21 de maio de 2007

MAIS UM CASO DE AMOR

Pequei o livro com amor. É comum, sempre foi, para mim, pegar um livro com amor. Amo os livros, amo a palavra escrita desde que, num deslumbramento mágico, aos 8 anos, descobri que podia ler, foi meu momento de epifania, foi a grande descoberta da minha vida, senti-me importante e, mais que isso, senti-me feliz. Livros para mim sempre foram objetos dignos de amor, sempre tenho aquele respeito-reverência por saber que dentro de um livro existe sempre um mundo, ou vários mundos, ou todos os mundos, uma infinidade de mundos, e em algum deles existe sempre a possibilidade de existir o meu mundo.
Reli a contracapa do livro, as orelhas. Reli o que já havia lido nas várias vezes que o ia namorar na livraria, um de meus grande prazeres é namorar livros, gosto de estar no meio deles e namorá-los, acaricia-los com os olhos, com as mãos, com a mente, senti-los. É um namoro que me faz bem, sempre me sinto correspondida. Nunca, jamais saí de entre livros sem levar nada comigo, mesmo nas muitas vezes em que não levo livro nenhum.
Li o primeiro capítulo. Resolvi ter um romance com o livro. Não passei do primeiro capítulo. Fiquei pensando, sentindo o que ele me dizia. O quanto ele me tocava e, principalmente, fiquei pré-sentindo o quanto ele me invadiria. Decidi não lê-lo rapidamente, não ler um capítulo depois do outro, decidi não apenas namorá-lo mas tornar-me sua amante, decidi ter um caso com ele, amá-lo lenta e profundamente. Ler um capítulo, sentir, pensar, escrever esgotar todas as possibilidades e só depois ler o segundo capítulo e ir fazendo assim até chegar ao epílogo. Pensei em conservar esse amor por muito tempo para prolongar esse prazer, como se a gente pudesse estar sempre escrevendo na primeira página do caderno, decidi que vou me dar um prazer parecido.

Quem é você?
Sou um amontoado de substâncias químicas em reações constantes. Sou um aglomerado de átomos, de moléculas. Sou uma central de descargas elétricas, sou uma usina de lixo, sou uma máquina.
Sou também um ser único, incrivelmente complexo e maravilhoso, a pessoa mais importante do mundo. Todas as outras coisas existem para e por mim, sou o centro do universo, tenho a incrível capacidade de pensar, sentir, tomar decisões, me relacionar com os seres e objetos ao meu redor, transformar o mundo e a mim mesma e, o que é mais fantástico, criar outra vida a partir da minha vida. Sou tão grande!
Sou menos do que um grão de areia na praia, sou mais insignificante que uma molécula de água no oceano, minha presença nem pode ser pressentida em se falando de mundos, estrelas, galáxias, anos-luz. Minha passagem nada retira ou acrescenta na vida do universo, o tempo dessa existência é apenas um ínfimo espaço dentro do tempo dos mundos. Eu sou nada.
Sou também uma alma imortal em processo de aprendizagem e crescimento. Em um caminho pleno de descobertas fantásticas. Sou um ser social, sou parte de um todo igualmente grande, igualmente nada. Sou uma mulher, o negro do mundo, a rainha do lar, o depósito de excrementos, a geradora de vida, a amante dedicada, a namorada gentil, a prostituta reles, a menina ingênua, a velha rabugenta, a cara-metade.
Quanta coisa descobri que sou! e só dessas conclusões, nada novas com certeza dentro do mundo do pensamento humano, desses pensamentos e de todos os que podem ser gerados a partir deles posso me alimentar por toda a vida, buscar respostas e justificativas para todos os meus sentimentos e reações.

