16 de dezembro de 2008

FILOSOFANDO COM A MIRIAM

Acho que sou uma daquelas pessoas que suportam perdas com facilidade... mas como quase nada na vida é irrevogavelmente real, suporto as perdas com "relativa" facilidade. Depende da perda, depende do que é facilidade. Coisas materiais podem se perder que praticamente nunca me doem; não lamento uma roupa que se rasgou, um sapato que furou, um carro que foi roubado, uma retirada do caixa eletrônico que coloquei no bolso errado e um ladrão de mãos muito leves levou... Não lamento também as perdas normais que vêm em conseqüência das mudanças; não fico deprimida porque possivelmente não vou mais caminhar por aquela rua de que tanto gostava no bairro em que morei por décadas, não lembro com tristeza o restaurante aconchegante onde estive várias vezes com os amigos de uma determinada época da vida, e – desapego mais questionável ainda na opinião de muitas pessoas - não morreria de saudade do Brasil se tivesse que morar o resto da minha vida em outro país qualquer. Não sou patriota, não sou bairrista, não tenho raízes...

Mas me lembro das pessoas. Não fico fazendo um milhão de coisas para manter o contato com alguém que ficou distante no tempo ou no espaço, e isso pode parecer o mesmo desapego que tenho com as coisas, mas não é. Das pessoas me lembro com carinho, nelas penso e a elas sempre paro para desejar alguma coisa do bem que possa existir no mundo, se é que algum bem existe... Vez em quando “envio” um abraço cheio de amor para a Vilma, a amiga que ia comigo à escola todos os dias quando nós tínhamos sete/oito anos. Não sei nada sobre ela desde que se mudou ainda na nossa infância, mas pra mim ela é minha amiga hoje tanto quanto era quando a gente combinava ir pra escola de chinelo nos dias de chuva para ir andando por dentro das enxurradas e para atravessar a pé o riozinho que tinha no caminho mais comprido, que era o que a gente fazia nesses dias. Não lamento a perda dessa amizade, não a perdi. Dizem que só os poetas conseguem ver as coisas com os olhos da primeira vez; não sou poeta, vejo muito as coisas como banalidades, ou com olhos de última vez; não última-vez-despedida-melancólica, apenas natural e saudável olhar de mudança, “Sei que nada será como antes amanhã”. Certamente minha amiga Vilma não é hoje a Vilma que conheci há tantos anos, talvez a Vilma de hoje nem se lembre da Divina daqueles tempos, as coisas mudam, as pessoas mudam e isso é natural, não lamento; às vezes fico muitíssimo brava com algumas mudanças, mas não lamento, só sinto dor se elas forem muito ruins, mas sinto dor por qualquer coisa que seja muito ruim, a dor faz parte de mim e também é natural.

Li em algum lugar a teoria de que o tempo é algo que se gasta, assim como as coisas se gastam; como uma engrenagem vai ficando com os dentes gastos e cada uma de suas partes vai girando com mais rapidez por encontrar menor resistência e encaixe menos rígido, o tempo também se gasta e vai passando mais rápido. Essa teoria é colocada pela personagem Úrsula em Cem anos de solidão; ela pensa em como dava tempo de acontecerem tantas coisas antes que um filho se tornasse adulto e como naquele momento os netos de seus filhos cresciam tão rápido que não dava tempo sequer de prepará-los para a vida. Não sei o que é o tempo, mas sei que ele não é amigo; a idéia mitológica do tempo como o pai que devora os próprios filhos é a idéia que mais me parece viável; não sei se minha sensação de que ele passa mais rápido agora do que passava antes é real, às vezes acho que é uma ilusão porque a sensação de variação na velocidade do tempo também se sente de dia para dia, um determinado dia pode parecer muito mais curto ou longo do que outro e a ordem não é obrigatoriamente decrescente. Acho que o tempo seria ótimo... se a gente tivesse mais tempo, muito mais tempo.

Ao contrário do físico austríaco Erwin Schrödinger, que a Miriam disse ter afirmado ser o impossível apenas algo cujas possibilidades de existência são infinitamente pequenas, eu acredito na possibilidade do impossível. Acho, por exemplo, impossível que o deus bíblico exista, acho impossível que o ser humano possa ter uma vida eterna e individual após a morte, acho impossível que o homem se torne um animal carregado de bondade e acho completamente impossível que a vida venha a ser realmente boa para todas as pessoas do planeta.

Confirmando a impressão do “encurtamento” do tempo. As pessoas não têm mais tempo para filosofias, não conseguem mais parar um pouco para pensar no que estão fazendo e nessa massa incompreensível de concreto-abstrato em que estamos mergulhados e da qual somos parte integrante. Quanto àquele apego que temos ao passado e ao futuro ele, como tudo na vida, tem seus prós e contras. O passado faz de nós o que somos, o futuro dirige nossos atos para o que poderemos vir a ser; portanto, ambos são necessários para que vivamos o presente, mas podem prejudicar esse mesmo presente caso a gente se apegue demais a um ou ao outro. É a cultura do meio termo que quase sempre parece tão lógica e saudável. Só se pode comer geléia agora se ela tiver sido preparada no passado e só se poderá comer da geléia amanhã se ela for preparada hoje. Isso parece lindo como uma lição de auto-ajuda de livros babacas como o tal Quem mexeu no meu queijo?, mas podemos ser menos superficiais e mais realistas se nos lembrarmos de que chegará o dia em que não poderemos mais comer geléia nenhuma e, o mais triste, se lembrarmos de que, por mais que se tenha preparado geléia no passado, muitos - muitos mesmo - não podem comê-la hoje e, por mais geléia que se prepare hoje, muitos - muitos mesmo - não a poderão comê-la amanhã. Quem diz que a vida é linda é porque está olhando apenas para o próprio umbigo.

Será que nosso passado faz mesmo com que acumulemos sabedoria? Sou uma pessimista de carteirinha e não acredito nisso; individualmente, em alguns poucos casos sim, mas como raça, como grupo, seguramente não. O Chico Buarque afirma “Não sou eu quem repete essa história é a História que adora uma repetição” e eu acho que ele tem razão; depois de tantas guerras ao longo de séculos, ainda existem guerras e o mundo nunca esteve em paz; depois de tanto acúmulo de conhecimento ainda não aprendemos a ver o outro como um ser humano igual a nós; depois de tantas religiões pregando o amor ainda sabemos odiar muito melhor do que amar; depois de tanto dizer que aceitamos a chantagem de sermos bons aqui para sermos premiados na outra vida, ainda roubamos de quem não tem nada, ainda torturamos o outro e ainda chamamos assassinato de esporte. Decididamente acumulamos um pouco de conhecimento, talvez, mas não adquirimos sabedoria nenhuma.

Planejar o futuro, ter esperança no futuro, acreditar no futuro... Essas são as necessidades que temos em função da preservação da vida; não fosse esse “olhar voltado para o futuro” nós saberíamos que a vida não vale a pena, haveria suicídio em massa, nos recusaríamos a trazer outro ser humano para esse circo de horrores e aconteceria a extinção da raça humana, simples assim. Precisamos do futuro para existir como raça, isso deve estar implantado em nossos genes ou em algo subjetivo e imaterial que forma o que somos, se houver isso. A vida dá prioridade à vida, e a vida da raça humana depende de os indivíduos em sua maioria acreditarem que o futuro será melhor do que o presente.

Eu, que não acredito em nada, também não acredito nesse futuro utópico. “As coisas quanto mais mudam mais iguais ficam”. Acho que no futuro ainda pode ter outro (ou outros) holocausto; outras queimas de infiéis condenados por outro (ou outros) “santo” tribunal, outros Hitlers, gengiscans, Francos sendo seguidos, servidos e louvados por outras massas prontas a eliminar qualquer manifestação contrária. Mas, para não levar o pessimismo a um radicalismo nocivo, pode ser também que no futuro caia outro (ou outros) muro de Berlim, que nasçam e vivam outros Gandis, outros Betinhos, outros Martin Luther Kings. Eu gostaria, como quase todo mundo, que só a segunda parte dessas possibilidades acontecesse, mas o que dentro de mim por acaso insistir que assim acontecerá será aquilo que existe na gente para evitar o fim da raça humana, não será nada lógico e nada minimamente provável.

Taí, Mirinha, pensei a respeito.

