17 de julho de 2008

17-07-08

Fim de semana passado foi prolongado aqui na França. Dia 14 de julho é simplesmente a data mais importante do país, uma espécie de 7 de setembro deles. Por todos os lados tem comemorações, semanas antes já as bandeiras francesas se espalham pela cidade e, se tem festa em todo o país, a festa maior é em Paris e a maior de Paris é o desfile na Champs Elysée saindo do Arco do Triunfo, que está aqui pertinho do meu petit apartamento, menos de dez minutos a pé e lá estava eu no meio da muvuca. Não gosto de nada que tenha relação com militar, nunca gostei. Militar lembra arma, arma lembra guerra, guerra lembra morte... morte de muita gente, causada por muitas outras gentes sem nenhuma razão possível ou passível de justificativa.

Foi um tédio! Horrível! Precisei utilizar todo o meu imenso caminhão de paciência para acompanhar o Neguinho, que parecia uma criança que ganhou um brinquedo novo: ele fotografou cada caminhão esquisito, cada canhão estranho sobre rodas, cada tanque de guerra cheio dos radares! Todos eles encimados por militares nos seus uniformes e chapéus paramentados, segurando fuzis, metralhadoras e armas incompreensíveis! E eu, andando ao largo, olhando as pessoas tão entusiasmadas quanto o Nêgo, fotografando, filmando, aplaudindo, correndo até os carros, tanques e caminhões que acabavam de desfilar para serem fotografadas junto com os militares, crianças sendo erguidas pelos pais e seguradas pelos militares para aparecerem em uma fotografia histórica sentadinhas sobre um enorme tanque de guerra, amparadas com zelo por um dos “bravos defensores da pátria”.

Aparentemente só eu, apenas euzinha, no meio daquela multidão de gente entusiasmada, estava odiando tudo aquilo! Não gosto dos aparatos militares, não gosto do que eles representam, não gosto do barulho que eles fazem!!

Felizmente um fim de semana prolongado em Paris não é feito apenas de desfile militar! Fomos ao Chateau de Vincennes, um passeio muito legal que a gente fez de metrô e porque julgamos mal as informações recebidas, precisamos repetir... Fomos no sábado à tarde achando que algumas poucas horas, talvez menos, fosse suficiente. Chegamos e vimos que o castelo é enorme e o Donjon, palavra que só no dia seguinte descobrimos que significa Torre de menagem, já estava prestes a fechar. Então, passeamos pelos arredores, vimos a enormidade do interior do pátio do castelo; o fosso, as muralhas, os portões com a ponte levadiça, o pátio interno com uma capela tão grande que questionei de imediato o nome “capela”... saímos um pouco da área do castelo e chegamos a uma pequena praça florida impressionantemente linda. A mistura das cores do jardim é de uma harmonia e de uma beleza comovedoras, o brilho das cores, não sei se pelo fato de já ser um pouco tarde e não ter mais sol ou se porque a máquina fotográfica não pode captar o que os olhos vêem, não apareceram nas fotos, ficaram pálidos, inverídicos, mentirosos...

Voltamos no dia seguinte ao castelo e entramos no Donjon em uma visita guiada, foi tudo o que esperávamos e tivemos muitas informações interessantes: ficamos sabendo, por exemplo, que os enormes fossos em volta dos castelos medievais não eram totalmente cheios de água, eram cheios com apenas alguns poucos centímetros de água e muito, muito esgoto, ou seja, o que impedia os inimigos de atravessarem os fossos não era a profundidade da água, era a quantidade de merda e urina que ela continha! Isso que faz com que a idéia de morar em um desses castelos, mesmo sendo um rei, não pareça algo lá muito agradável! Outra coisa que ficamos sabendo foi que o óleo quente na Idade Média, assim como hoje, costumava ser usado para fritar alimentos e não para jogar nos inimigos; o que eles costumavam jogar, e que eu nunca tinha pensado no quanto isso pode ser eficiente, era areia quente, além de pedras e o que mais tivessem à mão. A vantagem da areia quente era que ela dificilmente poderia servir de combustível para ser devolvido pelo inimigo, causava muito desconforto e até queimaduras e, ainda por cima, acabava com a lubrificação e, conseqüentemente, com a eficiência das armas inimigas. Espantoso, não?

