29 de março de 2007

O QUE É REALIDADE? - REESCRITA

Existem três tipos de realidade diferentes, mas que estão interligadas. Como um conjunto com um subconjunto que, por sua vez, tem também um subconjunto. O primeiro desses conjuntos é a Realidade Natural

A realidade natural existe independentemente do homem, é realidade a existência dos dinossauros, do sol ou das estrelas anterior, independente e, provavelmente, no caso das estrelas, posteriormente à realidade da existência do homem. Essa realidade é objetiva, genérica, universal. Obedece a leis lógicas, matemáticas.

O segundo conjunto é o conjunto da realidade humana.

A realidade humana é subjetiva porque é a apreensão da realidade natural através dos nossos sentidos, e nossos sentidos são limitados e não são confiáveis. Apreendemos parte da realidade natural e temos um certo controle sobre ela, o controle só é possível, portanto, quando se trata de fenômenos objetivos, como apagar e acender uma lâmpada, fechar ou abrir uma janela. Esse controle não é possível quando se tratar de fenômenos subjetivos, por exemplo, não temos controle sobre a mente do outro e, embora convivamos décadas com uma pessoa, não teremos nenhum controle ou conhecimento verdadeiro daquela pessoa, ou às vezes de nós mesmos e de nossos sentimentos, porque são realidades subjetivas.

Realidade humana é diferente da realidade, por exemplo, de um cachorro. A constituição de cidades, política, leis, etc. fazem parte da realidade humana.

Dentro dessa realidade está outra ainda mais subjetiva, a realidade individual. Os sentidos são diferentes de pessoa para pessoa. A realidade humana é aquilo que é apreendido pelos nossos sentidos, cada um apreende de forma diferente, interpreta de forma diferente o que seus sentidos captam, portanto, cada um tem uma realidade diferente, diferente da realidade comum mas ao mesmo tempo consciente dela.

A realidade é constituída pela consciência humana, a consciência produz idéias a partir dessa realidade apreendida pelos sentidos, essas idéias têm, então uma carga simbólica. Apesar dessa carga simbólica, dessa subjetividade, a realidade é algo com sentido, porque tem como base a realidade natural, que é objetiva e lógica. Portanto, embora seja subjetiva, a realidade humana, individual ou não, não pode desobedecer a princípios objetivos

Os animais em geral apreendem a realidade natural através dos sentidos e com base nessas informações, como o cheiro, por exemplo, eles agem. Cada apreensão desencadeia uma ação pré-programada, isto é o que chamamos de intuição, instinto. Somos os únicos animais que criam uma outra forma de linguagem não intuitiva. Ao mesmo tempo que a natureza nos dá os padrões, — os princípios objetivos da natureza estão em nós, estão em nossa intuição — apesar disso e juntamente com isso, queremos criar nossos próprios padrões. Isso faz com que tentemos sempre transformar a realidade, conhecer e manipular a realidade natural, isso faz com que sejamos os únicos animais a transformar a natureza, a ter injustiça.

A consciência produz idéias e essas idéias são processadas em seis níveis:

Senso comum

Mítico

Religioso

Ideológico

Científico

Filosófico

O senso comum, embora seja o mais simples e superficial dos níveis de processamento de idéias é necessário para a socialização do homem, é o senso comum que permite ao homem pertencer a um grupo e ser aceito pelos outros. Embora necessário, o senso comum pode ser prejudicial ao indivíduo na medida em que, se não houver aprofundamento de nível, se o homem se mantiver nesse nível superficial, ele se torna manipulável e controlável. A manipulação do outro através do senso comum é o que se chama de ideologia.

Divina de Jesus Scarpim

26 de março de 2007

INFINITO

Divina de Jesus Scarpim

Uma folha de papel em branco é

Um mundo onde tudo cabe

Tudo

Não há limite

Nenhum limite no espaço

De uma folha de papel em branco

Posso contar uma história

Sem ponto final

Minha história não acaba nunca

Posso desenhar minha mão

Com minha mão toco o mundo

Tenho muitos mundos

Na palma da minha mão

Tenho muitos mundos

Nas pontas dos meus dedos

Em uma folha de papel

Posso colocar meu eu

Eu sou um infinito

21 de março de 2007

ADOLESCENTE SIDERAL – Um desafio...