De onde vem o mundo?
No princípio era o caos. Como uma apaixonada por mitologia greco-romana, esta primeira frase da história da criação do mundo me ficou, mas desde que a li pela primeira vez não pude deixar de me perguntar, e de onde veio o caos? Se havia algo no princípio então é porque não era o princípio.
Soube que os gregos não admitiam a existência do nada absoluto, aceitei a explicação. Tudo bem, então eles não aceitavam a existência do nada. Mas eu aceito, eu consigo imaginar o nada, ao menos acho que consigo, ou pelo menos pensá-lo. O nada é antes do caos, o nada é o espaço entre as moléculas o nada é o vácuo, o nada pode ser a morte, ou uma parte do meu sono, a parte em que não sonho. Mas como alguma coisa pode surgir do nada? Aí fica difícil. Do nada pode surgir alguma coisa, como do meu sono pode surgir meu sonho? Somos um sonho?
O átomo é tão parecido com o sistema solar! O universo pode ser um corpo, o sistema solar um átomo desse corpo, a galáxia uma molécula. Mas se for ainda assim a pergunta perdura. Se o universo é um corpo esse corpo pode ter vindo de outro corpo como meu filho veio de mim e o outro corpo de um terceiro e assim por diante até que se pergunte. De onde veio o primeiro corpo?
Suponha que num dos elétrons de um átomo de oxigênio que faz parte de uma molécula dos 70% de água que compõe meu corpo exista nesse momento um micro ser perguntando-se de onde veio o mundo? A resposta para ele será, veio do mundo-minha-mãe, pois para esse ser o mundo sou eu. Só que ele nunca terá essa resposta porque embora faça parte de mim, estamos tão longe que nem sequer podemos saber um da existência do outro, menos inda posso eu saber de seus questionamentos e ele dos meus.
E Deus? Se Deus criou o mundo, quem criou Deus? Para aquele micro ser hipotético eu sou Deus e talvez meus sentimentos, meu estado de humor, espírito e saúde podem influenciar de alguma forma esse mundo tornando a minha existência quase que sensível para ele. Da mesma forma que a existência de Deus é quase sensível para mim às vezes; para o religioso sempre e para o ateu, até mesmo para o ateu, um pouco, como um quase subconsciente ponto de interrogação, acho.
Filosofar é ter a capacidade de se espantar com as coisas. Desde que vi essa afirmação pela primeira vez em um livro escolar (e as explicações do espanto) eu a entendi mais como o deslumbramento. E se é assim, então sou uma filósofa nata, pois vivo me deslumbrando, me espanto com as coisas e uma das coisas que mais me espanta é o fato de eu conseguir não estar espantada, ou deslumbrada em tempo integral apesar de ter tantas razões para isso.
Eu me espanto com uma imensidade de coisas, não apenas com as coisas que não conheço. Me espanto com uma folha balançando mesmo tendo o conhecimento de que é o vento que a move. Me espanto com as bolhinhas que sobem na água prestes a ferver mesmo sabendo que é o aumento da temperatura que as causa. Me espanto e deslumbro e me sinto maravilhada e em estado de graça com o som do sorriso do meu filho e me espanto muito comigo mesma com o que faço, o que sinto, o que penso, como sou. Me espanto com as alterações do meu corpo na curva descendente ainda mais do que me espantei na curva ascendente. Eu sou um espanto e me espanto sempre que percebo que passei algum tempo sem me espantar.
Estou agora me espantando com o papel, sua textura e sua cor, e me espantando estou me perguntando de onde veio, em que floresta cresceu a árvore em que agora escrevo? Como eram as mãos que a derrubaram? Por quantas mãos passou essa árvore até chegar às minhas? Como era a vida, o que pensava e o que sentia cada uma delas? Quantos olhos deslizarão por estas palavras caso um dia elas se tornem um livro, alguém o namorará?
Tantos motivos para espanto que me pergunto espantada se não haveria alguma força nos impedindo de ficar espantados para que possamos fazer alguma coisa, para que possamos desenvolver nossos maus instintos? Seria Deus o espanto que nos faz ficar maravilhados diante das coisas e de nós mesmos e, conseqüentemente tomá-las com cuidado, respeitá-las e viver em benefício do todo do qual somos uma parte? E seria o Diabo o que nos faz esquecer do espanto, seguir a rotina da vida achando tudo natural, depois tedioso e depois desagradável, até soltar nossa má vontade, bloqueando nossos olhos e deixando que vivamos apenas por nós mesmos sem nem mesmo saber de nós? Pode estar aí a razão da afirmação de que o mal e o bem estão em nós mesmos?
No princípio o homem buscava explicação no mito para todas as coisas que não podia entender. Para mim, essa frase pode ser colocada no presente sem faltar com a verdade. Quando criança, eu me lembro que procurava sempre uma explicação “mitológica” para as coisas que não compreendia: meu pai e minha mãe tiveram filhos apenas porque se casaram, o casamento obrigou-os a dormirem juntos e nós nascemos. Eu e meu irmão dormíamos juntos exatamente como meus pais, apenas não tínhamos filhos porque não éramos casados e não nos casaríamos jamais porque éramos irmãos.
Amanhã era uma entidade maravilhosa que sempre trazia coisas boas. Tudo que pudesse imaginar de mais fantástico seria sempre Amanhã. O natal, o aniversário, as férias de meu pai, a viagem para a casa da avó. Mas nós tínhamos uma falta de jeito enorme para tratar o Amanhã e ele sempre, quando virava hoje, não trazia as coisas tão certinhas e boas como devia porque era preciso saber tratar o Amanhã. Eu tentava, tentava sempre. Muito poucas vezes ele virava hoje e era bom, então eu tentava repetir o tratamento, mas esquecia alguma coisa. Voltava a tentar.
Os sapos eram seres fantástico que podiam mudar de tamanho e usar os cogumelos como guarda-chuva. E os aviões eram seres muito perigosos e malvados quando estava de noite. De dia não, eles passavam no céu, nós dávamos tchau com as mãos e gritávamos muito, eles eram bonitos e às vezes brilhavam ao sol. Mas à noite, quando estava na cama e ouvia o barulho do avião eu cobria a cabeça, ficava apavorada e tinha ainda o problema de sentir falta de ar com a cabeça coberta, não descobria a cabeça nem conseguia respirar direito até o barulho sumir, então ficava muito tempo ainda, maravilhada por ter escapado mais uma vez das terríveis bombas que o avião poderia ter jogado sobre mim.
Tantas outras coisas eram explicadas pela minha mitologia antes que o tempo, a vida, a escola me ensinassem o que eram realmente! Tantos mitos eu devo ter ainda hoje para explicar tantas coisas que não compreendo.
Mas, e o livro? O livro é “O mundo de Sofia”. Foi delicioso começar a lê-lo, mas do meio para o final ele perdeu o pique e me decepcionei... Mas não me decepcionei a ponto de deixar de pensar; muito, muito menos a ponto de deixar de ler, e de me espantar...
Divina de Jesus Scarpim

14 de maio de 2007

HOMOGÊNEO

Sou branca,

de ascendência branca,

toda uma brancura de raças gerando mais e mais descendentes.

Sou melhor?

Você é negro,

filho do continente africano,

de negra pele e brancos dentes.

É melhor?

