26 de fevereiro de 2007

VIDA CADELA

Viver é um pé no saco. E olha que eu nem tenho saco... Não tenho mais saco pra brincar de dizer que a vida é legal, não acredito mais nessa mentira há tempos, a vida é um porre, é ruim, é inútil, é desagradável. Viver não tem nenhuma razão, nenhum sentido, nenhuma graça.

Jovem gosta da vida porque só vive, não pensa. Mas a gente vai vivendo e começa a pensar. Por que será que é tão importante pra raça humana ficar se dizendo o tempo todo que a vida é legal? Se fosse mesmo seria preciso ficar dizendo tanto? Por que a maioria das religiões condena o suicídio, não seria para que não haja suicídios em massa? Por que a gente tem tanto medo da morte se a vida é muito mais apavorante? Deve ser porque sem esse medo atávico a gente se recusaria a viver. Quem iria querer ficar nesse mundo tão ruim se não estivesse preso por um instinto que nada tem da racional?

23 de fevereiro de 2007

MORTE-MORTA

Morrer foi como acender uma luz
Uma luz que ilumina sem cegar
Que não deixa cantinho escuro
Que faz enxergar na frente
Atrás, debaixo
Em cima e acima
Sem segredos

Morrer foi como acender uma luz
De repente, sem dor ou perda
Como despertar da inconsciência
Como descobrir que tudo é tão simples
Tão simples que palavras não explicam
Palavras são complicadas e pobres
Palavras não definem nada
Como poderiam então definir o Tudo?

Morrer foi como acender uma luz
De repente sei tudo, sei mais do que tudo
SEI
Sei sem a barreira da carne
Sei sem a barreira da vida
Sei sem a barreira do tempo
Sei sem a barreira do conhecimento racional
Tão estreito, sinuoso, escuro...
Sei

Morrer foi como acender uma luz
Quando era cega eu sentia pena do pobre e raiva do rico
Cega! Sou o pobre e o rico
Quando era cega eu sentia pena do torturado e ódio do torturador
Cega! Sou o torturado e o torturador
Quando era cega eu sentia pena da caça e aversão ao caçador
Cega! Sou a caça e o caçador
Quando era cega eu sentia a dor do desprezado e mágoa de quem desprezou
Cega! Sou o desprezado e o que desprezou
Sou

Morrer foi como acender uma luz
Quando cega sentia saber um pouco do presente e ignorava o passado
Sou o tempo
Quando cega sentia estar em um único lugar
Sou todos os lugares
Quando cega pensava estar limitada
Por uma pele e cinco sentidos
Não tenho nenhum limite
Sou o infinito

Morrer foi como acender uma luz
Eu que sou infinito brinquei de me dividir
Brincando me tornei cega e me fiz apenas uma parte
Eu que não tenho começo ou fim fui pedaço de acontecimento
Estive em uma pequena parte de mim
Cega

Morrer foi como acender uma luz
Quando era cega eu criei um deus
Eu sou esse deus
Quando era cega eu tinha medo da morte
Que piada! Não há morte
Quando era cega eu tinha medo da dor
Mas se não existe dor
Quando era cega eu pensava que havia uma desconhecida realidade
A realidade sou eu

Morrer foi como acender uma luz
Eu que antes pensava ser uma
Me descobri plural
Eu que não sabia nada
(estava cega)
Das outras partes de mim
Agora sei que sou tudo, sou todos
Sou a que sabia ser
Sou todos os que ignorava
No tempo e além do tempo
Em todos os espaços
Eu sou

Morrer foi como acender uma luz
Viver foi como brincar de esconde-esconde
Ficar encolhida em um canto escuro
Fechar os olhos
Adormecer todos os membros
Perder quase toda a consciência
E ter medo de ser encontrada
E de se encontrar

Morrer foi como acender uma luz!