12 de novembro de 2008

UMA ADOLESCÊNCIA

Na escola tinha festa junina todo ano e todo ano eu dançava quadrilha, a professora encarregada de fazer os ensaios foi escolher os pares e me colocou ao lado de um menino que alguns anos atrás era um dos que riam de mim fazendo a brincadeira da calcinha debaixo da frigideira, eu saltei, afastei-me rápido e longe, não danço com ele de jeito nenhum! Ele ficou sem saber onde tinha braços e pernas, a professora insistiu, argumentou, tentou dar ordem, o garoto vermelho de vergonha e a escola inteira vendo, com ele eu não danço! Daí apareceu um menino negro alto e bonito que não estava inscrito mas aceitou dançar, peguei no braço dele e participei dos ensaios, eu e o menino negro, alto e bonito que foi meu par ficamos amigos. Foi uma pequena vingança pelos anos de humilhação da infância, mas foi uma boa vingança. Fui a um baile e, surpresa! Minha paixão de infância estava lá! perguntou das minhas sardas que eram tão abundantes e que haviam desaparecido, dançamos juntos, fui toda charmosa e sedutora, usei de todos os truques que o instinto feminino nos ensina e ao final da festa ele pediu pra namorar comigo, minha vontade de primeiro impulso foi gritar creeeedo! como ele tinha feito quando éramos crianças, mas não o fiz, apenas o recusei com a elegância com que uma garota recusa um cara por quem não está interessada, teve um gosto bem agradável esse não. colocou logo em alerta e enquanto minhas amigas, colegas e conhecidas diziam com orgulho e até levantando um pouco o peito e a cabeça: “Eu sou virgem”, euzinha aqui tinha uma vergonha danada de dizer isso, me parecia ser algo como expor minha vagina ao público para provar de certa forma e sei lá por que razão que nenhum pênis tinha penetrado minha intimidade. Pra mim parecia muito vergonhoso; assumir com palavras minha virgindade era como me assumir inferior, nenhum homem tinha que dizer sou virgem e muito menos, menos mesmo! sentir orgulho disso, por que então eu o faria? Para escapar dessa armadilha ridícula e muito comum nessa fase da minha vida, sempre que alguém perguntava você é virgem, eu respondia rápido: “Não, eu sou câncer!” e cortava o assunto. Minha mãe afirmava que a virgindade era algo de extremo valor e se eu não fosse virgem homem nenhum aceitaria se casar comigo, nessa hora eu dizia com a maior convicção do mundo que se um dia um homem se recusasse a ficar comigo por eu não ser mais virgem, o que eu faria seria erguer as mãos para o céu e agradecer a deus por me livrar de um imbecil tão grande como esse. E dizia também que, na minha opinião, a mulher deveria ser cirurgicamente desembaraçada do hímen assim que nasce, só que eu dizia isso com mais violência e raiva, eu falava que, quando a criança nasce e o médico pega pelos pezinhos, o que ele deveria fazer era, se for um menino dar o clássico tapinha na bunda, se for menina enfiar o dedo, minha mãe corria para o quarto chorar, coitada, ela tinha uma filha perdida!
Como não poderia deixar de ser, essa minha condição de ser câncer somada a toda a minha história de infância, me causou vários embaraços e até mesmo perigos, afinal, e isso foi algo que eu nunca consegui entender, todo homem achava que, pelo fato de não ser virgem eu tinha que dar pra ele, e por conta dessa mentalidade deles e da minha recusa em “confessar” minha virgindade, eu acabava entrando em boas enrascadas. Alguns homens casados, maridos de colegas minhas ou de minha mãe, aproveitavam a oportunidade que o fato de freqüentarem a minha casa ou eu a deles dava para vir com intimidações do tipo você dá pra todo mundo então tem que dar pra mim também, e a coitadinha da eu aqui nem sequer dava e, coisa inacreditável para qualquer um que estava acostumado com meu jeito risonho e desembaraçado, não contava isso a ninguém por vergonha... Era uma vergonha ao contrário da que parecia lógica na cabeça das pessoas, mas era uma vergonha pra mim.
Faz a fama, deita na cama é como diz o “velho deitado”, e eu, sem ter essa intenção, fiz uma fama danada! O resultado disso é que eu evitava freqüentar a casa das mulheres casadas que eu conhecia e quando alguma vinha à minha casa com o marido eu não me deixava pegar sozinha com ele nunca... Mesmo agindo assim não ficava totalmente livre de embaraços, uma vez o marido de uma vizinha me agarrou no quintal e a própria esposa teve que ajudar a me livrar das garras dele, que estava bêbado na ocasião e depois veio pedir desculpas, mas só porque estava na frente da esposa e ela mandou. Outra vez fui à casa e uma amiga recém casada e o irmão do marido dela estava lá, ele me chamou para levar o carro até o posto para botar combustível e explicou que era uma desculpa para deixar o casal sozinho algum tempo, eu, inocentemente, baixei a guarda e saí com ele, que parecia ser um rapaz muito legal, colocamos combustível e ele falou que me levaria para um motel, eu disse que não e ele veio com a razão clássica de que já que eu dava pra todo mundo tinha que dar pra ele também, eu respondi que dava pra quem eu quisesse e que não queria dar pra ele, ele ficou ofendido, ficou bicudo, me levou de volta pra casa da minha amiga e nunca mais falou comigo. Era noite, a casa da minha amiga era longe, eu não sabia voltar pra lá e nem pra minha casa sozinha, senti medo pela primeira vez!
Mas, a gente nunca está totalmente vacinada. Tive uma paixão adolescente cheia de frustrações, o cara brincava de gostosão comigo e com outra menina que, como eu, era doidinha por ele, só que ela era mais doidinha ainda, engravidou e ele casou com ela... Eu fiquei a ver navios e, soube depois, com a fama de ter dado pra ele e feito um aborto, o segundo da minha carreira... Pois bem, nessa minha paixão frustrada, acabei por fazer amizade com um rapaz que conheci através desse cara, que era amigo dele e que, portanto, sabia da história da minha paixão que agora parece tão idiota mas que na época tinha uma importância vital. Eu achei que o rapaz era meu amigo e que nunca teria qualquer outra intenção comigo, e meio que me escorei na amizade para afogar a dor do amor perdido. Um dia meu amigo comprou um carro e veio me mostrar, eu, feliz por ele, aceitei, é claro, passear um pouco para que ele pudesse testar a máquina. O problema foi que anoiteceu e esse meu amigo parou o carro em um lugar que eu não tinha a mínima idéia de onde era e que estava tão escuro que de olhos abertos eu enxergava tanto quanto de olhos fechados, sei que era assim porque fiz o teste. Quando parou o carro, ele começou com aquele mesmo papo que eu já ouvira antes, a primeira vez do pai da minha amiga; eu tinha que dar pra ele porque afinal de contas eu tinha dado para fulano, sicrano, beltrano e, surpresa!, para o amigo dele, minha paixão, que disse a ele que tinha transado comigo, ah, a necessidade que os homens têm de se auto-afirmar! Pelo discurso dele eu fiquei sabendo que praticamente todos os caras casados e solteiros que tinham tentado transar comigo, tinham dito aos quatro ventos que o conseguiram, e até mesmo alguns que nunca falaram comigo nada além de bom dia, para esse meu amigo e certamente para o bairro inteiro, tinham transado comigo, eu soube até mesmo de uma mulher da vizinhança que tinha se mudado do bairro porque estava com ciúme do marido dela que, como todo mundo sabia, tinha “andado” comigo... Fiquei sabendo muito sobre mim nessa dia!
O escuro de breu, a voz desafiante dele, a certeza com que dava as justificativas, a expressão que eu não podia ver mas imaginava me deixaram apavorada! Eu achei que seria estuprada, poderia até, sei lá, se ele me surpreendeu se mostrando meu amigo e depois fazendo isso, quem sabia que eu estava com ele e onde? Comecei a tentar lembrar se alguém tinha visto a gente sair de carro juntos... não tinha certeza, mas pensei que se ele me violentasse e me matasse, poderia me jogar ali, seja lá onde ali fosse, e voltar pra casa numa boa que ninguém nunca saberia que foi ele, pensariam que eu resolvi dar pra algum desconhecido e que me dei mal por isso, até imaginei o que diriam, eu procurei por isso, vinha pedindo um fim desses desde criança... enfim, o medo foi tanto que de repente, interrompendo o que ele dizia e que eu não estava escutando mais, eu disse rápido e com força, para salvar minha vida: Eu sou virgem!
Ele parou de falar, ficou em silêncio e eu esperei, parecia que aquilo não ia acabar nunca, passou muito tempo, muito tempo que eu não sei quanto porque não tinha como ver o relógio nem lua nem sol... até que ele simplesmente virou e me perguntou de chofre: Quer casar comigo? Ah, que alívio! O quanto eu relaxei com essa frase! Ele tinha compreendido tudo! Ele não ia me estuprar nem me matar! Do peito saiu uma pedra muito pesada e pude conversar, pude dizer que ainda não estava curada do meu amor pelo outro; mentira, depois de saber que ele tinha mentido tanto sobre mim não havia mais nem sombra de amor! disse que gostava muito dele mas não tinha nunca pensado nele a não ser como amigo, que um casamento não se decide assim de impulso... etc, etc. Nem sei o que falei mais, só sei que ele falou com muita raiva do amigo que tinha me caluniado e de todos os caras que viviam dizendo que já tinham transado comigo... Porque ele perguntou, eu expliquei que tinha vergonha de dizer que era virgem e ele riu porque soube o motivo de eu ter sempre afirmado que não sou virgem, sou câncer! Nem lembro da volta para casa, o fato é que, pouco tempo depois esse rapaz se casou com uma vizinha minha e a última vez em que os vi pareciam muito felizes.
Trabalhei com uma moça que já tinha sido casada, ela tinha um filho e um dia fui com ela à casa da ex-sogra dela para visitar o filho, não lembro bem da carinha do menino, mas era pequeno e agarrava a avó sem querer chegar perto da mãe, ela era uma estranha pra ele, estranha e assustadora... Depois que saímos de lá ela contou a história, o ex-marido tinha família em outro estado e um bom emprego, quando se separaram ele ficou com do direito de visitar o menino uma vez por semana, ajeitou em segredo a transferência de trabalho e, numa das visitas semanais levou o menino embora para o outro estado onde tinha família e, agora, emprego; ela não tinha nada, trabalhava para viver e morava com os pais, tentou reaver o filho mas a justiça é lenta e depois de alguns anos, dois ou três acho, ela conseguiu que o ex-marido e os pais dele voltassem a morar perto o suficiente para que ela pudesse visitar o filho; a situação se inverteu, agora ela é quem tinha um dia por semana para ficar com o filho. Essa história me tocou tanto que não conseguia parar de pensar e de ter medo de que isso pudesse um dia acontecer comigo. Não dá pra explicar como passei horas e mais horas, noites e mais noites imaginando o quanto eu também estava em situação de dar chance a que essa história terrível acontecesse comigo! O engraçado é que essa minha amiga parecia que não sofria tanto quanto eu tinha certeza de que sofreria se estivesse na situação dela, ela era alegre, tinha um namorado e não falava muito sobre o filho, passava a impressão de que já tinha superado o choque e que estava bem com a idéia de ver o filho só uma vez por semana e ser olhada por ele como uma estranha invasora. Eu tinha certeza de que comigo não haveria aceitação, tinha certeza de que meu sofrimento seria incontrolável e de que nunca poderia viver bem se tivesse um filho e ele não estivesse comigo. Eu sentia meu instinto maternal tão forte que chegava a chorar de amor por uma criança que não existia e que poderia nunca vir a existir mas que eu amava acima de todas as coisas. Sei que parece exagero, mas não é, eu me sentia assim desde muito nova e pensar na possibilidade de um filho era algo que me inundava de amor de uma maneira inexplicável. No primeiro ano do ensino médio teve um concurso de redação cujo tema era o amor e estava ligado ao dia dos namorados, eu fiz um texto para o meu filho que não existia e ganhei o primeiro lugar, só não consegui nunca ter esse texto de volta e tive um trabalho danado para receber o prêmio, que era uma quantidade qualquer em dinheiro e que o diretor da escola não sei se por conta de burocracias ou porque não queria mesmo, nunca pagava quando eu ia até a sala dele buscar... Eu jurei que não ia nunca permitir que roubassem meu filho.
Mas me apaixonei e resolvi finalmente me livrar da tão pesada quanto inútil virgindade. O garoto ficou surpreso porque não sabia que eu era virgem, ele também tinha ouvido todas as histórias que contavam a meu respeito. Eu o amava mas por alguma razão o início de uma vida sexual foi demais para esse sentimento e ele acabou por se esvanecer... procurei descobrir o que havia de bom no sexo e quando tive um orgasmo pela primeira vez levei um tremendo susto! Me acomodei à idéia de que sair com um homem casado era algo tremendamente vantajoso porque ele não ficaria meloso, não ameaçaria se matar, não roubaria meu filho se eu tivesse um...se eu tivesse um, porque um dia um ginecologista me disse que eu não poderia ter filhos com facilidade, que eu poderia fazer tratamento e talvez desse certo, mas não era certeza... Nesse dia saí do consultório dolorida, fui até uma praça no centro da cidade, procurei um cantinho meio escondido e fiquei lá chorando durante muito tempo, uma hora um conhecido passou e me viu, ele se aproximou e eu contei o que estava passando, ele foi legal e me deu o ombro para chorar, mas deve ter pensado que eu era louca por ficar naquele estado com uma notícia que seria recebida com fogos de artifício pela maioria das mulheres. Fixei-me na idéia do tratamento, pensei que quando pudesse ter um filho faria o tratamento e a minha vontade, o meu desejo e o meu amor seriam tão fortes que daria certo, eu só precisava conseguir independência financeira... mas não era fácil.
Eu trabalhava em uma auto-peças e fui fazer um trabalho externo, fui levada à outra empresa pelo motorista da fábrica onde trabalhava e fiz o trabalho, almocei com os rapazes que trabalhavam lá e fiz amizade com eles, numa segunda vez que fui a essa mesma empresa, o motorista me levou mas disse que tinha um problema qualquer para me buscar e me pediu que voltasse sozinha, eu não sabia como, perguntei sobre que ônibus tomar e onde mas antes que alguém respondesse um dos rapazes se ofereceu para me levar até a fábrica em que eu trabalhava, o motorista achou legal, todos concordaram que estava bem e trabalhei normalmente. No fim do expediente saí com o rapaz e ele ia por caminhos que eu não conhecia, mas tudo bem porque eu não conhecia mesmo muito bem os arredores de nenhuma das duas empresas, só sabia pegar o ônibus no centro da cidade e descer perto da fábrica. Só que em determinado momento chegamos a um drive-in e ele embocou o carro para entrar, eu perguntei o que estava fazendo e ele disse que estava entrando pra gente tomar alguma coisa, eu neguei e ele falou a famosa frase idiota da piadinha: ou dá ou desce. Eu desci e ele fez meia volta e foi embora. Fiquei em uma estrada de terra comprida que não acabava mais e com mato dos dois lados, não era um lugar muito animador para se ficar quando já estava começando a anoitecer, andei para um dos lados aleatoriamente até que encontrei um ponto de ônibus, esperei bastante, os dedos cruzados e o coração disparando, mas finalmente chegou um ônibus e para meu alívio ele passava no centro da cidade, que eu conhecia e onde poderia pegar outro ônibus para casa. No dia seguinte contei ao motorista o que aconteceu e quando voltei à mesma empresa todo mundo já sabia e estavam fazendo uma espécie de ostracismo com o cara, pelo menos na minha frente e enquanto eu estava lá ninguém falava com ele, mas, que eu saiba, fora isso ele não recebeu nenhuma outra punição.

