27 de julho de 2007

DEUS É CULPADO SIM ! (Resposta a um texto que circulou na Internet)

“Eu creio que tudo começou desde que Madeline Murray O'hare (que foi assassinada), se queixou de que era impróprio se fazer oração nas escolas Americanas como se fazia tradicionalmente, e nós concordamos com a sua opinião.”
- Aqui no Brasil, o índice de violência nas escolas e nas ruas nunca foi tão grande e, no entanto, temos até mesmo a disciplina Ensino Religioso nas escolas públicas do Rio de Janeiro (Que é o Estado onde a violência é maior)
“Depois disso, alguém disse que seria melhor também não ler mais a Bíblia nas escolas...”
- Citações da bíblia são comuns nessas aulas de ensino religioso, pelo que eu sei.
“A Bíblia que nos ensina que não devemos matar, roubar e devemos amar o nosso próximo como a nós mesmos.”
- Mas a bíblia ensina também a matar, a ter preconceito, a desprezar todos os que são diferentes, a gostar de violência, morte e sangue...
“Logo depois o Dr.. Benjamin Spock disse que não deveríamos bater em nossos filhos”
- Bater em filhos nunca foi e nunca será uma boa forma de educação. Se você tratar seu filho com amor, respeito e atenção; se você não ensiná-lo apenas com palavras vazias, broncas e gritos, mas sim com exemplos e prática você certamente não precisará espancá-lo. E, o contrário, se você não der amor, respeito, atenção, exemplos, por mais que o espanque não terá educado uma boa pessoa.
“Depois alguém disse que os professores e diretores das escolas não deveriam disciplinar nossos filhos quando se comportassem mal. “
- Se a criança tem uma boa educação em casa, nenhum professor vai querer tocar nessa criança a não ser para abraçá-la, cumprimentá-la ou fazer carinho como se faz carinho em um filho, a não ser que esse professor seja um sádico e não tenha a mínima idéia do que é educação.
“Aí, alguém sugeriu que deveríamos deixar que nossas filhas fizessem aborto, se elas assim o quisessem. “
- Se educarmos nossos filhos com amor, esclarecermos suas dúvidas e o orientarmos sem preconceito e falsa moral, nossos filhos saberão evitar que uma garota fique em situação difícil por irresponsabilidade sua e nossas filhas não precisarão fazer aborto, mesmo que possam, porque terão responsabilidade e saberão evitar uma gravidez fora de hora.
“Então foi dito que deveríamos dar aos nossos filhos tantas camisinhas, quantas eles quisessem para que eles pudessem se divertir à vontade.”
- Não devemos dar camisinhas a nossos filhos para que eles se divirtam à vontade, devemos dar camisinhas a nossos filhos para que eles cuidem de sua saúde e da saúde das pessoas com quem se relacionarem.
“Então alguém sugeriu que imprimíssemos revistas com fotografias de mulheres nuas, e disséssemos que isto é uma coisa sadia e uma apreciação natural do corpo feminino.”
- Não precisamos expor a nudez e o sexo a nossos filhos, eles os encontrarão por conta própria, estando ou não expostos, assim como faziam nossos pais e avós, ou será que ninguém sabe do sucesso que faziam os tais “catecismos” de antigamente?
“Depois uma outra pessoa levou isso um passo mais adiante e publicou fotos de Crianças nuas e foi mais além ainda, colocando-as à disposição da internet.
E nós dissemos:
"Está bem, isto é democracia, e eles tem o direito de ter liberdade de se expressar e fazer isso".”
- Que eu saiba só doentes fazem isso e só loucos aprovam.
“"Senhor, porque não salvaste aquela criança na escola?"
A resposta dele:
"Querida criança, não me deixam entrar nas escolas!!!"”
- Se fosse mesmo verdade o que os religiosos afirmam o tempo todo “Jesus te ama”, “Deus é bom”, “Jesus disse: Vinde a mim as criancinhas”, e outras coisas do tipo, se deus soubesse, pelo menos, reconhecer que crianças são inocentes e não têm por que serem castigadas, ele entraria sim nas escolas sem que fosse preciso ficar rezando e citando trechos da bíblia, estaria lá porque “está em todos os lugares”, não é isso que dizem dele?
“É triste como as pessoas simplesmente culpam a Deus e não entendem porque o mundo está indo a passos largos para o inferno.”
- Acho triste é que culpem a gente por tudo quando algumas aberrações que acontecem não são em absoluto culpa nossa!
“É triste como cremos em tudo que os Jornais e a TV dizem, mas duvidamos do que a Bíblia, ou do que a sua religião, que você diz que segue ensina.”
