11 de fevereiro de 2008

CAMINHANTE

Sou viajante mascarado andando sob um véu de solidão.
Caminho sem descanso, dia e noite, e com meus olhos de monalisa vejo ao mesmo tempo todos os rostos (máscaras) que como eu se velam e se revelam no caminhar. Passam por mim pessoas, sorrisos, vozes e eu ouço, penso e guardo na bagagem todos os reflexos dessa visão.
Dentro da mochila que levo às costas pesa uma coleção de tristezas, alegrias, conquistas e derrotas; histórias de amor e ódio que me contaram e que vivi.
Outra mochila carrego ao peito e dentro dela os sons de uma vaga música denunciam seu conteúdo de esperanças, desejos e sonhos que tentam a todo custo harmonizar com as batidas do meu coração.
Pelo caminho ouço histórias, tantas histórias! que me ajudam no caminhar. Fabiano sem ter o dom da palavra me diz como a vida é seca e Paulo Honório tenta me ensinar que para conseguir minha São Bernardo não devo me importar com sentimentos de carinho e piedade, eu o previno de que o resultado de não se importar é quase sempre a solidão.
Policarpo me faz ao pé do ouvido grandes discursos em tupi-guarani, mas não entendo nada e digo a ele que tudo bem porque não sou alegre nem triste nem poeta, mas apesar disso amo o Brasil.
Amo o Brasil, mas caminho ao lado do mundo inteiro. Caminho com Moisés à procura da terra em que se plantando tudo dá. Caminho com Pessoa às margens do rio da minha aldeia, que é mais belo que o Tejo e mais belo que o Amazonas porque reflete minha saudade.
Ao lado de um rapaz sem rosto que será morto assim que a televisão sair do ar impeço o avanço de um tanque de guerra em nome da Paz Celestial e com um martelo forjado por Hefestos derrubo uma das pedras do muro de Berlim.
Enquanto passo pela vida e vejo a vida passando por mim aprovo e reprovo um escudo antimísseis e choro a negritude da fome na África e a negritude da pobreza no sulmaravilha do Henfil.
Qual peregrino no Caminho de Santiago, ando descalça e levo um pouco de vinho para aquecer o frio da ganância de Bushs, Clintons, Lalaus e Menins que tudo roubam e a todos matam e que por não terem remorso deixam em mim o frio da culpa, o frio da raiva, a dor da impotência, a sede sem remédio da justiça que não virá.
Sou uma máscara, sou um reflexo, sou uma vida e caminho em meio a outras máscaras-reflexos-vidas solidárias ou indiferentes por uma estrada muito longa, tão longa quanto a vida de todos os homens da terra. Um caminho que me leva talvez de nada a lugar nenhum, onde o que importa não é de onde venho nem aonde vou chegar mas o que faço e o que vejo nesse caminhar que começou no dia em que nasci e terminará no momento da minha morte.
Divina de Jesus Scarpim