nem de lembrar. Que ódio de um dia ter gostado!

Tudo que era “família” estava naquele “albinho” brega, com a foto de uma loirinha aguada assoprando velinhas na capa. Se queriam que olhasse dizia: “Eu não. Nem quero lembrar essa bobeira”. Se não tinha ninguém bem que era uma tentação olhar de vez em quando. Ver aquela menina idiota que era ela, junto daquele cara posudo, metido a gostosão. E a besta da menina achava o máximo. Se pudesse saber!!

Rodrigo nasceu e ela acabou. Ele não escondia nada. Trazia para casa algumas das putas que andava comendo. Todas de barriguinha reta. Cara de quem está por cima. E ela parecia um bujão de gás, uma coisa que nem merecia ser chamada de mulher. Não se pode comer um negócio desses. Um barrigão mais digno de um chute que de um carinho. Ele só ria. Ela queria morrer e matar. Depois ficou pior. Sem o barrigão mas com peitos de vaca, vazando leite. Uma coisa tão nojenta que nem dava pra olhar.

Sobrou o nenê. Agarrou-se nele e engoliu a raiva. O gostosão voltou um dia pra cumprir a obrigação. Mulher é assim. Casou tem que comer. Mesmo que esteja esse traste imprestável. Que saudade de quando ficava sozinha em casa! Ele, com as putas.

6 de novembro de 2007

AS CINCO PIORES COISAS QUE EXISTEM NO MUNDO

Essa semana, pedi a meus alunos que relacionassem as cinco piores coisas que existem no mundo, na opinião deles, e contassem como imaginariam que seria o mundo se essas cinco coisas não existissem.
Pedi isso porque sabia que relacionariam coisas como violência, drogas, poluição e outras mazelas da civilização atual. A idéia é que, depois de um debate em sala, eles percebam o quanto podem ser responsáveis por fazer com que essas coisas deixem de existir ou continuem existindo. Quero levá-los a concluir que esse mundo quase perfeito que imaginaram pode ser construído por eles.

Embora eu não esteja mentindo para os meus pupilos quando digo essas coisas a eles, embora eu realmente acredite que eles podem agir de forma a melhorar muito o mundo em que vivemos e embora reconheça que essa minha atitude e crença parecem ser sintomas de um otimismo muito bem vindo para o meu papel de educadora, não sou verdadeiramente otimista, A prova de que não o sou é que, quando fui relacionar as cinco piores coisas que existem no mundo na MINHA opinião, vi que nenhuma delas pode desaparecer e que só duas podem ser minimizadas pela ação do ser humano.

26 de outubro de 2007

EU PERDOARIA DEUS...

Sabe aquela foto que tem uma criança negra, hipermagra, quase morrendo de fome e sendo observada de perto por um urubu? Aquela foto que deu prêmios ao fotógrafo e não sei se deu alguma esperança de salvação para a criança? Pois bem, eu perdoaria deus por aquilo se ele não fosse onisciente.

Vi no Discovery channel que existe um tipo de fungo que se aloja dentro da cabeça de algumas formigas. Lá eles vão crescendo e a formiga começa a ficar maluca, totalmente desnorteada. Daí as outras formigas percebem e afastam o mais que podem a colega infectada do formigueiro porque se ela permanecer no grupo todo o formigueiro será exterminado. Então o fungo atinge um crescimento tal que a cabeça da formiga é furada de dentro pra fora e o fungo sai “plantado” nela como tentáculos, só depois de algum tempo a formiga morre. Eu perdoaria deus por isso se ele não fosse onipotente.

20 de outubro de 2007

NÃO POSSO ENTENDER!

Seguindo fielmente o que dizem os religiosos de plantão e a lógica, inspirada pelas coisas todas que vejo e que todo mundo vê à sua volta, minha linha de raciocínio é essa:

No começo não havia nada, e quando se diz nada é nada mesmo! Não havia as leis da natureza porque não havia natureza, não havia as leis da física porque não havia física, não havia as regras da existência, o instinto de sobrevivência, não havia absolutamente NADA!

Exceto deus. Esse havia e ninguém diz como nem a partir de quando ou de que forma surgiu. Apenas havia deus, mais nada!

Bem, seguindo a “verdade” que a religião ensina temos que deus - o único que havia - é onipotente. Se é onipotente significa que ele pode tudo! TUDO, o contrário de nada! Tudo e tudo mesmo!

8 de outubro de 2007

BOMBOM

Saia amarela vaca amarela
nada a ver
é bala e bomba bom
é bombom
alumínio que barulha dentro e fora,
fora e dentro
chocolatando
a vida de hoje
gostoso é amassar o papel
sem raiva,
sem ódio,
só para ouvir o barulho,
ouvir o gosto chocolate do barulho
de papel
bombomzar o barulho
jogar no lixo
nada
porque o que foi pro lixo não é mais papel chocolatado,
barulhadamente gostoso,
é apenas um ex-papel de embrulho
que cumpriu o seu papel.

Comi alumínio
alumiei
o casal dançando que saudade !
não de dança
mas de par,
par de criança na quadrilha da inocência
que sonha
não o amor porque já tem
mas o amor porque o instinto
ou a herança de humanidade
durante milênios ensinou,
nos cromossomas,
que nunca terá.
Divina de Jesus Scarpim

5 de setembro de 2007

RESPOSTAS PARA ALGUMAS “VERDADES” QUE OUVI E LI SOBRE RELIGIÃO

Comentário: Deus nos deu a dor e o sofrimento apenas para que a gente aprenda, e deixa que a gente sofra apenas porque nos ama, como um pai que deixa seu filho caminhar por conta própria mesmo sabendo que ele vai levar alguns tombos antes de conseguir andar.

Minha resposta: Quando meu filho começou a aprender a andar procurei estar com meus braços sempre a seu alcance para que ele tivesse onde se apoiar até ter mais firmeza. Eu o deixava caminhar sobre o tapete ou na grama do parque porque ele cairia em lugar onde a chance de se machucar fosse mínima. Nunca soltei meu filho para andar no meio de uma avenida movimentada e nem para ensaiar seus primeiros passos na jaula de um tigre. Como de acordo com os religiosos sou um nada, menos do que uma ameba se comparada com a grandiosidade de deus, como posso ter sido muito mais decente com meu filho como mãe do que deus é com o ser humano de quem dizem que ele é pai?

27 de agosto de 2007

A GOTA DE MEL (história contada em aula por Fernando Segolin)

Era uma vez um homem que vinha correndo por uma estrada e atrás dele vinham dois tigres famintos. Ele corria e os tigres estavam quase alcançando sua corrida. De repente ele chegou à beira de um abismo, os tigres na cola. Parou muito pouco, não havia tempo para pensar. Pulou e se agarrou a um tronco que havia na parede do abismo. Lá embaixo dois leões estavam esperando que ele caísse para devorá-lo. Lá estava ele, os tigres em cima, os leões em baixo... Mas na árvore mirrada, em cujo galho ele se agarrava, havia uma colméia, e dessa colméia caiu-lhe na língua uma gota de mel. O homem saboreou aquela doçura e sentindo uma felicidade suprema disse:
— Isso sim, é tudo.

Representações:
Tigres = passado
Leões = futuro
Gota de mel = presente

Ps. da Divina – E se ao invés da gota de mel na língua, viesse um enxame de abelhas?