- Eu duvido sim e não sigo nenhuma religião porque todas estão cheias de abusos e absurdos, a história de todas elas é um livro banhado em sangue, e ainda hoje é em nome de religião que se está matando gente a toda hora em muitos lugares do mundo!
“É triste como alguém diz:
"Eu creio em Deus".
Mas ainda assim segue a satanás, que, por sinal, também "Crê" em Deus.”
- É com comentários desse tipo que muitos religiosos ao longo da história e ainda hoje justificam assassinatos e genocídios, lembra da aberração chamada Inquisição?
“Quando tentamos enviar algum e-mail falando de Deus, as pessoas têm medo de compartilhar e reenviá-los a outros!”
- Penso meio que o contrário: Muitos passam a vida tentando ganhar adeptos para as religiões de plantão e não ouvem, não pensam, não toleram de forma alguma quem tem opinião diferente: sempre dizem que qualquer um que ousa contrariar essas idéias pré-concebidas está falando em nome de satanás, por mais que a pessoa seja ética e decente em sua vida e seus pensamentos.
“É triste ver como o material imoral, obsceno e vulgar corre livremente na internet, mas uma discussão pública a respeito de Deus é suprimida rapidamente na escola e no trabalho.”
- Pelo contrário, a escola que deveria ser laica, está sempre cheia de figuras religiosas e sempre se constrange as pessoas a rezarem em qualquer cerimônia, sem o mínimo respeito para com quem prefere não aderir a preceitos religiosos.
“É triste ver como as pessoas ficam inflamadas a respeito de Cristo no domingo, mas depois se transformam em cristãos invisíveis pelo resto da semana.”
- Ninguém é obrigado a ser cristão, mas parece que nenhum cristão consegue entender isso.
“Você mesmo pode não querer reenviar esta mensagem a muitos de sua lista de endereços.”
- Não vou enviar a ninguém porque não concordo com o texto, só isso. Sem querer, de forma alguma, desrespeitar quem é religioso, só estou pedindo o direito de não sê-lo sem que para isso seja obrigada a me ver acusada como se fosse culpada por todos os males do mundo.
“Gozado que nós nos preocupamos mais com o que as outras pessoas pensam a nosso respeito do que com o que Deus pensa...”
- Não me preocupo com o que deus pensa, não sei se ele pensa, nem sei se ele existe!
"Garanto que Ele que enxerga tudo em nosso coração está torcendo para que você, no seu livre arbítrio, envie estas palavras a outras pessoas".
- Como é possível alguém fazer uma garantia dessa? Como alguém pode ter a pretensão de saber se e o que deus pensa, vê ou quer?????
“Onde existe Deus,
Se existir fome, encontra-se o alimento,
Se existir dor, encontra-se o remédio,
Se existir guerra, pode-se estabelecer a Paz,
Se existir problemas, mas, também, as soluções,
Pode-se estar só, mas não há solidão.
Onde Ele não está,
A fome mata,
A dor enlouquece,
A guerra dizima,
Os problemas são senhores,
E a solidão é companheira, mesmo no meio da multidão.”
- Com tanta gente morrendo de fome, doença, pobreza, frio, calor, desastres naturais e não-naturais, não consigo acreditar nesse tal deus de bondade, é muita utopia pra mim!
“Deus é o único que sempre tem os braços abertos para nós, quando o procuramos, arrependidos, independente do que tenhamos feito ao abandoná-lo e por quanto tempo estivemos afastados.”
- Disso daí eu também não consigo ver muito não.
Essa semana mesmo um senhor que trabalha na escola onde dou aulas e que é negro, humilde, pobre, sofrido, religioso, educado, gentil e bondoso ao extremo, daquelas pessoas cuja convivência faz a gente acreditar mais na beleza do ser humano, pois bem, esse senhor viu morrer seu filho de 15 anos, um menino que sempre foi bom filho e bom aluno mas que teve um câncer na perna e, embora tenha tido por mais de dois anos as orações, os desejos, os votos e tudo o que poderia ter de seus pais e de todos nós, amigos, conhecidos, parentes e colegas, não conseguiu evitar que o câncer se alastrasse até não ter mais possibilidades de cura.
Não consigo encontrar nessa pessoa algo que o faça merecedor de um castigo desse tamanho, e ele é só um exemplo entre milhões e milhões. Aí me vêm tentar convencer de que deus é bom, não falha, não nega o pedido de quem o procura, e outras tantas mentiras do tipo?
Desculpe, não sei acreditar nisso!