Meus antepassados te caçaram como animal,

te acorrentaram,

te venderam,

te compraram,

te escravizaram.

Disseram que você não tinha alma,

não passava de um ser vivente sem consciência,

e te escravizar era algo natural.

Hoje eu te amo e minha alma se escraviza à tua,

minha pele branca se completa na tua pele negra,

e juntos,

o branco e o negro,

fizemos o marrom.

Ele traz em si o escravo e o senhor.

Ele tem consigo a humildade, a força do corpo,

a beleza do espírito negro que sonhou com a liberdade.

Tem em si o amor da minha pele branca que tem fome da sua pele negra,

que desconhece os erros do passado.

Ele é melhor!

Tomara que esse marrom cubra a terra e torne os homens melhores,

se sabendo iguais e capazes

Independentemente da cor.

Divina de Jesus Scarpim

8 de maio de 2007

CINCO LIBERDADES E UM TERREMOTO DE GRANDES PROPORÇÕES

Era dia do “e viveram felizes para sempre”, o vestido branco ficou lindo, as pernas tremeram quando caminhava até o altar, não ouviu quase nada do que o padre disse e o arroz jogado à porta da igreja parecia um enxame de pombos minúsculos que lhe bicavam o rosto de leve. Comeu um pedaço de bolo, dançou a valsa dos noivos e agradeceu aos cumprimentos envolta em uma nuvem de irrealidade densa como uma casca na qual todos batiam mas onde ninguém conseguia entrar, nem mesmo ele, seu marido, aquele que a segurava pela mão e jurava amá-la e respeitá-la todos os dias de sua vida até que a morte os separe. Dormiram exaustos depois de um sexo mentiroso e saíram bem cedinho para a viagem de lua-de-mel. Só quando entrou no navio e este começou a afastar-se deixando todos aqueles que abanavam adeuses se tornarem pontinhos coloridos em um horizonte de maquete foi que começou a sentir-se dentro daquele momento, abraçou apertado o corpo de seu marido e retribuiu aquele que foi o primeiro beijo real de uma mulher casada. Sentia o vento nos cabelos e o despertar fazia bem, uma alegria óbvia sobrevoou seu sorriso e aceitou começar a exploração da luxuosa embarcação onde estaria durante duas semanas inteiras numa viagem de sonho presenteada pelos pais; um cruzeiro com belas paradas, belas paisagens e muita fotografia para guardar no primeiro álbum de família que organizaria com todo capricho assim que voltasse para sua cidade e começasse a habitar o recém-mobiliado apartamento. Tudo tão perfeito! Nos olhares que trocavam a cada minuto não faltava nem mesmo a paixão, responsável pela certeza de que essa felicidade duraria toda a vida.

Passaram três dias e ainda era recém-feliz, todos os dias passavam a dar-se conta da presença um do outro e do quanto essa presença fazia bem, conversavam sobre o futuro fazendo planos coloridos e sobre o passado lembrando nuances do romance que ainda viviam, sorriam para tudo e por todos os motivos e pensavam um no outro em todas as pequenas coisas inconscientes de ser e de estar. Juntavam os corpos em prazeres plenos muitas vezes durante o dia e durante a noite e sentiam fome como crianças que muito brincam e saltam e riem e depois comem o que lhes dão com pressa de voltar a brincar. Tantos foram os “eu te amo” que se disseram que se cada um se tornasse uma conta e deles se fizesse um colar, este daria muitas voltas brilhantes no pescoço da mulher apaixonada. O quarto dia amanheceu nublado e ficaram um pouco mais de tempo no quarto brincando de se embrenhar no corpo do outro, se perder e procurar novos caminhos e atalhos para chegar ao próprio corpo, exausto e leve como se flutuasse, foram tomar café e depois se debruçaram para olhar o mar que era de chumbo. Sentiram o vento crescer e o medo demorou tanto pra se formar que a tempestade chegou bem antes e quando as ondas enormes criavam gritos de terror a realidade fugiu de novo e o pesadelo começou como um desmaio.

O sabor-sal da água que violentava sua alegria e a escuridão que apagava as cores do seu futuro flutuaram com ela num violento dormir e não acordar. Gritos chegavam ao seu semi-consciente e tanto podiam ser de outras pessoas como dela mesma que perdeu totalmente o controle do seu tempo. Vagamente movimentos de braços e pernas perdidos no terror encontraram algo indefinivelmente sólido onde se apoiar. Um desmaio de não-ser fez com que nada mais fosse sentido até quando os olhos foram incomodados por um sol ardente e algumas mãos a tocaram e levantaram seu corpo. Flutuou até uma sombra de onde olhou e viu-ouviu o mar que voltava a ser azul. Tentou levantar o corpo e dizer algo, mas desmaiou novamente e quando abriu os olhos estava sozinha sobre panos úmidos e viu pessoas correndo de um lado para o outro na praia recolhendo objetos que as ondas traziam. Ficou olhando por muito tempo até que foi notada e homens se aproximaram carregados de caixas e pacotes molhados, tinham as roupas sujas e alguns tinham arranhões no rosto e nos braços, eram cinco e nenhum era o Dani. Sentaram-se a seu lado, falaram muito, pediram calma, não sabiam nada sobre o Dani, não sabiam quem era Dani, sabiam da tempestade, do navio que desapareceu, talvez a gente tenha caído no mar, o barco pode estar por perto, ou não. Disseram que o mar trouxe muitas coisas, mas pelo que sabemos, só nós seis estamos aqui. Apresentaram-se. João, jogador de vôlei, negro, não muito escuro, não muito alto, cabelos trançados à la Bob Marley. Reinaldo, apelido Nado, médico anestesista, muito alto, cabelos meio encaracolados, amorenado e bem magro. Cléber chef de cozinha, negro, muito preto e muito alegre, acredita que tudo está bem, vai dar certo, todos estão no navio e o navio nos encontrará. Juan, espanhol, grisalho, barba bem aparada e olhos curiosos. Yuri, alemão, branco como uma lagartixa, não fala nem meia dúzia de palavras em português. Olharam para ela, Sônia, arquiteta, estava em viagem de lua-de-mel. Dani é meu marido e eu não sei onde ele está. Sentiu a mão de Nado em seu ombro e um misto de alivio e pavor. Tentou se levantar e só então percebeu que estava com a perna direita machucada e tinha um curativo feito com trapos improvisados. Olhou para os colegas e sorriu sem jeito, dois braços lhe foram estendidos, colocou-se de pé e caminhou alguns passos, a perna doía um pouco, mas nada que preocupasse muito.

