11 de junho de 2007

UNIVERSIDADE, SABER E INTERESSE

Francisco Miraglia Netto

O movimento docente na sua luta para a transformação da universidade brasileira. Tem se defrontado com o aparato governamental e com o aparato institucional acadêmico e científico. O movimento é rotulado de “corporativo”, deslegitimado como agente de transformações das instituições e da relação entre elas e a comunidade. Sua importância, sua luta, o significado social e sindical da ANDES-SN, são “esquecidos”, relativizados ou mesmo desacreditados.
As políticas governamentais só são contestadas pelos movimentos sociais organizados e combativos. Se dependêssemos do poder institucional a situação do ensino público e do apoio à pesquisa no Brasil, estaria próxima da catástrofe.
Ligados ou com parâmetros dados pelos “centros de excelência”, a maioria dos quadros gerenciais da cúpula acadêmica e científica trazem uma concepção elitista que exclui diversidade e níveis de ensino e pesquisa. Além disso, nada fazem para restringir o empresariamento do ensino e promover o sustento da qualidade do ensino público e da pesquisa.
Para os que exercem o poder as universidades deveriam ser desdobradas em dois tipos: os “escolões de terceiro grau” e os “centros de excelência”. Para esses setores o centro de excelência anda a contento. Nessas instituições, o ensino e a extensão de serviços à sociedade são de segunda categoria.
Essa definição defende os interesses empresariais, cria obstáculos à realização da universidade de qualidade e socialmente responsável e estabelece uma estrutura de poder que promove a alienação.
Segundo essa concepção, que identifica interesse da sociedade com interesse da elite dominante, a sociedade comparece na qualidade de contribuinte que cobra um bom desempenho. Os critérios da produção universitária são definidos pelos interesses do mercado e do fisco. Assim, o estado faz o papel de tutor e fiscal das escolas públicas ao mesmo tempo em que deixa à vontade a exploração privada do direito à educação.
Faz parte do projeto da classe dominante controlar o modo como o saber é produzido e disseminado; é importante o controle de todo o aparato institucional e privado de ensino e pesquisa e dos meios de comunicação, apropriar-se do saber produzido pela sociedade e utilizá-los para seus próprios interesses; minimizar a possibilidade de que a parcela responsável pela divulgação e produção de conhecimento se reconheça como trabalhador e se volte para interesses e problemas que não são os da classe dominante. Essas características no Brasil têm presença mais marcante e visível.
Docentes universitários e trabalhadores precisam vender sua força de trabalho para viver. As diferenças de salário refletem a estratégia de controle e cooptação dos que fazem o trabalho intelectual. No Brasil, a miséria, a fome e a exploração exigem uma distinção salarial maior como meio de evitar a articulação política.
A divisão costumeira entre formas superiores e inferiores de saber é um meio de legitimar a exclusão e um recurso para afastar idéias e ações consideradas inadequadas na universidade. A imagem de exclusividade serve para prestigia-la, a fim de que possa validar conhecimentos cuja finalidade é decidida pela classe dominante. Ao mesmo tempo é dificultada a produção de conhecimento e análise critica do interior da universidade. Evita-se que a reflexão crítica do trabalho seja parte do próprio trabalho.
A universidade é atrelada ao empresariado e às burocracias estatais. As decisões sobre pesquisas passam da universidade para agencias que a governam de fora. Procura-se neutralizar a possibilidade da criação livre de conhecimento.
As duas faces do discurso são unificadas graças à idéia de modernização conservadora. Harmonizam-se as idéias de conservação da instituição e de adequação institucional aos “novos tempos”.
A universidade se torna intelectualmente raquítica. Rouba dos estudantes a possibilidade de uma relação concreta com o saber e a cultura. Torna-se instrumento eficaz para ampliar a dominação e garantir a continuidade da acumulação do capital.
O saber se diferencia da experiência imediata porque a questiona e busca compreendê-la. O saber está sempre inserido no contexto sócio-cultural que o gera, é avesso ao princípio da obediência à autoridade instituída e não se satisfaz em se realizar no interior de uma instituição, mas indaga o que é esta instituição, por que e para que ela existe.
Um dos elementos constitutivos do saber é o rigor, que só se estabelece no domínio do debate e da discussão públicos. A idéia de publicar resultados de pesquisas e reflexão tem exatamente esta origem: submetê-los à discussão antes que possam ser considerados saber. O saber exige democracia e não é propriedade privada. A apropriação privada do saber agride tanto um dos elementos constitutivos básicos do trabalho intelectual quanto a atmosfera que propicia o seu florescer. A burguesia nega a democracia como ambiente para a discussão de qualquer tipo de trabalho.
A presente noção de avaliação recusa-se a aceitar a idéia de que antes de avaliar é preciso ter um projeto definido. Procura-se atrelar a universidade brasileira aos modelos dos países capitalistas centrais com a desmoralização das propostas de quem não quer ser igual a Harvard.
Avaliação é reflexão crítica em cima de um projeto dado e deve-se dar no domínio do público. É fundamental que qualquer avaliação seja precedida pela discussão coletiva. Insistir nesse ponto é fundamental para resistir a um dos instrumentos de apropriação e controle do trabalho intelectual pela classe dominante.
Os laços da universidade com o poder sempre foram determinantes para sua definição e atividades. A universidade possui forças que fazem presente a contradição. Queremos a ampliação do leque de questões que tratamos. Sua forma atual e seu papel social não condizem com nossa concepção do que deva ser o trabalho nela realizado. Devemos insistir na contestação do projeto burguês e na sua substituição por outro compromissado com a erradicação da miséria, da fome, e com a construção da democracia social e econômica do país.
É importante combater os aspectos mais visíveis do modelo implantado. Por outro lado, é crucial que fique claro qual a universidade que estamos defendendo. Não basta obter financiamento. Não podemos aceitar o esquema de avaliação imposto pelo aparelho do Estado. Não queremos trabalhar para aprimorar o aparelho de apropriação cultural da burguesia. Continuaremos o embate por verbas, mas devemos concomitantemente, travar a luta ideológica e conceitual, sob risco de vermos consolidado o modelo que temos o compromisso de derrotar.
Concebemos a universidade como articulação de trabalhadores intelectuais. Uma universidade brasileira de alto nível só se estabelece a partir dos parâmetros defendidos pelo movimento docente. Devemos dedicar especial atenção à questão da avaliação. Somos pressionados a deixar de lado o aspecto transformador e classista das nossas propostas. Devemos retomar a luta pela real democratização das decisões no interior das universidades. Sem isto, corremos o risco de ver reitores com perspectiva progressista administrarem o projeto burguês discutido acima.
Devemos prestigiar a produção intelectual do movimento social organizado e envolver no processo de luta os partidos de esquerda, a CUT, os professores de 1º e 2º graus e os estudantes.

