25 de março de 2008

PENSANDO FRASES FILOSÓFICAS

"O homem é a medida de todas as coisas." - Protágoras
Discordo dessa:

Como em quase tudo, o homem se dá uma importância que na realidade não tem. Somos a medida das coisas com as quais achamos que temos contato, mas na verdade a maioria dos contatos que temos com as coisas é indireto, portanto não temos contato com as coisas e sim com a imagem que fazemos delas, ou com os signos, como ensina a semiótica:

Lúcia Santaella diz que “para conhecer e se conhecer o homem se faz signo e só interpreta esses signos traduzindo-os em outros signos. O significado de um pensamento ou signo é um outro pensamento.” (...) “Eis aí, num mesmo nó, aquilo que funda a miséria e a grandeza de nossa condição como seres simbólicos. Somos no mundo, estamos no mundo, mas nosso acesso sensível ao mundo é sempre como que vedado por uma crosta sígnica que, embora nos forneça os meios de compreender, transformar, programar o mundo, ao mesmo tempo usurpa de nós uma existência direta, imediata, palpável, corpo a corpo e sensual com o sensível."
SANTAELLA, Lúcia. O que é semiótica. 1.ed. São Paulo. Brasiliense, 1993. (coleção primeiros passos; 103)

Daí que, no final das contas, não somos a medida de nada, nem de nós mesmos.



“Sei que nada sei” - Sócrates
Concordo com essa:

Na verdade o postulado socrático está mais correto do que nunca. O “Sei que nada sei” é mais verdade hoje do que em 470 antes de cristo, época de Sócrates.

Isso porque quanto mais se descobre coisas, mais se descobre possibilidades de ignorância. No tempo de Sócrates as coisas eram sólidas, hoje não são mais. Entre uma molécula e outra, entre um átomo e outro, entre um elétron e outro, existe um imenso vazio. Parece que se olharmos para o espaço entre as coisas, um espaço que quase sempre é maior do que a própria coisa, acabaremos por descobrir que tudo o que chamamos de matéria é na verdade um imenso nada. E se somos matéria, somos nada; se somos nada, nada sabemos.

Eu até exageraria, e muito, o postulado de Sócrates: “Não sei que nada sei”, isso porque por mais que conheçamos nossa ignorância, ela é na verdade muitíssimo maior, tendendo ao infinito.

Ou, para não ficar na frase de Sócrates e criando a minha: Eu duvido de tudo, até do que eu tenho certeza.



"A gente não pode escapar do mundo mais facilmente que pela arte, mas não se pode vincular ao mundo mais facilmente que pela arte." – Goethe
Concordo condicionalmente:

Concordo sim, mas com um senão: Só é verdadeira essa afirmação para aqueles que se dispõem a olhar o objeto artístico. Olhar completa e profundamente e não apenas ver de relance e tecer um comentário que pareça inteligente; caso, infelizmente, de muitas pessoas que se dizem apreciadoras da arte.

Se olhamos para um objeto artístico podemos ver o que esse objeto representa de vida: do autor, da História, do tempo, do homem. E ao vermos e sentirmos a vida representada nesse objeto artístico, vemos e sentimos a vida mesma.

19 de março de 2008

UMA VELHA QUE CAMINHA

Aquela mulher tem mais de quarenta anos e usa uma bermuda curta e uma blusa apertada. Roupa colorida, maquiagem cuidada e cabelos arrumados como se fosse uma adolescente. Caminha ereta, atrás de si leva os olhares dos que dizem que uma velha como aquela não deveria se vestir de forma tão alegre e, mesmo com tanto calor, não deveria usar roupas tão pequenas. Ela vai derrubando o muro que se coloca à sua frente, o muro dos preconceitos. Quase posso vê-lo, é um muro alto e forte, a mulher precisa caminhar ereta, com o corpo enrijecido para que a força dos músculos de sua personalidade vá derrubando a cada passo o muro. Mas ele se reconstrói à frente e atrás de si e ela continua isolada. Vejo as pedras caindo e, atrás dela, vejo o muro que se reconstrói.
Ela está isolada como prisioneira, cercada pelos muros que estão sempre à sua volta. Na frente um que ela quebra, atrás o que se reconstrói. E as pessoas que a vêem passar cochicham, comentam, dão risadinhas sarcásticas, dizem palavras irônicas e maldosas num volume que ela possa ouvir, e com o preconceito que destilam vão construindo os muros.
Outras mulheres que olham e torcem o nariz para aquela “perua assanhada” que passa (aparentemente) indiferente não vêem os muros que a cercam e que estão ajudando a construir. E não se dão conta de que à volta delas também existem muros, maiores e mais resistentes porque mais velhos, às vezes fortes muralhas que foram fortalecidas ao longo dos anos por mais e mais pedras que elas mesmas ajudaram a colocar. Os muros são muito altos, largos e cinzentos, tão grandes que tapam a luz.
E essas pobres almas não podem ver o quanto estão sendo mesquinhas.
Divina de Jesus Scarpim

5 de março de 2008

OBRIGADA MEU DEUS UMA PINÓIA!!!!