Quem? Luciana, a menina que usa boné

O quê? Foi comprar um tênis e caiu da escada rolante

Onde? Em uma nave espacial a caminho de Andrômeda

Quando? Na pré-história

E a Terra finalmente conseguiu construir uma nave para fazer longas viagens. A grande Gaia I, orgulho dos países evoluídos do mundo foi lançada no ano de 2746 com grande festa e cobertura jornalística nunca vista desde a primeira viagem do Homem à lua.

A tripulação inicial da nave Gaia I era composta de 108 famílias, 396 pessoas entre homens, mulheres e crianças. A viagem estava prevista para durar pelo menos 500 anos. Várias gerações estariam, cada uma na sua vez, responsáveis pelo sucesso da missão.

Para que isso fosse possível, a nave foi equipada com o que havia de mais avançado na sociedade da época. Era uma pequena cidade. Pequena, porém extremamente evoluída equipada com os mais modernos laboratórios, bibliotecas e computadores. Havia escolas, hospitais e áreas de lazer. Dispunham de profissionais altamente especializados em todas as áreas pois era através de uma educação de altíssimo nível que se formavam os homens e as mulheres que manteriam a vida da tripulação e a nave em perfeitas condições e no seu curso.

Em 3196 já não havia na nave nenhum dos tripulantes originais. As gerações anteriores tinham conseguido transmitir para as gerações seguintes todo o avanço tecnológico de que eram depositárias e, além disso, haviam encontrado respostas para vários problemas que as primeiras gerações não tinham podido resolver.

Luciana era uma menina que havia, como todos os tripulantes, nascido na nave. Tudo o que sabia de seu planeta original era o que lia nos livros ou via nos vídeos da escola ou nos filmes de entretenimento. Estudava oito horas por dia e sua responsabilidade no futuro seria a manutenção dos sistemas de suporte de vida de Gaia I. Ou seja, daqui a mais seis anos ela seria uma engenheira de manutenção e trabalharia com seus pais.

Hoje Luciana era uma menina alegre e apaixonada que gostava de tudo, menos de seus cabelos encaracolados que teimavam em não se manter penteados, por isso adotou o uso do boné e se acostumou de tal forma que em seu quarto havia uma prateleira só para os seus 48 bonés. Tinha-os de todas as cores e modelos existentes em Gaia I, seus cabelos deixaram de ser um problema e sua personalidade acabou sendo marcada pelo boné.

Um antigo costume que em Gaia I ainda continuava muito usado eram os passeios ao Shopping, esse era o lugar onde os jovens se encontravam para falar da vida, ver vitrines, comer sanduíches, tomar refrigerantes e, principalmente, namorar.

Naquele dia a nave Gaia I estava na órbita de um planeta que chamaram provisoriamente de 1602 e que estava em uma fase de evolução equivalente à pré-história na Terra. Lá embaixo espécies de dinossauros e grandes vulcões ativos eram estudados pelos cientistas que traziam amostras para a nave, enquanto a vida do pequeno mundo de Gaia acontecia normalmente.

No mesmo momento que um estegossauro verde, pesando várias toneladas e sem perceber que o fazia comia uma folha felpuda junto com um pedaço microscópico de plástico que envolvia um microship que poderia estudar todas as funções vitais do animal enviando para a nave imagens de seu sistema nervoso, circulatório, ósseo e reprodutor, Luciana saia de seu pequeno apartamento para ir até o shopping comprar um tênis novo, afinal, o campeonato escolar começaria na próxima semana e seu tênis velho não poderia resistir. Além disso, e principalmente, Luciana queria ver Arthur, aquele tremendo monumento de olhos azuis que a deixava sem sentir o metal do chão a seus pés ou então às vezes fazia com que sentisse, ao contrário do que os especialistas diziam ser possível, o trepidar dos motores da nave.