7 de outubro de 2008

UMA INFÂNCIA

Nunca conheci ninguém nesse mundo que gostasse de apanhar, mas conheci bastante gente que apanhava quando era criança e que depois de crescer dizia que apanhar foi bom e que criança precisa apanhar pra ficar bem educada. Eu achei que apanhar era um horror quando era criança e continuei e vou continuar sempre achando que é mentira que criança precisa apanhar pra ficar bem educada; o chato de apanhar, o mais terrível mesmo nem é a dor das pancadas, nem mesmo as marcas que ficam no corpo e demoram dias para desaparecer, o terrível de apanhar é a impotência, a impotência que deixa a gente sem poder falar; como aconteceu naquele dia de Natal, nesse dia eu meio que sabia por que meu pai tinha brigado comigo e talvez nem precisasse ficar tão mal porque ele nem me bateu muito, não foi uma surra, ou duas como no dia que eu fugi de casa de medo de apanhar, uma tremenda besteira porque fugi pra casa da minha amiga e a mãe dela me trouxe de volta, a mulher fez meu pai jurar que não ia me bater, ele jurou e quando ela saiu me bateu duas vezes, uma super surra que era a que eu levaria de qualquer jeito, e outra super surra por ter fugido da primeira, mas dessa vez no Natal não foi uma surra, ele só me deu um tapa porque eu olhei pro doce que minha mãe tinha feito pra gente comer depois do almoço especial de Natal e o doce estava lá na mesa e era uma tigela colorida e bonita e eu nem falei nada só olhei porque era bonita e eu ia gostar de comer daquele doce porque não era coisa comum ter doce em casa depois da comida, a gente nem conhecia a palavra sobremesa e aquele doce eu também não conhecia. Levei um tapão porque olhei pro doce, fiquei chorando e não dava pra comer porque a comida não passava pela garganta mas tive que comer mesmo assim porque o meu pai obrigou que não era pra deixar de comer a comida só por ter o olho grande em cima do doce e eu tentei falar e não saía nem um som e eu fiquei sentada na escada da cozinha e tentava falar e não saía nenhum som, igual quando a gente tem um pesadelo e tenta gritar e não sai nenhum som e dá um desespero enorme e o monstro só não pega a gente e mata logo de uma vez porque a gente acorda desesperada e o monstro foi embora e era sonho; eu achei que ia ficar muda pra sempre e chorava mais e tentava falar e não saía nada e já era muito de noite quando eu consegui falar sozinha e vi que não ia ficar muda e fui dormir, e acho que nunca comi o doce colorido da tigela grande.
Apanhei várias vezes durante minha infância e não lembro de nenhuma coisa que eu quisesse fazer e que tenha deixado de fazer porque sabia que se o fizesse apanharia, apanhar me dava muita raiva e a raiva me dava poder, quando apanhava eu sentia que o castigo, principalmente, ou exclusivamente, o da impotência, era maior do que o que quer que eu tivesse feito antes, então meu pai ou minha mãe estava automaticamente em dívida comigo e eu me sentia no direito de aprontar alguma para equilibrar; se aprontasse e fosse pega e apanhasse novamente, persistia a vantagem e eu aprontava mais uma, até quando eu conseguisse fazer algo e ninguém me batesse por não descobrirem nunca que aquilo tinha sido feito por mim, estão eu estava vingada até a próxima surra; é uma lógica que não faz nenhum sentido agora e que não me lembro de alguma vez ter colocado em palavras ou pensamentos ordenados, mas era assim que eu geralmente agia; só que tem fatos que não são passíveis de medição nem mesmo para a lógica não premeditada de uma criança, tem fatos que não conseguem despertar raiva porque doem demais: Na minha lembrança minha mãe lavava o pepino e depois cortava as pontinhas dele, esfregava bastante essas pontinhas na parte do pepino de onde elas foram tiradas e lavava de novo porque saía uma gosminha branca quando ela esfregava a ponta no pepino, então ela descascava o pepino de um jeito que eu morria de admiração, tirando umas tiras de cascas bem grandes ao longo de todo o pepino, tirava várias tiras, uma do lado da outra, até que o pepino estava todo descascado e o cortava para fazer salada de pepino; quando eu pegava aquelas tiras de cascas de pepino elas eram praticamente iguais, todas do mesmo tamanho e da mesma largura, segurei todas juntas em uma das pontas e soltei, fiquei com uma flor de cascas de pepino na mão e era um brinquedo divertido até a hora que minha mãe chamaria pra almoçar; fui andando bem do lado de casa e encontrei um menininho que eu não conhecia mas era do meu tamanho, quando viu a flor de cascas de pepino na minha mão ele quis uma casca e eu avisei que com uma só não dava pra fazer flor mas ele quis assim mesmo e eu estava dando uma casca de pepino pra ele quando o meu pai gritou meu nome bem alto e com muita força como ele fazia quando estava muito muito bravo mesmo comigo, eu tremi mas não sabia de nenhuma arte que tivesse feito e que não tivesse apanhado ainda por ela, então corri pra casa sem nem falar tchau pro menino e nem sei o que aconteceu com as cascas de pepino ou se o menino viu o meu pai me pegar no quintal mesmo e começar a me bater de cinta muito demais até ficar cansado e respirando difícil, então ele me pegou pela mão e me levou para o quarto que estava vazio porque ele estava arrumando alguma coisa que eu não me lembro e me trancou lá e não tinha nem cama nem cadeira nem nada e eu fiquei sentada no chão chorando muito porque estava doendo todo lugar onde eu tinha apanhado mas nem me lembro dessa dor, a que lembro bem é a outra, a de ficar perguntando por que foi que meu pai me bateu. De tardinha meu tio pediu ao meu pai pra abrir a porta do quarto porque queria me dar uma coisa e meu pai não deixou que eu estava de castigo e ninguém tinha que me dar nada, então meu tio esperou meu pai sair de perto e, escondido dele, jogou por cima da porta um pacotinho de balas de hortelã que era a que eu mais gostava e o pacotinho abriu quando caiu no chão e espalhou um pouco de bala pelo quarto mas eu peguei todas e chupei muitas balas com gosto de lágrimas com hortelã porque eu pensava no meu tio sendo tão bom pra mim e me dando balas por cima da porta e no meu pai me batendo tanto e me deixando trancada no quarto sozinha o dia inteiro, e pensar nisso me dava uma tristeza bem funda e eu chorava com as balas na boca. Demorei alguns anos pra saber por que meu pai me bateu naquele dia, pra entender mesmo ficou bem mais difícil.
Não sei como eu era, mas sei como parecia a mim mesma, minha mais antiga lembrança, eu era só pernas e cabeça, muito alta, muito altas as pernas porque chegavam até o pescoço, então havia a cabeça com os cabelos enormes e que não ficavam como eu queria que ficassem, eu nem mesmo sabia como queria que ficassem, o rosto com olhos enormes que sabiam ver mas não sabiam entender nada do que viam e a boca que sempre se arrependia do que dizia e que nunca conseguia ficar fechada; tinha também a testa, quase tão grande como as pernas e que se enchia de espinhas o tempo todo e de suor todo o dia, e havia os joelhos, eram dois e estavam sempre machucados, um sangrava, outro tinha ferida com casca que era bom de tirar, aí o que estava com casca ralava de novo e sangrava e o que estava sangrando criava casca que era bom de tirar; mas tirar casca de ferida fazia sangrar e se a mãe visse fazia levar bronca, às vezes os dois joelhos estavam iguais, ou sangrando ou com casca: Você vai ter pernas feias, os joelhos cheios de cicatrizes, não vai arrumar namorado desse jeito, era a mãe falando; um dia eu apanhei de duas meninas na rua e doeu tanto que até hoje não sei se doeu mais o machucado de apanhar de duas meninas na rua ou a humilhação de apanhar de duas meninas na rua, apanhei na rua porque quando entrei na escola só conseguia copiar meu nome e as palavras que estavam escritas nas latas de óleo e de leite em pó, mas eu não sabia ler de verdade só sabia fazer de conta que lia e desenhar coisas e pintar com lápis de cor de tudo que é cor, menos amarelo, porque amarelo de noite não aparecia nada e só ficava bonito no outro dia quando amanhecia e a gente via que tinha pintado muito bonito, então o amarelo era uma cor mágica mas eu tinha medo de usar e ele não aparecer no outro dia ou aparecer mas eu ter pintado errado e fora da linha, eu sabia falar e fingir que estava lendo a poesia da sementinha que eu era uma sementinha que o vento levou de terra me cobriram o tempo passou caminhando com o vento a chuva chegou e veio o calor do sol cresceu e aumentou e eu esqueci o resto, mas a flor crescia e tinha muitas folhas e era linda e eu sabia tudinho de cor, mas não sabia ler de verdade, a menina que já estava na escola quando eu entrei ficava na fileira dos mais adiantados e a lição dela era diferente da minha, eu fui fazendo a minha lição e gostava tanto que acabei rápido e copiei a dela também, mas copiei escondido para o professor não ver. Era um professor tão legal que se não tivesse um pai que eu amava muito demais eu ia querer que ele fosse o meu pai mas eu tinha um pai que eu amava muito, então eu gostava do professor como professor mesmo mas achei que ele não ia gostar de eu ficar copiando a lição da outra turma que não era a minha, resolvia os problemas e respondia as perguntas, mas tudo bem escondido atrás dos meninos gêmeos que ficavam fazendo muita bagunça, o professor dava bronca neles e nem via que eu estava fazendo a lição da outra turma; um dia o professor foi olhar o meu caderno e achou tudo escondido a lição, fiquei com tanto medo que quase chorei, a lágrima queria porque queria correr e eu achei que ele ia me mandar para a diretoria e a diretora ia me bater mais ainda do que o meu pai batia, mas ele riu e me perguntou se eu sabia fazer também aquela lição que estava na lousa, eu disse que sabia e ele falou que então eu tinha que mudar de turma e ir para a turma mais adiantada, não tinha lugar na turma, mas tinha essa menina que não conseguia fazer a lição da turma adiantada, então o professor falou para ela sentar no meu lugar na turma menos adiantada e eu sentar no lugar dela na turma mais adiantada, ela me olhou com tanta raiva que eu fiquei com medo e nem consegui ficar muito feliz porque ela era maior do que eu e falou que ia me bater, fiquei com medo e queria não trocar de lugar com ela mas o professor mandou, na saída ela foi embora sem me bater e eu fiquei feliz, contei para o meu pai que tinha ido para a turma mais adiantada e o meu pai me deu um dinheiro para comprar doce, fui no outro dia comprar doce e a menina chegou junto com a prima dela que era bem grandona e as duas bateram em mim, não adiantou nada porque o professor não mudou a gente de lugar e no fim do ano eu passei de ano e ela repetiu, mas doeu; e um dia o professor descobriu que eu já sabia ler, ele me viu copiando a lição da lousa e perguntou como eu fazia, então me dei conta de que lia um pedaço do que estava escrito na lousa, escrevia aquele pedaço no caderno, levantava os olhos para ler mais um pedaço e baixava para o caderno e escrevia lá o que havia lido, esse processo passou despercebido para mim, não para o professor, e ele me disse agora você já sabe ler, cheguei em casa e contei a meu pai que eu já sabia ler, meu pai me parabenizou e saiu de casa, voltou com um gibi do Tio Patinhas para mim, não sei de já ter recebido um presente que me desse tanta alegria, sem contar, é claro, meu filho, que nasceu muitos anos depois, li o gibi tanto e tanto e o amei como a um amigo, ganhei outros, mas aquele foi o primeiro, depois descobri o Mandraque e meu pai me dava muitos gibis do Mandraque, e meu pai lia bolsilivros de histórias de bang-bang e eu lia depois dele, e também lia as fotonovelas que algumas amigas compravam, apaixonei-me por um rosto das fotonovelas e por um desenho no gibi do Mandraque, o rosto das fotonovelas era um galã italiano e eu recortava suas fotos e fazia álbuns que colecionava, sonhando que ele seria meu namorado quando eu fosse maior, o desenho do gibi, este era proibido, eu nem contava para ninguém que estava apaixonada por ele porque ele era um rei, casado com uma linda rainha, tinha uma filhinha e vivia salvando as duas de incríveis perigos, eu sabia que era proibido ser apaixonada por um homem casado, mesmo sendo ele um desenho em um gibi, um rei de outro planeta que vivia aventuras com seres intergalácticos em historinhas paralelas nos gibis do Mandraque; então eu pensava no namorado que não teria por causa dos joelhos feios e cheios de cicatrizes, ele era moreno e bonito e gostava de outra menina que além de pernas tinha também um corpo, uma cara bonita e enormes cabelos que ficavam do jeito que ela queria que ficassem, ela sabia como queria que eles ficassem; tinha a professora que era preta, era gorda e era linda mas que passava o tempo todo escrevendo na lousa e escrevia tão depressa que não dava tempo de copiar, principalmente de copiar enquanto olhava para o menino que era o namorado que não ia me querer nunca porque eu era só pernas e cabeça, mas um dia eu tive um vestido de papel e fui uma boneca frágil e linda porque era vermelha e amarela e nenhum vestido foi mais bonito do que o meu, e era meu aniversário e a professora que era preta, gorda e linda deixou que eu servisse os docinhos porque era meu aniversário e eu fiquei feliz mas acabou porque teve o dia que eu entrei na sala da menina que sabia como queria que o cabelo dela ficasse para ser bonito e o meu namorado que não me queria tinha deixado um recado de amor para ela e eu chorei; na hora de brincar de roda eu e minhas pernas sempre escolhíamos o meu namorado que não me queria para brincar e ele escolhia a menina de cabelos bonitos e eu ficava triste, mas eu tinha uma amiga que me dava bisqüi e copiava a lição pra mim porque ela sabia escrever muito rápido e era muito, muito boa mesmo e ela morava perto da escola e a casa dela só tinha uma mesa e pacotes de bisqüi porque eu fui lá algumas vezes e não me lembro de nada além de uma mesa e pacotes de bisqüi; eu achava também que o meu namorado que não me queria não gostava de mim porque um dia eu fui comprar paçoquinha e umas crianças que eu não conhecia direito e que eram os filhos do homem que vendia paçoquinha estavam sozinhas em casa e acharam que eu não era só pernas e cabeça e viram que eu usava calcinhas e quiseram que eu brincasse de mamãe e disseram que a mamãe tira a calcinha na hora que vai dormir, eu que tinha olhos enormes que viam e não entendiam nada, não entendi o que era a brincadeira e nem sabia porque uma mãe iria tirar a calcinha para dormir mas não entendia e eles sabiam brincar de um brinquedo novo que era fingir que dormia só que antes tinha que tirar a calcinha e então eu que não entendia nada tirei a calcinha e eles esconderam a calcinha e não queriam me devolver e eu comecei a chorar mas eu não tinha vergonha porque era muito burra de sexo e nem sabia que eles não eram burros de sexo que nem eu, nem a menina que era do meu tamanho, e eles me deixaram chorando um monte de tempo antes de devolver minha calcinha porque tinham escondido debaixo de uma frigideira mas eu fui pra casa e fiquei parada perto da minha mãe e queria contar uma coisa para ela mas era uma coisa que eu não sabia o que era e nem tinha certeza se era uma coisa das que se conta para a mãe da gente e eu esperei com cara de quem fez alguma arte e a minha mãe parou de lavar a roupa um pouquinho e me perguntou por que eu estava olhando pra ela com aquela cara lambida e o que eu tinha feito de arte para estar com aquela cara de culpada, então eu pensei que não podia perguntar para ela por que as mães tiram a calcinha para dormir e se as mães tiram a calcinha para dormir e se era muito errado brincar de fingir que dorme como a mãe que tira a calcinha para dormir e deixar que as outras crianças escondam a calcinha da gente debaixo de uma frigideira e pensei que se eu perguntasse ela talvez fizesse como no dia que eu chamei ela de filha da puta e ela me bateu muito muito até eu ficar chorando e pensando muito para tentar descobrir o que era uma filha da puta que ela falava para mim mas eu não podia falar para ela. Agora eu sei que ela falava porque não queria me xingar mas eu falando estava xingando ela. Eu não entendia nada com os meus olhos enormes que só viam sem saber e as minhas pernas enormes que só tinham joelhos machucados que seriam muito feios e que o meu namorado nunca ia me querer. Mas acabou o tempo gostoso das férias e na volta da escola tudo ficou ruim porque os meninos gritavam cadê a minha calcinha e riam muito e um outro respondia está debaixo da frigideira e riam muito e só me viam andando na rua que riam muito e gritavam cadê a minha calcinha e outro respondia está debaixo da frigideira e eles riam muito e as meninas riam muito também e eu não sabia o que fazer porque não sabia que era tão bom humilhar as pessoas assim e eu fiquei com medo do meu pai me bater muito muito porque tudo que falava de menino e de mim junto meu pai ficava bravo porque ele achava que menino e menina não podiam nem brincar de nada muito menos de esconder a calcinha debaixo da frigideira e eu fiz de conta que não sabia nada, nada, nem o pouquinho que eu sabia. Perguntei para as meninas que não riam e que olhavam para mim com cara de muita pena e de muita tristeza por causa da pobre coitada que eu era e elas me contaram que os meninos falaram que fizeram besteira comigo e eu não sabia o que era fazer besteira mas achei que era a mesma coisa que brincar de fingir que dormia que nem a mãe que antes de dormir tirava a calcinha e eu disse que não fiz nada e elas não acreditaram muito mas eu disse que não fiz nada e fiquei a vida inteira dizendo que não fiz nada e disse que não fiz nada para todo mundo e quando minha mãe me perguntou eu disse que não fiz nada e quando meu pai me perguntou eu disse que não fiz nada e quando todo mundo me perguntou eu disse que não fiz nada e eu fiquei sendo a maior mentirosa do mundo porque eu aprendi a dizer tão bem uma mentira que ninguém podia deixar de acreditar em mim e meu pai e minha mãe acreditaram mas os meninos ficaram perguntando onde é que está minha calcinha o tempo todo porque não adiantava nada eu dizer que não fiz nada e eles diziam que eu ia ficar grávida e que eu ia tirar o neném e eu não sabia de onde é que eu ia tirar um neném mas eles riam muito de mim e eu nem queria ir para a escola mas meu pai não deixava eu não ir e um dia a professora brigou com todo mundo porque ficavam rindo de mim e eu gostei tanto tanto da professora que sempre sempre ia lembrar muito dela mas agora eu esqueci.
Então chegou a grande descoberta. Na escola havia uma sala fechada e eu fui curiosa, queria saber o que tinha lá dentro, perguntei à Dona Conceição, a inspetora, e ela me disse que aquela sala era a biblioteca. Pedi dias seguidos, prometi e jurei por pai, mãe e todos os santos e anjos do céu que não pegaria um único livrinho, que não estragaria nada e que deixaria tudo arrumadinho no lugar certo, prometi tudo, prometi não contar a ninguém, prometi sei lá mais o que e consegui, nem sei quantos dias depois, vencer pelo cansaço e ter a permissão de entrar naquele santuário sagrado. Minha aula começava a uma da tarde. Eu acordava junto com meu pai às cinco e meia da manhã, ia até a escola e chegava antes da maioria dos alunos que estudavam de manhã. Dona Conceição me dava a chave e eu me trancava na biblioteca, lia até meio dia e meia, saía, devolvia a chave e ia para a fila da merenda. Comia, entrava na fila da minha turma e ia para a sala de aula. Li primeiro Reinações de Narizinho, depois outros de Monteiro Lobato, não todos porque não tinha todos, li muitos livros, todos os livros que pude até chegar o dia em que cresci e pude pegar ônibus sozinha e ir até a cidade. Então levei todos os documentos e fiz uma carteirinha que me dava direito a pegar dois livros, levar para casa e ficar com eles duas semanas, geralmente ia toda semana porque não precisava de mais que isso para ler dois livros. Li Jorge Amado, José Mauro de Vasconcelos, José de Alencar, Machado de Assis e todo livro cujo título me atraía. Se pegava um pelo título e gostava, da outra vez pegava outro do mesmo autor, e assim fui lendo e gostando cada vez mais porque, hoje sei disso mais do que sei de qualquer coisa na vida, esse gosto, esse vício, uma vez adquirido é coisa que não se larga mais.
Mas eu ainda tinha que voltar da escola depois de todas as horas de prazer trancada na biblioteca, um desses dias um monte de meninos estava perguntando cadê a minha calcinha e dando muita risada de mim e eu já devia estar acostumada com isso porque fazia uns dois anos ou mais que eles insistiam sempre nessa brincadeira, mas eu não estava e o meu namorado que não gostava de mim mas que eu ainda gostava dele estava junto e ele também ria de mim e eu senti tanta dor mas tanta dor que peguei uma pedra e joguei para acertar em qualquer menino que estava perguntando cadê a minha calcinha e dando risada de mim e fazendo meu namorado que não gostava de mim rir também e eu joguei a pedra e ela acertou nas costas de um menino que era loiro e inteligente e que disse depois que não estava rindo de mim mas que eu não sei não mas acho que ele estava rindo sim e ele foi para o hospital e levou ponto no machucado dele e a mãe dele foi na minha casa falar para a minha mãe que eu precisava apanhar porque eu tinha jogado uma pedra no filho dela e ele teve até que ir para o hospital e levar ponto porque o machucado foi muito grande e ela estava muito brava comigo e parece que ela queria ela mesma bater em mim e eu disse para ela que joguei a pedra porque eles estavam rindo de mim e perguntando cadê a minha calcinha e eles riam muito e eu fiquei com raiva e joguei a pedra e que podia acertar em qualquer um que estava rindo de mim e que acertou no filho dela, ela então ficou com raiva mas foi com raiva do filho dela e deu uns tapas nele e xingou ele que bem feito de ele ter levado a pedrada e pediu desculpas para a minha mãe e foi embora e eu fiquei gostando muito dela porque o filho dela nunca mais riu de mim quando os outros perguntavam cadê a minha calcinha e riam.
Mesmo assim eu tive um amigo, ele era bonito e gostava de mim, ele não se importava com meus joelhos machucados, não ligava a mínima para as minhas pernas enormes nem para os meus cabelos que não queriam ficar no lugar certo que eu não sabia onde era, ele era meu amigo, um amigo que a gente tem pra conversar, pra andar junto, pra tratar como um irmão, e ele ficou meu irmão porque a gente tinha a Dona Adelina e a Dona Adelina não tinha filhos, ela gostava da gente e a gente ia muito na casa dela e ela fazia agrados pra gente, deixava a gente ver televisão na cama junto com ela um de cada lado, ela era a mãe e a gente era os filhos e nós dois éramos irmãos por parte da Dona Adelina que era nossa mãe postiça e a gente gostava dela muito demais; meu amigo parecia um galã mas eu nunca queria que ele fosse meu namorado porque ele era meu amigo e meu irmão por parte da Dona Adelina, então a gente conversava muito e a gente até pensava em formar um grupo de música um dia mas a gente não sabia música, só que chegamos até a inventar um nome bonito para o nosso grupo e a gente ouvia as músicas que a gente gostava e conversava sobre ela um montão e a gente descobria tudo o que ela queria dizer e que a gente pensava que sabia, em geral a gente estava errado. Mas eu tinha muita dor quando ia fazer xixi e passava dias com muita dor e meus pais me levaram ao médico e eu precisei fazer um tipo de cirurgia porque tinha um problema na uretra, eu morria de vergonha do médico e apertava a mão da minha mãe com muita força de até machucar mas ela esquecia de reclamar porque ela também estava chateada e tinha muita pena de mim porque sabia que eu tinha muita vergonha mesmo do médico que ficava mexendo em mim lá onde não devia; o médico disse que eu tinha que operar e eu fui e fiquei no hospital e eu gostei de ficar no hospital porque lá tinha umas comidas legais e tinha umas enfermeiras e uns enfermeiros que brincavam com a gente quando vinham fazer alguma coisa no quarto e meu pai e minha mãe vieram me visitar só na hora de visita e trouxeram um pão doce enorme e cheio daquele creme bem amarelo em cima e era tudo gostoso, menos a dor que nem doía tanto assim, depois me levaram pra casa de ambulância e eu chorei muito porque queria ficar mais um pouco no hospital mas não contei que era isso porque fiquei com vergonha e disse que estava doendo mas era mentira, fiquei uma semana inteira sem poder sair da cama com uma mangueirinha enfiada em mim e que me fazia mijar num vidrinho de gotinha em gotinha e não sentir nada e era pra ficar duas semanas mas o médico falou que não tinha mais mangueirinha do tamanho certo e tiraram tudo e eu tinha que voltar lá toda semana e ficava na mesa morrendo de vergonha e apertando com muita força a mão da minha mãe; o médico brincava que não sabia qual das duas ficava mais nervosa, dizia que eu era mesmo muito nova pra freqüentar ginecologista mas que não precisava me preocupar porque ele era médico e minha mãe estava bem ali e meu pai do lado de fora da porta, mas eu tinha vergonha, e tinha medo, e tinha o desconforto que mesmo hoje depois de tantos anos ainda tenho numa mesa de ginecologista, não sei como possa ser diferente; finalmente acabou tudo e eu pude voltar pra escola mas quando saí de casa vi que todo mundo me olhava esquisito, que riam e era quase igual o outro tempo de quando um menino perguntava cadê a minha calcinha e o outro respondia está debaixo da frigideira, só que agora eles não falavam nada, só riam e conversavam baixinho e eu não sabia o que era, encontrei o pai da minha amiga na rua e ele me disse um montão de coisas indecentes e que queria fazer comigo porque eu fazia com todo mundo mesmo e eu fiquei sem ir mais à casa da minha amiga porque o pai dela tinha coragem de falar aquelas coisas pra gente na rua, mesmo tendo me conhecido desde pequena e sabendo que eu era amiga da filha dele e quase da mesma idade dela, um dia o meu amigo falou uma coisa feia na casa da Dona Adelina e ela perguntou por que ele tinha falado isso pra mim e ele falou que era porque eu tinha ido pro hospital fazer um aborto, eu comecei a chorar muito e não conseguia parar mais e a Dona Adelina contou pra ele que eu estive foi doente e ele pediu desculpas e a gente ficou irmãos de novo.

