30 de janeiro de 2007

ZILIGUIDUM


Sabe onde você estava antes de nascer?
Você, eu, nós, todo mundo...
Onde a gente estava antes de estar lá no quentinho da barriga da mamãe?
Eu vou te contar. Espera só um pouquinho. Deixa eu buscar meu estojo de tintas pra poder desenhar tudo pra você.
Pronto. Voltei. Agora deixa eu te mostrar...
Era um lugar mais ou menos assim...
Bonito, cheio de cores e perfumes...Você está sentindo os perfumes?
Feche os olhos, respire fundo....Talvez você sinta...
Sentiu? ......Sabe... com tintas é difícil pintar cheiros.
Como será que é um cheiro?
Bem, deixa eu continuar a história.... Lá, nesse lugar que você está vendo aqui é onde a gente vivia antes de ser gente.
Olha só como é que todo mundo era.
Viu?
A gente até podia voar!
Você reparou nessas árvores que estão em todos os desenhos que eu fiz até agora? E os frutos?
Olha mais de perto.
Pois essa é a árvore de ziliguidum. Você quer saber o que é ziliguidum? Pois é uma fruta muito, muito, muito...
(olha, pra dizer o tão muito eu ia ter que encher esse livro todinho de muito, então eu vou parar, mas você imagina um livrão cheio da palavra muito pra contar como é bastante, tá?)
... Muito gostosa mesmo!
E o que é que a gente ficava fazendo nesse lugar cheinho de árvore de ziliguidum?
...... Comendo ziliguidum!
E quando nós chegamos na barriga quentinha da mamãe? E quando nós nascemos e chegamos nessa vida que é gostosa até não querer mais?
... Nós ficamos felizes.
Nessa vida também tem uma porção de coisas gostosas... Tem doces...Tem sorvete...Tem mamãe...
(Vamos combinar uma coisa? Você completa a lista, tá?)
Só tem um probleminha...
NÃO TEM ZILIGUIDUM!!!

Lembra quando você sente aquela vontade enorme de comer uma coisa bem gostosa?
Você pensa, pensa e não sabe o que é que você quer...
Daí você diz: “Eu tô com vontade de comer uma coisa...
Mas não sei o que é...”
E você acaba aceitando a gelatina que está ficando dura na geladeira, ou aquele chiclé que foi esquecido no bolso. Ou então, se você tiver sorte, um pedaço daquele bolo com recheio e cobertura de chocolate que foi o último que sua mãe fez antes de começar o regime...
Agora você já sabe... Aquela vontade de comer alguma coisa que a gente não sabe o que é, é saudade do ziliguidum.
Feche os olhos e você vai sentir...
E quando você sonha que está voando?

(Inventei essa historinha pro meu filho quando ele era bem pequeno. Depois disso, de vez em quando, ele dizia pra mim: “Divina, eu tô cuma vontade de comer ziliguidum”. Essa foi uma frase que marcou a infância dele.)

25 de janeiro de 2007

UMA VIDA COM MUITO AMOR

Eu estou doente de Mentira. Não, não é que eu esteja inventando uma doença, ou que diga estar doente sem realmente sentir nada... Estou doente de MENTIRA, a mentira é que é a minha doença. Explicar melhor? Bem, é que comecei a mentir há muitos anos e minha vida toda foi se construindo com mentiras até que tudo foi acabando e agora nem mesmo a mentira consegue ser alguma coisa importante pra mim. Sinto dores pelo corpo todo, estou com as mãos praticamente paralisadas e os dedos retorcidos como garras disformes. Não consigo caminhar dez metros sem sentir dores e travar totalmente a coluna. Caminho com o corpo torto, arqueada para a frente e um pouco virada para a esquerda, não tenho mais a mínima possibilidade de me pôr em linha reta, nem deitada nem em pé. Acho que tudo isso foi causado pela mentira, ela foi minando meu corpo. Cada vez que eu mentia algum veneno se guardava na minha carne até que o acúmulo me tornou esse ser retorcido e triste.

23 de janeiro de 2007

OI PAIZÃO!

Estique teus longos braços
Num espreguiçamento bom
Abra os olhos, os ouvidos
Abra-se para perceber tudo que eu não posso te contar.
Estas vibrações
São os gritos das pessoas que sofrem
São tantas!
Este cheiro
É da sujeira que impregnou tudo
Todos os lugares do mundo
Inclusive o interior das almas
É poluição, paizão.
As coisas estão enevoadas
A hipocrisia deixou opaco
O interior e o exterior do homem
Não se vê muito e no pouco que se vê não se pode confiar.
Olha para o mundo
Dissimulação
Desordem
Desamparo
Provavelmente vai achar melhor deitar-se novamente
Dormir mais alguns milhões de anos
Quem sabe as coisas mudem um pouco.

Divina de Jesus Scarpim

19 de janeiro de 2007

REFLEXO

Quando preciso suportar as torturas
impostas por um espírito mesquinho
sofro a indiferença
aliada à suprema raiva da impotência
e nada posso fazer.

Tenho esperado durante horas longas
O dia do espelho mágico
Que a mesquinhez se autodestrua
Que eu não seja mais torturada.
Mas, e minha própria mesquinhez?
E o espelho mágico que me falta?
Não tenho nada nas mãos além da covardia
Do medo baixo, rasteiro
De empunhar o espelho e perguntar:
“Espelho, espelho meu
Existe nesse mundo alguém mais mesquinho do que eu?”