Depois de combinar o que fazer, Nado e Yuri saíram para explorar o lugar e os outros começaram a organizar um acampamento trazendo para a sombra e dando uma certa ordem nas coisas que encontraram na praia. João conseguiu um pedaço de madeira quase reto, uma muleta improvisada para que ela se apoiasse. Quando, depois de umas três horas, os dois voltaram, o acampamento estava bastante razoável e os quatro se sentiam até orgulhosos do trabalho realizado e improvisavam fogo para conseguir uma refeição. Disseram que eram os novos Crusoés, pelo que puderam ver estavam em uma ilha, uma ilha não muito grande, nem sinal de gente, nem sinal de “terra a vista”, apenas um minúsculo rio, garantia de água doce. Nos próximos dias comeram, dormiram e caminharam, exploraram toda a ilha e tiveram certeza de que estavam sozinhos. Tinham muita comida, água e uma infinidade de objetos que poderiam ser úteis, mas tinham cada vez menos esperança, o mar trouxe muito mais coisas, coisas que pareciam restos do navio. A cada caixa de alimento, de remédio, de bebidas, a cada mala de roupas, amontoado de cobertores, brinquedos soltos e pedaços indefinidos de madeira, plástico ou vidro o navio parecia se afastar mais, era mais esperança de vida, era menos esperança de vida. A perna estava tão bem que dispensou a muleta, conversava com todos e até brincava um pouco de ser otimista com Cleber que nunca deixava que o desespero tomasse conta de todos, contavam os dias com a ajuda de um calendário plástico que veio com as ondas e viam as semanas passarem.

Quando finalmente foram resgatados por um barco desses que exploram o mar em busca de tesouro, já havia passado seis meses, onze dias e quatro horas do que se lembrava vagamente como o começo de tudo. A imagem de Dani estava meio desbotada em sua mente, a lembrança dela mesma como fora até o início de tudo estava muito mais embaçada, como um retrato danificado pela maresia. Ela era então a esposa não sacramentada de cinco homens que não se mataram por uma fêmea porque ela teve o bom senso de se tornar desprezível sendo acessível a todos e não permitindo que nenhum deles a quisesse só para si.

De volta a casa mudou o nome, mudou-se do país e mudou o cabelo. Escondeu-se. Nado foi o primeiro que percebeu o quão longe aquela garota que nunca chorou esteve de ser desprezível, em sua lembrança acalmada pela distância reviu toda a tensão que começara a criar-se entre eles pouco antes de ela oferecer-se, tensão que deixou de existir a ponto de ser esquecida quando aquele corpo feminino e único passou a ser propriedade de todos; reviu seus olhares, aqueles que se negara a ver nos momentos em que ela, pensando que ninguém a notava, deixava passar uma nuvem escura ou lançava um mudo pedido de socorro ao mar. Tardiamente pensando em atender aquele grito de socorro que se negara a ouvir na ilha mas que queimava sua lembrança agora e cada dia mais, ele foi o primeiro a procurá-la.

Os outros demoraram um pouco mais de tempo, mas todos eles, em seu momento e com diferentes profundidades, compreenderam que ela, naquele gesto de livrar-se das roupas e oferecer o corpo aos cinco homens tornando-se desprezível aos olhos deles, foi na verdade a pessoa mais corajosa e mais lúcida dentre todos. Eles eram apenas cinco predadores prestes a se tornarem irracionais. Cada um em um momento da vida sentiu a necessidade de dizer ou demonstrar de alguma forma que agora a compreendia e sabia que ela não fora desprezível, eles foram. Todos a procuraram, mas nenhum a pôde encontrar.

Divina de Jesus Scarpim

2 de maio de 2007

CESÁRIO VERDE

um “proseador”

Poema III

Ao entardecer, debruçado pela janela,

E sabendo de soslaio que há campos em frente,

Leio até me arderem os olhos

O livro de Cesário Verde.

Que pena que tenho dele, ele era um camponês

Que andava preso em liberdade pela cidade.

Mas o modo como olhava para as casas,

E o modo como reparava nas ruas,

E a maneira como dava pelas coisas,

É o de quem olha para árvores,

E de quem desce os olhos pela estrada por onde vai andando

E anda a reparar nas flores que há pelos campos...

Por isso ele tinha aquela grande tristeza

Que ele nunca disse bem que tinha,

Mas andava na cidade como quem anda no campo

E triste como esmagar flores em livros

E pôr plantas em jarros...

