1 de setembro de 2008

RESPOSTA AO SENHOR ALMIR GOBBI

Recebi do Senhor Almir, um e-mail criticando meu hábito de enviar textos anti-religiosos via internet, como essa não foi a primeira mensagem desse tipo que recebi, embora tenha sido das mais educadas, estou publicando a resposta que escrevi para ele, em negrito estão trechos da carta:

“Contudo, minha opinião, não necessariamente tento impô-la aos meus amigos, porque cada ser é um ser completamente diferente, com uma cabeça completamente diferente. Quem sou eu para converter alguém, não é mesmo?”

Engraçado, acho que quando o senhor diz isso, esquece que os religiosos vivem de pregações, esquece que as religiões, pelo menos pelo pouco que sei do assunto, incentivam como sendo um dever do seu fiel angariar novos adeptos para sua igreja, as religiões protestantes falam em “levar a palavra” e os testemunhas de Jeová se espalham pelas cidades batendo de porta em porta, inclusive incomodando o sono matinal de trabalhadores no seu único dia de descanso.

Não vejo com muita freqüência alguém dizendo que esses fiéis que abordam as pessoas nas ruas, que fazem longos discursos para seus amigos e familiares, que entopem as caixas de correspondência dos computadores das pessoas com mensagens de fé estão fazendo algo terrível e desrespeitando o direito e a privacidade das pessoas, no entanto quando pego um texto que alguém escreveu e com o qual concordo ou que eu mesma escrevi depois de ler tantas mensagens me chamando “para perto do senhor” e envio por e-mail a muitas pessoas ou publico no meu blog, sempre recebo mensagens dizendo que estou tentando impor minha opinião e que não tenho direito de fazer isso.

Acho que, quando se trata de religião, os direitos decididamente não são iguais...

Além disso, o senhor está enganado, não estou tentando convencer ninguém de nada, estou tentando fazer com que as pessoas pensem, simplesmente pensem.

As pessoas religiosas, mesmo as mais inteligentes e sensatas, mesmo as extremamente cultas e estudadas, em geral pensam e raciocinam a respeito de qualquer assunto, mas impõem-se uma barreira quando o tema é a sua fé, recusam-se a usar a sua inteligência quando se trata de analisar o deus em que acreditam.

Em suma, por mais inteligentes que sejam, as pessoas costumam se recusar a usar essa inteligência para pensar, pesar e analisar o próprio comportamento quando se trata de religião. Eu tento provocá-las para que o façam, só isso.

“Quando vejo um email deste enviado pela senhora, penso no desperdício de cultura, solides emocional, de situação social que a senhora tem, e teima em tratar temas deste porte por email (...) a senhora poderia utilizar este espaço grátis que lhe é oferecido, para enviar palavras mais encorajadoras às pessoas que lhe cercam.”

Eu não sabia que tinha discriminação de assunto na internet! Podem tratar de religião enviando pregações e mensagens de fé, podem usar de bom humor enviando piadas e de mau gosto enviando videocassetadas, podem usar de bom gosto enviando obras de arte e de gosto duvidoso enviando correntes sem sentido ou mensagens alarmantes e duvidosas, mas expressar alguma opinião contrária ao senso-comum é indigno!

A meu ver, estou enviando palavras encorajadoras, as minhas palavras seriam: liberte-se da prisão da religião e da crença! Seja livre! Você não precisa aceitar chantagem para ser uma pessoa correta e digna, você consegue fazer o que é certo mesmo sem a crença de um paraíso eterno para obrigá-lo a isso, fazer o que é certo simplesmente porque é certo vale muito mais do que qualquer chantagem religiosa!

E, de que forma e por que meio o senhor acha que eu deveria tratar temas desse porte? Será que devo escrever um livro e publicá-lo às minhas próprias custas e depois me colocar diante de lugares movimentados ou bater de porta em porta tentando vendê-lo, seria mais digno assim, na sua opinião?

“Não acha a senhora que está forçando a barra? E que está se tornando uma pessoa chata?”

Não, não acho que estou me tornando uma pessoa chata. Eu SOU uma pessoa chata! E sou chata porque penso, porque questiono, porque quando escrevo, escrevo o que penso.

