27 de maio de 2008

UM CASO DEMORADO

Divina de Jesus Scarpim

Minha lembrança mais antiga dela é de uma bolinha que estava na minha pele e que às vezes incomodava um pouco porque ficava bem na dobra da perna onde pegava o elástico da calcinha. Minha mãe dizia que era uma marca de nascença causada por ela ter sentido vontade de comer amendoim quando estava grávida. A maior parte do tempo eu não me lembrava da existência daquele pontinho duro no meu corpo e fui levando a vida como todo mundo até um dia que, não sei por qual razão ou por que coragem repentina, aproveitei o fato de estar sozinha em casa e de ter constatado que a tal bolinha tinha crescido um bom tanto desde que eu me lembrava dela e resolvi que um pequeno corte poderia provavelmente tornar minha vida mais confortável.
Dei o talho com uma gilete do meu pai e tirei, não sem uma careta de dor, uma bolinha dura manchada de sangue. Lavei o local, coloquei um improvisado curativo e voltei minha atenção para a bolinha. Ela era muito branca e muito redonda, depois é claro de ter sido lavada do sangue que a manchara, rodei-a entre os dedos, rodei-a na palma da mão, tentei apertá-la muito para ver se quebrava, tentei arranhá-la para ver se descascava. Nada. Continuou sendo uma bolinha muito branca e muito redonda. Peguei um tubinho preto, daqueles que vêm com filme de máquina fotográfica, coloquei a bolinha lá dentro e guardei no fundo de uma gaveta.
Eu tinha sete ou oito anos e tinha muitas coisas com que me preocupar, coisas tremendamente importantes e vitais de que hoje não consigo me lembrar por mais que tente, portanto, guardei a bolinha e fui cuidar da vida. O ferimento cicatrizou sem problemas e esqueci dele até o dia em que senti outra bolinha dura no mesmo lugar. Esperei que crescesse, cresceu, esperei um dia em que estivesse sozinha e repeti o ritual com a diferença de que dessa vez não houve espanto.
As coisas foram acontecendo, semanas, meses e anos foram passando e abrir minha pele para tirar do meu corpo um bolinha branca e dura se tornou um rotina sobre a qual eu não falava com absolutamente ninguém. Às vezes uma curiosidade bem grande de saber o que eram aquelas bolinhas me preocupava durante dias, pensava em uma maneira de mostrar a alguém que pudesse dar uma resposta sem que eu precisasse explicar de onde tinha vindo a bolinha. Nunca conseguia me decidir por ninguém e não me lembro quando foi a primeira vez que pensei na possibilidade de estar produzindo pérolas. Pesquisei um pouco e não parecia haver a mínima possibilidade de um ser humano produzir pérolas. Vi ossos no laboratório da escola e não tinham a mesma cor das minhas bolinhas, eram amarelados enquanto que elas eram muito brancas. Achei que uma grande diferença era que os ossos se tornavam amarelados com o tempo enquanto que minhas bolinhas estavam sempre brancas a ponto de eu não saber qual delas era a primeira e qual a última.
Quando comecei a namorar cheguei a ter medo de ser descoberta, minha sexualidade recém despertada veio acompanhada de um recato que só em parte se devia à minha educação e às orientações de minha mãe sobre honestidade, pecado, virgindade e coisas do tipo. Quando tive minha primeira relação sexual já tinha no fundo da gaveta, mais de um tubinho preto cheio de bolinhas brancas. Disse ao namorado que tinha uma marca de nascença que sempre crescia e que eu furava de vez em quando. Ou seja, fui sincera, exceto pelo fato de não contar o que eu tirava dessa marca de nascença.
Um dia levei uma bolinha muito bem escondida na bolsa quando fui procurar um emprego no centro da cidade de São Paulo. Achei que lá poderia mostrar a bolinha em uma joalheria sem ser questionada. Mostrei, o homem que me atendeu disse que era uma pérola muito pura, quis saber de onde viera e eu inventei uma história bem comprida sobre herança de família, inventei um compromisso com hora marcada e saí de lá rapidinho.
Depois disso veio a preocupação. Pérolas são valiosas, como eu poderia justificar a posse de tantas sendo uma jovem de família pobre? Como poderia usar de alguma forma essas pérolas sem chamar a atenção? Pensei muito e agi nada. O tempo passava e as pérolas se acumulavam no fundo da gaveta. Fiz um esconderijo secreto para elas, uma caixa de fundo falso onde guardava minhas bijuterias. A caixa tinha um pequeno cadeado e eu a fechava sem que nunca ninguém tenha tido a mínima preocupação em tentar abri-la.
Quando meu casamento estava marcado cheguei a acariciar a idéia de mandar fazer um colar com as pérolas e entrar com ele na igreja, combinaria tanto com meu vestido de noiva! Não tive coragem dessa vez. Não tive coragem mais tarde quando minha filha nasceu e o dinheiro era pouco para as necessidades da nova família. Não tive coragem também quando meu marido ficou desempregado e tivemos que nos mudar para uma casa menor e mais afastada porque não poderíamos mais pagar o aluguel. Novamente não tive coragem durante o tempo em que, depois de comprar um terreno a prestações, passamos anos e mais anos construindo uma casa que nunca ficava pronta e que nunca nos permitia ter dinheiro para nenhum tipo de luxo.
Mas agora, meu senhor, minha filha vai se casar com um rapaz de quem eu gosto muito e eu quero porque quero, mais do que já quis qualquer coisa na vida, que ela entre na igreja usando um colar de pérolas brancas e brilhantes que combinará às mil maravilhas com o vestido de noiva que eu e meu marido compramos para ela. Portanto, senhor, acredite ou não em minha história, aqui estão as pérolas, e eu peço encarecidamente que as use para fazer um colar lindo que será a jóia-símbolo dessa nova família que vai começar.
Duas voltas, sem emenda, por favor.