6 de agosto de 2007

JESUS-MULHER

Foi assim o nascimento de Jesus: Maria, sua mãe, ao ser casada com José, achou-se grávida. José, não querendo difamá-la, pois a amava; e não a podendo aceitar, resolveu deixá-la secretamente. E quando pensava nessas coisas, eis que lhe apareceu, um anjo do Senhor, dizendo:
— José, não temas receber Maria como tua mulher, porque o que nela foi gerado é do Espírito Santo. Ela dará à luz uma criança e lhe porás o nome de Jesus, porque essa criança salvará o seu povo dos pecados deles para que se cumpra o que foi dito pelo profeta: “Eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho, e ele será chamado pelo nome de Emanuel (que quer dizer: Deus conosco).” O profeta não acertou em tudo, mas de tudo só sabe o Senhor.
José fez como lhe ordenara o anjo do Senhor e recebeu Maria como sua mulher. Contudo, não a conheceu, enquanto ela não deu à luz uma filha, a quem pôs o nome de Jesus.
Naqueles dias foi publicado um decreto de César Augusto, convocando toda a população do império para recensear-se. Todos deviam alistar-se, cada um em sua própria cidade.
José saiu da Galiléia, da cidade de Nazaré a fim de alistar-se com Maria, sua esposa, que estava grávida; e foi para a Judéia, à cidade de Belém, por ser sua cidade. Estando eles ali aconteceu de ela dar à luz a sua criança anunciada, e porque não havia lugar para eles na hospedaria, enfaixou-a e a deitou numa manjedoura.
Eis que vieram uns magos do oriente a Jerusalém e perguntavam:
— Onde está a criança recém-nascida que reinará sobre os judeus? vimos a sua estrela no oriente, e viemos para adorá-la.
E eis que viram a estrela, que os precedia. Seguiram-na até que parou sobre a manjedoura onde estava a criança. Entraram e viram a criança e sua mãe. Prostrando-se a adoraram; e entregaram-lhe seus presentes: ouro, incenso e mirra.
Tendo eles partido, eis que aparece um anjo do Senhor a José e diz:
— Toma a menina e sua mãe e foge para o Egito, e permanece lá até que eu te avise; porque Heródes há de procurá-los para a matar.
Então ele tomou a menina e sua mãe, e partiu para o Egito; e lá ficou até quando o anjo do Senhor apareceu e disse:
— Vai para a terra de Israel, porque já morreram os que atentavam contra a vida de Jesus. E só foram mortos os primogênitos masculinos, portanto, sua filha não corria perigo de qualquer forma. Herodes estava mal informado.
Voltaram, então, para a Galiléia, para a cidade de Nazaré. Jesus crescia e se fortalecia, enchendo-se de sabedoria sua beleza e a graça que Deus dispunha sobre ela.
Quando Jesus atingiu doze anos seus pais foram a Jerusalém, para a festa da páscoa, segundo o costume que tinham de lá ir anualmente.
Ao regressarem, foram pelo caminho por um dia, e então passaram a procurar Jesus, que pensavam estar entre os parentes e os conhecidos e não a encontraram, voltaram à sua procura e a encontraram no templo, assentada entre os mestres, ouvindo-os e interrogando-os. E todos os que a ouviam, pasmados diante de sua beleza, se admiravam da inteligência das suas respostas.
Logo que a viram seus pais ficaram maravilhados; e sua mãe lhe disse:
— Filha, por que fizeste assim conosco? Teu pai e eu, aflitos, estamos à tua procura.
Ela lhes respondeu:
— Por que me procuram? Não sabiam que me cumpria estar na casa de meu pai e de minha mãe?
Não a compreenderam e Jesus desceu com eles para Nazaré; porque era-lhes submissa. Sua mãe, porém, guardou suas palavras no coração.
E Jesus crescia em sabedoria, estatura, beleza e graça, diante de Deus e dos homens.
Um dia, indo Jesus buscar água da fonte conforme lhe pedira sua mãe, foi cercada por dois homens de coração impiedoso e mente lasciva que tentaram tomar para si a beleza que a Deus pertencia.
Tendo Jesus se mantido calma e lentos e medidos os seus gestos, tomaram os homens como consentimento a falta de resposta às suas palavras más; tentaram tocar suas mãos na pessoa que suas mentes pervertidas desejavam.
Mas eis que ao tocarem as vestes de Jesus suas mãos se queimaram lançando labaredas ao ar e, com as faces retorcidas pela dor, sentiram o poder do Senhor que lhes perguntava: “Por que tentais ofender minha filha?”
E saíram ambos a correr, procurando um bálsamo para suas mãos queimadas e, nas orações e pedidos de perdão, um bálsamo para suas almas arrependidas e devolvidas a Deus.
Por esse tempo, Jesus dirigiu-se para o Jordão, a fim de que João a batizasse. Ele, porém, a dissuadia, dizendo:
— Eu é que preciso ser batizado por ti, e tu vens a mim?
Mas Jesus lhe respondeu:
— Deixa por enquanto, porque assim nos convém cumprir toda a justiça.
Então ele a admitiu.
Batizada, Jesus saiu logo da água, e os céus se lhe abriram, e o Espírito de Deus desceu como pomba, veio sobre sua cabeça, e uma voz dos céus dizia: “Esta é minha filha amada, em quem me comprazo.”
E logo o Espírito a levou ao deserto onde permaneceu em jejum durante quarenta dias sendo tentada de todas as formas por todos os demônios; estava entre feras, mas a beleza de sua alma e a força de sua vontade a salvou e não caiu em tentação.
Ao fim de quarenta dias voltou Jesus do deserto para a Galiléia pregando o evangelho de Deus, e sua santa mãe a acompanhava; acreditava nela porque antes de qualquer homem ou mulher da terra, conhecia seu poder e seu destino de glória.
Junto ao mar da Galiléia encontraram os irmãos Simão e André, que saiam a lançar suas redes ao mar pois que eram pescadores. Disse-lhes Jesus:
— Venham junto a mim que eu os farei pescadores de homens.
Os irmãos, então, deixando suas redes, a seguiram.
Pouco adiante, viu outros dois irmãos, Thiago e João, que estavam consertando as redes, em companhia de seu pai; e chamou-os. No mesmo instante, deixando seu pai e o barco, a seguiram.
Então, acompanhada de seus discípulos, percorria Jesus toda a Galiléia ensinando o amor ao próximo e as maiores virtudes em nome do Senhor e curando toda sorte de doenças e males do corpo e da alma entre os povos.
Sua fama correu por todos os caminhos; trouxeram-lhe todos os tipos de doentes, os mais desesperançados; loucos, os mais violentos; aleijados e cegos, e ela os curou a todos, e enorme multidão a seguia por onde quer que fosse.
E nenhuma pessoa, homem ou mulher, a podia tocar sem que tivesse no coração a fé em Deus e o desejo da graça, pois a todo que o tentavam acontecia o que aconteceu aos dois homens em Nazaré: Suas mãos se tornavam labaredas e seu coração ouvia a voz do Senhor; que o fazia arrependido de seus pecados e fiel aos ensinamentos de Deus; através das palavras de Jesus.
Estava Jesus em um barco quando sobreveio grande tempestade. Jesus encontrava-se adormecida e alguns a acordaram em grande desespero pois sentiam chegado o fim de seus dias. Disse Jesus àqueles que a ele pediam socorro:
— Por que ser tão tímidos, ter tão pequena fé?
E levantando-se repreendeu os ventos que se acalmaram e a tempestade cessou. Muito se admiraram todos aqueles que a seguiram e que viram o poder de quem tem direito à obediência das forças da natureza.
Estando Jesus a caminhar durante longo tempo, foi chamada por algumas mulheres que a chamaram para um banquete em sua casa, e Jesus foi. Lá estavam várias mulheres, todas pecadoras, acompanhadas de alguns homens, também pecadores, que receberam a Jesus em sua casa e em sua mesa.
Tendo sido advertida por alguns de seus discípulos que a não queriam ver comendo entre os pecadores. Respondeu Jesus:
— Os sãos não precisam de médico, e, sim, os doente; não vim ao mundo para salvar os justos, pois que esses já estão salvos; vim ao mundo para salvar os pecadores.
Tendo ido Jesus a Nazaré, foi rejeitada pelos seus pois que diziam não ter que acreditar na palavra de alguém que viram crescer ali mesmo, ao pé de si e que além de tudo era apenas uma mulher. Muito admirou-se Jesus da incredulidade deles e partiu dali sem realizar nenhum milagre. E não voltou nunca mais!
Divina de Jesus Scarpim

27 de julho de 2007

DEUS É CULPADO SIM ! (Resposta a um texto que circulou na Internet)

“Eu creio que tudo começou desde que Madeline Murray O'hare (que foi assassinada), se queixou de que era impróprio se fazer oração nas escolas Americanas como se fazia tradicionalmente, e nós concordamos com a sua opinião.”
- Aqui no Brasil, o índice de violência nas escolas e nas ruas nunca foi tão grande e, no entanto, temos até mesmo a disciplina Ensino Religioso nas escolas públicas do Rio de Janeiro (Que é o Estado onde a violência é maior)
“Depois disso, alguém disse que seria melhor também não ler mais a Bíblia nas escolas...”
- Citações da bíblia são comuns nessas aulas de ensino religioso, pelo que eu sei.
“A Bíblia que nos ensina que não devemos matar, roubar e devemos amar o nosso próximo como a nós mesmos.”
- Mas a bíblia ensina também a matar, a ter preconceito, a desprezar todos os que são diferentes, a gostar de violência, morte e sangue...
“Logo depois o Dr.. Benjamin Spock disse que não deveríamos bater em nossos filhos”
- Bater em filhos nunca foi e nunca será uma boa forma de educação. Se você tratar seu filho com amor, respeito e atenção; se você não ensiná-lo apenas com palavras vazias, broncas e gritos, mas sim com exemplos e prática você certamente não precisará espancá-lo. E, o contrário, se você não der amor, respeito, atenção, exemplos, por mais que o espanque não terá educado uma boa pessoa.
“Depois alguém disse que os professores e diretores das escolas não deveriam disciplinar nossos filhos quando se comportassem mal. “
- Se a criança tem uma boa educação em casa, nenhum professor vai querer tocar nessa criança a não ser para abraçá-la, cumprimentá-la ou fazer carinho como se faz carinho em um filho, a não ser que esse professor seja um sádico e não tenha a mínima idéia do que é educação.
“Aí, alguém sugeriu que deveríamos deixar que nossas filhas fizessem aborto, se elas assim o quisessem. “
- Se educarmos nossos filhos com amor, esclarecermos suas dúvidas e o orientarmos sem preconceito e falsa moral, nossos filhos saberão evitar que uma garota fique em situação difícil por irresponsabilidade sua e nossas filhas não precisarão fazer aborto, mesmo que possam, porque terão responsabilidade e saberão evitar uma gravidez fora de hora.
“Então foi dito que deveríamos dar aos nossos filhos tantas camisinhas, quantas eles quisessem para que eles pudessem se divertir à vontade.”
- Não devemos dar camisinhas a nossos filhos para que eles se divirtam à vontade, devemos dar camisinhas a nossos filhos para que eles cuidem de sua saúde e da saúde das pessoas com quem se relacionarem.
“Então alguém sugeriu que imprimíssemos revistas com fotografias de mulheres nuas, e disséssemos que isto é uma coisa sadia e uma apreciação natural do corpo feminino.”
- Não precisamos expor a nudez e o sexo a nossos filhos, eles os encontrarão por conta própria, estando ou não expostos, assim como faziam nossos pais e avós, ou será que ninguém sabe do sucesso que faziam os tais “catecismos” de antigamente?
“Depois uma outra pessoa levou isso um passo mais adiante e publicou fotos de Crianças nuas e foi mais além ainda, colocando-as à disposição da internet.
E nós dissemos:
"Está bem, isto é democracia, e eles tem o direito de ter liberdade de se expressar e fazer isso".”
- Que eu saiba só doentes fazem isso e só loucos aprovam.
“"Senhor, porque não salvaste aquela criança na escola?"
A resposta dele:
"Querida criança, não me deixam entrar nas escolas!!!"”
- Se fosse mesmo verdade o que os religiosos afirmam o tempo todo “Jesus te ama”, “Deus é bom”, “Jesus disse: Vinde a mim as criancinhas”, e outras coisas do tipo, se deus soubesse, pelo menos, reconhecer que crianças são inocentes e não têm por que serem castigadas, ele entraria sim nas escolas sem que fosse preciso ficar rezando e citando trechos da bíblia, estaria lá porque “está em todos os lugares”, não é isso que dizem dele?
“É triste como as pessoas simplesmente culpam a Deus e não entendem porque o mundo está indo a passos largos para o inferno.”
- Acho triste é que culpem a gente por tudo quando algumas aberrações que acontecem não são em absoluto culpa nossa!
“É triste como cremos em tudo que os Jornais e a TV dizem, mas duvidamos do que a Bíblia, ou do que a sua religião, que você diz que segue ensina.”
- Eu duvido sim e não sigo nenhuma religião porque todas estão cheias de abusos e absurdos, a história de todas elas é um livro banhado em sangue, e ainda hoje é em nome de religião que se está matando gente a toda hora em muitos lugares do mundo!
“É triste como alguém diz:
"Eu creio em Deus".
Mas ainda assim segue a satanás, que, por sinal, também "Crê" em Deus.”
- É com comentários desse tipo que muitos religiosos ao longo da história e ainda hoje justificam assassinatos e genocídios, lembra da aberração chamada Inquisição?
“Quando tentamos enviar algum e-mail falando de Deus, as pessoas têm medo de compartilhar e reenviá-los a outros!”
- Penso meio que o contrário: Muitos passam a vida tentando ganhar adeptos para as religiões de plantão e não ouvem, não pensam, não toleram de forma alguma quem tem opinião diferente: sempre dizem que qualquer um que ousa contrariar essas idéias pré-concebidas está falando em nome de satanás, por mais que a pessoa seja ética e decente em sua vida e seus pensamentos.
“É triste ver como o material imoral, obsceno e vulgar corre livremente na internet, mas uma discussão pública a respeito de Deus é suprimida rapidamente na escola e no trabalho.”
- Pelo contrário, a escola que deveria ser laica, está sempre cheia de figuras religiosas e sempre se constrange as pessoas a rezarem em qualquer cerimônia, sem o mínimo respeito para com quem prefere não aderir a preceitos religiosos.
“É triste ver como as pessoas ficam inflamadas a respeito de Cristo no domingo, mas depois se transformam em cristãos invisíveis pelo resto da semana.”
- Ninguém é obrigado a ser cristão, mas parece que nenhum cristão consegue entender isso.
“Você mesmo pode não querer reenviar esta mensagem a muitos de sua lista de endereços.”
- Não vou enviar a ninguém porque não concordo com o texto, só isso. Sem querer, de forma alguma, desrespeitar quem é religioso, só estou pedindo o direito de não sê-lo sem que para isso seja obrigada a me ver acusada como se fosse culpada por todos os males do mundo.
“Gozado que nós nos preocupamos mais com o que as outras pessoas pensam a nosso respeito do que com o que Deus pensa...”
- Não me preocupo com o que deus pensa, não sei se ele pensa, nem sei se ele existe!
"Garanto que Ele que enxerga tudo em nosso coração está torcendo para que você, no seu livre arbítrio, envie estas palavras a outras pessoas".
- Como é possível alguém fazer uma garantia dessa? Como alguém pode ter a pretensão de saber se e o que deus pensa, vê ou quer?????
“Onde existe Deus,
Se existir fome, encontra-se o alimento,
Se existir dor, encontra-se o remédio,
Se existir guerra, pode-se estabelecer a Paz,
Se existir problemas, mas, também, as soluções,
Pode-se estar só, mas não há solidão.
Onde Ele não está,
A fome mata,
A dor enlouquece,
A guerra dizima,
Os problemas são senhores,
E a solidão é companheira, mesmo no meio da multidão.”
- Com tanta gente morrendo de fome, doença, pobreza, frio, calor, desastres naturais e não-naturais, não consigo acreditar nesse tal deus de bondade, é muita utopia pra mim!
“Deus é o único que sempre tem os braços abertos para nós, quando o procuramos, arrependidos, independente do que tenhamos feito ao abandoná-lo e por quanto tempo estivemos afastados.”
- Disso daí eu também não consigo ver muito não.
Essa semana mesmo um senhor que trabalha na escola onde dou aulas e que é negro, humilde, pobre, sofrido, religioso, educado, gentil e bondoso ao extremo, daquelas pessoas cuja convivência faz a gente acreditar mais na beleza do ser humano, pois bem, esse senhor viu morrer seu filho de 15 anos, um menino que sempre foi bom filho e bom aluno mas que teve um câncer na perna e, embora tenha tido por mais de dois anos as orações, os desejos, os votos e tudo o que poderia ter de seus pais e de todos nós, amigos, conhecidos, parentes e colegas, não conseguiu evitar que o câncer se alastrasse até não ter mais possibilidades de cura.
Não consigo encontrar nessa pessoa algo que o faça merecedor de um castigo desse tamanho, e ele é só um exemplo entre milhões e milhões. Aí me vêm tentar convencer de que deus é bom, não falha, não nega o pedido de quem o procura, e outras tantas mentiras do tipo?
Desculpe, não sei acreditar nisso!