Sei que o que penso não bate com o que a maioria das pessoas pensam, daí contrario o senso-comum, vou na contra-mão do que é considerado positivo e “bonitinho”, não faço apologia daquelas coisas consideradas verdades absolutas como a beleza da natureza, a perfeição do ser humano, a maravilha da vida e a bondade de deus, pelo contrário, discordo de tudo isso e mostro minha discordância quando escrevo, por isso sou chata e me assumo como tal.

Se ainda existisse inquisição eu já não estaria aqui como voz discordante da massa, já teria sido queimada há muito tempo, mas como a inquisição acabou (pelo menos por enquanto!) aqui estou eu, sendo chata!

“O que a senhora faz de bem para o próximo? (É claro que, excetuando os textos que manda.) Com toda sua bagagem, a senhora ajuda alguém? Ou também não acredita no amor ao próximo?”

Isso sim é muito engraçado! Os religiosos têm um deus onipotente, onisciente e onipresente e vêm perguntar a MIM o que eu faço para o próximo! Parece piada!

Desculpe a explosão, é que o senhor não é a primeira pessoa que me faz essa pergunta em resposta às minhas demonstrações de falta de fé e acho a pergunta tão absurda que não acredito que alguém tenha realmente pensado de verdade nela antes de enviá-la.

Mas respondendo: Quando eu era bem criança, minha mãe me ensinou uma das coisas mais lindas dentre todas as muitas coisas que ela me ensinou na vida e essa coisa foi “A sua mão esquerda não deve saber o que a sua mão direita faz”.

Sei que minha mãe estava citando algum preceito religioso, mas o fato é que quando ela me explicou que com essa frase queria dizer que a gente não tem que ficar espalhando aos quatro ventos as coisas que faz de bem porque isso é imodesto e desvaloriza totalmente o nosso gesto, entendi e achei muito certo, acho ainda.

Ao longo da vida, outra verdade veio se acrescentar pra mim a essa frase: Vejo que ajudar alguém deixa as pessoas felizes. Alguém já disse que se não pedissem esmolas em lugares públicos e se não tivesse ninguém olhando, os mendigos faturariam muitíssimo menos...

É curioso mas além da necessidade de mostrar isso, parece que todo mundo fica feliz quando tem a oportunidade de fazer alguma coisa boa por outra pessoa, ou até por um animal, parece que as pessoas sentem (mas jamais admitiriam isso!) algo como “Que bom que tenha essa pessoa sofrendo, assim eu posso ajudá-la!”

Eu, mais uma vez indo na contra-mão, sinto exatamente o contrário: ao ajudar alguém fico profundamente triste, fico comovida e dolorida porque sempre penso e sinto algo como “Por que precisa existir esse tipo de sofrimento? Quantos outros horrores como este, e pior do que este, estão acontecendo no mundo nesse mesmo momento e eu não posso fazer nada?”

Não estou sendo boazinha, estou sendo chata! Afinal, não sou nem sequer potente, muito menos onipotente, não sou nem sequer ciente, muito menos onisciente, não posso estar presente durante muitas horas nem mesmo no lugar onde estou, quanto menos ser onipresente, e no entanto me dizem que existe um deus que é e pode tudo e que, além de tudo isso é bom, mais do que bom, é a própria bondade, e ainda assim as coisas são como são e é de mim que vêm cobrar uma atitude, de mim que sou tão impotente!

Isso tudo me entristece e me dá raiva! Como podem acreditar em um deus assim vendo o mundo com olhos como os meus? O senhor me chama de inteligente, não é verdade, não sou nem um pouco inteligente, não consigo entender as pessoas louvando e agradecendo a deus porque sararam de um resfriado e esquecendo completamente dos milhões de crianças que estão sendo espancadas e violentadas nesse mesmo momento e pelas quais esse deus não faz nada!

Não sou inteligente porque não consigo entender isso por mais que tente!