14 de maio de 2008

OUTRAS COISAS QUE NÃO CONSIGO ENTENDER

Divina de Jesus Scarpim

“Pois um bico a mais / Só faz mais feliz / A grande gaiola / Do meu país”
A galinha (Chico Buarque de Holanda)

Dentre as milhares, ou talvez esteja sendo modesta e deva dizer milhões, de coisas que eu não consigo entender por mais que tente, está o tão absurdo amor-indiferença-ódio que as pessoas têm pelos animais. A mim parece incompreensível e totalmente insano uma pessoa se dizer religiosa, fiel a deus, candidata a uma vaga no tedioso paraíso cristão e, ao mesmo tempo, gostar de pescar.

Tá, podem explicar com uma batelada enorme de razões que vão desde o fato de alguns apóstolos de Cristo terem sido pescadores até o fato de os peixes nos servirem de alimento. Podem dar todas as razões que acharem válidas que eu vou continuar teimando minha imensa ignorância: Eu não consigo entender!

Pra mim quem respeita a vida, e os religiosos dizem que o fazem, se não estiver faminto não poderá pescar. E mais, se estiver faminto e precisar pescar não poderá sentir prazer nisso! O prazer de matar é insano.

E tem zilhões de pessoas que se julgam boas e santas e, ao mesmo tempo acham que a pesca é um passa-tempo, um prazer para o espírito, uma forma de lazer. Nunca ocorre a elas a óbvia idéia de pensar no lado do peixe.
Não, não tem como. Euzinha não consigo entender!

E a mesmíssima coisa se pode dizer da caça: Como é que alguém que não é considerado assassino ou psicopata pode sentir prazer em atirar em um animal? Como pode chamar isso de esporte? Como pode dizer que é algo prazeroso?

Pra mim e para a minha enorme ignorância sentir prazer em matar é coisa de pessoas loucas, desequilibradas, anormais, sádicas e, certamente, más. Não, a minha parca inteligência não alcança a possibilidade de ver como normal esse sentimento de prazer colocado no ato de tirar uma vida.

E vai mais uma perguntinha originada na minha ignorância assumida: por que será que as pessoas sentem arrepios quando vêem instrumentos de tortura, como aqueles que eram usados para prender os negros nos antigos e nojentos tempos do Brasil escravagista e, ao mesmo tempo, conseguem comprar gaiolas nas casas de aves e colocar passarinhos lá dentro sem achar que aquilo também é um instrumento de tortura, este ainda pior do que o outro já que continua em uso?

Outra coisa que me causa ainda mais espanto e incompreensão: essas pessoas costumam afirmar que prendem os pássaros porque gostam deles! Coitados dos pobres animaizinhos, certamente prefeririam mil vezes que ninguém gostasse deles!

Pessoas que cultivam, ou dizem cultivar, a bondade; pessoas que valorizam, ou dizem valorizar, a vida; pessoas que pregam a perfeição e a santidade da natureza conseguem matar por prazer! conseguem prender por gostar! conseguem torturar sem ver nada de estranho nisso!
Não, não faz sentido, não tem como, não há possibilidade nenhuma de a minha inteligência pequena e limitada alcançar uma explicação, uma lógica, um sentido nisso!