24 de julho de 2007

CEM ANOS DE SOLIDÃO

Pánico - La Chancha

Aureliano segundo, hijo del doctor
Siente que se está terminando su tiempo
Un presentimiento, una premonición
Sabe que se está jugando los descuentos

Los ojos se te nublan
El pulso se te va
Las paredes avanzan sobre ti
El eco de la muerte ya se puede sentir
Las últimas palabras se resisten a salir

Tantos pensamientos vienen hacia el
¿como hacer para volver atrás el tiempo?
El miedo paraliza y entorpece la razón
La muerte siempre es algo que le pasa a otro
Los ojos se te nublan
El pulso se te va
Las paredes avanzan sobre ti
El eco de la muerte ya se puede sentir
Las últimas palabras se resisten a salir

Aureliano segundo busca su perdón
Esa necesidad tan propia del hombre
Pero en su destino estaba esta condición
El hace preguntas y nadie responde
Los ojos se te nublan
El pulso se te va
Las paredes avanzan sobre ti
El eco de la muerte ya se puede sentir
Las últimas palabras se resisten a salir

Aureliano segundo, busca su perdón
Esa necesidad tan propia del hombre
Aureliano segundo no tiene salvación
Que le perdone el diablo lo que dios no pudo

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“Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o Coronel Aureliano Buendía havia de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo.” (p.7). “Muchos años después, frente al pelotón de fusilamiento, el coronel Aureliano Buendía había de recordar aquella tarde remota en que su padre lo llevó a conocer el hielo.” (p.9). O livro inicia com o anúncio de algo que acontecerá em um futuro incerto, "muitos anos depois". Essa incerteza temporal dada no que é, na opinião de vários críticos conceituados, um dos mais felizes inícios de obra literária de que se tem notícia, (procurar a revista Veja) nos aproxima da incerteza temporal mais eficaz de todos os tempos, o "era uma vez". O anúncio sugere ao leitor um fuzilamento que não acontece. O Coronel Aureliano Buendía sobreviverá ao pelotão de fuzilamento e morrerá de velho fabricando peixinhos de ouro.

“Um rio de águas diáfanas que se precipitavam por um leito de pedras polidas, brancas e enormes como ovos pré-históricos.” (p.7) “Un rio de aguas diáfanas que se precipitaban por un lecho de piedras pulidas, blancas y enormes como huevos prehistóricos.” (p.9)
Temos aí uma descrição poética, carregada de imagens e criações sonoras, de rítmo e sugestões que nada deixa a dever a um bom texto em versos. A comparação sugere à mente do leitor uma ligação entre as pedras e os ovos pré-históricos, dando-lhe a sugestão de que são duas coisas que, em um mundo real, ao menos em um tempo real, não existem. E também faz o paralelo entre os ovos pré-históricos e a própria Macondo que vivia então sua pré-história. Afinal Melquíades ainda não havia escrito o pergaminho que conta a história de Macondo e da família Buendía.

“O mundo era tão recente que muitas coisas careciam de nome e para mencioná-las se precisava apontar com o dedo.” (p.7). “El mundo era tan reciente, que muchas cosas carecían de nombre, y para mencionarlas había que señalarlas com el dedo.” (p.9). Por ocasião da descoberta do novo mundo, havia aqui muitas coisas que eram desconhecidas para os europeus e que eles não sabiam nomear. Nesse sentido, Macondo pode ser visto como uma imagem do novo mundo, da América latina. Esse mundo recente remete-nos também, de acordo com o crítico francês Albert Bensoussan, ao gênesis. Bensoussan refere-se a José Arcádio como um Adão: “ On peut parler d’Adam et de premier homme à propôs du fondateur de Macondo;” (p.II)

“Um cigano corpulento, de barbas rudes e mãos de pardal,” (p.8). “Un gitano corpulento, de barba montaraz e manos de gorrión,” (p.9). Na edição brasileira, em pé de página, o autor, através da tradutora nos esclarece que “o importante da imagem é que esse pássaro tem patas de ave de rapina, mas é bom e inofensivo. Melquíades também, por suas mãos, e à primeira vista, podia parecer uma ave de rapina, mas não o era, como se viu mais tarde.” . É a primeira descrição do livro, é o personagem que escreve a história da família e da cidade dos espelhos. É, em última análise, o narrador.

“Dentro em pouco o homem poderá ver o que acontece em qualquer lugar da terra, sem sair de sua casa.”. (p.9). “Dentro de poco, el hombre podrá ver lo que ocurre en cualquier lugar de la tierra, (p.11). Previsão do invento da televisão? Sendo o livro atemporal pode-se pensar que a televisão já existia, apenas que Macondo não tinha conhecimento disso. Afinal, muito tempo depois, após a saída da companhia bananeira, os ciganos voltaram a mostrar o imã como uma descoberta recente. “...por essa época voltaram os ciganos, ... tornaram a entrar nas casas arrastando ferros imantados como se na verdade fossem a última descoberta dos sábios babilônicos,” (p.328)

“... conseguiu compor um manual de uma assombrosa clareza didática e um poder de convicção irresistível.” “... logró componer un manual de una asombrosa calridad didáctica y un poder de convicción irresistible.” Talvez essa palavra “irresistível”, seja um dos erros a que o próprio autor se refere, uma vez que, se realmente fosse irresistível não teria José Arcádio ficado sem resposta. O termo “didático” faz muito sentido no enredo como um todo uma vez que o aprender e o ensinar têm muita importância na trama e na vida dos personagens. Melquíades ensina José Arcádio a usar os instrumentos de navegação com os quais lhe presenteia. José Arcádio ensina os filhos a ler e escrever. Aureliano, Úrsula, Aureliano Segundo, todos ensinam alguém a ler e escrever e Amaranta “Colocou cadeirinhas de madeira na sala, e instituiu um jardim de infância com outras crianças de famílias vizinhas.” (p.129). Josefina Ludmer destaca essa característica em seu livro Cem anos de solidão/Uma interpretação

aos cuidados de um mensageiro que atravessou a serra, extraviou-se em pântanos desmesurados, subiu rios tormentosos e esteve a ponto de perecer sob o ataque das feras, o desespero e a peste, até encontrar um caminho que o levasse às mulas do correio. (p.10). al cuidado de un mensajero que atravesó la sierra, se extravió en pantanos desmesurados, remontó ríos tormentosos y estuvo a punto de perecer bajo el azote de las fieras, la desesperación y la peste, antes de conseguir una ruta de enlace com las mulas del correo. (p12). Quem é esse aventureiro? que pessoa faria tamanho sacrifício para levar uma mensagem? Essa passagem nos remete às histórias que aprendemos na escola sobre a criação dos correios e o heroísmo dos primeiros carteiros.

Quando se tornou perito no uso e manejo dos seus instrumentos, passou a ter uma noção do espaço que lhe permitiu navegar por mares incógnitos, visitar territórios desabitados e travar relações com seres explêndidos, sem necessidade de abandonar o seu gabinete. (p.10). Cuando se hizo experto en el uso y manejo de sus instrumentos, tuvo una noción del espacio que le permitió navegar por mares incógnitos, visitar terrtorios deshabitados y trabar relación com seres espléndidos, sin necessidad de abandonar su gabinete. (p.13). A mesma coisa que acontece com o último Aureliano, depois de tantos estudos no quarto de Melquíades, adquiriu conhecimentos que simplesmente não estavam nos livros. “Gastón costumava ... evocar ... os lugares mais íntimos de sua terra, que Aureliano conhecia como se tivesse estado nela por muito tempo.” (p.361)


José Arcádio Buendía, impassível, não se deixou amedrontar pelo desespero da mulher que, num impulso de cólera, destroçou o astrolábio contra o solo. (p.11). José Arcádio Buendía, impasible, no se dejó amedrentar por la desesperación de su mujer, que en un rapto de cólera le destrozó el astrolabio contra el suelo. (p.13). A cólera de Úrsula é repetida com mais intensidade por Aureliano Segundo quando, depois de ouvir a ladainha de Fernanda, quebra, atirando ao solo, tudo que há de quebrável na casa.