1 de setembro de 2008

RESPOSTA AO SENHOR ALMIR GOBBI

Recebi do Senhor Almir, um e-mail criticando meu hábito de enviar textos anti-religiosos via internet, como essa não foi a primeira mensagem desse tipo que recebi, embora tenha sido das mais educadas, estou publicando a resposta que escrevi para ele, em negrito estão trechos da carta:

“Contudo, minha opinião, não necessariamente tento impô-la aos meus amigos, porque cada ser é um ser completamente diferente, com uma cabeça completamente diferente. Quem sou eu para converter alguém, não é mesmo?”

Engraçado, acho que quando o senhor diz isso, esquece que os religiosos vivem de pregações, esquece que as religiões, pelo menos pelo pouco que sei do assunto, incentivam como sendo um dever do seu fiel angariar novos adeptos para sua igreja, as religiões protestantes falam em “levar a palavra” e os testemunhas de Jeová se espalham pelas cidades batendo de porta em porta, inclusive incomodando o sono matinal de trabalhadores no seu único dia de descanso.

Não vejo com muita freqüência alguém dizendo que esses fiéis que abordam as pessoas nas ruas, que fazem longos discursos para seus amigos e familiares, que entopem as caixas de correspondência dos computadores das pessoas com mensagens de fé estão fazendo algo terrível e desrespeitando o direito e a privacidade das pessoas, no entanto quando pego um texto que alguém escreveu e com o qual concordo ou que eu mesma escrevi depois de ler tantas mensagens me chamando “para perto do senhor” e envio por e-mail a muitas pessoas ou publico no meu blog, sempre recebo mensagens dizendo que estou tentando impor minha opinião e que não tenho direito de fazer isso.

Acho que, quando se trata de religião, os direitos decididamente não são iguais...

Além disso, o senhor está enganado, não estou tentando convencer ninguém de nada, estou tentando fazer com que as pessoas pensem, simplesmente pensem.

As pessoas religiosas, mesmo as mais inteligentes e sensatas, mesmo as extremamente cultas e estudadas, em geral pensam e raciocinam a respeito de qualquer assunto, mas impõem-se uma barreira quando o tema é a sua fé, recusam-se a usar a sua inteligência quando se trata de analisar o deus em que acreditam.

Em suma, por mais inteligentes que sejam, as pessoas costumam se recusar a usar essa inteligência para pensar, pesar e analisar o próprio comportamento quando se trata de religião. Eu tento provocá-las para que o façam, só isso.

“Quando vejo um email deste enviado pela senhora, penso no desperdício de cultura, solides emocional, de situação social que a senhora tem, e teima em tratar temas deste porte por email (...) a senhora poderia utilizar este espaço grátis que lhe é oferecido, para enviar palavras mais encorajadoras às pessoas que lhe cercam.”