Fernando Pessoa-Alberto Caeiro

Talvez por ser jovem e inexperiente, Cesário Verde teve o comportamento tão irrequieto, insatisfeito e contestador, a ponto de combater com ironia certeira o espírito romântico. Adolfo Casais Monteiro nos chama a atenção para o fato de que alguns dos líderes do movimento anti-romântico, como Antero de Quental e Guerra Junqueiro, mostraram-se na sua poética mais presos ao romantismo do que seria de se esperar, ao passo que Cesário Verde, que se manteve à distância dos realistas e mostrou desinteresse pela nova “escola”, acaba por ser efetivamente mais revolucionário na sua poesia que seus contemporâneos.

Casais Monteiro levanta ainda outra questão bastante interessante: O gosto pela oralidade teria causado no poeta o interesse pelo cotidiano ou seria o apego ao cotidiano que teria dado característica de oralidade à sua obra? O fato é que, de acordo com ele, foi graças a esta oralidade e a esse interesse que a poesia de língua portuguesa ingressou na era industrial.

Toda a obra de Cesário Verde parece prosa. Assim como Iracema, de José de Alencar pode ser classificado como um poema em prosa, a obra de Cesário Verde talvez pudesse ser chamada de prosa em poema. Organizando seu discurso em versos e estrofes, com rima e métrica num “estilo que lembra a conversação despreocupada, o poeta consegue “prosear”.

De fato, o coloquialismo e o apego ao quotidiano são características marcantes na poesia de Cesário Verde. Entre todos os seus poemas, podemos encontrar apenas quatro que não são escritos em primeira pessoa, seus poemas são, então, um expor de sentimentos despertados pela observação do mundo a seu redor. Ele não se limita, porém, à simples observação. As coisas observadas por ele são mais que paisagens ou objetos de contemplação. São parte dele. O “eu” poético vê a vida passando diante de si ao mesmo tempo que vê a si próprio imiscuído nessa vida. Enquanto caminha na paisagem e observa o cotidiano que o cerca, ele vive esse cotidiano e é essa paisagem. “sua voz se faz pedestre”.

O “eu” desta poesia, porém, não pode ser confundido com uma entidade biográfica, não há nenhum tom de sentimentalismo pessoal isolado da preocupação com o externo e, por isso, os poemas são capazes de expressar o estado de qualquer consciência humana num determinado momento. — o “eu” não é apenas ele, sou eu, somos nós, é a humanidade.

Esse “eu” poético vê o mundo, descreve esse mundo, e o fotografa. Mas fotografa uma vida efervecente e não um mundo estático como uma fração de segundo congelada no tempo. A fotografia de Cesário Verde vive e o poeta participa dessa vida. Por essa razão sua poesia é descritiva mas está longe de ser fotográfica. Nem mesmo cinematográfica podemos dizer que seja, uma vez que os objetos não são descritos como são — estáticos e exteriores — mas impregnados, coloridos, absorvidos das sensações que despertam no poeta. Essa fixação de uma imagem em movimento, de uma paisagem valorizada pelas sensações que desperta, aproxima a poesia de Cesário Verde do impressionismo.

Outra característica inovadora na poesia de Cesário Verde é que nela não há o contraste campo / cidade como oposição entre o ideal e o real, que é a forma comumente encontrada na literatura até mesmo nos dias atuais. Na sua poesia, campo e cidade se integram, fazem parte da mesma realidade.

Não deve haver exagero em afirmar que tenha sido por causa dessas características inovadoras e excessivamente revolucionárias, que muitos dos contemporâneos de Cesário Verde o tenham acusado de “mau gosto” e tenham taxado sua poesia de antipoética.

O social

Embora esse tema esteja presente em quase toda sua obra, há entre os poemas de Cesário Verde alguns que podem ser destacados pela ênfase maior numa temática fortemente social.

Nessa linha podemos destacar o poema “desastre” em que o poeta usando com frequência a ordem inversa parece dar concretude ao espanto e à estupefação do narrador, como se este não conseguisse ordenar as idéias diante de cena tão chocante. O poema descreve um acidentado carregado em uma maca e animado por um amigo. Fala, depois, do mundo indiferente, das pessoas e do movimento da cidade que não se alteraram diante da cena comovente.

Morre então o acidentado, “findara honradamente”, e vem a reação das pessoas diante da passagem do morto. A curiosidade mórbida, insensível, sensacionalista e indiferente. Em seguida, o poeta faz a descrição da vida do morto, um pobre coitado, um trabalhador braçal sem família, um ser humano que sofria desde criança na luta pela vida. E quando o féretro passa por um bem sucedido político, o poeta pensa nos filhos naturais desses tão bem postados homens que seriam, talvez, como o morto, um ninguém. Mas, usando sua fina e cortante ironia, pretende recusar o pensamento como que vexado diante da importância do político, que é cortejado até mesmo por um padre. Volta ao morto: “E o desgraçado?”. Esse foi enterrado em vala comum sem nem mesmo a presença dos colegas, que não conseguiram o consentimento do patrão para interromper o trabalho. Ao final do poema, o patrão comenta a morte do pobre homem como resultado de uma bebedeira.

DESASTRE

Ele ia numa maca, em ânsias contrafeito,

Soltando fundos ais e trêmulos queixumes;

Caíra dum andaime e dera com o peito,

Pesada e secamente, em cima duns tapumes.