4 de julho de 2007

Amor para meu filho

Dizer o quanto te amo não é possível, não há palavras.
Amar você o quanto deveria não é possível, não há coração.
Na vida tão limitada, tão rasteira que vivemos
Intensamente procuramos o Máximo dentro das nossas limitações.
Eu sou um nada que pretende abrigar o todo do amor por você. Não posso.
Luz tão intensa me cegaria, cegaria o mundo, queimaria o universo.

Dentro de mim você surgiu em forma de amor
Amei você como filho, como milagre, como dádiva de Deus
No meu colo, no meu peito, na minha alma te amamentei
Iluminei, ou tentei, tua estrada com meu carinho
Eu vi você crescer e agora não tenho mais teu corpo frágil em meus braços
Lembranças muitas, lindas lembranças, é o que acompanha o meu amor

11 de junho de 2007

UNIVERSIDADE, SABER E INTERESSE

Francisco Miraglia Netto

O movimento docente na sua luta para a transformação da universidade brasileira. Tem se defrontado com o aparato governamental e com o aparato institucional acadêmico e científico. O movimento é rotulado de “corporativo”, deslegitimado como agente de transformações das instituições e da relação entre elas e a comunidade. Sua importância, sua luta, o significado social e sindical da ANDES-SN, são “esquecidos”, relativizados ou mesmo desacreditados.
As políticas governamentais só são contestadas pelos movimentos sociais organizados e combativos. Se dependêssemos do poder institucional a situação do ensino público e do apoio à pesquisa no Brasil, estaria próxima da catástrofe.
Ligados ou com parâmetros dados pelos “centros de excelência”, a maioria dos quadros gerenciais da cúpula acadêmica e científica trazem uma concepção elitista que exclui diversidade e níveis de ensino e pesquisa. Além disso, nada fazem para restringir o empresariamento do ensino e promover o sustento da qualidade do ensino público e da pesquisa.
Para os que exercem o poder as universidades deveriam ser desdobradas em dois tipos: os “escolões de terceiro grau” e os “centros de excelência”. Para esses setores o centro de excelência anda a contento. Nessas instituições, o ensino e a extensão de serviços à sociedade são de segunda categoria.
Essa definição defende os interesses empresariais, cria obstáculos à realização da universidade de qualidade e socialmente responsável e estabelece uma estrutura de poder que promove a alienação.
Segundo essa concepção, que identifica interesse da sociedade com interesse da elite dominante, a sociedade comparece na qualidade de contribuinte que cobra um bom desempenho. Os critérios da produção universitária são definidos pelos interesses do mercado e do fisco. Assim, o estado faz o papel de tutor e fiscal das escolas públicas ao mesmo tempo em que deixa à vontade a exploração privada do direito à educação.
Faz parte do projeto da classe dominante controlar o modo como o saber é produzido e disseminado; é importante o controle de todo o aparato institucional e privado de ensino e pesquisa e dos meios de comunicação, apropriar-se do saber produzido pela sociedade e utilizá-los para seus próprios interesses; minimizar a possibilidade de que a parcela responsável pela divulgação e produção de conhecimento se reconheça como trabalhador e se volte para interesses e problemas que não são os da classe dominante. Essas características no Brasil têm presença mais marcante e visível.
Docentes universitários e trabalhadores precisam vender sua força de trabalho para viver. As diferenças de salário refletem a estratégia de controle e cooptação dos que fazem o trabalho intelectual. No Brasil, a miséria, a fome e a exploração exigem uma distinção salarial maior como meio de evitar a articulação política.
A divisão costumeira entre formas superiores e inferiores de saber é um meio de legitimar a exclusão e um recurso para afastar idéias e ações consideradas inadequadas na universidade. A imagem de exclusividade serve para prestigia-la, a fim de que possa validar conhecimentos cuja finalidade é decidida pela classe dominante. Ao mesmo tempo é dificultada a produção de conhecimento e análise critica do interior da universidade. Evita-se que a reflexão crítica do trabalho seja parte do próprio trabalho.
A universidade é atrelada ao empresariado e às burocracias estatais. As decisões sobre pesquisas passam da universidade para agencias que a governam de fora. Procura-se neutralizar a possibilidade da criação livre de conhecimento.
As duas faces do discurso são unificadas graças à idéia de modernização conservadora. Harmonizam-se as idéias de conservação da instituição e de adequação institucional aos “novos tempos”.
A universidade se torna intelectualmente raquítica. Rouba dos estudantes a possibilidade de uma relação concreta com o saber e a cultura. Torna-se instrumento eficaz para ampliar a dominação e garantir a continuidade da acumulação do capital.
O saber se diferencia da experiência imediata porque a questiona e busca compreendê-la. O saber está sempre inserido no contexto sócio-cultural que o gera, é avesso ao princípio da obediência à autoridade instituída e não se satisfaz em se realizar no interior de uma instituição, mas indaga o que é esta instituição, por que e para que ela existe.
Um dos elementos constitutivos do saber é o rigor, que só se estabelece no domínio do debate e da discussão públicos. A idéia de publicar resultados de pesquisas e reflexão tem exatamente esta origem: submetê-los à discussão antes que possam ser considerados saber. O saber exige democracia e não é propriedade privada. A apropriação privada do saber agride tanto um dos elementos constitutivos básicos do trabalho intelectual quanto a atmosfera que propicia o seu florescer. A burguesia nega a democracia como ambiente para a discussão de qualquer tipo de trabalho.
A presente noção de avaliação recusa-se a aceitar a idéia de que antes de avaliar é preciso ter um projeto definido. Procura-se atrelar a universidade brasileira aos modelos dos países capitalistas centrais com a desmoralização das propostas de quem não quer ser igual a Harvard.
Avaliação é reflexão crítica em cima de um projeto dado e deve-se dar no domínio do público. É fundamental que qualquer avaliação seja precedida pela discussão coletiva. Insistir nesse ponto é fundamental para resistir a um dos instrumentos de apropriação e controle do trabalho intelectual pela classe dominante.
Os laços da universidade com o poder sempre foram determinantes para sua definição e atividades. A universidade possui forças que fazem presente a contradição. Queremos a ampliação do leque de questões que tratamos. Sua forma atual e seu papel social não condizem com nossa concepção do que deva ser o trabalho nela realizado. Devemos insistir na contestação do projeto burguês e na sua substituição por outro compromissado com a erradicação da miséria, da fome, e com a construção da democracia social e econômica do país.
É importante combater os aspectos mais visíveis do modelo implantado. Por outro lado, é crucial que fique claro qual a universidade que estamos defendendo. Não basta obter financiamento. Não podemos aceitar o esquema de avaliação imposto pelo aparelho do Estado. Não queremos trabalhar para aprimorar o aparelho de apropriação cultural da burguesia. Continuaremos o embate por verbas, mas devemos concomitantemente, travar a luta ideológica e conceitual, sob risco de vermos consolidado o modelo que temos o compromisso de derrotar.
Concebemos a universidade como articulação de trabalhadores intelectuais. Uma universidade brasileira de alto nível só se estabelece a partir dos parâmetros defendidos pelo movimento docente. Devemos dedicar especial atenção à questão da avaliação. Somos pressionados a deixar de lado o aspecto transformador e classista das nossas propostas. Devemos retomar a luta pela real democratização das decisões no interior das universidades. Sem isto, corremos o risco de ver reitores com perspectiva progressista administrarem o projeto burguês discutido acima.
Devemos prestigiar a produção intelectual do movimento social organizado e envolver no processo de luta os partidos de esquerda, a CUT, os professores de 1º e 2º graus e os estudantes.

COMENTÁRIO
Divina de Jesus Scarpim

Ontem, logo depois de ler o texto para produzir esse trabalho, fui até a cidade e vi, descendo de um ônibus com imensa dificuldade, uma mulher ainda jovem, mal vestida, precocemente envelhecida e negra. Ela carregava uma sacola e estava acompanhada de quatro crianças pequenas, a mais velha não parecia ter três anos. Carregava uma no colo, puxava outra pela mão e olhava para trás a todo momento para se saber acompanhada pelas outras duas que seguiam seus passos.
Parei e fiquei olhando a cena até que a mulher desapareceu da minha vista com a sua sacola, suas crianças maltrapilhas e sua pobreza envolta em preconceito. Pensei então sobre o texto que tinha acabado de ler. Qual é a chance dessa mulher compreender apenas esse parágrafo de Max Horkheimer que está na primeira folha do texto? Aliás, qual é a chance de duas pessoas que descem desse ônibus lotado que vem da periferia pobre da cidade entender alguma coisa desse parágrafo? E mais, qual é a chance de pelo menos uma dessas quatro crianças que a mulher leva consigo chegar um dia a freqüentar um banco de uma universidade, de uma universidade pública e “gratuita”?
A distância entre as universidades e a classe trabalhadora como um todo é tão grande que pensar em uma união em defesa de interesses comuns de forma realmente coesa torna-se uma idéia utópica.
Para a imensa maioria da classe trabalhadora, universidade é algo tão distante de sua realidade quanto era para a maioria da população mundial a idéia de computação nos anos 60. O trabalhador mal tem acesso à educação de nível médio de péssima qualidade que se tem na escola pública e, se tentar se informar um pouco mais vai ver que ele sustenta com seus impostos a universidade que seus filhos jamais poderão freqüentar.
Em contrapartida, o corpo docente e a direção das universidades são, também em sua imensa maioria, oriundos da classe dominante, portanto, não têm a real noção das necessidades e anseios da classe trabalhadora.
E mesmo os professores de 1º e 2º graus, também em sua maioria, trabalham tantas horas por dia e ganham tão pouco que não têm tempo nem sequer de pensar seriamente em universidade, estão afastados dela desde sua formatura e, para eles, os professores universitários são ainda aquelas pessoas privilegiadas que têm um emprego com o qual eles não podem nem sequer sonhar. O professor universitário não é, portanto, visto pelo professor de 1º e 2º grau como um colega e a universidade e seus problemas estão quase tão distantes dele quanto da classe trabalhadora em geral.
Daí concluir que toda a articulação da elite dominante para ter total controle da produção e divulgação do saber só pode ser muito bem sucedida, como tem sido até hoje e como vai continuar sendo, salvo grandes e inesperadas mudanças, ainda por muito tempo.
Se o trabalhador não tem a exata noção do que é uma universidade, que noção pode ter da questão da avaliação? Que interesse pode ver em discutir ou, ainda mais, em lutar por essa ou aquela postura diante desse tema? Que parâmetros está em condições de levar em consideração para julgar o benefício ou malefício desse ou daquele sistema de avaliação?
Os movimentos docentes deveriam sim dedicar especial atenção à questão da inserção da universidade no contexto social, dar possibilidades para que exista mais produção intelectual dos movimentos sociais organizados da classe trabalhadora.
Enquanto os trabalhadores não puderem ter acesso à universidade, não poderão apoiar, compreender ou se posicionar diante de qualquer questão referente a ela porque está muito distante da sua realidade.