Eu não sabia que tinha discriminação de assunto na internet! Podem tratar de religião enviando pregações e mensagens de fé, podem usar de bom humor enviando piadas e de mau gosto enviando videocassetadas, podem usar de bom gosto enviando obras de arte e de gosto duvidoso enviando correntes sem sentido ou mensagens alarmantes e duvidosas, mas expressar alguma opinião contrária ao senso-comum é indigno!

A meu ver, estou enviando palavras encorajadoras, as minhas palavras seriam: liberte-se da prisão da religião e da crença! Seja livre! Você não precisa aceitar chantagem para ser uma pessoa correta e digna, você consegue fazer o que é certo mesmo sem a crença de um paraíso eterno para obrigá-lo a isso, fazer o que é certo simplesmente porque é certo vale muito mais do que qualquer chantagem religiosa!

E, de que forma e por que meio o senhor acha que eu deveria tratar temas desse porte? Será que devo escrever um livro e publicá-lo às minhas próprias custas e depois me colocar diante de lugares movimentados ou bater de porta em porta tentando vendê-lo, seria mais digno assim, na sua opinião?

“Não acha a senhora que está forçando a barra? E que está se tornando uma pessoa chata?”

Não, não acho que estou me tornando uma pessoa chata. Eu SOU uma pessoa chata! E sou chata porque penso, porque questiono, porque quando escrevo, escrevo o que penso.

Sei que o que penso não bate com o que a maioria das pessoas pensam, daí contrario o senso-comum, vou na contra-mão do que é considerado positivo e “bonitinho”, não faço apologia daquelas coisas consideradas verdades absolutas como a beleza da natureza, a perfeição do ser humano, a maravilha da vida e a bondade de deus, pelo contrário, discordo de tudo isso e mostro minha discordância quando escrevo, por isso sou chata e me assumo como tal.

Se ainda existisse inquisição eu já não estaria aqui como voz discordante da massa, já teria sido queimada há muito tempo, mas como a inquisição acabou (pelo menos por enquanto!) aqui estou eu, sendo chata!

“O que a senhora faz de bem para o próximo? (É claro que, excetuando os textos que manda.) Com toda sua bagagem, a senhora ajuda alguém? Ou também não acredita no amor ao próximo?”

Isso sim é muito engraçado! Os religiosos têm um deus onipotente, onisciente e onipresente e vêm perguntar a MIM o que eu faço para o próximo! Parece piada!

Desculpe a explosão, é que o senhor não é a primeira pessoa que me faz essa pergunta em resposta às minhas demonstrações de falta de fé e acho a pergunta tão absurda que não acredito que alguém tenha realmente pensado de verdade nela antes de enviá-la.

Mas respondendo: Quando eu era bem criança, minha mãe me ensinou uma das coisas mais lindas dentre todas as muitas coisas que ela me ensinou na vida e essa coisa foi “A sua mão esquerda não deve saber o que a sua mão direita faz”.

Sei que minha mãe estava citando algum preceito religioso, mas o fato é que quando ela me explicou que com essa frase queria dizer que a gente não tem que ficar espalhando aos quatro ventos as coisas que faz de bem porque isso é imodesto e desvaloriza totalmente o nosso gesto, entendi e achei muito certo, acho ainda.

Ao longo da vida, outra verdade veio se acrescentar pra mim a essa frase: Vejo que ajudar alguém deixa as pessoas felizes. Alguém já disse que se não pedissem esmolas em lugares públicos e se não tivesse ninguém olhando, os mendigos faturariam muitíssimo menos...

É curioso mas além da necessidade de mostrar isso, parece que todo mundo fica feliz quando tem a oportunidade de fazer alguma coisa boa por outra pessoa, ou até por um animal, parece que as pessoas sentem (mas jamais admitiriam isso!) algo como “Que bom que tenha essa pessoa sofrendo, assim eu posso ajudá-la!”

Eu, mais uma vez indo na contra-mão, sinto exatamente o contrário: ao ajudar alguém fico profundamente triste, fico comovida e dolorida porque sempre penso e sinto algo como “Por que precisa existir esse tipo de sofrimento? Quantos outros horrores como este, e pior do que este, estão acontecendo no mundo nesse mesmo momento e eu não posso fazer nada?”

Não estou sendo boazinha, estou sendo chata! Afinal, não sou nem sequer potente, muito menos onipotente, não sou nem sequer ciente, muito menos onisciente, não posso estar presente durante muitas horas nem mesmo no lugar onde estou, quanto menos ser onipresente, e no entanto me dizem que existe um deus que é e pode tudo e que, além de tudo isso é bom, mais do que bom, é a própria bondade, e ainda assim as coisas são como são e é de mim que vêm cobrar uma atitude, de mim que sou tão impotente!

Isso tudo me entristece e me dá raiva! Como podem acreditar em um deus assim vendo o mundo com olhos como os meus? O senhor me chama de inteligente, não é verdade, não sou nem um pouco inteligente, não consigo entender as pessoas louvando e agradecendo a deus porque sararam de um resfriado e esquecendo completamente dos milhões de crianças que estão sendo espancadas e violentadas nesse mesmo momento e pelas quais esse deus não faz nada!

Não sou inteligente porque não consigo entender isso por mais que tente!

“Sabe, Dona Divina. Não sou religioso. Não sou tão viajado quanto a senhora. Também não tenho uma vida maravilhosa como a senhora descreveu em email anterior. Mas saiba a senhora que respeito muito as pessoas e gosto muito de poder ajudá-las no que for preciso e estiver ao meu alcance. Se não gosto de uma coisa eu me afasto dela e não fico criticando de uma maneira míope. Sabe por que? Tudo na vida, mas tudo mesmo tem visões diferentes quando vista de outro ângulo e quem sou eu para criticar uma coisa como Deus. E acho que a senhora também deveria pensar a respeito desta sua miopia divina. E por falar nisto, Divina está até no nome da senhora. Que coisa!!!!”

Pois é, aí nós discordamos completamente! Pelo que vejo o senhor é religioso sim, e muito, afinal, sentiu-se até magoado por ter lido textos enviados por mim ofendendo o deus em que acredita, o senhor não se daria esse trabalho se não fosse religioso.

E, sou um ser humano, assim como o senhor e todo mundo, tenho cérebro, sei pensar e sei ver as coisas porque sou assim. Na minha opinião, isso dá a mim, e a todo mundo, o direito de criticar tudo e qualquer coisa, inclusive e principalmente deus.

Não acredito que ele exista, mas se eu estiver errada e os religiosos certos, então ele existe e me fez como sou, e eu tenho capacidades que, se acreditar na existência dele, ele mesmo me deu, portanto, posso usar.

Por que tenho que me proibir de criticar deus? Se eu estiver certa e ele não existe, estou criticando a idéia de deus, que acho absurda e sem sentido, se eu estiver errada e ele existe, estou criticando ele mesmo, o próprio, porque ele é um sádico megalomaníaco.

Eu não estava presente quando os bandidos arrastaram aquela criança pelas ruas do Rio, se ele existe e é onipresente então ele estava e não fez nada!

Eu não sabia antes de ler no jornal que aquela menina foi trancafiada em uma cela de prisão juntamente com uns 20 bandidos que a estupraram por dias seguidos, se ele existe e é onisciente então ele sabia e não fez nada!

Eu não podia entrar na casa em que uma menina de quatro anos sobre a qual fiquei sabendo ontem à noite no jornal aqui da França foi espancada a vida inteira pelo pai, pela mãe e finalmente pelo padrasto até ser morta, enfiada em um saco e jogada no rio como um animal, se ele existe e é onipotente então ele podia e não fez nada!

Citei três casos dos bilhões e bilhões que aconteceram, estão acontecendo agora e acontecerão no futuro e que eu não soube, não sei e não saberei nunca, não pude, não posso e não poderei nunca evitar e não estava, não estou e não estarei presente no momento em que acontecem enquanto que ele, se existe como os religiosos afirmam com tanta convicção, soube e sabe de todos, esteve e está presente em todos, pôde e pode evitar todos... mas não o fez, não o faz e não o fará!

Não, eu é que não vou adorar um deus como esse!

Assumo a responsabilidade!


“Desculpe-me, em nenhum momento desejo ofendê-la muito menos tentar convencê-la de alguma coisa, mas infelizmente, não pude permanecer calado, por estes 2 emails sobre Deus. Acho que não deve brincar com estas coisas e se a senhora não acredita, ok, não serei eu que irei convencê-la, mas por favor pense em que está divulgando gratuitamente pela internet. A senhora tem capacidade de fazer outras coisas muito mais importantes para a humanidade que isto.”

Novamente o senhor está enganado, não estou brincando, estou falando muito sério e estou expondo o que penso e o que sinto, me incomoda essa crença cega que trava a capacidade de raciocínio das pessoas.

Não tenho capacidade de fazer nada pela humanidade comparado com o que pode fazer deus, se ele existir, e dele ninguém cobra. Se ele que pode não faz por que eu que não posso tenho que fazer?

Não estou ofendida, sei que quando exponho opiniões tão contrárias ao senso-comum vou receber respostas como a sua e até respostas nem um pouco educadas (o contrário da sua), mas pense: por que é tão errado divulgar por internet algo que se pensa e sente quando tantas outras pessoas fazem isso e não estão erradas?

“Um grande abraço e o meu respeito.”

Um grande abraço e o meu respeito.



Divina de Jesus Scarpim



18 de agosto de 2008

IR A ROMA E NÃO VER O PAPA!

É tudo que eu aconselharia a alguém... não estou me referindo só ao para papa mesmo, aquele velhinho besta que se acha representante de deus na terra, se não o próprio deus... estou me referindo ao Vaticano, o menor país do mundo e, seguramente um dos mais chatos!

Eu fui a Roma esse fim de semana, que foi prolongado na França, na Itália e talvez na Europa, porque é uma data religiosa qualquer que eu não entendi bem qual seja. Pois bem, saímos de Paris à tardinha e pegamos um trem-dormitório, que eu pensei que fosse algo bonito e romântico mas que não é nada disso... é um trem velho, com cabines onde cabem seis pessoas, três a três, um trio de frente para o outro, em bancos razoavelmente confortáveis, em cima vê-se logo duas camas, uma de cada lado, quando anoitece a gente puxa o encosto e ele se torna uma cama, enquanto que o assento é outra cama e, Zalum! Temos seis camas para seis pessoas...

Na ida fomos com uma família italiana composta de mãe, pai e filho adolescente, apesar de não falarmos italiano e de eles não falarem português nem francês, nós até que conversamos bastante, principalmente os dois homens porque o Nêgo queria aprender italiano em uma noite e o cara era simpático e agradável o suficiente para tentar ajudar. Além de nós e dessa família havia um africano muito calado que quase não falou com a gente, nem em inglês que ele parecia saber e que tanto o Nêgo quanto o outro homem sabiam... parecia que ele não estava mesmo a fim de conversar...

A viagem durou bem mais do que o esperado porque o trem ficou, a altas horas da noite, parado por muito tempo duas vezes. De manhã o Nêgo ouviu conversas de que teria sido uma vez por causa de uma tempestade e a segunda vez por causa de um “pente-fino” na fronteira, o fato é que era para a gente chegar a Roma às 10 da manhã e acabamos chegando ao meio dia... mas como a companhia estava bastante agradável nem foi assim tão aborrecido. Na volta viemos com quatro mulheres, duas jovens e duas mais velhas, eram orientais, de Cingapura, e falavam inglês, o Nêgo conversou bastante com elas, eu bem pouco porque meu inglês é um desastre! Não teve atraso.

No primeiro dia entramos no Coliseu e no espaço onde está o Fórum e o Palatino romano, esse espaço é imenso e quando deu a hora de fechar a gente ainda não tinha andado nem metade, mas o ingresso valia por dois dias e poderíamos ter voltado no dia seguinte... poderíamos!

O problema foi que resolvemos, apesar do nosso espírito não religioso, ir ao Vaticano, afinal, é voz corrente que não se pode ir a Roma sem ver a Capela Sistina e o museu do Vaticano, além da imensidão impressionante da praça e da catedral de São Pedro; inclusive, a mulher que viajou conosco disse que ver a Capela Sistina causava uma emoção que ela definia com uma palavra que significa algo que supera o deslumbramento, nós quisemos saber que emoção era essa: Foi uma das piores besteiras que já fizemos na vida!

Chegamos e vimos uma fila imensa, mas somos otimistas e achamos que ela estava rápida e que a entrada era logo à frente onde dobrava a muralha, então ficamos na fila... sol quente, calor e cerveja a quatro euros o copo (copo, não latinha!). Três horas depois entramos, três horas porque a entrada era bem mais à frente do que a gente tinha pensado; vimos que tudo era grande, inclusive o caminho até a Capela Sistina... a gente seguia as indicações nas placas e as pessoas, que eram muitas e iam sempre na mesma direção que a gente... Pensávamos que a capela estava logo ali e ela simplesmente nunca chegava... Eu estava com dor, minha fibromialgia se manifestou com tudo e não quis tomar o último comprimido para dor que era do Nêgo... Nunca vi e duvido que vá ver alguma vez na vida uma capela mais difícil de se chegar do que essa!

Eu já estava querendo dar meia volta e sair de lá, desistindo sem remorso de qualquer emoção acima do deslumbramento em nome da minha sanidade mental que já começava a ser afetada pela dor e pela raiva, mas não o fiz porque nunca daria para saber se de repente para voltar não teria que andar mais ainda do que pra chegar na maldita capela!