24 de julho de 2007

CEM ANOS DE SOLIDÃO

Pánico - La Chancha

Aureliano segundo, hijo del doctor
Siente que se está terminando su tiempo
Un presentimiento, una premonición
Sabe que se está jugando los descuentos

Los ojos se te nublan
El pulso se te va
Las paredes avanzan sobre ti
El eco de la muerte ya se puede sentir
Las últimas palabras se resisten a salir

Tantos pensamientos vienen hacia el
¿como hacer para volver atrás el tiempo?
El miedo paraliza y entorpece la razón
La muerte siempre es algo que le pasa a otro
Los ojos se te nublan
El pulso se te va
Las paredes avanzan sobre ti
El eco de la muerte ya se puede sentir
Las últimas palabras se resisten a salir

Aureliano segundo busca su perdón
Esa necesidad tan propia del hombre
Pero en su destino estaba esta condición
El hace preguntas y nadie responde
Los ojos se te nublan
El pulso se te va
Las paredes avanzan sobre ti
El eco de la muerte ya se puede sentir
Las últimas palabras se resisten a salir

Aureliano segundo, busca su perdón
Esa necesidad tan propia del hombre
Aureliano segundo no tiene salvación
Que le perdone el diablo lo que dios no pudo

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“Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o Coronel Aureliano Buendía havia de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo.” (p.7). “Muchos años después, frente al pelotón de fusilamiento, el coronel Aureliano Buendía había de recordar aquella tarde remota en que su padre lo llevó a conocer el hielo.” (p.9). O livro inicia com o anúncio de algo que acontecerá em um futuro incerto, "muitos anos depois". Essa incerteza temporal dada no que é, na opinião de vários críticos conceituados, um dos mais felizes inícios de obra literária de que se tem notícia, (procurar a revista Veja) nos aproxima da incerteza temporal mais eficaz de todos os tempos, o "era uma vez". O anúncio sugere ao leitor um fuzilamento que não acontece. O Coronel Aureliano Buendía sobreviverá ao pelotão de fuzilamento e morrerá de velho fabricando peixinhos de ouro.

“Um rio de águas diáfanas que se precipitavam por um leito de pedras polidas, brancas e enormes como ovos pré-históricos.” (p.7) “Un rio de aguas diáfanas que se precipitaban por un lecho de piedras pulidas, blancas y enormes como huevos prehistóricos.” (p.9)
Temos aí uma descrição poética, carregada de imagens e criações sonoras, de rítmo e sugestões que nada deixa a dever a um bom texto em versos. A comparação sugere à mente do leitor uma ligação entre as pedras e os ovos pré-históricos, dando-lhe a sugestão de que são duas coisas que, em um mundo real, ao menos em um tempo real, não existem. E também faz o paralelo entre os ovos pré-históricos e a própria Macondo que vivia então sua pré-história. Afinal Melquíades ainda não havia escrito o pergaminho que conta a história de Macondo e da família Buendía.

“O mundo era tão recente que muitas coisas careciam de nome e para mencioná-las se precisava apontar com o dedo.” (p.7). “El mundo era tan reciente, que muchas cosas carecían de nombre, y para mencionarlas había que señalarlas com el dedo.” (p.9). Por ocasião da descoberta do novo mundo, havia aqui muitas coisas que eram desconhecidas para os europeus e que eles não sabiam nomear. Nesse sentido, Macondo pode ser visto como uma imagem do novo mundo, da América latina. Esse mundo recente remete-nos também, de acordo com o crítico francês Albert Bensoussan, ao gênesis. Bensoussan refere-se a José Arcádio como um Adão: “ On peut parler d’Adam et de premier homme à propôs du fondateur de Macondo;” (p.II)

“Um cigano corpulento, de barbas rudes e mãos de pardal,” (p.8). “Un gitano corpulento, de barba montaraz e manos de gorrión,” (p.9). Na edição brasileira, em pé de página, o autor, através da tradutora nos esclarece que “o importante da imagem é que esse pássaro tem patas de ave de rapina, mas é bom e inofensivo. Melquíades também, por suas mãos, e à primeira vista, podia parecer uma ave de rapina, mas não o era, como se viu mais tarde.” . É a primeira descrição do livro, é o personagem que escreve a história da família e da cidade dos espelhos. É, em última análise, o narrador.