21 de maio de 2007

MAIS UM CASO DE AMOR

Pequei o livro com amor. É comum, sempre foi, para mim, pegar um livro com amor. Amo os livros, amo a palavra escrita desde que, num deslumbramento mágico, aos 8 anos, descobri que podia ler, foi meu momento de epifania, foi a grande descoberta da minha vida, senti-me importante e, mais que isso, senti-me feliz. Livros para mim sempre foram objetos dignos de amor, sempre tenho aquele respeito-reverência por saber que dentro de um livro existe sempre um mundo, ou vários mundos, ou todos os mundos, uma infinidade de mundos, e em algum deles existe sempre a possibilidade de existir o meu mundo.
Reli a contracapa do livro, as orelhas. Reli o que já havia lido nas várias vezes que o ia namorar na livraria, um de meus grande prazeres é namorar livros, gosto de estar no meio deles e namorá-los, acaricia-los com os olhos, com as mãos, com a mente, senti-los. É um namoro que me faz bem, sempre me sinto correspondida. Nunca, jamais saí de entre livros sem levar nada comigo, mesmo nas muitas vezes em que não levo livro nenhum.
Li o primeiro capítulo. Resolvi ter um romance com o livro. Não passei do primeiro capítulo. Fiquei pensando, sentindo o que ele me dizia. O quanto ele me tocava e, principalmente, fiquei pré-sentindo o quanto ele me invadiria. Decidi não lê-lo rapidamente, não ler um capítulo depois do outro, decidi não apenas namorá-lo mas tornar-me sua amante, decidi ter um caso com ele, amá-lo lenta e profundamente. Ler um capítulo, sentir, pensar, escrever esgotar todas as possibilidades e só depois ler o segundo capítulo e ir fazendo assim até chegar ao epílogo. Pensei em conservar esse amor por muito tempo para prolongar esse prazer, como se a gente pudesse estar sempre escrevendo na primeira página do caderno, decidi que vou me dar um prazer parecido.

Quem é você?
Sou um amontoado de substâncias químicas em reações constantes. Sou um aglomerado de átomos, de moléculas. Sou uma central de descargas elétricas, sou uma usina de lixo, sou uma máquina.
Sou também um ser único, incrivelmente complexo e maravilhoso, a pessoa mais importante do mundo. Todas as outras coisas existem para e por mim, sou o centro do universo, tenho a incrível capacidade de pensar, sentir, tomar decisões, me relacionar com os seres e objetos ao meu redor, transformar o mundo e a mim mesma e, o que é mais fantástico, criar outra vida a partir da minha vida. Sou tão grande!
Sou menos do que um grão de areia na praia, sou mais insignificante que uma molécula de água no oceano, minha presença nem pode ser pressentida em se falando de mundos, estrelas, galáxias, anos-luz. Minha passagem nada retira ou acrescenta na vida do universo, o tempo dessa existência é apenas um ínfimo espaço dentro do tempo dos mundos. Eu sou nada.
Sou também uma alma imortal em processo de aprendizagem e crescimento. Em um caminho pleno de descobertas fantásticas. Sou um ser social, sou parte de um todo igualmente grande, igualmente nada. Sou uma mulher, o negro do mundo, a rainha do lar, o depósito de excrementos, a geradora de vida, a amante dedicada, a namorada gentil, a prostituta reles, a menina ingênua, a velha rabugenta, a cara-metade.
Quanta coisa descobri que sou! e só dessas conclusões, nada novas com certeza dentro do mundo do pensamento humano, desses pensamentos e de todos os que podem ser gerados a partir deles posso me alimentar por toda a vida, buscar respostas e justificativas para todos os meus sentimentos e reações.

De onde vem o mundo?
No princípio era o caos. Como uma apaixonada por mitologia greco-romana, esta primeira frase da história da criação do mundo me ficou, mas desde que a li pela primeira vez não pude deixar de me perguntar, e de onde veio o caos? Se havia algo no princípio então é porque não era o princípio.
Soube que os gregos não admitiam a existência do nada absoluto, aceitei a explicação. Tudo bem, então eles não aceitavam a existência do nada. Mas eu aceito, eu consigo imaginar o nada, ao menos acho que consigo, ou pelo menos pensá-lo. O nada é antes do caos, o nada é o espaço entre as moléculas o nada é o vácuo, o nada pode ser a morte, ou uma parte do meu sono, a parte em que não sonho. Mas como alguma coisa pode surgir do nada? Aí fica difícil. Do nada pode surgir alguma coisa, como do meu sono pode surgir meu sonho? Somos um sonho?
O átomo é tão parecido com o sistema solar! O universo pode ser um corpo, o sistema solar um átomo desse corpo, a galáxia uma molécula. Mas se for ainda assim a pergunta perdura. Se o universo é um corpo esse corpo pode ter vindo de outro corpo como meu filho veio de mim e o outro corpo de um terceiro e assim por diante até que se pergunte. De onde veio o primeiro corpo?
Suponha que num dos elétrons de um átomo de oxigênio que faz parte de uma molécula dos 70% de água que compõe meu corpo exista nesse momento um micro ser perguntando-se de onde veio o mundo? A resposta para ele será, veio do mundo-minha-mãe, pois para esse ser o mundo sou eu. Só que ele nunca terá essa resposta porque embora faça parte de mim, estamos tão longe que nem sequer podemos saber um da existência do outro, menos inda posso eu saber de seus questionamentos e ele dos meus.
E Deus? Se Deus criou o mundo, quem criou Deus? Para aquele micro ser hipotético eu sou Deus e talvez meus sentimentos, meu estado de humor, espírito e saúde podem influenciar de alguma forma esse mundo tornando a minha existência quase que sensível para ele. Da mesma forma que a existência de Deus é quase sensível para mim às vezes; para o religioso sempre e para o ateu, até mesmo para o ateu, um pouco, como um quase subconsciente ponto de interrogação, acho.
Filosofar é ter a capacidade de se espantar com as coisas. Desde que vi essa afirmação pela primeira vez em um livro escolar (e as explicações do espanto) eu a entendi mais como o deslumbramento. E se é assim, então sou uma filósofa nata, pois vivo me deslumbrando, me espanto com as coisas e uma das coisas que mais me espanta é o fato de eu conseguir não estar espantada, ou deslumbrada em tempo integral apesar de ter tantas razões para isso.
Eu me espanto com uma imensidade de coisas, não apenas com as coisas que não conheço. Me espanto com uma folha balançando mesmo tendo o conhecimento de que é o vento que a move. Me espanto com as bolhinhas que sobem na água prestes a ferver mesmo sabendo que é o aumento da temperatura que as causa. Me espanto e deslumbro e me sinto maravilhada e em estado de graça com o som do sorriso do meu filho e me espanto muito comigo mesma com o que faço, o que sinto, o que penso, como sou. Me espanto com as alterações do meu corpo na curva descendente ainda mais do que me espantei na curva ascendente. Eu sou um espanto e me espanto sempre que percebo que passei algum tempo sem me espantar.
Estou agora me espantando com o papel, sua textura e sua cor, e me espantando estou me perguntando de onde veio, em que floresta cresceu a árvore em que agora escrevo? Como eram as mãos que a derrubaram? Por quantas mãos passou essa árvore até chegar às minhas? Como era a vida, o que pensava e o que sentia cada uma delas? Quantos olhos deslizarão por estas palavras caso um dia elas se tornem um livro, alguém o namorará?
Tantos motivos para espanto que me pergunto espantada se não haveria alguma força nos impedindo de ficar espantados para que possamos fazer alguma coisa, para que possamos desenvolver nossos maus instintos? Seria Deus o espanto que nos faz ficar maravilhados diante das coisas e de nós mesmos e, conseqüentemente tomá-las com cuidado, respeitá-las e viver em benefício do todo do qual somos uma parte? E seria o Diabo o que nos faz esquecer do espanto, seguir a rotina da vida achando tudo natural, depois tedioso e depois desagradável, até soltar nossa má vontade, bloqueando nossos olhos e deixando que vivamos apenas por nós mesmos sem nem mesmo saber de nós? Pode estar aí a razão da afirmação de que o mal e o bem estão em nós mesmos?
No princípio o homem buscava explicação no mito para todas as coisas que não podia entender. Para mim, essa frase pode ser colocada no presente sem faltar com a verdade. Quando criança, eu me lembro que procurava sempre uma explicação “mitológica” para as coisas que não compreendia: meu pai e minha mãe tiveram filhos apenas porque se casaram, o casamento obrigou-os a dormirem juntos e nós nascemos. Eu e meu irmão dormíamos juntos exatamente como meus pais, apenas não tínhamos filhos porque não éramos casados e não nos casaríamos jamais porque éramos irmãos.
Amanhã era uma entidade maravilhosa que sempre trazia coisas boas. Tudo que pudesse imaginar de mais fantástico seria sempre Amanhã. O natal, o aniversário, as férias de meu pai, a viagem para a casa da avó. Mas nós tínhamos uma falta de jeito enorme para tratar o Amanhã e ele sempre, quando virava hoje, não trazia as coisas tão certinhas e boas como devia porque era preciso saber tratar o Amanhã. Eu tentava, tentava sempre. Muito poucas vezes ele virava hoje e era bom, então eu tentava repetir o tratamento, mas esquecia alguma coisa. Voltava a tentar.
Os sapos eram seres fantástico que podiam mudar de tamanho e usar os cogumelos como guarda-chuva. E os aviões eram seres muito perigosos e malvados quando estava de noite. De dia não, eles passavam no céu, nós dávamos tchau com as mãos e gritávamos muito, eles eram bonitos e às vezes brilhavam ao sol. Mas à noite, quando estava na cama e ouvia o barulho do avião eu cobria a cabeça, ficava apavorada e tinha ainda o problema de sentir falta de ar com a cabeça coberta, não descobria a cabeça nem conseguia respirar direito até o barulho sumir, então ficava muito tempo ainda, maravilhada por ter escapado mais uma vez das terríveis bombas que o avião poderia ter jogado sobre mim.
Tantas outras coisas eram explicadas pela minha mitologia antes que o tempo, a vida, a escola me ensinassem o que eram realmente! Tantos mitos eu devo ter ainda hoje para explicar tantas coisas que não compreendo.
Mas, e o livro? O livro é “O mundo de Sofia”. Foi delicioso começar a lê-lo, mas do meio para o final ele perdeu o pique e me decepcionei... Mas não me decepcionei a ponto de deixar de pensar; muito, muito menos a ponto de deixar de ler, e de me espantar...
Divina de Jesus Scarpim

14 de maio de 2007

HOMOGÊNEO

Sou branca,

de ascendência branca,

toda uma brancura de raças gerando mais e mais descendentes.