Nesse fim de semana também passeamos à toa pelas ruas, um tipo de passeio algumas vezes bem mais agradável do que determinadas visitas a museus e galerias (e olha que eu gosto muito de visitar museus e galerias!). Acho que quem disse que Paris é uma festa estava andando sem destino pelas ruas... Você dobra uma esquina e depara com uma viela com ares medieval, vira outra e dá de cara com um jardim ou um parque cheio de bancos à sombra de árvores enormes ocupados por pessoas que se deixam ficar em paz para uma leitura, uma pequena refeição ou simplesmente uma conversa amigável com o amigo do lado ou consigo mesmo... É muito, muito bom caminhar sem rumo pelas ruas de Paris!

Outro detalhe muito interessante desses passeios é que geralmente você acaba saindo em um lugar que é ponto turístico conhecido. Caminhando sozinha em outros dias, já me aconteceu de sair no Hôtel des Invalides, dias depois fui parar no Parc Morceau, que é grande e muito lindo, tão lindo que foi pintado por Monet. Nós saímos, dessa vez, na Igreja St. Germain L’Auxerrois, que só depois vimos no guia que era um ponto digno de visita, e saímos, é claro, no Louvre, pelos fundos, porque é justamente “de frente para os fundos” do Louvre que fica essa bela e antiguíssima igreja (onde não se paga pra entrar).

Ah, e passeamos finalmente em um dos famosos barcos (bateaux Mouches) que cruzam o Sena, vamos sentados ao sol, ouvindo uma guia poliglota que nos explica onde estamos, dando informações históricas sobre cada um dos pontos e das pontes pelos quais passamos em três línguas: Francês, Inglês e espanhol. Uma garotinha espevitada tira fotografia das pessoas e no final do passeio, do lado de fora do cais onde se pega o barco, colocam no muro as fotos para que você compre a sua, caso interesse, nós não compramos.

7 de julho de 2008

13-07-08

Mudei de apartamento, não tenho mais uma vista linda para a planura de Paris, não tenho mais uma vista linda para a Torre Eiffel... aliás, não tenho mais vista nenhuma!

Estou em um estúdio voltado para o pátio interno, que é o estacionamento, no andar térreo de um prédio. Tem um montão de janelas acima, à frente a ao lado da minha, todas voltadas para esse pátio interno e, portanto, para o meu petit apartamento, passo o dia com as cortinas fechadas... e hoje estou presa em casa porque prometeram vir trocar o sofá velho e quebrado e até agora não vieram, tenho que esperar...

Mas, tenho quais motivos para estar aborrecida? Nenhum!

Meu pequeno lar provisório sem janelas está em um daqueles prédios antigos de uma rua estreita cheia de lindos prédios antigos que é travessa de uma avenida movimentada que vai sair no Arco do Triunfo. Ou seja, estou a poucos minutos a pé do Champs-Élysée, acho que reclamar disso seria total insanidade!

Ontem caminhei por essa que dizem ser a avenida mais famosa do mundo. É uma avenida muito larga e movimentada, com calçadões arborizados e bem largos dos dois lados, nela estão muitos restaurante, cafés e lojas de grifes muito famosas, não conheço muitas delas porque não sou muito ligada nessa coisa de grife, outras não tem como não conhecer, como a Ferrari, por exemplo.

Entramos em uma loja de bolsas que é muito famosa, tem um nome do qual não me lembro e que acho que nunca ouvi falar, mas dizem ser as bolsas que toda mulher (parece que menos eu) sonha ter, nem achei as bolsas tão bonitas... eu sou ralé mesmo, não tem jeito!

Fomos sexta-feira a um restaurante muito legal que fica na avenida aqui pertinho, a Avenida de Termes, ele tem uma trempe de churrasco em cada mesa pequena, nas mesas maiores tem duas ou até três. São buracos cobertos com uma grade e que têm uma resistência embaixo; quando chega o prato, você pega os bifinhos crus e coloca sobre a grelha, cuja resistência está acesa porque o garçom a ligou, tem também uma espécie de pazinha onde você arruma o presunto e o queijo e coloca sobre a grelha para aquecer... é muito bom!

E novamente afirmo: essa coisa de dizer que os garçons parisienses são antipáticos e mal educados é pura mentira! Ontem passamos na frente do mesmo restaurante e o garçom - que já nos atendeu bem quando jantamos lá - nos cumprimentou... e estávamos só passando!

Outro caso: Paramos em um desses bares com cadeiras na rua, pedimos cerveja e o Nêgo pediu ao garçom para bater uma foto da gente e avisou a ele que nós seríamos meros protagonistas, o importante era fotografar o bar, daí garçom, brincando com a gente, disse: “Ah, é pra fotografar o bar, então voilá!” E ficou “tirando fotografias” de todos os lados do bar contrários ao que nós estávamos, até o Nêgo “protestar”... Tomamos várias cervejas lá e fomos atendidos com alegria e educação o tempo todo...