A cada trecho que se andava tinha um balcão vendendo bugigangas; eram rosários e medalhinhas, estatuetas e livrinhos, reproduções e postais... As obras expostas nos salões não tinham nenhum cartão com referência, nenhum nome, nenhuma explicação, tinham apenas um número e se você quisesse saber do que se tratava tinha que comprar os livros que falam tudo sobre o Vaticano ou então pagar pelo tal aparelho no qual você aperta a tecla indicada e ouve, na língua que escolheu, a explicação que qualquer museu que se dê esse nome tem ali, ao lado da obra.

Finalmente, depois de muitos quilômetros de caminhada e de passar por muitas lojinhas, chegamos à tão famosa Capela Sistina e... surpresa! Lá não pode tirar fotografia, mesmo sem flash... deve ser pra obrigar quem ainda não o fez a comprar uma reprodução colorida ou um livro com cada parte detalhadamente explicada como se fosse pelo próprio Miguelangelo... Eu já estava cantando a musiquinha em ritmo de parabéns a você em inglês:

O Papa é um filho da puta
O Papa é um filho da puta
O Papa é um filho da putaaaaaaaaaaaa!!!!!!!!
Ninguém pode negar!
Ninguém pode negar!

Saí de lá furiosa, não senti emoção-mais-que-deslumbramento nenhuma e acho que o próprio Miguel ficaria muito puto se soubesse a sacanagem que estão fazendo com ele. Claro que a pintura da Capela é linda, claro que tem muita coisa bonita naqueles corredores todos que a gente é obrigado a seguir para chegar até ela, mas toda a beleza fica perdida no meio da raiva, do desconforto e da exploração.

E eu achei que já tinha esgotado toda a possibilidade de sentir raiva do papa quando finalmente consegui sair daquele lugar, encontrar um restaurante simpático e comer uma gostosa refeição fechada por um limoncello maravilhoso quando, voltando para o lugar de onde viemos, vimos que da fila de três horas que enfrentamos não restava nem vestígio! As pessoas que passavam estavam saindo de lá, pouquíssima gente estava entrando, não havia mais fila nenhuma e era pouco mais do que três horas da tarde! Nós nos sentimos dois perfeitos imbecis, perdemos o ingresso que já estava pago para o Fórum e o Palatino e perdemos praticamente um dia todo de uma viagem de apenas três dias em uma cidade que tem milhões de coisas mais interessantes para ver do que o antro do filho da puta do papa!

O dia seguinte passamos andando pela área do Palatino, fomos ao Circo Máximo e ao Panteón e, nesse caminho que fizemos, desviamos de tudo que tivesse relação com papa ou igreja católica!
Foi um dia perfeito!

14 de agosto de 2008

UM FIM DE SEMANA FANTÁSTICO!

A empresa emprestou um carro e nós saímos de Paris bem cedinho, viajamos por rodovias hiper bem cuidadas, com asfaltamento impecável e um sistema de cobrança de pedágio que aboliu totalmente as cabines com pessoas recebendo dinheiro e entregando troco ( e aboliu provavelmente um montão de empregos por isso) são máquinas nas quais você introduz seu cartão de crédito e recebe seu comprovante, a cancela abre e você segue viagem...

No caminho muitos vilarejos cercados de plantações bem cuidadas, com lindas casas de pedra que têm vasos de flores vermelhas e rosadas nas janelas... Sempre presenciando essa paisagem, chegamos ao Monte San Michel, um lugar que eu nunca tinha me atrevido a sonhar conhecer porque sempre achei que isso era algo totalmente fora das minhas possibilidades de sonho viável. Fui fascinada por esse Monte desde que assisti ao filme Ponto de Mutação, um filme delicioso que não me cansei nunca de rever e que tem como locação o Monte San Michel.

Passamos o dia lá e seguimos em direção à cidade medieval amuralhada e à beira mar que se chama Saint-Malo, nós tínhamos visto fotos desse lugar e, como gostamos muito de lugares antigos, resolvemos que passaríamos lá o domingo. Mas, não deu certo porque não reservamos hotel e estava tudo super lotado. Tinha gente demais nas ruas, gente demais entrando e saindo pelos portões medievais da cidade e gente demais superlotando todos os hotéis caros e baratos...

Frustrada nossa intenção, andamos mais uns bons kilômetros e chegamos a Rennes já um pouco tarde da noite. Estacionamos no primeiro hotelzinho simpático que vimos e para nossa surpresa tinha vaga e, embora já tivesse passado muito da hora do jantar, o rapaz da recepção preparou uma refeição leve, fria e muito boa para que não dormíssemos sem comer... Ainda estamos procurando os tais franceses tão antipáticos e mal educados de que tanto nos falaram... Até agora não encontramos nenhum!

Antes de dormir olhamos no guia da França e decidimos passar em uma cidade chamada Fougéres, que fica bem perto de Rennes e que, pela foto do guia, parecia que tinha um castelo medieval razoável. No dia seguinte demos uma volta pela cidade de Rennes, que é bem mais bonita e simpática do que a gente esperava, e seguimos para o tal castelo de Fougéres. Tínhamos relacionado mais dois castelos para ver nos arredores e sem desviar muito do sentido Paris, mas quando chegamos a Fougéres ficamos embasbacados! A cidade é maravilhosa! O castelo é o maior e mais bem conservado que a gente já viu até hoje e, ao contrário dos castelos que foram construídos apenas para ser residência de um nobre que queria ostentar sua riqueza e poder, como vários dos lugares muito visitados no mundo como o são os castelos do Vale do Loire, esse é realmente um castelo medieval daqueles que foram construídos para defender o território de ataques inimigos e que foi palco de muita briga! Além disso, a cidade toda, com os trechos bem conservados da antiga muralha, as casas de pedra e a grande igreja que domina o morro e em cuja torre se pode subir sem ter que pagar nada e de onde se tem uma linda vista panorâmica de toda a região, é de uma beleza de cair o queixo! Perto das muralhas do castelo tem uma outra igreja tão antiga que deve ter sido freqüentada por cavaleiros em armaduras...

E uma delícia à parte foi termos parado em um barzinho simpático de esquina ao lado da antiga igreja. Entramos e fomos atendidos por uma francesa magrinha e sorridente, muito simpática e ativa que nos preparou uma deliciosa salada e nos serviu uma biérre de pressión saborosa como são as cervejas na frança. Nossa surpresa foi termos sido tão bem atendidos embora já tivesse passado bastante do horário do almoço e, no final de tudo, recebermos uma fatura que não era nada assustadora, pelo contrário, foi uma refeição agradável ao extremo e bem barata.

Resultado: Passamos o dia todo na cidade, voltamos ao mesmo bar simpático antes de retornar a Paris e a moça que nos atendeu da primeira vez ainda nos fotografou e fechou nossa conta colocando à nossa frente duas cervejas por como oferta da casa!

Não tenho intenção de fazer propaganda, mas se por um acaso alguém for para lá e quiser saber, o nome desse barzinho tão simpático é “Bar Le Saloon”, ele toca música “cawtry” de ótima qualidade e a simpatia da atendente é um diferencial que vale mesmo conferir.

Ela me deu um cartão e eu vou mandar pra ela uma cópia dessa citação de seu bar, mesmo sabendo que ela não entende português... é uma forma de retribuir a gentileza com que fomos atendidos por ela!

Bem, saindo da lá felizes da vida, pegamos a rodovia e voltamos a Paris... na continuação do que está sendo um período de férias maravilhosas para mim!

11 de agosto de 2008

DETESTO O QUE FAZEM COM AS MULHERES!



DETESTO O QUE FAZEM COM AS MULHERES!

Aqui na França existem muitos muçulmanos, muitos mesmo! E as mulheres muçulmanas estão sempre com aquele famigerado lenço na cabeça! Eu detesto todos, todos, todos eles mesmo!

Mas o que eu não sabia antes de vir para cá é que eles são bem diferentes... Tem mulheres que parece que só os usam brancos, tem outras que abusam dos coloridos e delicadamente bordados, e tem aquelas que só usam preto.

Quanto às roupas também variam muito... A gente vê mulheres de lenço com roupas ocidentais, geralmente essas são as mais jovens, algumas usam roupas típicas geralmente compostas por uma calça comprida bem larga de tecido leve e uma túnica do mesmo tipo de tecido em cima, outras usam essas túnicas sobre calças comuns, inclusive jeans, e há aquelas que usam uns vastidões pretos horrorosos arrastando no chão.

Mas o pior, o mais terrível mesmo de se ver, são aquelas que usam os véus tapando o rosto. É revoltante! Eu as vi algumas vezes fazendo lanches com seus marido e filhos nos parques e jardins: elas levantam o véu um pouquinho e enfiam a comida por baixo do véu pra poder comer! Eu sinto uma raiva tão grande de ver isso, uma revolta tão grande, um ódio impotente tão, mas tão enorme que me faz mal!

Elas quase sempre estão acompanhadas de um homem, as de rosto totalmente coberto eu nunca vi sozinhas e as que vestem aquela roupa toda preta é comum encontrar em bandos, como bandos de urubus, coitadas! Às vezes têm crianças junto às vezes não. Eu sinto sempre uma vontade enorme de sair estapeando, socando, cuspindo e xingando dos piores nomes que puder lembrar esses homens, esses grandessíssimos sei lá o quê, não conheço palavra pra definir alguém tão ruim, que sujeitam dessa forma humilhante as mulheres enquanto que eles passeiam livres, leves, soltos como senhores do universo. Ai caramba, como eu os odeio!

E meu ódio não vai só para aqueles que aceitam humilhar publicamente a mulher tapando até o rosto dela não, meu ódio vai igualmente para todos, todos os que andam com as mulheres cobertas, mesmo que seja com um lenço colorido da seda mais pura e mais cara, eu queria cuspir na cara desses também!

E não adianta alguém vir me dizer que isso é escolha da mulher, que ela aceita usar essa droga de véu na cabeça e até na cara, que é ela quem quer ser assim. Se não tivesse essa coisa idiota de fanatismo religioso, se não tivesse essa mentalidade machista do homem se sentir dono e proprietário da mulher e dizer que é um deus qualquer que quer isso, não teria nunca esse “querer” das mulheres que se cobrem dessa forma!

Tá, até eu posso um dia resolver que um determinado lenço é bonito e achar legal colocá-lo na cabeça e sair assim, mas eu sou livre para usá-lo quando, e se, quiser, posso usá-lo na sexta e não no sábado, usar hoje um branco, amanhã nenhum, daqui a dois dias um vermelho e, se quiser posso até achar apropriado em determinados lugares e horas usar um lenço preto. Mas eu não tenho que sair TODO DIA com um lenço na cabeça, e não tenho que sair NUNCA com um lenço na cara!

Só uma interpretação religiosa criada por machistas inseguros pode obrigar as mulheres a se humilharem dessa forma! Não acredito, mas não acredito mesmo que, se existir um deus, seja ele qual for, esse deus vá achar que é dever de um ser humano humilhar e degradar outro ser humano como fazem alguns homens com as mulheres alegando ser essa a vontade de um deus. Não vejo nenhuma possibilidade disso!

E não limito minha revolta à alegação machista dos homens da religião muçulmana não, ta? Os protestantes têm aquele hábito imbecil de proibir a mulher de cortar o cabelo e de usar calça comprida, e a bíblia tá tão cheia de ofensas à mulher que eu me espanto de existirem mulheres cristãs.

Não, eu não posso aceitar que seja possível um ser humano sujeitar outro ser humano, tolher toda a sua liberdade, humilhá-lo e aprisioná-lo e ainda alegar que possa haver algum bem nisso. Se a escravidão é uma prática que a grande maioria dos seres humanos civilizados do nosso tempo abomina, por que ainda se aceita essa escravidão da mulher? Não, eu não entendo e não aceito o argumento de que é “da cultura” ou de que “elas são livres e escolheram usar essas roupas e esses véus”... Não é compreensível pra mim.

Algumas dessas mulheres totalmente ou parcialmente empacotadas em panos que a gente encontra por aqui estão empacotadas em panos visivelmente caríssimos, ou então estão carregando sacolas de roupas de grife, daquelas que a gente sabe bem que uma euzinha que nem eu não vai poder comprar nunca. Daí algumas pessoas dizem que elas andam assim nas ruas, mas em casa usam roupas lindas, perfumes caros e muitas jóias; e disseram até que apesar daquela roupa toda, elas podem de repente estar nuazinhas por baixo... Grande consolo! Por baixo das roupas todos nós estamos nuzinhos, eu, você, o padre, o monge... E ter roupas, jóias e perfumes caros não vale nada quando não se tem liberdade de comer sem ter que levantar um véu que te cobre o rosto e que você não pode tirar... Uma algema banhada a ouro e cravejada de diamantes continua sendo uma algema!

Isso é revoltante e vai ser difícil me acostumar a ponto de não sentir um aperto aqui dentro cada vez que vejo uma mulher sendo assim tão aviltada!