Sou melhor?

Você é negro,

filho do continente africano,

de negra pele e brancos dentes.

É melhor?

Meus antepassados te caçaram como animal,

te acorrentaram,

te venderam,

te compraram,

te escravizaram.

Disseram que você não tinha alma,

não passava de um ser vivente sem consciência,

e te escravizar era algo natural.

Hoje eu te amo e minha alma se escraviza à tua,

minha pele branca se completa na tua pele negra,

e juntos,

o branco e o negro,

fizemos o marrom.

Ele traz em si o escravo e o senhor.

Ele tem consigo a humildade, a força do corpo,

a beleza do espírito negro que sonhou com a liberdade.

Tem em si o amor da minha pele branca que tem fome da sua pele negra,

que desconhece os erros do passado.

Ele é melhor!

Tomara que esse marrom cubra a terra e torne os homens melhores,

se sabendo iguais e capazes

Independentemente da cor.

Divina de Jesus Scarpim

8 de maio de 2007

CINCO LIBERDADES E UM TERREMOTO DE GRANDES PROPORÇÕES

Era dia do “e viveram felizes para sempre”, o vestido branco ficou lindo, as pernas tremeram quando caminhava até o altar, não ouviu quase nada do que o padre disse e o arroz jogado à porta da igreja parecia um enxame de pombos minúsculos que lhe bicavam o rosto de leve. Comeu um pedaço de bolo, dançou a valsa dos noivos e agradeceu aos cumprimentos envolta em uma nuvem de irrealidade densa como uma casca na qual todos batiam mas onde ninguém conseguia entrar, nem mesmo ele, seu marido, aquele que a segurava pela mão e jurava amá-la e respeitá-la todos os dias de sua vida até que a morte os separe. Dormiram exaustos depois de um sexo mentiroso e saíram bem cedinho para a viagem de lua-de-mel. Só quando entrou no navio e este começou a afastar-se deixando todos aqueles que abanavam adeuses se tornarem pontinhos coloridos em um horizonte de maquete foi que começou a sentir-se dentro daquele momento, abraçou apertado o corpo de seu marido e retribuiu aquele que foi o primeiro beijo real de uma mulher casada. Sentia o vento nos cabelos e o despertar fazia bem, uma alegria óbvia sobrevoou seu sorriso e aceitou começar a exploração da luxuosa embarcação onde estaria durante duas semanas inteiras numa viagem de sonho presenteada pelos pais; um cruzeiro com belas paradas, belas paisagens e muita fotografia para guardar no primeiro álbum de família que organizaria com todo capricho assim que voltasse para sua cidade e começasse a habitar o recém-mobiliado apartamento. Tudo tão perfeito! Nos olhares que trocavam a cada minuto não faltava nem mesmo a paixão, responsável pela certeza de que essa felicidade duraria toda a vida.

Passaram três dias e ainda era recém-feliz, todos os dias passavam a dar-se conta da presença um do outro e do quanto essa presença fazia bem, conversavam sobre o futuro fazendo planos coloridos e sobre o passado lembrando nuances do romance que ainda viviam, sorriam para tudo e por todos os motivos e pensavam um no outro em todas as pequenas coisas inconscientes de ser e de estar. Juntavam os corpos em prazeres plenos muitas vezes durante o dia e durante a noite e sentiam fome como crianças que muito brincam e saltam e riem e depois comem o que lhes dão com pressa de voltar a brincar. Tantos foram os “eu te amo” que se disseram que se cada um se tornasse uma conta e deles se fizesse um colar, este daria muitas voltas brilhantes no pescoço da mulher apaixonada. O quarto dia amanheceu nublado e ficaram um pouco mais de tempo no quarto brincando de se embrenhar no corpo do outro, se perder e procurar novos caminhos e atalhos para chegar ao próprio corpo, exausto e leve como se flutuasse, foram tomar café e depois se debruçaram para olhar o mar que era de chumbo. Sentiram o vento crescer e o medo demorou tanto pra se formar que a tempestade chegou bem antes e quando as ondas enormes criavam gritos de terror a realidade fugiu de novo e o pesadelo começou como um desmaio.

O sabor-sal da água que violentava sua alegria e a escuridão que apagava as cores do seu futuro flutuaram com ela num violento dormir e não acordar. Gritos chegavam ao seu semi-consciente e tanto podiam ser de outras pessoas como dela mesma que perdeu totalmente o controle do seu tempo. Vagamente movimentos de braços e pernas perdidos no terror encontraram algo indefinivelmente sólido onde se apoiar. Um desmaio de não-ser fez com que nada mais fosse sentido até quando os olhos foram incomodados por um sol ardente e algumas mãos a tocaram e levantaram seu corpo. Flutuou até uma sombra de onde olhou e viu-ouviu o mar que voltava a ser azul. Tentou levantar o corpo e dizer algo, mas desmaiou novamente e quando abriu os olhos estava sozinha sobre panos úmidos e viu pessoas correndo de um lado para o outro na praia recolhendo objetos que as ondas traziam. Ficou olhando por muito tempo até que foi notada e homens se aproximaram carregados de caixas e pacotes molhados, tinham as roupas sujas e alguns tinham arranhões no rosto e nos braços, eram cinco e nenhum era o Dani. Sentaram-se a seu lado, falaram muito, pediram calma, não sabiam nada sobre o Dani, não sabiam quem era Dani, sabiam da tempestade, do navio que desapareceu, talvez a gente tenha caído no mar, o barco pode estar por perto, ou não. Disseram que o mar trouxe muitas coisas, mas pelo que sabemos, só nós seis estamos aqui. Apresentaram-se. João, jogador de vôlei, negro, não muito escuro, não muito alto, cabelos trançados à la Bob Marley. Reinaldo, apelido Nado, médico anestesista, muito alto, cabelos meio encaracolados, amorenado e bem magro. Cléber chef de cozinha, negro, muito preto e muito alegre, acredita que tudo está bem, vai dar certo, todos estão no navio e o navio nos encontrará. Juan, espanhol, grisalho, barba bem aparada e olhos curiosos. Yuri, alemão, branco como uma lagartixa, não fala nem meia dúzia de palavras em português. Olharam para ela, Sônia, arquiteta, estava em viagem de lua-de-mel. Dani é meu marido e eu não sei onde ele está. Sentiu a mão de Nado em seu ombro e um misto de alivio e pavor. Tentou se levantar e só então percebeu que estava com a perna direita machucada e tinha um curativo feito com trapos improvisados. Olhou para os colegas e sorriu sem jeito, dois braços lhe foram estendidos, colocou-se de pé e caminhou alguns passos, a perna doía um pouco, mas nada que preocupasse muito.

Depois de combinar o que fazer, Nado e Yuri saíram para explorar o lugar e os outros começaram a organizar um acampamento trazendo para a sombra e dando uma certa ordem nas coisas que encontraram na praia. João conseguiu um pedaço de madeira quase reto, uma muleta improvisada para que ela se apoiasse. Quando, depois de umas três horas, os dois voltaram, o acampamento estava bastante razoável e os quatro se sentiam até orgulhosos do trabalho realizado e improvisavam fogo para conseguir uma refeição. Disseram que eram os novos Crusoés, pelo que puderam ver estavam em uma ilha, uma ilha não muito grande, nem sinal de gente, nem sinal de “terra a vista”, apenas um minúsculo rio, garantia de água doce. Nos próximos dias comeram, dormiram e caminharam, exploraram toda a ilha e tiveram certeza de que estavam sozinhos. Tinham muita comida, água e uma infinidade de objetos que poderiam ser úteis, mas tinham cada vez menos esperança, o mar trouxe muito mais coisas, coisas que pareciam restos do navio. A cada caixa de alimento, de remédio, de bebidas, a cada mala de roupas, amontoado de cobertores, brinquedos soltos e pedaços indefinidos de madeira, plástico ou vidro o navio parecia se afastar mais, era mais esperança de vida, era menos esperança de vida. A perna estava tão bem que dispensou a muleta, conversava com todos e até brincava um pouco de ser otimista com Cleber que nunca deixava que o desespero tomasse conta de todos, contavam os dias com a ajuda de um calendário plástico que veio com as ondas e viam as semanas passarem.

Quando finalmente foram resgatados por um barco desses que exploram o mar em busca de tesouro, já havia passado seis meses, onze dias e quatro horas do que se lembrava vagamente como o começo de tudo. A imagem de Dani estava meio desbotada em sua mente, a lembrança dela mesma como fora até o início de tudo estava muito mais embaçada, como um retrato danificado pela maresia. Ela era então a esposa não sacramentada de cinco homens que não se mataram por uma fêmea porque ela teve o bom senso de se tornar desprezível sendo acessível a todos e não permitindo que nenhum deles a quisesse só para si.

De volta a casa mudou o nome, mudou-se do país e mudou o cabelo. Escondeu-se. Nado foi o primeiro que percebeu o quão longe aquela garota que nunca chorou esteve de ser desprezível, em sua lembrança acalmada pela distância reviu toda a tensão que começara a criar-se entre eles pouco antes de ela oferecer-se, tensão que deixou de existir a ponto de ser esquecida quando aquele corpo feminino e único passou a ser propriedade de todos; reviu seus olhares, aqueles que se negara a ver nos momentos em que ela, pensando que ninguém a notava, deixava passar uma nuvem escura ou lançava um mudo pedido de socorro ao mar. Tardiamente pensando em atender aquele grito de socorro que se negara a ouvir na ilha mas que queimava sua lembrança agora e cada dia mais, ele foi o primeiro a procurá-la.

Os outros demoraram um pouco mais de tempo, mas todos eles, em seu momento e com diferentes profundidades, compreenderam que ela, naquele gesto de livrar-se das roupas e oferecer o corpo aos cinco homens tornando-se desprezível aos olhos deles, foi na verdade a pessoa mais corajosa e mais lúcida dentre todos. Eles eram apenas cinco predadores prestes a se tornarem irracionais. Cada um em um momento da vida sentiu a necessidade de dizer ou demonstrar de alguma forma que agora a compreendia e sabia que ela não fora desprezível, eles foram. Todos a procuraram, mas nenhum a pôde encontrar.

Divina de Jesus Scarpim

2 de maio de 2007

CESÁRIO VERDE

um “proseador”

Poema III

Ao entardecer, debruçado pela janela,

E sabendo de soslaio que há campos em frente,

Leio até me arderem os olhos

O livro de Cesário Verde.

Que pena que tenho dele, ele era um camponês

Que andava preso em liberdade pela cidade.

Mas o modo como olhava para as casas,

E o modo como reparava nas ruas,

E a maneira como dava pelas coisas,

É o de quem olha para árvores,

E de quem desce os olhos pela estrada por onde vai andando

E anda a reparar nas flores que há pelos campos...