“Sabe, Dona Divina. Não sou religioso. Não sou tão viajado quanto a senhora. Também não tenho uma vida maravilhosa como a senhora descreveu em email anterior. Mas saiba a senhora que respeito muito as pessoas e gosto muito de poder ajudá-las no que for preciso e estiver ao meu alcance. Se não gosto de uma coisa eu me afasto dela e não fico criticando de uma maneira míope. Sabe por que? Tudo na vida, mas tudo mesmo tem visões diferentes quando vista de outro ângulo e quem sou eu para criticar uma coisa como Deus. E acho que a senhora também deveria pensar a respeito desta sua miopia divina. E por falar nisto, Divina está até no nome da senhora. Que coisa!!!!”

Pois é, aí nós discordamos completamente! Pelo que vejo o senhor é religioso sim, e muito, afinal, sentiu-se até magoado por ter lido textos enviados por mim ofendendo o deus em que acredita, o senhor não se daria esse trabalho se não fosse religioso.

E, sou um ser humano, assim como o senhor e todo mundo, tenho cérebro, sei pensar e sei ver as coisas porque sou assim. Na minha opinião, isso dá a mim, e a todo mundo, o direito de criticar tudo e qualquer coisa, inclusive e principalmente deus.

Não acredito que ele exista, mas se eu estiver errada e os religiosos certos, então ele existe e me fez como sou, e eu tenho capacidades que, se acreditar na existência dele, ele mesmo me deu, portanto, posso usar.

Por que tenho que me proibir de criticar deus? Se eu estiver certa e ele não existe, estou criticando a idéia de deus, que acho absurda e sem sentido, se eu estiver errada e ele existe, estou criticando ele mesmo, o próprio, porque ele é um sádico megalomaníaco.

Eu não estava presente quando os bandidos arrastaram aquela criança pelas ruas do Rio, se ele existe e é onipresente então ele estava e não fez nada!

Eu não sabia antes de ler no jornal que aquela menina foi trancafiada em uma cela de prisão juntamente com uns 20 bandidos que a estupraram por dias seguidos, se ele existe e é onisciente então ele sabia e não fez nada!

Eu não podia entrar na casa em que uma menina de quatro anos sobre a qual fiquei sabendo ontem à noite no jornal aqui da França foi espancada a vida inteira pelo pai, pela mãe e finalmente pelo padrasto até ser morta, enfiada em um saco e jogada no rio como um animal, se ele existe e é onipotente então ele podia e não fez nada!

Citei três casos dos bilhões e bilhões que aconteceram, estão acontecendo agora e acontecerão no futuro e que eu não soube, não sei e não saberei nunca, não pude, não posso e não poderei nunca evitar e não estava, não estou e não estarei presente no momento em que acontecem enquanto que ele, se existe como os religiosos afirmam com tanta convicção, soube e sabe de todos, esteve e está presente em todos, pôde e pode evitar todos... mas não o fez, não o faz e não o fará!

Não, eu é que não vou adorar um deus como esse!

Assumo a responsabilidade!


“Desculpe-me, em nenhum momento desejo ofendê-la muito menos tentar convencê-la de alguma coisa, mas infelizmente, não pude permanecer calado, por estes 2 emails sobre Deus. Acho que não deve brincar com estas coisas e se a senhora não acredita, ok, não serei eu que irei convencê-la, mas por favor pense em que está divulgando gratuitamente pela internet. A senhora tem capacidade de fazer outras coisas muito mais importantes para a humanidade que isto.”

Novamente o senhor está enganado, não estou brincando, estou falando muito sério e estou expondo o que penso e o que sinto, me incomoda essa crença cega que trava a capacidade de raciocínio das pessoas.

Não tenho capacidade de fazer nada pela humanidade comparado com o que pode fazer deus, se ele existir, e dele ninguém cobra. Se ele que pode não faz por que eu que não posso tenho que fazer?

Não estou ofendida, sei que quando exponho opiniões tão contrárias ao senso-comum vou receber respostas como a sua e até respostas nem um pouco educadas (o contrário da sua), mas pense: por que é tão errado divulgar por internet algo que se pensa e sente quando tantas outras pessoas fazem isso e não estão erradas?

“Um grande abraço e o meu respeito.”

Um grande abraço e o meu respeito.



Divina de Jesus Scarpim