25 de abril de 2007

ANALISE DE UM POEMA

DO TROVADORISMO AO ROMANTISMO (PUC)

Poema escolhido: soneto 158

Que levas, cruel Morte? — Um claro dia.

A que horas o tomaste? — Amanhecendo.

Entendes o que levas? — Não o entendo.

Pois quem to faz levar? — Quem o entendia.

Seu corpo quem o goza? — A terra fria.

Como ficou sua luz? — Anoitecendo.

Lusitânia que diz? — Fica dizendo.

Enfim, não mereci Dona Maria.

Mataste quem a viu? — Já morto estava.

Que diz o cru Amor? — Falar não ousa.

E quem o faz falar? — Minha vontade.

Na corte que ficou? — Saudade brava.

Que fica lá que ver? — Nenhua cousa;

Mas fica que chorar sua beldade.

Camões

O soneto pode até parecer à primeira vista, ser um exemplo de poesia emotiva, na qual o poeta lamenta a morte da amada, ou de alguém a quem dava grande valor, alguém que ele compara com um belo dia. Porém, o diálogo que se faz entre o poeta e a morte cria em um mesmo poema, três poemas, tornando tal soneto um exemplo dos mais convincentes de uma poesia inventiva.

Estabelecer um diálogo com a morte implica em humanizá-la, fazendo com que ela explique o porquê de levar do mundo alguém cuja presença seria tão importante que se lhe poderia comparar a um belo dia. A Morte, ao responder às indagações do poeta, mostra que faz seu papel sem dele tomar conhecimento, alguém acima dela determina seus atos e o próprio Amor, aí personalizado pela letra maiúscula — como aliás é comum no classicismo —, está também sujeito a uma força maior do que ele, que determinou a morte de tal pessoa, Dona Maria, e que teria deixado sofrendo todo o país.

Mas o país não é o único a lamentar a morte da rainha, o próprio Amor o faz, já que não ousa nem mesmo falar a respeito, apenas a Morte cumprindo seu papel, indiferente e ignorante da importância de quem leva e dos desígnios a ela superiores, não lamenta nem se alegra, apenas constata os fatos e, indiferente e fria, dá as respostas a ela pedidas, como quem está de passagem. Não tem pressa, mas também não pode se deter, pois sua sina é seguir sempre, cumprindo o papel que a ela foi imposto, caminha lenta e insistentemente e, sem se deter, sem rir, sem chorar, dá as respostas e se vai.

Um claro dia.

Amanhecendo.

Não o entendo.

Quem o entendia.

A terra fria.

Anoitecendo.

Fica dizendo.

Enfim, não mereci Dona Maria.

Já morto estava.

Falar não ousa.

Minha vontade.

Saudade brava.

Nenhua cousa;

Mas fica que chorar sua beldade.

Numa segunda forma de leitura, podemos pegar apenas as respostas da morte, e teremos assim um outro poema, que lamenta também a morte da pessoa da rainha, fazendo cúmplice seu nesse lamento a própria terra e não apenas o país, o poeta não entende o dia ter nascido tão belo em tão inadequada hora, e a saudade do poeta — que se percebe melhor agora do que na leitura do poema inteiro —, passa a ser partilhada pela natureza. Nada resta na corte depois da partida da rainha, e toda a terra com ele chora as saudades. Nessa leitura os versos se tornam curtos e entrecortados, formando assim um tipo de construção que traz a sensação da dor, sensação que impede a construção de longas frases. É como se o pensamento, que tenta ser lógico mas está cansado e magoado, não conseguisse se manifestar a não ser por frases curtas e meio que desconectadas, olhando o mundo e não vendo razão para sua presença na ausência de quem tanta falta faz a si e ao próprio mundo.

Que levas, cruel Morte?

A que horas o tomaste?

Entendes o que levas?

Pois quem to faz levar?

Seu corpo quem o goza?

— Como ficou sua luz?

Lusitânia que diz?

Enfim, não mereci Dona Maria.

Mataste quem a viu?

Que diz o cru Amor?

E quem o faz falar?

Na corte que ficou?

Que fica lá que ver?

Mas fica que chorar sua beldade.

Numa terceira maneira, podemos ler do soneto apenas as perguntas feitas à morte. Novamente teremos o profundo sofrimento pela ausência da rainha amada, sofrimento que traz as indagações, e como essas indagações são feitas a uma entidade, a um fato, e não a um ser, o poeta não tem e não espera uma resposta — as respostas estão nas próprias perguntas —, ele vai perguntando como quem fala consigo mesmo e o espanto do acontecimento inesperado e triste é a única resposta obtida. É quase que uma oração, uma oração na qual o poeta questiona o porquê dos mistérios da existência que não pode compreender e dos quais não pode participar. Mas sabê-los mistérios inalcançáveis à compreensão humana não consegue deixá-lo conformado, então o poeta pergunta e sofre. Não espera e não deseja respostas, apenas pergunta e as respostas que não espera e que não deseja estão dentro de si e do seu espanto, pois ele sabe que toda a vida, toda a natureza continuarão a existir apesar dessa morte.

Bibliografia

CAMÕES, Luís de. Lírica. S.P. Ed. Da Universidade de São Paulo, 1982

20 de abril de 2007

ENTREGA

Eu queria olhar dentro dos seus olhos

e entrar em você através de suas pupilas.

Queria nadar em suas lágrimas e penetrar

em forma de alegria em seu coração.

Queria navegar em suas veias

e seguir o ritmo de sua pulsação.

Me afundar toda dentro de você

e chegar até sua alma

para conhecer toda a beleza que mora nela.

Queria sair depois,

vazia de problemas e cheia de você,

pousar a cabeça em seus braços

e sentir a sua pele ouvindo música na sua voz.

Queria me soltar no seu abraço

e me deixar envolver por você.

E nessa paz de você,

me deixar sentir,

numa explosão de alegria,

que te amo inteiro.

Sentir meu coração falar ao seu de perto

e sem segredos,

sentir minha alma de mãos dadas com a sua

vagando quietas no interior de nós dois.

Queria nesse momento me sentir Deus

e te amar como todo meu universo.

Depois,

em uma vibração de amor maior,

gerar,

na alma,

um filho teu.


Divina de Jesus Scarpim

12 de abril de 2007

AMOR

(inveja de Camões)

Fogo que gela a alma

Frio que queima no peito

Sonho que a realidade borda

Realidade sonhada no chão

Dar sem fazer perguntas

Tomar e não mais querer

Sorrir em lágrimas

Chorar a alegria de ser

É morte viva na gente

Vida em sonata de adeus

É querer o mundo e nada

Pedir o céu e morar no infinito

É flor, é chuva, é espinho, é sol, é gelo

É ser deus na terra, humano no céu

Anjo de si mesmo

Um gostar tão grande que dói uma dor rasgada

Uma dor gostosa que nem parece dor

É viver, é morrer

Amar...amar é existir

Amor... amor é morte

Divina de Jesus Scarpim