20 de fevereiro de 2008

VIDAS

Capítulo - I

Quando ouviu a música não estava pensando em nada de importante. Tinha diante de si um vazio e olhava para as imagens repousantes. Estava no seu tempo de repouso e não tinha pensado que seria chamado tão cedo porque achava que ainda não tinha estudado o suficiente para estar apto, mas Eles pensavam o contrário e o recado dizia:

Você acaba de receber um Vida.
Entre em contato.

Ficou surpreso. Não podia imaginar que recebesse um Vida antes de se sentir preparado para isso. Estava sim estudando muito, mas ainda havia tanta coisa que não entendia a respeito dos Vida que pensava que seria chamado para mais informações e debates, para muitas aulas e provavelmente para acompanhar alguém mais experiente como observador antes de receber um Vida só seu. Aparentemente estava enganado. Bem que Liane avisou que Eles sempre surpreendem, nunca as coisas acontecem da maneira como alguém acha que vai acontecer. Conheceu Entes que tiveram necessidade de muitos estudos antes de receber seu primeiro Vida, outros que o receberam antes mesmo de terminar o primeiro estágio. Alguns recebiam um Vida temporário atrás de outro. Outros ficavam muito tempo com um único Vida antes de fazer a primeira troca. Ele só precisou fazer um estágio e já estavam lhe dando o seu Vida. Liane estava certo.
Ele já teve muitos Vidas, mas nunca dizia nada sobre eles “Não é função dos Entes ensinar sobre os Vida a outros Entes, isso poderia atrapalhar a formação uma vez que não há experiência igual. Qualquer coisa que um Ente dissesse de realmente importante sobre o seu Vida para outro Ente seria totalmente inútil porque a experiência com um Vida não ensina nada sobre outro Vida e a experiência de um Ente não vai ser nunca parecida com a experiência de outro Ente.”
Quando acabou de processar a mensagem entrou em contato conforme foi solicitado e apareceu um Ente muito amigável que se prontificou logo a ajudá-lo no que fosse preciso. Combinaram um encontro no Ponto. Ele chegou primeiro mas o Ente não demorou e apresentou-se.
— Luí é o meu nome.
— Eu sou Mirou e esse é meu primeiro Vida, acho que você já sabe.
— Sei. Estou aqui para tentar ajudá-lo.
— Obrigado. Não sei bem por onde começar. Tudo o que aprendi no único estágio sobre os Vida é que eles são parecidos com os Entes em algumas coisas e completamente diferentes em outras.
— E é a mais pura verdade. Qual foi a impressão que você teve deles pelo que viu no curso?
— Uma impressão não muito boa. Eles me pareceram ... como dizer? ... nojentos.
— Entendo. Mas eles são mais do que isso. Você vai aprender muito. É uma boa experiência. Já viu algum Vida?
— Vi alguns nas aulas. Têm vários tamanhos e tonalidades entre o negro e o rosado e usam pedaços do habitat deles para cobrir o corpo. Não entendi muito bem a função de algumas coisas que usam. Sei que tem machos e fêmeas, mas não tenho certeza se posso distinguir um do outro. Eles se comunicam através de sons que emitem pelo buraco de comer e, o que mais me deixou horrorizado é que eles se agridem constantemente, são capazes até mesmo de eliminar uns aos outros. É assim mesmo?
— É sim. É muito difícil para nós entender algumas coisas que fazem e que são. Mas tem uma coisa que faz com que não seja ruim cuidar deles. São únicos. Nunca vai existir um Vida igual a outro Vida. Nisso são como nós.
— E sobre o meu Vida? O que você sabe?
— Na verdade nada. A única coisa que liga o seu vida a mim é que o meu vida é fêmea e procriou. A criatura dele é o seu Vida. Então, por enquanto, o seu Vida está dentro do meu Vida. Ele ainda não tem o buraco de ver ativado e por isso fica mais difícil o seu contato com ele. Nós ficaremos em contato com o meu Vida juntos até que eles se separem, daí então cada um cuida do seu Vida e não teremos mais nada a ver um com o outro. Exceto, talvez, que o seu Vida vai ver o meu Vida melhor do que o meu Vida se vê.
— Eu preciso saber alguma coisa sobre o seu Vida?
— Não. Apenas precisamos estar em contato quando eu estiver com meu Vida ativo até que os dois se separem e o seu comece a funcionar direito.
— Como é que está o meu Vida dentro do seu? O que é que ele está fazendo lá?
— Está se desenvolvendo. É assim que os Vida procriam. O seu Vida começou a existir a partir de um pedaço do corpo do meu Vida, dentro dele. Lá ele está crescendo e formando seu corpo. Quando estiver pronto, ele sai.
— Confuso.
— Bastante. Mas quando chegar a hora da separação você estará em contato comigo. Então você poderá ver as imagens através do buraco de ver do meu Vida e o que quer que seja que o seu Vida comece a ver quando ativar o buraco de ver dele.
— Claro. Agradeço muito que você me permita essa intromissão.
— Não tem porque agradecer. O momento da separação de dois Vidas é um momento muito delicado. É sempre bom que estejam presentes dois Entes para que tudo corra bem. quando ativar o meu Vida, estarei em contato com você e, no momento da separação, estaremos juntos em contato com os dois.
— Certo.