A brisa que balouça as árvores das praças,

Como uma mãe erguia ao leito os cortinados,

E dentro eu divisei o ungido das desgraças,

Trazendo em sangue negro os membro ensopados.

Um preto que sustinha o peso dum varal,

Chorava ao murmurar-lhe: “Homem não desfaleça!”

E um lenço esfarrapado em volta da cabeça,

Talvez lhe aumentasse a febre cerebral.

Flanavam pelo aterro os dândis e as cocotes,

Corriam char-à-bancs cheios de passageiros

E ouviam-se canções e estalos de chicotes,

Junto à maré, no Tejo, e as pragas dos cocheiros.

Viam-se os quarteirões da Baixa: um bom poeta,

A rir e a conversar numa cervejaria,

Gritava para alguns: “Que cena tão faceta!

Reparem! Que episódio! “ Ele já não gemia.

Findara honradamente. As lutas, afinal,

Deixavam repousar essa criança escrava,

E a gente da província, atônita, exclamava:

“Que providências! Deus! Lá vai para o hospital!”

Por onde o morto passa há grupos, murmurinhos;

Mornas essências vêm duma perfumaria,

E cheira a peixe frito um armazém de vinhos,

Numa travessa escura em que não entra o dia

Um fidalgote brada a duas prostitutas:

“Que espantos! Um rapaz servente de pedreiro!”

bisonhos, devagar, passeiam uns recrutas

E conta-se o que foi na loja dum barbeiro.

Era enjeitado, o pobre. E, para não morrer,

De bagas de suor tinha uma vida cheia;

Levava a um quarto andar cochos de cal e areia,

Não conhecera os pais, nem aprendera a ler.

Depois da sesta, um pouco estonteado e fraco,

Sentira a exalação da tarde abafadiça;

Quebravam-lhe o corpinho o fumo do tabaco

E o fato remendado e sujo de caliça.

Gastara o seu salário — oito vinténs ou menos —,

Ao longe o mar, que abismo! E o sol, que labareda!

“Os vultos, lá embaixo, oh! Como são pequenos!”

E estremeceu, rolou nas atrações da queda.

O mísero a doença, as privações cruéis

Soubera repelir — ataques desumanos!

Chamavam-lhe garoto! E apenas com seis anos

Andara a apregoar diários de dez-réis.

Anoitecia então. O féretro sinistro

Cruzou com um coupé seguido dum correio,

E um democrata disse: “Aonde irás, ministro!

Comprar um eleitor? Adormecer um seio?”

E eu tive uma suspeita. Aquele cavalheiro,

conservador, que esmaga o povo com impostos —,

mandava arremessar — que gozo! Estar solteiro! —

Os filhos naturais à roda dos expostos...

Mas não, não pode ser... Deite-se um grande véu...

De resto, a dignidade e a corrupção... que sonhos!

Todos os figurões cortejam-no risonhos

E um padre que ali vai tirou-lhe o solidéu.

E o desgraçado? Ah! Ah! Foi para a vala imensa,

Na tumba, sem o adeus dos rudes camaradas:

Isto porque o patrão negou-lhes a licença,

O inverno estava à porta e as obras atrasadas.

E antes, ao soletrar a narração do fato,

Vinda numa local hipócrita e ligeira

Berrava ao empreiteiro, um tanto estupefato:

Morreu!? Pois não caísse! Alguma bebedeira

Neste poema, Cesário Verde faz com que o leitor se sinta parte da multidão que observa o acontecimento tornando-o cúmplice dos sentimentos que o acidente desperta no poeta. Coloca o fato diante dos olhos do leitor como uma tela viva, o que permite comparar o poema ao quadro Acidente de trabalho de Proença Sigaud.

“Desastre” pode ainda ser comparado ao poema-música “Construção”, de Chico Buarque de Holanda que tem também como tema um acidente e a indiferença da sociedade diante de um pobre trabalhador da construção civil que “Morreu na contramão atrapalhando o sábado”

CONSTRUÇÃO

Amou daquela vez como se fosse a última

Beijou sua mulher come se fosse a última

E cada filho seu como se fosse o único

E atravessou a rua com seu passo tímido

Subiu a construção como se fosse máquina

Ergueu no patamar quatro paredes sólidas

Tijolo com tijolo num desenho mágico

Seus olhos embotados de cimento e lágrima

Sentou pra descansar como se fosse sábado

Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe

Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago

Dançou e gargalhou como se ouvisse música

E tropeçou no céu como se fosse um bêbado

E flutuou no ar como se fosse um pássaro

E se acabou no chão feito um pacote flácido

Agonizou no meio do passeio público

Morreu na contramão atrapalhando o tráfego

Amou daquela vez como se fosse o último

Beijou sua mulher como se fosse a única

E cada filho seu como se fosse o pródigo

E atravessou a rua com seu passo bêbado

Subiu a construção como se fosse sólido

Ergueu no patamar quatro paredes mágicas

tijolo com tijolo num desenhe lógico

Seus olhos embotados de cimento e tráfego

Sentou pra descansar como se fosse um príncipe

Comeu feijão com arroz como se fosse o máximo

Bebeu e soluçou como se fosse máquina

Dançou e gargalhou como se fosse o próximo

E tropeçou no céu como se ouvisse música

E flutuou no ar como se fosse sábado

E se acabou no chão feito um pacote tímido

Agonizou no meio do passeio náufrago

Morreu na contramão atrapalhando o público

Amou daquela vez como se fosse máquina

Beijou sua mulher como se fosse lógico

Ergueu no patamar quatro paredes flácidas

Sentou pra descansar como se fosse um pássaro

E flutuou no ar como se fosse um príncipe

E se acabou no chão feito um pacote bêbado

Morreu na contramão atrapalhando o sábado

Chico Buarque de Holanda

O pessoal

Acontece também de a participação do poeta estar em primeiro plano, o que torna o texto extremamente pessoal, carregado de sentimentos e impressões do eu poético. É o caso de “contrariedades” no qual a revolta é exposta tão fortemente que o poema mais parece uma prosa cheia de interjeições.