Chegou ao shopping, encontrou suas três amigas e estava subindo a escada rolante para chegar à lanchonete onde os robôs dourados serviam hambúrgueres sintéticos quando viu Arthur em uma das mesas, beijando aquela tremenda traidora da Sylvana.

Parou, seus olhos marejaram e tudo ficou embaraçado, não tinha como sentir o próprio corpo, pois era a alma que gritava de dor.

A escada não sabia disso e continuou subindo. Luciana caiu e o joelho não doeu tanto como o coração, que caiu das nuvens.

9 de março de 2007

AMOR

Minha alma entrou em meu corpo

comecei a crescer.

sentia a mim mesma

invadindo espaços

Cresci

Fiquei maior que a flor

que brilha seu perfume vermelho

através do tempo,

cresci mais e era maior

que o perfume emanado por todas as flores.

Eu cresci

tomei o espaço,

era maior que a árvore,

maior que o rio e minha felicidade

era maior que o caminho dos martírios do homem,

arrastado por todos os tempos

desde a criação do verbo.

Cada átomo do meu corpo era maior que as estrelas,

as estrelas orbitavam dentro de mim

eu era tão grande

que podia entender tudo e saber que sem ser Deus

eu era um deus,

era um infinito

porque fora capaz de gerar a Vida.

E a Vida era maior que eu.

Ante sua importância

eu era quase nada.

Um dia aquele gigantesco nada

em que me transformara

se rebelou,

houve um tremor profundo

e abaixo de toda compreensão,

acima de toda sabedoria,

um mundo se abriu

e no imenso universo

em que eu me tornara

a Vida explodiu.


minha alma,

minha mais profunda alma,

lá no fundo onde sou deus

se entrega

a esse tesouro que me tem toda e para sempre.

E para sempre eu sou feliz.

6 de março de 2007

PENA CAPITAL

Não, ele não era nada. Nada que pudesse sentir naquele momento como parte de si. Não era corpo. Não era material. Apenas uma consciência sem memória que não podia ver nem ouvir, mas que sabia que era um réu e esperava. O tempo não existia e por isso não poderia dizer o quanto durou a espera. Muito do que sabia estava para além de palavras e de conhecimento material. O veredicto chegou em forma de palavras não ouvidas, mas compreendidas, e elas diziam: você está condenado a 94 anos à mercê de seus sentidos.

Então caiu. A queda foi longa e vertiginosa, e quando aterrissou em algum lugar sem luz começou a deslizar suavemente e teve consciência de que era um ovo, matéria em estado de tensão. Então sentiu e sentiu medo. Não conseguia saber de si, nenhum movimento voluntário. Apenas era e estava uma matéria-medo deslizando sobre as paredes de uma trompa.

2 de março de 2007

QUINTA-FEIRA, SETE E MEIA

Cinzento de sono, ainda machucado pelo frio da manhã, mãos nos bolsos, viu o ônibus dobrar a curva da igreja e atirou fora o cigarro.

Esperou uma senhora carregada de sacolas e crianças subir os degraus respirando forte deu um último olhar à bonita mocinha apertando nos braços cadernos escolares e uma fotonovela e, quando ias por o pé à frente, sentiu o encontrão às costas e olhou para trás, irritado e deitou um olhar humilhante ao apressadinho: era o Nereu! Como é que pode, o Nereu! Porra, há quanto tempo, meu!

O ônibus roncou apressado e, apressado, ele também recebeu nos ombros os tapinhas de reconhecimento e pulos nos degraus, satisfeito por rever o último ser vivo interessante desta cidade, nossa! Não pensei que a gente se visse ainda! Deixa que eu faço a tua! Nereu sorriu e andou através da roleta e acomodou-se no lado da janelinha da calçada.