COMENTÁRIO
Divina de Jesus Scarpim

Ontem, logo depois de ler o texto para produzir esse trabalho, fui até a cidade e vi, descendo de um ônibus com imensa dificuldade, uma mulher ainda jovem, mal vestida, precocemente envelhecida e negra. Ela carregava uma sacola e estava acompanhada de quatro crianças pequenas, a mais velha não parecia ter três anos. Carregava uma no colo, puxava outra pela mão e olhava para trás a todo momento para se saber acompanhada pelas outras duas que seguiam seus passos.
Parei e fiquei olhando a cena até que a mulher desapareceu da minha vista com a sua sacola, suas crianças maltrapilhas e sua pobreza envolta em preconceito. Pensei então sobre o texto que tinha acabado de ler. Qual é a chance dessa mulher compreender apenas esse parágrafo de Max Horkheimer que está na primeira folha do texto? Aliás, qual é a chance de duas pessoas que descem desse ônibus lotado que vem da periferia pobre da cidade entender alguma coisa desse parágrafo? E mais, qual é a chance de pelo menos uma dessas quatro crianças que a mulher leva consigo chegar um dia a freqüentar um banco de uma universidade, de uma universidade pública e “gratuita”?
A distância entre as universidades e a classe trabalhadora como um todo é tão grande que pensar em uma união em defesa de interesses comuns de forma realmente coesa torna-se uma idéia utópica.
Para a imensa maioria da classe trabalhadora, universidade é algo tão distante de sua realidade quanto era para a maioria da população mundial a idéia de computação nos anos 60. O trabalhador mal tem acesso à educação de nível médio de péssima qualidade que se tem na escola pública e, se tentar se informar um pouco mais vai ver que ele sustenta com seus impostos a universidade que seus filhos jamais poderão freqüentar.
Em contrapartida, o corpo docente e a direção das universidades são, também em sua imensa maioria, oriundos da classe dominante, portanto, não têm a real noção das necessidades e anseios da classe trabalhadora.
E mesmo os professores de 1º e 2º graus, também em sua maioria, trabalham tantas horas por dia e ganham tão pouco que não têm tempo nem sequer de pensar seriamente em universidade, estão afastados dela desde sua formatura e, para eles, os professores universitários são ainda aquelas pessoas privilegiadas que têm um emprego com o qual eles não podem nem sequer sonhar. O professor universitário não é, portanto, visto pelo professor de 1º e 2º grau como um colega e a universidade e seus problemas estão quase tão distantes dele quanto da classe trabalhadora em geral.
Daí concluir que toda a articulação da elite dominante para ter total controle da produção e divulgação do saber só pode ser muito bem sucedida, como tem sido até hoje e como vai continuar sendo, salvo grandes e inesperadas mudanças, ainda por muito tempo.
Se o trabalhador não tem a exata noção do que é uma universidade, que noção pode ter da questão da avaliação? Que interesse pode ver em discutir ou, ainda mais, em lutar por essa ou aquela postura diante desse tema? Que parâmetros está em condições de levar em consideração para julgar o benefício ou malefício desse ou daquele sistema de avaliação?
Os movimentos docentes deveriam sim dedicar especial atenção à questão da inserção da universidade no contexto social, dar possibilidades para que exista mais produção intelectual dos movimentos sociais organizados da classe trabalhadora.
Enquanto os trabalhadores não puderem ter acesso à universidade, não poderão apoiar, compreender ou se posicionar diante de qualquer questão referente a ela porque está muito distante da sua realidade.