Por isso ele tinha aquela grande tristeza

Que ele nunca disse bem que tinha,

Mas andava na cidade como quem anda no campo

E triste como esmagar flores em livros

E pôr plantas em jarros...

Fernando Pessoa-Alberto Caeiro

Talvez por ser jovem e inexperiente, Cesário Verde teve o comportamento tão irrequieto, insatisfeito e contestador, a ponto de combater com ironia certeira o espírito romântico. Adolfo Casais Monteiro nos chama a atenção para o fato de que alguns dos líderes do movimento anti-romântico, como Antero de Quental e Guerra Junqueiro, mostraram-se na sua poética mais presos ao romantismo do que seria de se esperar, ao passo que Cesário Verde, que se manteve à distância dos realistas e mostrou desinteresse pela nova “escola”, acaba por ser efetivamente mais revolucionário na sua poesia que seus contemporâneos.

Casais Monteiro levanta ainda outra questão bastante interessante: O gosto pela oralidade teria causado no poeta o interesse pelo cotidiano ou seria o apego ao cotidiano que teria dado característica de oralidade à sua obra? O fato é que, de acordo com ele, foi graças a esta oralidade e a esse interesse que a poesia de língua portuguesa ingressou na era industrial.

Toda a obra de Cesário Verde parece prosa. Assim como Iracema, de José de Alencar pode ser classificado como um poema em prosa, a obra de Cesário Verde talvez pudesse ser chamada de prosa em poema. Organizando seu discurso em versos e estrofes, com rima e métrica num “estilo que lembra a conversação despreocupada, o poeta consegue “prosear”.

De fato, o coloquialismo e o apego ao quotidiano são características marcantes na poesia de Cesário Verde. Entre todos os seus poemas, podemos encontrar apenas quatro que não são escritos em primeira pessoa, seus poemas são, então, um expor de sentimentos despertados pela observação do mundo a seu redor. Ele não se limita, porém, à simples observação. As coisas observadas por ele são mais que paisagens ou objetos de contemplação. São parte dele. O “eu” poético vê a vida passando diante de si ao mesmo tempo que vê a si próprio imiscuído nessa vida. Enquanto caminha na paisagem e observa o cotidiano que o cerca, ele vive esse cotidiano e é essa paisagem. “sua voz se faz pedestre”.

O “eu” desta poesia, porém, não pode ser confundido com uma entidade biográfica, não há nenhum tom de sentimentalismo pessoal isolado da preocupação com o externo e, por isso, os poemas são capazes de expressar o estado de qualquer consciência humana num determinado momento. — o “eu” não é apenas ele, sou eu, somos nós, é a humanidade.

Esse “eu” poético vê o mundo, descreve esse mundo, e o fotografa. Mas fotografa uma vida efervecente e não um mundo estático como uma fração de segundo congelada no tempo. A fotografia de Cesário Verde vive e o poeta participa dessa vida. Por essa razão sua poesia é descritiva mas está longe de ser fotográfica. Nem mesmo cinematográfica podemos dizer que seja, uma vez que os objetos não são descritos como são — estáticos e exteriores — mas impregnados, coloridos, absorvidos das sensações que despertam no poeta. Essa fixação de uma imagem em movimento, de uma paisagem valorizada pelas sensações que desperta, aproxima a poesia de Cesário Verde do impressionismo.

Outra característica inovadora na poesia de Cesário Verde é que nela não há o contraste campo / cidade como oposição entre o ideal e o real, que é a forma comumente encontrada na literatura até mesmo nos dias atuais. Na sua poesia, campo e cidade se integram, fazem parte da mesma realidade.

Não deve haver exagero em afirmar que tenha sido por causa dessas características inovadoras e excessivamente revolucionárias, que muitos dos contemporâneos de Cesário Verde o tenham acusado de “mau gosto” e tenham taxado sua poesia de antipoética.

O social

Embora esse tema esteja presente em quase toda sua obra, há entre os poemas de Cesário Verde alguns que podem ser destacados pela ênfase maior numa temática fortemente social.

Nessa linha podemos destacar o poema “desastre” em que o poeta usando com frequência a ordem inversa parece dar concretude ao espanto e à estupefação do narrador, como se este não conseguisse ordenar as idéias diante de cena tão chocante. O poema descreve um acidentado carregado em uma maca e animado por um amigo. Fala, depois, do mundo indiferente, das pessoas e do movimento da cidade que não se alteraram diante da cena comovente.

Morre então o acidentado, “findara honradamente”, e vem a reação das pessoas diante da passagem do morto. A curiosidade mórbida, insensível, sensacionalista e indiferente. Em seguida, o poeta faz a descrição da vida do morto, um pobre coitado, um trabalhador braçal sem família, um ser humano que sofria desde criança na luta pela vida. E quando o féretro passa por um bem sucedido político, o poeta pensa nos filhos naturais desses tão bem postados homens que seriam, talvez, como o morto, um ninguém. Mas, usando sua fina e cortante ironia, pretende recusar o pensamento como que vexado diante da importância do político, que é cortejado até mesmo por um padre. Volta ao morto: “E o desgraçado?”. Esse foi enterrado em vala comum sem nem mesmo a presença dos colegas, que não conseguiram o consentimento do patrão para interromper o trabalho. Ao final do poema, o patrão comenta a morte do pobre homem como resultado de uma bebedeira.

DESASTRE

Ele ia numa maca, em ânsias contrafeito,

Soltando fundos ais e trêmulos queixumes;

Caíra dum andaime e dera com o peito,

Pesada e secamente, em cima duns tapumes.

A brisa que balouça as árvores das praças,

Como uma mãe erguia ao leito os cortinados,

E dentro eu divisei o ungido das desgraças,

Trazendo em sangue negro os membro ensopados.

Um preto que sustinha o peso dum varal,

Chorava ao murmurar-lhe: “Homem não desfaleça!”

E um lenço esfarrapado em volta da cabeça,

Talvez lhe aumentasse a febre cerebral.

Flanavam pelo aterro os dândis e as cocotes,

Corriam char-à-bancs cheios de passageiros

E ouviam-se canções e estalos de chicotes,

Junto à maré, no Tejo, e as pragas dos cocheiros.

Viam-se os quarteirões da Baixa: um bom poeta,

A rir e a conversar numa cervejaria,

Gritava para alguns: “Que cena tão faceta!

Reparem! Que episódio! “ Ele já não gemia.

Findara honradamente. As lutas, afinal,

Deixavam repousar essa criança escrava,

E a gente da província, atônita, exclamava:

“Que providências! Deus! Lá vai para o hospital!”

Por onde o morto passa há grupos, murmurinhos;

Mornas essências vêm duma perfumaria,

E cheira a peixe frito um armazém de vinhos,

Numa travessa escura em que não entra o dia

Um fidalgote brada a duas prostitutas:

“Que espantos! Um rapaz servente de pedreiro!”

bisonhos, devagar, passeiam uns recrutas

E conta-se o que foi na loja dum barbeiro.

Era enjeitado, o pobre. E, para não morrer,

De bagas de suor tinha uma vida cheia;

Levava a um quarto andar cochos de cal e areia,

Não conhecera os pais, nem aprendera a ler.

Depois da sesta, um pouco estonteado e fraco,

Sentira a exalação da tarde abafadiça;

Quebravam-lhe o corpinho o fumo do tabaco

E o fato remendado e sujo de caliça.

Gastara o seu salário — oito vinténs ou menos —,

Ao longe o mar, que abismo! E o sol, que labareda!

“Os vultos, lá embaixo, oh! Como são pequenos!”

E estremeceu, rolou nas atrações da queda.

O mísero a doença, as privações cruéis

Soubera repelir — ataques desumanos!

Chamavam-lhe garoto! E apenas com seis anos

Andara a apregoar diários de dez-réis.

Anoitecia então. O féretro sinistro

Cruzou com um coupé seguido dum correio,

E um democrata disse: “Aonde irás, ministro!

Comprar um eleitor? Adormecer um seio?”

E eu tive uma suspeita. Aquele cavalheiro,

conservador, que esmaga o povo com impostos —,

mandava arremessar — que gozo! Estar solteiro! —

Os filhos naturais à roda dos expostos...

Mas não, não pode ser... Deite-se um grande véu...

De resto, a dignidade e a corrupção... que sonhos!

Todos os figurões cortejam-no risonhos

E um padre que ali vai tirou-lhe o solidéu.

E o desgraçado? Ah! Ah! Foi para a vala imensa,

Na tumba, sem o adeus dos rudes camaradas:

Isto porque o patrão negou-lhes a licença,

O inverno estava à porta e as obras atrasadas.

E antes, ao soletrar a narração do fato,

Vinda numa local hipócrita e ligeira

Berrava ao empreiteiro, um tanto estupefato:

Morreu!? Pois não caísse! Alguma bebedeira

Neste poema, Cesário Verde faz com que o leitor se sinta parte da multidão que observa o acontecimento tornando-o cúmplice dos sentimentos que o acidente desperta no poeta. Coloca o fato diante dos olhos do leitor como uma tela viva, o que permite comparar o poema ao quadro Acidente de trabalho de Proença Sigaud.

“Desastre” pode ainda ser comparado ao poema-música “Construção”, de Chico Buarque de Holanda que tem também como tema um acidente e a indiferença da sociedade diante de um pobre trabalhador da construção civil que “Morreu na contramão atrapalhando o sábado”

CONSTRUÇÃO

Amou daquela vez como se fosse a última

Beijou sua mulher come se fosse a última

E cada filho seu como se fosse o único

E atravessou a rua com seu passo tímido

Subiu a construção como se fosse máquina

Ergueu no patamar quatro paredes sólidas

Tijolo com tijolo num desenho mágico

Seus olhos embotados de cimento e lágrima

Sentou pra descansar como se fosse sábado

Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe

Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago

Dançou e gargalhou como se ouvisse música

E tropeçou no céu como se fosse um bêbado

E flutuou no ar como se fosse um pássaro

E se acabou no chão feito um pacote flácido

Agonizou no meio do passeio público

Morreu na contramão atrapalhando o tráfego

Amou daquela vez como se fosse o último

Beijou sua mulher como se fosse a única

E cada filho seu como se fosse o pródigo

E atravessou a rua com seu passo bêbado

Subiu a construção como se fosse sólido

Ergueu no patamar quatro paredes mágicas

tijolo com tijolo num desenhe lógico

Seus olhos embotados de cimento e tráfego

Sentou pra descansar como se fosse um príncipe

Comeu feijão com arroz como se fosse o máximo

Bebeu e soluçou como se fosse máquina

Dançou e gargalhou como se fosse o próximo

E tropeçou no céu como se ouvisse música

E flutuou no ar como se fosse sábado

E se acabou no chão feito um pacote tímido

Agonizou no meio do passeio náufrago

Morreu na contramão atrapalhando o público

Amou daquela vez como se fosse máquina

Beijou sua mulher como se fosse lógico

Ergueu no patamar quatro paredes flácidas

Sentou pra descansar como se fosse um pássaro

E flutuou no ar como se fosse um príncipe

E se acabou no chão feito um pacote bêbado

Morreu na contramão atrapalhando o sábado

Chico Buarque de Holanda

O pessoal

Acontece também de a participação do poeta estar em primeiro plano, o que torna o texto extremamente pessoal, carregado de sentimentos e impressões do eu poético. É o caso de “contrariedades” no qual a revolta é exposta tão fortemente que o poema mais parece uma prosa cheia de interjeições.