14 de fevereiro de 2007

MEDO

Acredita amar a pessoa mais linda do mundo, deseja a água mais cristalina, sonha a vida mais cor-de-rosa, pensa a realização do mais nobre ideal e tudo que tem é sua vida acabada, seu sonho acordado, cansado e sem paz, suas mãos feridas e seus olhos secos e ardentes. A vida traz ar puro, respira rápido demais e nada sobra além do suicídio lento de quem sufoca e não tem como pedir socorro. Sonha, ama, perde, gasta e tudo fica vazio e triste, e fica sozinho, abandonado e cheio da piedade imensa de compreensão que só ele mesmo pode se dar. Ama e não aprende a dar, não aprende a soltar seu ser como névoa sobre o corpo amado. Depois ... perde a fé.

12 de fevereiro de 2007

RESPOSTA A UM TEXTO QUE PEDE AOS POLÍTICOS PELA PENA DE MORTE NO BRASIL

E vamos apelar logo aos políticos em favor da pena de morte?????????????

A essa "comunidade" que abriga muitos dos financiadores e grandes cabeças criadoras de "seres humanos" como os que arrastaram o garoto????????????

Em um país que vota em bandido, acoberta bandido e admira bandido (desde que seja branco, rico e tenha nível superior!), eu jamais arriscaria sequer a pensar na hipótese da pena de morte, ainda mais orquestrada por bandidos que deveriam ser os primeiros na fila para a execução.

9 de fevereiro de 2007

REALIDADE

Era Ana

Ana de boca fechada

Ana de beiço caído

Era Ana

Era Ana das pernas calombadas

Do cabelo pixaim

E dos olhos mortos

Era Ana

Era Ana viva-morta

Que trabalhava como burro

Que andava com a bacia equilibrada na cabeça

Com roupa suja e encardida

Pra lavar

Era Ana

Era Ana que falava pouco

Ria quase nunca

Não mostrava os dentes

Dentes pretos, quebrados

Boca de mau hálito

Coração já de má fé

Era Ana

Era Ana mulher do negro José

Negro cachaceiro

Arruaceiro e folgado que só

Era Ana

Era Ana que trabalhava sol

Chuva e pó

Que carregava bacia e barriga

Uma, duas, três...

Era Ana

Era Ana que paria sete

Sete pretinhos de olhos tristes pra comer o barro do chão

Pra brincar de tristeza na maloca

Na favela de lá

Era Ana


Era Ana que apanhava calada de marido bêbado

E que toda marcada da surra ia consolar filho caçula

Que acordava e chorava

Que assustava das pancadas

Era Ana

Era Ana que barriga oito mas não dá

Era Ana

Era Ana que nunca parava

Que nunca pensava

Que nunca olhava futuro nenhum

Que agora parou

Que agora pensou

Que agora olhou e viu sangue

Viu feto morto escorrer por entre as pernas

Era Ana

Era Ana que matou

7 de fevereiro de 2007

CAMINHANTE

Sou viajante mascarado andando sob um véu de solidão.

Caminho sem descanso, dia e noite, e com meus olhos de monalisa vejo ao mesmo tempo todos os rostos (máscaras) que como eu se velam e se revelam no caminhar. Passam por mim pessoas, sorrisos, vozes e eu ouço, penso e guardo na bagagem todos os reflexos dessa visão.

Dentro da mochila que levo às costas pesa uma coleção de tristezas, alegrias, conquistas e derrotas; histórias de amor e ódio que me contaram e que vivi.

5 de fevereiro de 2007

Visitando meus poetas...