4 de agosto de 2008

4 DE AGOSTO DE 2008

Sobre saladas

Até vir à França, a maior sofisticação “saladística” que eu conheci e que já pratiquei em casa foi a de incluir frutas nas saladas de alface e tomate. Fazia-se uma salada normal, colocava-se nela pedaços de manga, ou maçã, ou kiwi, ou carambola, ou uva-itália sem semente; tinha também a variante de se colocar passas e uma vez vi uma amiga colocar pedaços muito pequenos de bacon frito. Todas essas variações, em minha casa, em casa de amigos ou mesmo em restaurantes, não fugiam ao tempero clássico sal-vinagre-óleo, que nos restaurantes em geral estão na sua mesa ou em um lugar à parte e você coloca na sua salada da forma que quiser, nesse clássico tempero as possibilidades de variação se reduziam em geral a substituir o óleo pelo azeite, e nesse caso quanto mais saboroso o azeite melhor a salada, claro; e podia-se, isso foi pra mim achado recente, substituir o vinagre comum por vinagre balsâmico.

Bem, isso tudo foi antes de eu vir para a França. Aqui as saladas são algo totalmente diferente, elas podem levar frango (não é o salpicão tão nosso conhecido), podem levar queijo, podem levar peixe assado, em conserva ou cru (as fatias ou pedaços de salmão defumado que tem em qualquer supermercado daqui é uma maravilha à parte!), elas têm uma mistura de folhas verdes que são mas não são o nosso tão conhecido alface; mas, o principal sobre as saladas francesas é o tempero, a salse. Nos restaurantes elas sempre vêm muito arrumadas e deliciosamente temperadas, em casa a gente pode ter um vidro de tempero comprado no mercado e jogar um pouco sobre a salada pronta e está pronto o manjar.

Tenho que destacar aqui, sempre, o fato de que sou uma vagabunda doméstica e tudo que fiz de trabalho típico foi feito sem nenhum tesão, apenas necessidade. Odeio trabalhos domésticos, todos eles! E, portanto, estou falando apenas como “comedora” e não como artista. Fiz sim muitas saladas na vida, mas jamais me esmerei em ser uma boa, ou mesmo mediana, criadora de saladas. Sempre preferi comer em restaurantes do que preparar refeições.

O fato é que se a única coisa boa para comer na França fosse a salada, eu estaria emagrecendo, isso porque elas são tão grandes, variadas, coloridas e saborosas que não se precisa de mais nada para compor uma refeição.

Outro mito caindo por terra: Até hoje não vi o lugar da França ou de Paris onde se pede uma refeição, paga-se a conta e sai-se de lá com fome, como me diziam que seria; ao contrário, sempre vem comida suficiente para você ficar mais do que satisfeito e até mesmo comer tanto a ponto de ficar totalmente cheio e deixar comida no prato. E isso acontece também com as saladas!

Sobre as roupas

Coisa espantosa demais em Paris para mim são as roupas que vejo as pessoas usando nas ruas e comprando nas lojas: Elas são horríveis!

Paris, capital da moda, é de longe o lugar onde vi mulheres mais mal-vestidas de todos os lugares aonde já fui! Tem exceções? Sim, claro que tem! Às vezes a gente encontra uma roupinha bonitinha na vitrine de uma loja, às vezes a gente passa por uma mulher, jovem ou não tanto, com um vestidinho bonitinho e um calçado que combina... mas é espantoso como que se vê roupas feias usadas com calçados e bolsas que não têm nada a ver com nada!

Tudo bem, estou falando apenas como observadora leiga mais para ignorante, não tenho e nunca tive a moda como uma das preocupações da minha vida, não entendo absolutamente nada do assunto, apenas olho e acho bonito ou não. E aqui fico espantada com a freqüência de não! Tem uns vestidos com uns babados enormes, uns laços pra lá de ridículos, uns recortes e “enfeites” pra lá de espalhafatosos a ponto de chamar a atenção até de minzinha que nunca fui de reparar muito nessas coisas.

E as cores são um caso à parte: parece que as cores preferidas das francesas são verde-musgo e marrom-sujo, ou então aqueles amarelos apagados que devem ter tanto o marrom sujo quanto o verde-musgo na composição. Daí, com essas cores e esses detalhes, elas compõem um todos que é simplesmente feio.

A maior moda em calçado aqui no momento é um sapatão de plástico grande e grosso, feio demais mesmo, tipo chinelo fechado na frente e aberto atrás, são vendidos e comprados em todas as cores imagináveis. Vou tentar me lembrar de fotografar um desses, só fotografar porque comprar não vai dar mesmo, eu não os usaria jamais! Só falta descobrir, quando voltar para o Brasil, que os tais sapatos horrorosos agora são moda lá também!

17 de julho de 2008

17-07-08

Fim de semana passado foi prolongado aqui na França. Dia 14 de julho é simplesmente a data mais importante do país, uma espécie de 7 de setembro deles. Por todos os lados tem comemorações, semanas antes já as bandeiras francesas se espalham pela cidade e, se tem festa em todo o país, a festa maior é em Paris e a maior de Paris é o desfile na Champs Elysée saindo do Arco do Triunfo, que está aqui pertinho do meu petit apartamento, menos de dez minutos a pé e lá estava eu no meio da muvuca. Não gosto de nada que tenha relação com militar, nunca gostei. Militar lembra arma, arma lembra guerra, guerra lembra morte... morte de muita gente, causada por muitas outras gentes sem nenhuma razão possível ou passível de justificativa.

Foi um tédio! Horrível! Precisei utilizar todo o meu imenso caminhão de paciência para acompanhar o Neguinho, que parecia uma criança que ganhou um brinquedo novo: ele fotografou cada caminhão esquisito, cada canhão estranho sobre rodas, cada tanque de guerra cheio dos radares! Todos eles encimados por militares nos seus uniformes e chapéus paramentados, segurando fuzis, metralhadoras e armas incompreensíveis! E eu, andando ao largo, olhando as pessoas tão entusiasmadas quanto o Nêgo, fotografando, filmando, aplaudindo, correndo até os carros, tanques e caminhões que acabavam de desfilar para serem fotografadas junto com os militares, crianças sendo erguidas pelos pais e seguradas pelos militares para aparecerem em uma fotografia histórica sentadinhas sobre um enorme tanque de guerra, amparadas com zelo por um dos “bravos defensores da pátria”.

Aparentemente só eu, apenas euzinha, no meio daquela multidão de gente entusiasmada, estava odiando tudo aquilo! Não gosto dos aparatos militares, não gosto do que eles representam, não gosto do barulho que eles fazem!!

Felizmente um fim de semana prolongado em Paris não é feito apenas de desfile militar! Fomos ao Chateau de Vincennes, um passeio muito legal que a gente fez de metrô e porque julgamos mal as informações recebidas, precisamos repetir... Fomos no sábado à tarde achando que algumas poucas horas, talvez menos, fosse suficiente. Chegamos e vimos que o castelo é enorme e o Donjon, palavra que só no dia seguinte descobrimos que significa Torre de menagem, já estava prestes a fechar. Então, passeamos pelos arredores, vimos a enormidade do interior do pátio do castelo; o fosso, as muralhas, os portões com a ponte levadiça, o pátio interno com uma capela tão grande que questionei de imediato o nome “capela”... saímos um pouco da área do castelo e chegamos a uma pequena praça florida impressionantemente linda. A mistura das cores do jardim é de uma harmonia e de uma beleza comovedoras, o brilho das cores, não sei se pelo fato de já ser um pouco tarde e não ter mais sol ou se porque a máquina fotográfica não pode captar o que os olhos vêem, não apareceram nas fotos, ficaram pálidos, inverídicos, mentirosos...

Voltamos no dia seguinte ao castelo e entramos no Donjon em uma visita guiada, foi tudo o que esperávamos e tivemos muitas informações interessantes: ficamos sabendo, por exemplo, que os enormes fossos em volta dos castelos medievais não eram totalmente cheios de água, eram cheios com apenas alguns poucos centímetros de água e muito, muito esgoto, ou seja, o que impedia os inimigos de atravessarem os fossos não era a profundidade da água, era a quantidade de merda e urina que ela continha! Isso que faz com que a idéia de morar em um desses castelos, mesmo sendo um rei, não pareça algo lá muito agradável! Outra coisa que ficamos sabendo foi que o óleo quente na Idade Média, assim como hoje, costumava ser usado para fritar alimentos e não para jogar nos inimigos; o que eles costumavam jogar, e que eu nunca tinha pensado no quanto isso pode ser eficiente, era areia quente, além de pedras e o que mais tivessem à mão. A vantagem da areia quente era que ela dificilmente poderia servir de combustível para ser devolvido pelo inimigo, causava muito desconforto e até queimaduras e, ainda por cima, acabava com a lubrificação e, conseqüentemente, com a eficiência das armas inimigas. Espantoso, não?

Nesse fim de semana também passeamos à toa pelas ruas, um tipo de passeio algumas vezes bem mais agradável do que determinadas visitas a museus e galerias (e olha que eu gosto muito de visitar museus e galerias!). Acho que quem disse que Paris é uma festa estava andando sem destino pelas ruas... Você dobra uma esquina e depara com uma viela com ares medieval, vira outra e dá de cara com um jardim ou um parque cheio de bancos à sombra de árvores enormes ocupados por pessoas que se deixam ficar em paz para uma leitura, uma pequena refeição ou simplesmente uma conversa amigável com o amigo do lado ou consigo mesmo... É muito, muito bom caminhar sem rumo pelas ruas de Paris!

Outro detalhe muito interessante desses passeios é que geralmente você acaba saindo em um lugar que é ponto turístico conhecido. Caminhando sozinha em outros dias, já me aconteceu de sair no Hôtel des Invalides, dias depois fui parar no Parc Morceau, que é grande e muito lindo, tão lindo que foi pintado por Monet. Nós saímos, dessa vez, na Igreja St. Germain L’Auxerrois, que só depois vimos no guia que era um ponto digno de visita, e saímos, é claro, no Louvre, pelos fundos, porque é justamente “de frente para os fundos” do Louvre que fica essa bela e antiguíssima igreja (onde não se paga pra entrar).

Ah, e passeamos finalmente em um dos famosos barcos (bateaux Mouches) que cruzam o Sena, vamos sentados ao sol, ouvindo uma guia poliglota que nos explica onde estamos, dando informações históricas sobre cada um dos pontos e das pontes pelos quais passamos em três línguas: Francês, Inglês e espanhol. Uma garotinha espevitada tira fotografia das pessoas e no final do passeio, do lado de fora do cais onde se pega o barco, colocam no muro as fotos para que você compre a sua, caso interesse, nós não compramos.

7 de julho de 2008

13-07-08

Mudei de apartamento, não tenho mais uma vista linda para a planura de Paris, não tenho mais uma vista linda para a Torre Eiffel... aliás, não tenho mais vista nenhuma!

Estou em um estúdio voltado para o pátio interno, que é o estacionamento, no andar térreo de um prédio. Tem um montão de janelas acima, à frente a ao lado da minha, todas voltadas para esse pátio interno e, portanto, para o meu petit apartamento, passo o dia com as cortinas fechadas... e hoje estou presa em casa porque prometeram vir trocar o sofá velho e quebrado e até agora não vieram, tenho que esperar...

Mas, tenho quais motivos para estar aborrecida? Nenhum!

Meu pequeno lar provisório sem janelas está em um daqueles prédios antigos de uma rua estreita cheia de lindos prédios antigos que é travessa de uma avenida movimentada que vai sair no Arco do Triunfo. Ou seja, estou a poucos minutos a pé do Champs-Élysée, acho que reclamar disso seria total insanidade!

Ontem caminhei por essa que dizem ser a avenida mais famosa do mundo. É uma avenida muito larga e movimentada, com calçadões arborizados e bem largos dos dois lados, nela estão muitos restaurante, cafés e lojas de grifes muito famosas, não conheço muitas delas porque não sou muito ligada nessa coisa de grife, outras não tem como não conhecer, como a Ferrari, por exemplo.

Entramos em uma loja de bolsas que é muito famosa, tem um nome do qual não me lembro e que acho que nunca ouvi falar, mas dizem ser as bolsas que toda mulher (parece que menos eu) sonha ter, nem achei as bolsas tão bonitas... eu sou ralé mesmo, não tem jeito!

Fomos sexta-feira a um restaurante muito legal que fica na avenida aqui pertinho, a Avenida de Termes, ele tem uma trempe de churrasco em cada mesa pequena, nas mesas maiores tem duas ou até três. São buracos cobertos com uma grade e que têm uma resistência embaixo; quando chega o prato, você pega os bifinhos crus e coloca sobre a grelha, cuja resistência está acesa porque o garçom a ligou, tem também uma espécie de pazinha onde você arruma o presunto e o queijo e coloca sobre a grelha para aquecer... é muito bom!

E novamente afirmo: essa coisa de dizer que os garçons parisienses são antipáticos e mal educados é pura mentira! Ontem passamos na frente do mesmo restaurante e o garçom - que já nos atendeu bem quando jantamos lá - nos cumprimentou... e estávamos só passando!

Outro caso: Paramos em um desses bares com cadeiras na rua, pedimos cerveja e o Nêgo pediu ao garçom para bater uma foto da gente e avisou a ele que nós seríamos meros protagonistas, o importante era fotografar o bar, daí garçom, brincando com a gente, disse: “Ah, é pra fotografar o bar, então voilá!” E ficou “tirando fotografias” de todos os lados do bar contrários ao que nós estávamos, até o Nêgo “protestar”... Tomamos várias cervejas lá e fomos atendidos com alegria e educação o tempo todo...

E posso contar mais algumas ainda: por exemplo do garçom que percebeu que nós somos brasileiros e se despediu da gente em português (com forte sotaque, claro!).