E posso contar mais algumas ainda: por exemplo do garçom que percebeu que nós somos brasileiros e se despediu da gente em português (com forte sotaque, claro!).

Enfim, estou no centro de Paris há mais de duas semanas, já comi e bebi em vários restaurantes e cafés e ainda não encontrei aquele garçom mal educado e grosso do qual tanto me falaram...

3 de julho de 2008

02-07-08

Hoje é dia de mudança. Vou deixar daqui a pouco, provavelmente para sempre, a minha maravilhosa vista da Torre Eiffel e de uma extensão muito grande e ampla da planura de Paris. É que o Nêgo conseguiu alugar um micro apartamento, como esse em que estou até agora e que eles chamam de estúdio, perto do Arco do Triunfo, ou seja, muito perto dos escritórios da Peugeot, onde ele trabalha. Como lá não é hotel e não é um prédio novo nem luxuoso, o preço cai para menos da metade, e ainda tem a economia do traslado, de lá ele vai a pé para o trabalho, daqui tem que pegar metrô.

Não vi ainda o lugar, nem a rua nem o prédio, mas o Nêgo e o Halison me disseram que é um daqueles prédios antigos que têm janelas nos telhados e que os arredores são mais cheios de vida do que aqui. Tem mais lojas e bares, mais comércio e agitação, mais supermercados e pequenos mercadinhos de vila; disseram eles que aqueles lados se parecem mais com uma Paris antiga do que aqui, que é um bairro cheio de prédios e construções modernas e não tem tantas lojas, embora não as falte. Verei tudo isso daqui a algumas poucas horas...

Passamos nosso primeiro fim de semana em Paris e fizemos nosso primeiro passeio de muitas horas; e eu dei o meu primeiro histórico vexame parisiense: Fiquei bêbada!

Saímos sábado e fomos andar pela parte de Paris onde tem muitas lojas de informática porque o Halison queria comprar um computador, daí fomos passeando, olhando lojas, parando para tomar “bier de presson” que no Brasil chamamos de chope e que aqui é simplesmente delicioso. Depois paramos para almoçar em um restaurante espanhol e tomamos cerveja, que não era espanhola, mas que era uma delícia, daí voltamos às caminhadas e a uma última parada... pronto! Lá estava eu tontinha, tontinha. Avisei os dois rapazes de que estava tonta, eles riram e disseram que tonta nada, você está bêbada! E lá fomos nós, rindo e brincando, até que tropecei em uma irregularidade da calçada e lá me fui ao chão!

Ralei o joelho, cortei os lábios fui erguida pelos rapazes e trazida com muito cuidado pra casa. Resultado: acordei, olhei no relógio e vi que eram seis e meia, só não sabia se da noite ou da manhã. Eu havia tomado banho, havia deitado e dormido, mas não me lembrava bem de como fizera tudo isso, soube depois que boa parte dessas ações foram tomadas com a ajuda do meu lindo maridinho. Eram seis e meia da manhã!

Acordei bem, sem dor de cabeça (mais um ponto para a cerveja daqui) e me prometi ser mais contida no domingo. Fomos até a Torre Eiffel aqui pertinho e pegamos um ônibus que tem lugares para a gente viajar no teto e que faz quatro circuitos turísticos pela cidade. O Nêgo comprou um ingresso de um dia para ele e um de dois dias para mim, dos quatro circuitos conseguimos fazer dois, parando entre um e outro para o almoço. O legal desses ônibus é que eles passam o dia fazendo um itinerário, cada um com uma plaquinha colorida no vidro da frente e que dá a indicação de qual é o seu itinerário, que vêm especificados em um mapa que recebemos quando compramos as passagens. Ao lado do banco em que nos sentamos tem um terminal, você recebe um fone de ouvidos, introduz no terminal e ouve, na língua que escolhe entre oito opções, as explicações e histórias de cada ponto do passeio e as orientações sobre os circuitos. Há várias paradas em pontos estratégicos e você pode descer quando quiser, passear pelo lugar e depois voltar à parada e pegar outro ônibus para continuar o passeio, nós paramos um tempo no Louvre.

Segunda-feira peguei o primeiro ônibus às nove e meia da manhã e fiz, sem pressa, os dois circuitos que faltavam. Depois escolhi parar perto de Notre Dame e passear pelos arredores. Vi lojas de souvenirs aos montes, comprei algumas lembrancinhas e muitos cartões postais. Andei por algumas vielinhas muito estreitas, cheias de pequenos restaurantes e portas com balcões que vendem uns sanduíches diferentes, com pouco pão e muito recheio, parece, pelo que li nos nomes dos lugares, serem sanduíches gregos e certamente fazem muito sucesso pois estava tudo tão cheio que achei mais confortável ir a um Mac Donalds e experimentar o tal lanche grego num outro dia.