Existe uma oração que diz coisas do tipo “Obrigado, meu deus, por eu ter duas pernas enquanto muitos não podem andar; obrigado, meu deus, por eu ter dois olhos enquanto muitos não podem ver...” e por aí vai. Os religiosos devem conhecer bem e com certeza muitos a sabem de cor. É uma oração famosa, imagino, já a ouvi até musicada. O nome da tal oração eu não sei, não me lembro; assim como não sei o nome de todas as muitas orações do mesmo tipo que já li, já ouvi e já recebi muitas vezes pela internet em formato pps, com música clássica e até com canto gregoriano adicionado. Não sei seus nomes, nem presto muita atenção a eles porque tenho um nome genérico para todas, um nome que para mim soa muito mais adequado: ORAÇÃO DO FILHO DA PUTA.

Na minha cabeça não cabe esse conceito religioso de agradecer a deus por algo que tenho, que é básico e que sei que milhões de pessoas no mundo não têm. Não posso, não sei, não consigo agradecer a deus por ter, por exemplo, um teto sobre minha cabeça enquanto milhões de pessoas no mundo todo, muitas delas aqui mesmo na minha cidade, não têm onde morar e dormem pelas calçadas. Não sei, não posso, não consigo agradecer a deus por ter um casaco, um cobertor, uma cama, enquanto milhões de pessoas no mundo morrem de frio todo inverno. Não consigo, não posso, não sei agradecer a deus por poder escolher entre almoçar carne ou peixe enquanto milhões de pessoas no mundo morrem de fome...

Isso é algo que eu não entendo e não entendo mesmo! Como pode alguém pensar, sequer pensar, em agradecer pela desgraça alheia? Sim pois, para mim, se agradeço pelo que tenho e milhões não têm, estou agradecendo por milhões não terem. Em que sou eu superior a milhões de pessoas para me sentir no direito de ter o que esses milhões não têm? Que direito eu tenho de me achar melhor do uma criança que morre de fome? Que direito eu tenho de me achar melhor do que uma mulher que vê seu filho morrendo sem poder ajudar? Que direito eu tenho de me achar melhor do que um pobre que morre de frio? Por que então devo agradecer a deus por dar a mim o que não deu a todos?????

Não, decididamente não posso fazer a oração do filho da puta e me sentir bem com isso, não posso dizer que deus é bom, acreditar que Jesus me ama e ler como verdades todas aquelas frasezinhas clichês que os religiosos dizem, colam como adesivo nos carros e estampam nas camisetas. Quando leio aquela que está pregada em muitos carros que passam por mim: “Deus é fiel”, não consigo deixar de perguntar: Fiel a quem? Fiel a quê? Como professora de português, sei que falta um complemento nominal aí, qual é ele? E mais, quase sempre dou uma risadinha por dentro e digo outra frase que ouvi não sei onde: “Fiel é cachorro.”

O que sinto por saber que tenho teto enquanto muitos não têm, que tenho agasalho enquanto muitos não têm, que tenho comida enquanto muitos não têm, que tenho saúde enquanto muitos não têm, é raiva! Sinto raiva, não alegria, não agradecimento; sinto raiva. Raiva de o ser humano ser esse bicho nojento que acumula bens e deixa que outros seres humanos morram sem nada, raiva de o ser humano ser esse bicho nojento que consegue roubar de quem não tem nada e sentir-se superior àqueles de quem ele rouba, raiva de o ser humano ser esse bicho nojento que consegue matar outro ser vivo por lucro, por fama, por poder e até por esporte. Sinto muita raiva de o ser humano ser esse bicho nojento, e sinto vergonha de pertencer a essa raça, de ser eu também um bicho nojento.

E por causa dessa raiva, para não estender essa raiva a deus, que me dizem ser o responsável, o criador dessa raça nojenta à qual pertenço, prefiro acreditar que deus não existe. Que não existe um ser tão horrível a ponto de criar esse circo de horrores que é a vida, esse palco de morte que é a natureza, esse poço escuro e tenebroso que é a alma humana, alma que o homem acredita perfeita, que o faz capaz de se sentir bom, nobre e perfeito enquanto mata, prende, subjuga, devora.

Se deus existisse, eu teria que odiá-lo!


Divina de Jesus Scarpim