Enfim, estou no centro de Paris há mais de duas semanas, já comi e bebi em vários restaurantes e cafés e ainda não encontrei aquele garçom mal educado e grosso do qual tanto me falaram...

3 de julho de 2008

02-07-08

Hoje é dia de mudança. Vou deixar daqui a pouco, provavelmente para sempre, a minha maravilhosa vista da Torre Eiffel e de uma extensão muito grande e ampla da planura de Paris. É que o Nêgo conseguiu alugar um micro apartamento, como esse em que estou até agora e que eles chamam de estúdio, perto do Arco do Triunfo, ou seja, muito perto dos escritórios da Peugeot, onde ele trabalha. Como lá não é hotel e não é um prédio novo nem luxuoso, o preço cai para menos da metade, e ainda tem a economia do traslado, de lá ele vai a pé para o trabalho, daqui tem que pegar metrô.

Não vi ainda o lugar, nem a rua nem o prédio, mas o Nêgo e o Halison me disseram que é um daqueles prédios antigos que têm janelas nos telhados e que os arredores são mais cheios de vida do que aqui. Tem mais lojas e bares, mais comércio e agitação, mais supermercados e pequenos mercadinhos de vila; disseram eles que aqueles lados se parecem mais com uma Paris antiga do que aqui, que é um bairro cheio de prédios e construções modernas e não tem tantas lojas, embora não as falte. Verei tudo isso daqui a algumas poucas horas...

Passamos nosso primeiro fim de semana em Paris e fizemos nosso primeiro passeio de muitas horas; e eu dei o meu primeiro histórico vexame parisiense: Fiquei bêbada!

Saímos sábado e fomos andar pela parte de Paris onde tem muitas lojas de informática porque o Halison queria comprar um computador, daí fomos passeando, olhando lojas, parando para tomar “bier de presson” que no Brasil chamamos de chope e que aqui é simplesmente delicioso. Depois paramos para almoçar em um restaurante espanhol e tomamos cerveja, que não era espanhola, mas que era uma delícia, daí voltamos às caminhadas e a uma última parada... pronto! Lá estava eu tontinha, tontinha. Avisei os dois rapazes de que estava tonta, eles riram e disseram que tonta nada, você está bêbada! E lá fomos nós, rindo e brincando, até que tropecei em uma irregularidade da calçada e lá me fui ao chão!

Ralei o joelho, cortei os lábios fui erguida pelos rapazes e trazida com muito cuidado pra casa. Resultado: acordei, olhei no relógio e vi que eram seis e meia, só não sabia se da noite ou da manhã. Eu havia tomado banho, havia deitado e dormido, mas não me lembrava bem de como fizera tudo isso, soube depois que boa parte dessas ações foram tomadas com a ajuda do meu lindo maridinho. Eram seis e meia da manhã!

Acordei bem, sem dor de cabeça (mais um ponto para a cerveja daqui) e me prometi ser mais contida no domingo. Fomos até a Torre Eiffel aqui pertinho e pegamos um ônibus que tem lugares para a gente viajar no teto e que faz quatro circuitos turísticos pela cidade. O Nêgo comprou um ingresso de um dia para ele e um de dois dias para mim, dos quatro circuitos conseguimos fazer dois, parando entre um e outro para o almoço. O legal desses ônibus é que eles passam o dia fazendo um itinerário, cada um com uma plaquinha colorida no vidro da frente e que dá a indicação de qual é o seu itinerário, que vêm especificados em um mapa que recebemos quando compramos as passagens. Ao lado do banco em que nos sentamos tem um terminal, você recebe um fone de ouvidos, introduz no terminal e ouve, na língua que escolhe entre oito opções, as explicações e histórias de cada ponto do passeio e as orientações sobre os circuitos. Há várias paradas em pontos estratégicos e você pode descer quando quiser, passear pelo lugar e depois voltar à parada e pegar outro ônibus para continuar o passeio, nós paramos um tempo no Louvre.

Segunda-feira peguei o primeiro ônibus às nove e meia da manhã e fiz, sem pressa, os dois circuitos que faltavam. Depois escolhi parar perto de Notre Dame e passear pelos arredores. Vi lojas de souvenirs aos montes, comprei algumas lembrancinhas e muitos cartões postais. Andei por algumas vielinhas muito estreitas, cheias de pequenos restaurantes e portas com balcões que vendem uns sanduíches diferentes, com pouco pão e muito recheio, parece, pelo que li nos nomes dos lugares, serem sanduíches gregos e certamente fazem muito sucesso pois estava tudo tão cheio que achei mais confortável ir a um Mac Donalds e experimentar o tal lanche grego num outro dia.

Fui caminhar um pouco às margens do Sena, naquele trecho existem muitas banquinhas que vendem souvenirs, livros usados e reproduções de quadros, não deu pra passear por toda a extensão de ambos os lados porque eu já tinha pouco tempo, mas deu pra perceber que, embora muito atraentes, as banquinhas, que na verdade são caixotes de madeira encaixados no muro que acompanha o rio, não são lugares com ofertas imperdíveis, pelo contrário, são atrações turísticas e sabem cobrar por isso, resultado: não comprei nada mas decidi que voltarei para passar pelo menos um dia inteiro passeando pelos arredores de Notre Dame, pelas margens do Sena e pelas vielinhas estreitas, sem esquecer, é claro, de provar um dos tais sanduíches com pouco pão e muito recheio...

Socorro! Acabei de perceber agorinha mesmo quando fui vestir a bermuda que já estou engordando!

1 de julho de 2008

Em Paris

(25-06-08)

E aqui estou eu, da minha janela vejo a Torre Eiffel e, ao lado dela, cobrindo a visão de um dos seus pés, há uma torre branca, fina, enorme que lembra uma espécie de farol. Mas à noite a Torre Eiffel se acende toda e passa algum tempo piscando suas luzes como a comemorar a chegada do escuro, ou o final do dia, já a enorme torre branca, que olhando daqui e por estar mais perto da minha janela parece medir o equivalente a umas cinco ou seis torres eiffells, não acende nenhuma luz. Alguém já aventou a hipótese de que ela seja uma caixa d’água. Bem no alto existem umas janelas furadas por onde se pode ver o que parecem ser duas estruturas metálicas, uma bem grossa e irregular, como se fosse uma pilha de bujões de gás, e outra bem mais fina, como um cano contínuo, de resto ela é toda lisa e sem janelas. Não sei o que seja essa torre, preciso lembrar de perguntar isso a algum francês.

O apartamento em que estou, na verdade um estúdio, tem um quarto, que se transforma em uma sala se eu recolher a cama; bem, na verdade quando entrei era uma sala e, puxando a cama, nós transformamos em um quarto. Não voltamos a levantar a cama e as almofadas do que era o sofá, cujas estruturas ficaram debaixo da cama quando a gente a puxou, e cujos braços fazem a vez de criado-mudo, um de cada lado da cama, estão espalhadas pelo quarto, uma grande e uma pequena ao lado da mesa onde escrevo e a outra pequena do meu lado da cama, encostada na parede, porque às vezes eu a uso como um apoio de cabeça quando quero ficar sentada na cama, comendo ou vendo televisão.

Daqui da minha janela, vejo também o Sena, com os Bateaus Mouches passando prá lá e pra cá. Do lado de cá do Sena há uma linha de trem por onde agorinha mesmo passou um trem branco e vermelho. Como estou no trigésimo andar, se chego mais perto da janela, em pé, tenho uma vista muito ampla de Paris, vejo a cúpula dourada do Hôtel National dês Invalides, à minha direita, é o lugar onde fui a pé ontem; lá funciona o museu do exército e é onde fica o túmulo do Napoleão. Tem uma loja de souvenir que vende de tudo com a figura de Napoleão, chaveiro,canecas, agendas, almofadas, sacolas de compras e reproduções de quadros, é uma loja cheia de coisas sobre a história da frança e sobre Napoleão: livros CDs, DVDs, cartões postais e marcadores de páginas. É uma verdadeira festa para os olhos!

Eu cheguei lá ontem depois de andar muito, saí do hotel às nove e meia da manhã e fui andando por ruas e mais ruas, sem querer me fixar em um itinerário, virando toda esquina que me apetecesse virar e parando em todo lugar onde me desse vontade de parar. Desviei o caminho para entrar em uma igreja velha e imensa em cuja frente havia tapumes e que só depois de passear lá dentro e ver todas as pinturas e vitrais, li, na placa da reforma, que se chama igreja de Saint Suplice. Entrei em uma boulangerie e comprei um sanduíche comprido e fino que se parece muito com o bocadilho espanhol, escolhi entre várias opções um recheado de rosbife, queijo, tomate e molho, pequei uma coca cola e sentei pra comer em um banco de um parque logo adiante.

Aliás, uma coisa que reparei muito aqui foi que as pessoas comem na rua o tempo todo; algumas comem sentadas em bancos nas calçadas, muitas ruas têm bancos nas calçadas, ou em parques como eu fiz, outras comem andando mesmo, homens de terno e gravata, mulheres de vestidos e sapatos elegantes, adolescentes de tênis e boné andam pela rua descontraidamente, sozinhos, aos pares ou em pequenos grupos, conversando e comendo esses bocadilhos.

Mas, se você está passando na frente de um supermercado, o que é comum é você ver pessoas saindo com as compras, de dentro da sacola ou de uma das sacolas, saindo uma ponta da baguete que eles vão cortando com a mão e comendo enquanto caminham de volta para casa, acho que quase ninguém chega em casa com a baguete inteira.

Agora são oito horas da noite e o sol ainda está alto, as luzes da Torre Eiffel só se acenderão quando escurecer, lá pelas dez da noite, aí a gente janta, pensa que ainda é cedo e se bobear vai dormir altas madrugadas. Não estou saindo pra longos passeios todos os dias, hoje não saí porque quis lavar umas camisas do Nêgo, se não o faço ele não vai ter com que ir trabalhar na segunda-feira, como aqui não tem nada para lavar roupa, embora tenha uma tábua de passar e um ferro elétrico, lavei camisas, cuecas e meias na banheira e estendi nas cadeiras e no aquecedor do banheiro. Depois de lavar a roupa, tomei café e fiquei um tempo vendo televisão, só mudando de canal, sem parar mais do que dez ou quinze minutos em nenhum e hoje só ficando nos canais franceses. Nossa! A televisão aqui é muito ruim! Os programas são péssimos, muita novela tipo dramalhão e programas do tipo “feminino”, fora isso tem noticiário e um ou outro seriado americano, sempre dublado, estou me forçando a ver um pouco de televisão e também comprei uma revista do tipo Veja e pretendo lê-la, para ver se consigo melhorar meu francês. Quando cheguei aqui descobri que meu francês está muito pior do que eu imaginava, e olha que eu não achava que estivesse lá muito bem. Na televisão não entendo praticamente nada, eles falam muito depressa, como na rua, quando encontro pessoas conversando também não entendo praticamente nada do que elas dizem... vejamos como estarei daqui a três meses...

Como eu esperava, a famosa falta de educação dos franceses e a crítica de que a comida é ruim e pouca devem ser exageros de brasileiros exigentes demais ou que querem receber tratamento vip só por serem estrangeiros. Não fui mal atendida em nenhum lugar onde comi, bebi ou comprei algo e, quando precisei de alguma ajuda e pedi a alguém, nunca tive uma recusa ou uma resposta grosseira. O que acontece na verdade é que em geral as pessoas estão tão acostumadas à presença de estrangeiros que não dão especial atenção a isso e os garçons atendem a todos os clientes de forma eficiente e educada mas em geral sem nenhum tipo de rapapé, não tentam de forma alguma passar a idéia de que você é alguém especial. Isso é o geral, porque até a exceção você pode encontrar. Comemos, na terça-feira em um restaurante aqui perto e fomos atendidos por um garçom negro, simpático, brincalhão e, além de tudo, bonito. Esse não deixava nada a dever a um legítimo garçom carioca.

E tenho uma lembrança interessante para levar comigo para o Brasil: caí em um conto do vigário típico desses arredores do Sena. Eu estava caminhando, segunda-feira, do lado de lá do sena, fui até o Petit Palais e o Grand Palais, quando um homem que passava por mim se abaixou e pareceu pegar algo no chão, era uma aliança grossa e dourada, ele falou comigo, disse e mostrou que a aliança não servia no dedo dele, isso depois de olhar para todos os lados e perguntar se era minha a aliança, daí ele me perguntou de onde eu era, disse que também é estrangeiro, nem me lembro de que país, e me deu o anel dizendo que era para me dar sorte, depois de conversar um pouco me pediu dinheiro para almoçar, eu que já estava meio desconfiada, tive certeza, dei a ele umas poucas moedas e disse que não tinha mais nenhum dinheiro, que tinha chegado ontem e meu marido ainda não tinha trocado euros, ele quis que eu desse a ele meu anel de cobrinha, que é de ouro (o cara é esperto!), alegando que o que ele havia me dado era maior, eu disse que não podia porque o anel é de estimação e ele saiu bravo e fazendo sinal de impaciência; eu saí rindo e guardei o anel na bolsa como lembrança, ele me custou acho que trinta ou quarenta centavos de euro. Pouco mais à frente outro cara quis fazer o mesmo truque comigo mas dessa vez não dei a mínima atenção, me fiz de surda...