Fui caminhar um pouco às margens do Sena, naquele trecho existem muitas banquinhas que vendem souvenirs, livros usados e reproduções de quadros, não deu pra passear por toda a extensão de ambos os lados porque eu já tinha pouco tempo, mas deu pra perceber que, embora muito atraentes, as banquinhas, que na verdade são caixotes de madeira encaixados no muro que acompanha o rio, não são lugares com ofertas imperdíveis, pelo contrário, são atrações turísticas e sabem cobrar por isso, resultado: não comprei nada mas decidi que voltarei para passar pelo menos um dia inteiro passeando pelos arredores de Notre Dame, pelas margens do Sena e pelas vielinhas estreitas, sem esquecer, é claro, de provar um dos tais sanduíches com pouco pão e muito recheio...

Socorro! Acabei de perceber agorinha mesmo quando fui vestir a bermuda que já estou engordando!

1 de julho de 2008

Em Paris

(25-06-08)

E aqui estou eu, da minha janela vejo a Torre Eiffel e, ao lado dela, cobrindo a visão de um dos seus pés, há uma torre branca, fina, enorme que lembra uma espécie de farol. Mas à noite a Torre Eiffel se acende toda e passa algum tempo piscando suas luzes como a comemorar a chegada do escuro, ou o final do dia, já a enorme torre branca, que olhando daqui e por estar mais perto da minha janela parece medir o equivalente a umas cinco ou seis torres eiffells, não acende nenhuma luz. Alguém já aventou a hipótese de que ela seja uma caixa d’água. Bem no alto existem umas janelas furadas por onde se pode ver o que parecem ser duas estruturas metálicas, uma bem grossa e irregular, como se fosse uma pilha de bujões de gás, e outra bem mais fina, como um cano contínuo, de resto ela é toda lisa e sem janelas. Não sei o que seja essa torre, preciso lembrar de perguntar isso a algum francês.

O apartamento em que estou, na verdade um estúdio, tem um quarto, que se transforma em uma sala se eu recolher a cama; bem, na verdade quando entrei era uma sala e, puxando a cama, nós transformamos em um quarto. Não voltamos a levantar a cama e as almofadas do que era o sofá, cujas estruturas ficaram debaixo da cama quando a gente a puxou, e cujos braços fazem a vez de criado-mudo, um de cada lado da cama, estão espalhadas pelo quarto, uma grande e uma pequena ao lado da mesa onde escrevo e a outra pequena do meu lado da cama, encostada na parede, porque às vezes eu a uso como um apoio de cabeça quando quero ficar sentada na cama, comendo ou vendo televisão.

Daqui da minha janela, vejo também o Sena, com os Bateaus Mouches passando prá lá e pra cá. Do lado de cá do Sena há uma linha de trem por onde agorinha mesmo passou um trem branco e vermelho. Como estou no trigésimo andar, se chego mais perto da janela, em pé, tenho uma vista muito ampla de Paris, vejo a cúpula dourada do Hôtel National dês Invalides, à minha direita, é o lugar onde fui a pé ontem; lá funciona o museu do exército e é onde fica o túmulo do Napoleão. Tem uma loja de souvenir que vende de tudo com a figura de Napoleão, chaveiro,canecas, agendas, almofadas, sacolas de compras e reproduções de quadros, é uma loja cheia de coisas sobre a história da frança e sobre Napoleão: livros CDs, DVDs, cartões postais e marcadores de páginas. É uma verdadeira festa para os olhos!

Eu cheguei lá ontem depois de andar muito, saí do hotel às nove e meia da manhã e fui andando por ruas e mais ruas, sem querer me fixar em um itinerário, virando toda esquina que me apetecesse virar e parando em todo lugar onde me desse vontade de parar. Desviei o caminho para entrar em uma igreja velha e imensa em cuja frente havia tapumes e que só depois de passear lá dentro e ver todas as pinturas e vitrais, li, na placa da reforma, que se chama igreja de Saint Suplice. Entrei em uma boulangerie e comprei um sanduíche comprido e fino que se parece muito com o bocadilho espanhol, escolhi entre várias opções um recheado de rosbife, queijo, tomate e molho, pequei uma coca cola e sentei pra comer em um banco de um parque logo adiante.