VOU-ME EMBORA PRA PASÁRGADA
Visitando Manuel Bandeira

Vou-me embora pra Pasárgada
De ficar aqui já cansei
Não tenho nada que eu quero
Nada do que desejei
Vou-me embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada
Quero mais é ser feliz
Tô cheio de procurar cura
Pra tudo que é delinqüente
Sou quem da vida só apanha
Enquanto ganha o que mente
E ainda põe todo parente
A emagrecer o meu bife

A madame faz ginástica
Pedala na bicicleta
Pra perder um peso brabo
De tanto comer, percebo
E toma banhos de mar
Enquanto eu fico cansado
Do trabalho e me arrepio
Como se entrasse na água
Quando tenho que inventar histórias
E contar pra cada menino
Que da vida vem reclamar
Vou-me embora pra Pasárgada

Já estou cansado de tudo
Nessa criminosa civilização
Que só faz construir muro
Pra impedir a invasão
De pobres, mendigos, velhos reumáticos
Que acaso tenham vontade
De ver as coisas bonitas
Que nunca poderão comprar
Tudo aqui me deixa tão triste
Porque não posso dar um jeito
Dessa gente do poder
Alguma vergonha tomar
Deixar a pose de rei
Tudo que na vida espero
Sei que ter não poderei
Vou-me embora pra Pasárgada

ENCANTO
Visitando Manuel Bandeira

Eu faço versos como quem vive
cada momento... cada segundo...
Abre meu livro, comigo venha
Ver tudo aquilo que há no mundo.

Meu verso é riso. É sol poente
Tristeza espanta... às vezes não...
Corre nas veias qual sangue quente,
E bate forte meu coração.

Estes meus versos de vida louca
Que uma esperança na vida ponha,
Daqueles cuja alegria é pouca.

Eu faço versos como quem sonha.

CAMA DE PAPEL
Visitando Guilherme de Almeida

Quando o dia terminava e um cobertor fino
cobria minha pele trêmula e arrepiada,
eu tentava dormir pela calçada,
nos meus tristes tempos de menino.

Fazia, de jornal uma cama gelada;
e, estendendo meu corpo pequenino,
eu soltava gemidos sem destino
ao longo das sarjetas, na enxurrada...

Fiquei moço. E hoje sei, pensando neles,
que não tenho direito a ter ideais:
meus dias são tão tristes como aqueles,
perfeitamente, exatamente iguais..
e os meus sonhos, o que dizer deles!
Nunca vieram e não voltarão mais!

CANTIGA DO BÊBADO
Visitando Drummond

No meio do caminho tinha uma festa
tinha uma festa no meio do caminho
tinha uma festa,
no meio do caminho tinha uma festa

Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma festa
tinha uma festa no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma festa.

CANÇÃO DO EXÍLIO
Visitando Gonçalves Dias

Minha terra tem algumas palmeiras,
Mas não tem mais sabiá;
As aves que aqui gorjeiam,
Estão nas gaiolas a penar.

Nosso céu ainda tem estrelas,
Mas nossas várzeas não têm mais flores,
Nossas flores foram arrancadas,
Nossa vida é cheia de horrores.

De sair, sozinho, à noite,
Muito medo encontro eu lá;
Minha terra tem poucas palmeiras,
E não tem mais sabiá.

Minha terra tem horrores,
Que tais não encontro eu cá;
De sair – sozinho, à noite –
Muito medo encontro eu lá;
Minha terra tem poucas palmeiras,
E não tem mais sabiá.

Não permita Deus que eu morra
Sem ver melhoras por lá;
Sem que se acabem os horrores
Que não encontro por cá;
Sem que volte a ter palmeiras,
E que tenha sabiá.

2 de fevereiro de 2007

Nada

Não sou nada.
Nunca serei nada
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
(Fernando Pessoa)

A vida é ruim, tem muito mais coisas ruins do que boas e nós não existiríamos se não fôssemos dotados de um instinto de preservação tão grande e de um atávico medo do desconhecido. Negamos para todos e principalmente para nós mesmos o fato de que não somos nada e não temos nenhuma importância. Criamos um deus à nossa imagem e semelhança e fizemos com que ele nos ordenasse "crescei e multiplicai", e fizemos com que ele dissesse ter-nos feitos à sua imagem e semelhança. Tudo isso fizemos para negar o nada que somos e a importância nenhuma que temos.
Não fosse esse forte instinto de preservação e esse terrível medo do desconhecido, cometeríamos suicídio em massa e a raça humana já não existiria mais na terra há muitas centenas de anos.