Eu hoje estou cruel, frenético, exigente

Nem posso tolerar os livros mais bizarros.

Incrível! Já fumei três maços de cigarros

Consecutivamente

O poeta se diz mal — e mau —, abafando desespero. Conta de uma pobre doente sua vizinha, a trabalhar sem poder e mal tendo ganho para a sobrevivência. Depois volta a falar de si mesmo, recusado por um jornal quando enviou poemas, a revolta que o fez destruir suas obras. Há um grande desabafo no qual diz ser sempre recusado por ser independente, por criar Arte e não apenas coisas para vender (folhetins populares). Conta que detesta escrever em prosa e que não adula ninguém, apenas compõe seus versos originais.

Volta à doente que trabalha sem poder, que se alimenta mal por não ter meios, mas que, apesar disso, às vezes canta. Resolve tomar a lição da vizinha e deixar os “azedumes”, quem sabe a sorte mudará. Passa a raiva. E a vizinha? Talvez não tenha o que comer, já é noite e ainda trabalha. Para piorar tudo é feia, coitada!

E estou melhor; passou-me a cólera. E a vizinha?

A pobre engomadeira ir-se-à deitar sem ceia?

Vejo-lhe luz no quarto. Inda trabalha. É feia...

Que mundo! Coitadinha!

A ironia

Cesário Verde é muitas vezes irônico, como por exemplo no poema “impossível” em que, com uma graça bem humorada, repudia o casamento:

Eu posso amar-te como o Dante amou,

Seguir-te sempre como a luz ao raio,

Mas ir, contigo, à Igreja, isso não vou,

Lá nessa é que eu não caio!

E quando, também com muita graça, ironiza a passagem do tempo que “amadurece” as pessoas.

E eu que daria um rei por cada teu suspiro

Eu que amo a mocidade e as modas fúteis, vãs,

Eu morro de pesar, talvez porque prefiro

O teu cabelo escuro às veneráveis cãs!

Enfim, lendo Cesário Verde o que se pode concluir é que ele é um poeta versátil, original e marcante a ponto de sua poesia conservar muito da atualidade ainda hoje e fora de seu país. Pode-se afirmar ainda que cada poema seu mereceria uma análise mais profunda e sua obra é digna de comentários e interpretações mais cuidadosos, mas não é esse, no momento o propósito desse trabalho. Portanto, tudo que se pode afirmar é que Cesário Verde pode ser uma leitura surpreendente, exigindo uma pausa para reflexão, uma pausa para “sentir” cada um de seus poemas antes de passar ao próximo. E, tomando como gancho o que foi dito pelo jornal Correio da manhã, em 04-07-1955: “Ë impossível negar a influência de C. Verde no poeta do Eu”. (matéria não assinada), é possível ainda afirmar, sem medo de exageros, que, se realmente foi influenciado por Cesário Verde, Fernando pessoa bebeu em boa fonte.

O SIM CONTRA O SIM

A Felix de Athayde

Cesário Verde usava a tinta

de forma singular:

não para colorir,

apesar da cor que nele há.

Talvez que nem usasse tinta,

somente água clara,

aquela água de vidro

que se vê percorrer a Arcádia.

Certo, não escrevia com ela,

ou escrevia lavando:

revelava, enxaguava

seu mundo em Sábado de banho.

Assim chegou aos tons opostos

das maçãs que contou:

rubras dentro da cesta

de quem no rosto as tem sem cor.

João Cabral de Melo Neto

BIBLIOGRAFIA

ABDALA JÚNIOR, Benjamin e PASCHOALIN, Maria Aparecida – História Social

Da Literatura Portuguesa, São Paulo, Ática, 1985

BOSI, Alfredo – História concisa da literatura brasileira, São Paulo, Cultrix, 1990

MONTEIRO, Adolfo Casais – O livro de Cesário Verde, São Paulo, Cultrix, sd

MOISÉS, Massaud – A literatura portuguesa, São Paulo, Cultrix, 1991

_____________ - A literatura portuguesa através dos textos, São Paulo, Cultrix,

1990

NICOLA, José de – Literatura Brasileira, das origens aos nossos dias, São Paulo,

Scipione, 1998

Março/99

CESÁRIO VERDE

A primeira coisa que chama a atenção do leitor nesta obra de Cesário Verde é que entre todos os seus poemas podemos encontrar apenas quatro que não são escritos em primeira pessoa. Seus poemas são, então, uma conversa aberta e franca consigo mesmo, um expor de sentimentos despertados no poeta pela observação do mundo a seu redor.

Há entre os poemas de Cesário Verde alguns que podem ser destacados pela temática fortemente social. Embora esse tema tão complexo e atual seja quase uma constante em sua obra, em alguns casos há uma ênfase maior para um determinado aspecto dele.

Nessa linha podemos destacar o poema “desastre” onde, nas três primeiras estrofes o poeta descreve um acidentado carregado em uma maca e animado por um amigo. Depois o poeta fala do mundo indiferente, das pessoas e do movimento da cidade que não se alterou à cena comovente.

Morre então o acidentado “findara honradamente”, e vem a reação das pessoas diante da passagem do morto, a curiosidade mórbida, insensível, sensacionalista e indiferente. Em seguida, o poeta faz a descrição da vida do morto, um pobre coitado, um trabalhador braçal sem família, um ser humano que sofria desde criança na luta pela vida. E quando passa o féretro por um bem sucedido político, o poeta pensa nos filhos naturais desses tão bem postados homens que seriam, talvez, como o morte, um ninguém. Mas recusa o pensamento diante da tão grande importância do político, que é cortejado até mesmo por um padre. Volta ao morto: “E o desgraçado?”. Esse foi enterrado em vala comum sem nem mesmo a presença dos colegas que não tiveram consentimento do patrão para interromper o trabalho. Ao final do poema. O patrão comenta como resultado apenas de uma bebedeira, a morte do pobre homem.

E antes, ao soletrar a narração do fato,

Vinda numa local hipócrita e ligeira

Berrava ao empreiteiro, um tanto estupefato:

Morreu!? Pois não caísse! Alguma bebedeira

Esse poema é de uma qualidade narrativa e dramática impressionante. E um poema que prende na sua leitura e que penetra fundo o leitor, abalando seus sentimentos.

E é atual. Tão comovente e realista crítica é feita por Chico Buarque de Holanda no poema-música “Construção” e Chico Buarque não ér mais atual na música do que Cesário Verde nesse poema, apesar dos anos que os separam. O poema surpreende pela sua contemporaneidade.

em Cesário Verde, na maioria dos poemas, um “eu” poético que vê o mundo, que descreve esse mundo, que o fotografa, mas que fotografa uma vida efervecente e não um mundo estático como uma fração de segundo congelada no tempo, como é uma fotografia. A fotografia de Cesário Verde vive e o poeta participa dessa vida, mas acontece também de a participação do poeta estar em primeiro plano o que faz um poema extremamente pessoal, carregado de sentimentos e impressões do eu poético com a fotografia em segundo plano.

Isso acontece no poema “contrariedades”onde há uma revolta incontida, um nervosismo palpável e uma impressionante clareza e realidade

Esse poema já começa com um desabafo revoltado e surpreendido(?)

Eu hoje estou cruel, frenético, exigente

Nem posso tolerar os livros mais bizarros.

Incrível! Já fumei três maços de cigarros

Consecutivamente

O poeta se diz mal, abafando desespero, conta de uma pobre doente sua vizinha, a trabalhar sem poder e mal tendo ganho para a sobrevivência e diz de si mesmo, recusado por um jornal quando enviou poemas e a revolta que o faz destruir suas obras. É um grande desabafo onde ele diz ser sempre recusado por ser independente, por criar Arte e não apenas coisas para vender (folhetins populares). Fala detestar escrever em prosa e não adular ninguém, apenas compor seus versos originais.

Volta à doente que trabalha sem poder, que se alimenta mal por não Ter meios, mas que, apesar disso, às vezes canta.

Resolve tomar a lição dessa e deixar os “azedumes”, quem sabe a sorte mudará. Passa a raiva, e a vizinha? Talvez não tenha o que comer, já é noite e ainda trabalha, para piorar tudo é feia, coitada!

E estou melhor; passou-me a cólera. E a vizinha?

A pobre engomadeira ir-se-à deitar sem ceia?

Vejo-lhe luz no quarto. Inda trabalha. É feia...

Que mundo! Coitadinha!

Esse poema é o mais pessoal que pode ser encontrado no livro e nos passa tão bem o sentimento de ira do poeta que parece uma prosa cheia de interjeições.

Aliás, toda a obra de Cesário Verde parece prosa. Assim como José de Alencar escreveu Iracema que é uma poesia em prosa, Cesário Verde escreve prosa em poema, é notável como, arranjado em versos, estrofes, com rima e métrica o poeta consegue “prosear” tão bem. Causa a leitura de Cesário Verde uma enorme admiração por essa capacidade de “prosear” em versos.

Cesário Verde é muitas vezes irônico, como por exemplo no poema “impossível” onde com uma graça bem humorada repudia o casamento:

Eu posso amar-te como o Dante amou,

Seguir-te sempre como a luz ao raio,

Mas ir, contigo, à Igreja, isso não vou,

Lá nessa é que eu não caio!

E quando, também com muita graça, ironiza a passagem do tempo que “amadurece” as pessoas.

E eu que daria um rei por cada teu suspiro

Eu que amo a mocidade e as modas fúteis, vãs,

Eu morro de pesar, talvez porque prefiro

O teu cabelo escuro às veneráveis cãs!

Enfim, lendo Cesário Verde o que salta aos olhos é que ele é um poeta tão versátil, tão original e tão marcante que cada poema seu mereceria sem dúvida, uma análise profunda e páginas e páginas de comentários e interpretações, mas tudo que pode ser dito de forma reduzida pela falta, no momento de ocasião para tal análise, é que Cesário Verde é uma leitura agradável e surpreendente, exigindo uma pausa para reflexão, uma pausa para “sentir” cada um de seus poemas antes de passar ao próximo. E como foi dito que Fernando pessoa foi influenciado por Cesário Verde, o que se pode afirmar, sem medo de exageros, é que Fernando Pessoa bebeu em boa fonte.

Bibliografia

MONTEIRO, Adolfo Casais – O livro de Cesário Verde, São Paulo, Cultrix, sd.