Aliás, uma coisa que reparei muito aqui foi que as pessoas comem na rua o tempo todo; algumas comem sentadas em bancos nas calçadas, muitas ruas têm bancos nas calçadas, ou em parques como eu fiz, outras comem andando mesmo, homens de terno e gravata, mulheres de vestidos e sapatos elegantes, adolescentes de tênis e boné andam pela rua descontraidamente, sozinhos, aos pares ou em pequenos grupos, conversando e comendo esses bocadilhos.

Mas, se você está passando na frente de um supermercado, o que é comum é você ver pessoas saindo com as compras, de dentro da sacola ou de uma das sacolas, saindo uma ponta da baguete que eles vão cortando com a mão e comendo enquanto caminham de volta para casa, acho que quase ninguém chega em casa com a baguete inteira.

Agora são oito horas da noite e o sol ainda está alto, as luzes da Torre Eiffel só se acenderão quando escurecer, lá pelas dez da noite, aí a gente janta, pensa que ainda é cedo e se bobear vai dormir altas madrugadas. Não estou saindo pra longos passeios todos os dias, hoje não saí porque quis lavar umas camisas do Nêgo, se não o faço ele não vai ter com que ir trabalhar na segunda-feira, como aqui não tem nada para lavar roupa, embora tenha uma tábua de passar e um ferro elétrico, lavei camisas, cuecas e meias na banheira e estendi nas cadeiras e no aquecedor do banheiro. Depois de lavar a roupa, tomei café e fiquei um tempo vendo televisão, só mudando de canal, sem parar mais do que dez ou quinze minutos em nenhum e hoje só ficando nos canais franceses. Nossa! A televisão aqui é muito ruim! Os programas são péssimos, muita novela tipo dramalhão e programas do tipo “feminino”, fora isso tem noticiário e um ou outro seriado americano, sempre dublado, estou me forçando a ver um pouco de televisão e também comprei uma revista do tipo Veja e pretendo lê-la, para ver se consigo melhorar meu francês. Quando cheguei aqui descobri que meu francês está muito pior do que eu imaginava, e olha que eu não achava que estivesse lá muito bem. Na televisão não entendo praticamente nada, eles falam muito depressa, como na rua, quando encontro pessoas conversando também não entendo praticamente nada do que elas dizem... vejamos como estarei daqui a três meses...

Como eu esperava, a famosa falta de educação dos franceses e a crítica de que a comida é ruim e pouca devem ser exageros de brasileiros exigentes demais ou que querem receber tratamento vip só por serem estrangeiros. Não fui mal atendida em nenhum lugar onde comi, bebi ou comprei algo e, quando precisei de alguma ajuda e pedi a alguém, nunca tive uma recusa ou uma resposta grosseira. O que acontece na verdade é que em geral as pessoas estão tão acostumadas à presença de estrangeiros que não dão especial atenção a isso e os garçons atendem a todos os clientes de forma eficiente e educada mas em geral sem nenhum tipo de rapapé, não tentam de forma alguma passar a idéia de que você é alguém especial. Isso é o geral, porque até a exceção você pode encontrar. Comemos, na terça-feira em um restaurante aqui perto e fomos atendidos por um garçom negro, simpático, brincalhão e, além de tudo, bonito. Esse não deixava nada a dever a um legítimo garçom carioca.

E tenho uma lembrança interessante para levar comigo para o Brasil: caí em um conto do vigário típico desses arredores do Sena. Eu estava caminhando, segunda-feira, do lado de lá do sena, fui até o Petit Palais e o Grand Palais, quando um homem que passava por mim se abaixou e pareceu pegar algo no chão, era uma aliança grossa e dourada, ele falou comigo, disse e mostrou que a aliança não servia no dedo dele, isso depois de olhar para todos os lados e perguntar se era minha a aliança, daí ele me perguntou de onde eu era, disse que também é estrangeiro, nem me lembro de que país, e me deu o anel dizendo que era para me dar sorte, depois de conversar um pouco me pediu dinheiro para almoçar, eu que já estava meio desconfiada, tive certeza, dei a ele umas poucas moedas e disse que não tinha mais nenhum dinheiro, que tinha chegado ontem e meu marido ainda não tinha trocado euros, ele quis que eu desse a ele meu anel de cobrinha, que é de ouro (o cara é esperto!), alegando que o que ele havia me dado era maior, eu disse que não podia porque o anel é de estimação e ele saiu bravo e fazendo sinal de impaciência; eu saí rindo e guardei o anel na bolsa como lembrança, ele me custou acho que trinta ou quarenta centavos de euro. Pouco mais à frente outro cara quis fazer o mesmo truque comigo mas dessa vez não dei a mínima atenção, me fiz de surda...