11 de fevereiro de 2008

CAMINHANTE

Sou viajante mascarado andando sob um véu de solidão.
Caminho sem descanso, dia e noite, e com meus olhos de monalisa vejo ao mesmo tempo todos os rostos (máscaras) que como eu se velam e se revelam no caminhar. Passam por mim pessoas, sorrisos, vozes e eu ouço, penso e guardo na bagagem todos os reflexos dessa visão.
Dentro da mochila que levo às costas pesa uma coleção de tristezas, alegrias, conquistas e derrotas; histórias de amor e ódio que me contaram e que vivi.
Outra mochila carrego ao peito e dentro dela os sons de uma vaga música denunciam seu conteúdo de esperanças, desejos e sonhos que tentam a todo custo harmonizar com as batidas do meu coração.
Pelo caminho ouço histórias, tantas histórias! que me ajudam no caminhar. Fabiano sem ter o dom da palavra me diz como a vida é seca e Paulo Honório tenta me ensinar que para conseguir minha São Bernardo não devo me importar com sentimentos de carinho e piedade, eu o previno de que o resultado de não se importar é quase sempre a solidão.
Policarpo me faz ao pé do ouvido grandes discursos em tupi-guarani, mas não entendo nada e digo a ele que tudo bem porque não sou alegre nem triste nem poeta, mas apesar disso amo o Brasil.
Amo o Brasil, mas caminho ao lado do mundo inteiro. Caminho com Moisés à procura da terra em que se plantando tudo dá. Caminho com Pessoa às margens do rio da minha aldeia, que é mais belo que o Tejo e mais belo que o Amazonas porque reflete minha saudade.
Ao lado de um rapaz sem rosto que será morto assim que a televisão sair do ar impeço o avanço de um tanque de guerra em nome da Paz Celestial e com um martelo forjado por Hefestos derrubo uma das pedras do muro de Berlim.
Enquanto passo pela vida e vejo a vida passando por mim aprovo e reprovo um escudo antimísseis e choro a negritude da fome na África e a negritude da pobreza no sulmaravilha do Henfil.
Qual peregrino no Caminho de Santiago, ando descalça e levo um pouco de vinho para aquecer o frio da ganância de Bushs, Clintons, Lalaus e Menins que tudo roubam e a todos matam e que por não terem remorso deixam em mim o frio da culpa, o frio da raiva, a dor da impotência, a sede sem remédio da justiça que não virá.
Sou uma máscara, sou um reflexo, sou uma vida e caminho em meio a outras máscaras-reflexos-vidas solidárias ou indiferentes por uma estrada muito longa, tão longa quanto a vida de todos os homens da terra. Um caminho que me leva talvez de nada a lugar nenhum, onde o que importa não é de onde venho nem aonde vou chegar mas o que faço e o que vejo nesse caminhar que começou no dia em que nasci e terminará no momento da minha morte.
Divina de Jesus Scarpim