“Dentro em pouco o homem poderá ver o que acontece em qualquer lugar da terra, sem sair de sua casa.”. (p.9). “Dentro de poco, el hombre podrá ver lo que ocurre en cualquier lugar de la tierra, (p.11). Previsão do invento da televisão? Sendo o livro atemporal pode-se pensar que a televisão já existia, apenas que Macondo não tinha conhecimento disso. Afinal, muito tempo depois, após a saída da companhia bananeira, os ciganos voltaram a mostrar o imã como uma descoberta recente. “...por essa época voltaram os ciganos, ... tornaram a entrar nas casas arrastando ferros imantados como se na verdade fossem a última descoberta dos sábios babilônicos,” (p.328)

“... conseguiu compor um manual de uma assombrosa clareza didática e um poder de convicção irresistível.” “... logró componer un manual de una asombrosa calridad didáctica y un poder de convicción irresistible.” Talvez essa palavra “irresistível”, seja um dos erros a que o próprio autor se refere, uma vez que, se realmente fosse irresistível não teria José Arcádio ficado sem resposta. O termo “didático” faz muito sentido no enredo como um todo uma vez que o aprender e o ensinar têm muita importância na trama e na vida dos personagens. Melquíades ensina José Arcádio a usar os instrumentos de navegação com os quais lhe presenteia. José Arcádio ensina os filhos a ler e escrever. Aureliano, Úrsula, Aureliano Segundo, todos ensinam alguém a ler e escrever e Amaranta “Colocou cadeirinhas de madeira na sala, e instituiu um jardim de infância com outras crianças de famílias vizinhas.” (p.129). Josefina Ludmer destaca essa característica em seu livro Cem anos de solidão/Uma interpretação

aos cuidados de um mensageiro que atravessou a serra, extraviou-se em pântanos desmesurados, subiu rios tormentosos e esteve a ponto de perecer sob o ataque das feras, o desespero e a peste, até encontrar um caminho que o levasse às mulas do correio. (p.10). al cuidado de un mensajero que atravesó la sierra, se extravió en pantanos desmesurados, remontó ríos tormentosos y estuvo a punto de perecer bajo el azote de las fieras, la desesperación y la peste, antes de conseguir una ruta de enlace com las mulas del correo. (p12). Quem é esse aventureiro? que pessoa faria tamanho sacrifício para levar uma mensagem? Essa passagem nos remete às histórias que aprendemos na escola sobre a criação dos correios e o heroísmo dos primeiros carteiros.

Quando se tornou perito no uso e manejo dos seus instrumentos, passou a ter uma noção do espaço que lhe permitiu navegar por mares incógnitos, visitar territórios desabitados e travar relações com seres explêndidos, sem necessidade de abandonar o seu gabinete. (p.10). Cuando se hizo experto en el uso y manejo de sus instrumentos, tuvo una noción del espacio que le permitió navegar por mares incógnitos, visitar terrtorios deshabitados y trabar relación com seres espléndidos, sin necessidad de abandonar su gabinete. (p.13). A mesma coisa que acontece com o último Aureliano, depois de tantos estudos no quarto de Melquíades, adquiriu conhecimentos que simplesmente não estavam nos livros. “Gastón costumava ... evocar ... os lugares mais íntimos de sua terra, que Aureliano conhecia como se tivesse estado nela por muito tempo.” (p.361)


José Arcádio Buendía, impassível, não se deixou amedrontar pelo desespero da mulher que, num impulso de cólera, destroçou o astrolábio contra o solo. (p.11). José Arcádio Buendía, impasible, no se dejó amedrentar por la desesperación de su mujer, que en un rapto de cólera le destrozó el astrolabio contra el suelo. (p.13). A cólera de Úrsula é repetida com mais intensidade por Aureliano Segundo quando, depois de ouvir a ladainha de Fernanda, quebra, atirando ao solo, tudo que há de quebrável na casa.

4 de julho de 2007

Amor para meu filho

Dizer o quanto te amo não é possível, não há palavras.
Amar você o quanto deveria não é possível, não há coração.
Na vida tão limitada, tão rasteira que vivemos
Intensamente procuramos o Máximo dentro das nossas limitações.
Eu sou um nada que pretende abrigar o todo do amor por você. Não posso.
Luz tão intensa me cegaria, cegaria o mundo, queimaria o universo.

Dentro de mim você surgiu em forma de amor
Amei você como filho, como milagre, como dádiva de Deus
No meu colo, no meu peito, na minha alma te amamentei
Iluminei, ou tentei, tua estrada com meu carinho
Eu vi você crescer e agora não tenho mais teu corpo frágil em meus braços
Lembranças muitas, lindas lembranças, é o que acompanha o meu amor