Sei que tenho resposta pronta para essa pergunta
Mas a resposta não deve ser minha
E o espelho
Ele realmente o perguntado
Pode dizer-me que não
Que sou extremamente mesquinha
Falsa e pequena
Que a mais insignificante das amebas tem mais espírito do que eu

Pode
Por outro lado
Me dizer que não
Que todos os seres humanos são igualmente mesquinhos
Eu apenas não tive a sorte de poder mostrar minha pobreza de espírito
Ela está lá
Aprendi a mascará-la para que
Acreditem que sou diferente
Mas nem eu sou
Nem as pessoas acreditam realmente
Que eu seja.

Divina de Jesus Scarpim

17 de janeiro de 2007

ENTRE VISTA

Se conheci ele? Olha moça, conheci sim, conheci bem até demais, fui criada com ele.

Quer que eu conte? Tem muito que dizer não moça, sei que ele nasceu lá na roça. Pai tinha não, era filho de uma mulherzinha solteira mas tão quietinha! Tinha parente vivo não moça. A mulherzinha chegou e já estava de barriga, por Deus do céu moça, lembro como se fosse hoje, assim como se tivesse vendo ela agora bem aqui na minha frente, e olha que eu era bem pequenininha, tinha lá uns seis, sete anos, não mais, mas ela me impressionou, moça. Era tão magrinha, tão pequena, com aquela barrigona toda. Mas, coitada, morreu. Só deu tempo de ele nascer, morreu, tava tísica, pobrezinha. Eu lembro do enterro que fizeram pra ela, a velha que ela morava junto tinha dinheiro não, nem sei como é que elas comiam, viviam num barraco preto que de tão pequeno parecia até privada.

10 de janeiro de 2007

Receita para uma vida feliz

Primeiro você diz sempre
O tempo todo e para todo mundo
Que acha lindo ter cabelos brancos
Que não há nada mais belo e comovente do que um velhinho
Ou uma velhinha
Que nos fala com tanta sabedoria
Com tanto amor
Diz bastante que uma hora você vai acabar acreditando mesmo
Depois
Quando seus filhos forem pequenos diga
Sempre
Que seu maior sonho é ter muitos netinhos
Bisnetos
E, se Deus quiser
Ter o prazer de brincar com seus tataranetos
Diz bastante
Pra poder acreditar
Aí, quando estiver chegando lá, sorria sempre
Mostre-se bem disposta e
Mesmo que o esforço te custe a vida
Diga e proclame aos quatro ventos
Que não se trocaria por nenhuma dessas menininhas de dezoito ou vinte anos
Que tem por ai
Todas fracotas
Desorientadas
E que não sabem viver de verdade
Por último
Quando sentir
(Se conseguir chegar consciente até lá)
Que o fim esta próximo
Diga que está feliz
Que não tem medo e que se sente ótima porque sabe que viveu
Da melhor maneira
Talvez você dê sorte de acreditar nas próprias mentiras
Quanto mais senil se torna mais tem essa possibilidade
E então morrerá realmente feliz
Será outra pessoa e ninguém saberá
Ao menos nunca por você
Que velhice é uma merda
E que envelhecer é algo humilhante
Triste e deprimente
E que o único sentimento que pode despertar de verdade
É o superlativo daquela revolta impotente que a gente sente
Quando é assaltada.
!
Divina de Jesus Scarpim

8 de janeiro de 2007

TRÊS HISTÓRIAS DE AMOR À VIDA

I

Era uma vez um homem que morava em um sítio no interior de São Paulo. Isso foi há muitos anos, antes até de eu ter nascido. Pensando bem, foi antes ainda: nem minha mãe era nascida nesse tempo. Pois bem, o tal homem morava no sítio e da roça que plantava tirava o sustento de sua família, e as famílias naquela época costumavam ser muito grandes, bem maiores do que hoje. Só pra você ter uma idéia, minha avó teve onze filhos, e ela não era uma raridade por lá. Voltando ao nosso homem, ele plantava, colhia e vivia do que tirava da terra. Trabalhava de sol a sol juntamente com seus filhos e com sua mulher apenas para conseguir o grande bem de continuar vivo. Muitos de nós fazemos assim ainda hoje. Mas o homem tinha um hobby, que ele por sinal não fazia a mínima idéia de que se chamava hobby. Ele criava passarinhos. Tinha em casa dezenas de gaiolas e não saia para a roça sem antes alimentar os bichinhos, limpar as gaiolas, cuidar, enfim, de todas as necessidades que ele achava que os passarinhos tinham. Mas a vida é mestra e às vezes muito rigorosa. Um ano não choveu, ou choveu demais não sei bem. O que sei é que, por falta ou por excesso de água, naquele ano o homem não teve colheita, não teve plantação, não teve dinheiro e teve, isso sim, uma dívida que não pôde pagar. Foi preso — naquele tempo as pessoas iam presas por não pagar dívidas. Passou algum tempo na cadeia e a mulher e os filhos juraram que cuidariam direitinho dos pássaros. E cuidaram mesmo. Não morreu nenhum. Não sei quanto tempo esse homem ficou preso. Algumas semanas, uns poucos meses, imagino. Não quero crer que uma pessoa honesta e trabalhadora seja presa por anos e anos a fio somente por causa da natureza. O fato é que um dia esse homem saiu da cadeia e voltou para casa. Entrou mudo, cabisbaixo e um tanto apressado. Sem dizer nada a ninguém, antes de abraçar os filhos e beijar a esposa, foi até o quintal e, cuidadosamente, com os olhos marejados e o coração partido, abriu uma a uma todas as suas gaiolas e ficou olhando seus passarinhos levantando vôo.