Eu hoje estou cruel, frenético, exigente

Nem posso tolerar os livros mais bizarros.

Incrível! Já fumei três maços de cigarros

Consecutivamente

O poeta se diz mal — e mau —, abafando desespero. Conta de uma pobre doente sua vizinha, a trabalhar sem poder e mal tendo ganho para a sobrevivência. Depois volta a falar de si mesmo, recusado por um jornal quando enviou poemas, a revolta que o fez destruir suas obras. Há um grande desabafo no qual diz ser sempre recusado por ser independente, por criar Arte e não apenas coisas para vender (folhetins populares). Conta que detesta escrever em prosa e que não adula ninguém, apenas compõe seus versos originais.

Volta à doente que trabalha sem poder, que se alimenta mal por não ter meios, mas que, apesar disso, às vezes canta. Resolve tomar a lição da vizinha e deixar os “azedumes”, quem sabe a sorte mudará. Passa a raiva. E a vizinha? Talvez não tenha o que comer, já é noite e ainda trabalha. Para piorar tudo é feia, coitada!

E estou melhor; passou-me a cólera. E a vizinha?

A pobre engomadeira ir-se-à deitar sem ceia?

Vejo-lhe luz no quarto. Inda trabalha. É feia...

Que mundo! Coitadinha!

A ironia

Cesário Verde é muitas vezes irônico, como por exemplo no poema “impossível” em que, com uma graça bem humorada, repudia o casamento:

Eu posso amar-te como o Dante amou,

Seguir-te sempre como a luz ao raio,

Mas ir, contigo, à Igreja, isso não vou,

Lá nessa é que eu não caio!

E quando, também com muita graça, ironiza a passagem do tempo que “amadurece” as pessoas.

E eu que daria um rei por cada teu suspiro

Eu que amo a mocidade e as modas fúteis, vãs,

Eu morro de pesar, talvez porque prefiro

O teu cabelo escuro às veneráveis cãs!

Enfim, lendo Cesário Verde o que se pode concluir é que ele é um poeta versátil, original e marcante a ponto de sua poesia conservar muito da atualidade ainda hoje e fora de seu país. Pode-se afirmar ainda que cada poema seu mereceria uma análise mais profunda e sua obra é digna de comentários e interpretações mais cuidadosos, mas não é esse, no momento o propósito desse trabalho. Portanto, tudo que se pode afirmar é que Cesário Verde pode ser uma leitura surpreendente, exigindo uma pausa para reflexão, uma pausa para “sentir” cada um de seus poemas antes de passar ao próximo. E, tomando como gancho o que foi dito pelo jornal Correio da manhã, em 04-07-1955: “Ë impossível negar a influência de C. Verde no poeta do Eu”. (matéria não assinada), é possível ainda afirmar, sem medo de exageros, que, se realmente foi influenciado por Cesário Verde, Fernando pessoa bebeu em boa fonte.

O SIM CONTRA O SIM

A Felix de Athayde

Cesário Verde usava a tinta

de forma singular:

não para colorir,

apesar da cor que nele há.

Talvez que nem usasse tinta,

somente água clara,

aquela água de vidro

que se vê percorrer a Arcádia.

Certo, não escrevia com ela,

ou escrevia lavando:

revelava, enxaguava

seu mundo em Sábado de banho.

Assim chegou aos tons opostos

das maçãs que contou:

rubras dentro da cesta

de quem no rosto as tem sem cor.

João Cabral de Melo Neto

BIBLIOGRAFIA

ABDALA JÚNIOR, Benjamin e PASCHOALIN, Maria Aparecida – História Social

Da Literatura Portuguesa, São Paulo, Ática, 1985

BOSI, Alfredo – História concisa da literatura brasileira, São Paulo, Cultrix, 1990

MONTEIRO, Adolfo Casais – O livro de Cesário Verde, São Paulo, Cultrix, sd

MOISÉS, Massaud – A literatura portuguesa, São Paulo, Cultrix, 1991

_____________ - A literatura portuguesa através dos textos, São Paulo, Cultrix,

1990

NICOLA, José de – Literatura Brasileira, das origens aos nossos dias, São Paulo,

Scipione, 1998

Março/99

CESÁRIO VERDE

A primeira coisa que chama a atenção do leitor nesta obra de Cesário Verde é que entre todos os seus poemas podemos encontrar apenas quatro que não são escritos em primeira pessoa. Seus poemas são, então, uma conversa aberta e franca consigo mesmo, um expor de sentimentos despertados no poeta pela observação do mundo a seu redor.

Há entre os poemas de Cesário Verde alguns que podem ser destacados pela temática fortemente social. Embora esse tema tão complexo e atual seja quase uma constante em sua obra, em alguns casos há uma ênfase maior para um determinado aspecto dele.

Nessa linha podemos destacar o poema “desastre” onde, nas três primeiras estrofes o poeta descreve um acidentado carregado em uma maca e animado por um amigo. Depois o poeta fala do mundo indiferente, das pessoas e do movimento da cidade que não se alterou à cena comovente.

Morre então o acidentado “findara honradamente”, e vem a reação das pessoas diante da passagem do morto, a curiosidade mórbida, insensível, sensacionalista e indiferente. Em seguida, o poeta faz a descrição da vida do morto, um pobre coitado, um trabalhador braçal sem família, um ser humano que sofria desde criança na luta pela vida. E quando passa o féretro por um bem sucedido político, o poeta pensa nos filhos naturais desses tão bem postados homens que seriam, talvez, como o morte, um ninguém. Mas recusa o pensamento diante da tão grande importância do político, que é cortejado até mesmo por um padre. Volta ao morto: “E o desgraçado?”. Esse foi enterrado em vala comum sem nem mesmo a presença dos colegas que não tiveram consentimento do patrão para interromper o trabalho. Ao final do poema. O patrão comenta como resultado apenas de uma bebedeira, a morte do pobre homem.

E antes, ao soletrar a narração do fato,

Vinda numa local hipócrita e ligeira

Berrava ao empreiteiro, um tanto estupefato:

Morreu!? Pois não caísse! Alguma bebedeira

Esse poema é de uma qualidade narrativa e dramática impressionante. E um poema que prende na sua leitura e que penetra fundo o leitor, abalando seus sentimentos.

E é atual. Tão comovente e realista crítica é feita por Chico Buarque de Holanda no poema-música “Construção” e Chico Buarque não ér mais atual na música do que Cesário Verde nesse poema, apesar dos anos que os separam. O poema surpreende pela sua contemporaneidade.

em Cesário Verde, na maioria dos poemas, um “eu” poético que vê o mundo, que descreve esse mundo, que o fotografa, mas que fotografa uma vida efervecente e não um mundo estático como uma fração de segundo congelada no tempo, como é uma fotografia. A fotografia de Cesário Verde vive e o poeta participa dessa vida, mas acontece também de a participação do poeta estar em primeiro plano o que faz um poema extremamente pessoal, carregado de sentimentos e impressões do eu poético com a fotografia em segundo plano.

Isso acontece no poema “contrariedades”onde há uma revolta incontida, um nervosismo palpável e uma impressionante clareza e realidade

Esse poema já começa com um desabafo revoltado e surpreendido(?)

Eu hoje estou cruel, frenético, exigente

Nem posso tolerar os livros mais bizarros.

Incrível! Já fumei três maços de cigarros

Consecutivamente

O poeta se diz mal, abafando desespero, conta de uma pobre doente sua vizinha, a trabalhar sem poder e mal tendo ganho para a sobrevivência e diz de si mesmo, recusado por um jornal quando enviou poemas e a revolta que o faz destruir suas obras. É um grande desabafo onde ele diz ser sempre recusado por ser independente, por criar Arte e não apenas coisas para vender (folhetins populares). Fala detestar escrever em prosa e não adular ninguém, apenas compor seus versos originais.

Volta à doente que trabalha sem poder, que se alimenta mal por não Ter meios, mas que, apesar disso, às vezes canta.

Resolve tomar a lição dessa e deixar os “azedumes”, quem sabe a sorte mudará. Passa a raiva, e a vizinha? Talvez não tenha o que comer, já é noite e ainda trabalha, para piorar tudo é feia, coitada!

E estou melhor; passou-me a cólera. E a vizinha?

A pobre engomadeira ir-se-à deitar sem ceia?

Vejo-lhe luz no quarto. Inda trabalha. É feia...

Que mundo! Coitadinha!

Esse poema é o mais pessoal que pode ser encontrado no livro e nos passa tão bem o sentimento de ira do poeta que parece uma prosa cheia de interjeições.

Aliás, toda a obra de Cesário Verde parece prosa. Assim como José de Alencar escreveu Iracema que é uma poesia em prosa, Cesário Verde escreve prosa em poema, é notável como, arranjado em versos, estrofes, com rima e métrica o poeta consegue “prosear” tão bem. Causa a leitura de Cesário Verde uma enorme admiração por essa capacidade de “prosear” em versos.

Cesário Verde é muitas vezes irônico, como por exemplo no poema “impossível” onde com uma graça bem humorada repudia o casamento:

Eu posso amar-te como o Dante amou,

Seguir-te sempre como a luz ao raio,

Mas ir, contigo, à Igreja, isso não vou,

Lá nessa é que eu não caio!

E quando, também com muita graça, ironiza a passagem do tempo que “amadurece” as pessoas.

E eu que daria um rei por cada teu suspiro

Eu que amo a mocidade e as modas fúteis, vãs,

Eu morro de pesar, talvez porque prefiro

O teu cabelo escuro às veneráveis cãs!

Enfim, lendo Cesário Verde o que salta aos olhos é que ele é um poeta tão versátil, tão original e tão marcante que cada poema seu mereceria sem dúvida, uma análise profunda e páginas e páginas de comentários e interpretações, mas tudo que pode ser dito de forma reduzida pela falta, no momento de ocasião para tal análise, é que Cesário Verde é uma leitura agradável e surpreendente, exigindo uma pausa para reflexão, uma pausa para “sentir” cada um de seus poemas antes de passar ao próximo. E como foi dito que Fernando pessoa foi influenciado por Cesário Verde, o que se pode afirmar, sem medo de exageros, é que Fernando Pessoa bebeu em boa fonte.

Bibliografia

MONTEIRO, Adolfo Casais – O livro de Cesário Verde, São Paulo, Cultrix, sd.