7 de outubro de 2008

UMA INFÂNCIA

Nunca conheci ninguém nesse mundo que gostasse de apanhar, mas conheci bastante gente que apanhava quando era criança e que depois de crescer dizia que apanhar foi bom e que criança precisa apanhar pra ficar bem educada. Eu achei que apanhar era um horror quando era criança e continuei e vou continuar sempre achando que é mentira que criança precisa apanhar pra ficar bem educada; o chato de apanhar, o mais terrível mesmo nem é a dor das pancadas, nem mesmo as marcas que ficam no corpo e demoram dias para desaparecer, o terrível de apanhar é a impotência, a impotência que deixa a gente sem poder falar; como aconteceu naquele dia de Natal, nesse dia eu meio que sabia por que meu pai tinha brigado comigo e talvez nem precisasse ficar tão mal porque ele nem me bateu muito, não foi uma surra, ou duas como no dia que eu fugi de casa de medo de apanhar, uma tremenda besteira porque fugi pra casa da minha amiga e a mãe dela me trouxe de volta, a mulher fez meu pai jurar que não ia me bater, ele jurou e quando ela saiu me bateu duas vezes, uma super surra que era a que eu levaria de qualquer jeito, e outra super surra por ter fugido da primeira, mas dessa vez no Natal não foi uma surra, ele só me deu um tapa porque eu olhei pro doce que minha mãe tinha feito pra gente comer depois do almoço especial de Natal e o doce estava lá na mesa e era uma tigela colorida e bonita e eu nem falei nada só olhei porque era bonita e eu ia gostar de comer daquele doce porque não era coisa comum ter doce em casa depois da comida, a gente nem conhecia a palavra sobremesa e aquele doce eu também não conhecia. Levei um tapão porque olhei pro doce, fiquei chorando e não dava pra comer porque a comida não passava pela garganta mas tive que comer mesmo assim porque o meu pai obrigou que não era pra deixar de comer a comida só por ter o olho grande em cima do doce e eu tentei falar e não saía nem um som e eu fiquei sentada na escada da cozinha e tentava falar e não saía nenhum som, igual quando a gente tem um pesadelo e tenta gritar e não sai nenhum som e dá um desespero enorme e o monstro só não pega a gente e mata logo de uma vez porque a gente acorda desesperada e o monstro foi embora e era sonho; eu achei que ia ficar muda pra sempre e chorava mais e tentava falar e não saía nada e já era muito de noite quando eu consegui falar sozinha e vi que não ia ficar muda e fui dormir, e acho que nunca comi o doce colorido da tigela grande.
Apanhei várias vezes durante minha infância e não lembro de nenhuma coisa que eu quisesse fazer e que tenha deixado de fazer porque sabia que se o fizesse apanharia, apanhar me dava muita raiva e a raiva me dava poder, quando apanhava eu sentia que o castigo, principalmente, ou exclusivamente, o da impotência, era maior do que o que quer que eu tivesse feito antes, então meu pai ou minha mãe estava automaticamente em dívida comigo e eu me sentia no direito de aprontar alguma para equilibrar; se aprontasse e fosse pega e apanhasse novamente, persistia a vantagem e eu aprontava mais uma, até quando eu conseguisse fazer algo e ninguém me batesse por não descobrirem nunca que aquilo tinha sido feito por mim, estão eu estava vingada até a próxima surra; é uma lógica que não faz nenhum sentido agora e que não me lembro de alguma vez ter colocado em palavras ou pensamentos ordenados, mas era assim que eu geralmente agia; só que tem fatos que não são passíveis de medição nem mesmo para a lógica não premeditada de uma criança, tem fatos que não conseguem despertar raiva porque doem demais: Na minha lembrança minha mãe lavava o pepino e depois cortava as pontinhas dele, esfregava bastante essas pontinhas na parte do pepino de onde elas foram tiradas e lavava de novo porque saía uma gosminha branca quando ela esfregava a ponta no pepino, então ela descascava o pepino de um jeito que eu morria de admiração, tirando umas tiras de cascas bem grandes ao longo de todo o pepino, tirava várias tiras, uma do lado da outra, até que o pepino estava todo descascado e o cortava para fazer salada de pepino; quando eu pegava aquelas tiras de cascas de pepino elas eram praticamente iguais, todas do mesmo tamanho e da mesma largura, segurei todas juntas em uma das pontas e soltei, fiquei com uma flor de cascas de pepino na mão e era um brinquedo divertido até a hora que minha mãe chamaria pra almoçar; fui andando bem do lado de casa e encontrei um menininho que eu não conhecia mas era do meu tamanho, quando viu a flor de cascas de pepino na minha mão ele quis uma casca e eu avisei que com uma só não dava pra fazer flor mas ele quis assim mesmo e eu estava dando uma casca de pepino pra ele quando o meu pai gritou meu nome bem alto e com muita força como ele fazia quando estava muito muito bravo mesmo comigo, eu tremi mas não sabia de nenhuma arte que tivesse feito e que não tivesse apanhado ainda por ela, então corri pra casa sem nem falar tchau pro menino e nem sei o que aconteceu com as cascas de pepino ou se o menino viu o meu pai me pegar no quintal mesmo e começar a me bater de cinta muito demais até ficar cansado e respirando difícil, então ele me pegou pela mão e me levou para o quarto que estava vazio porque ele estava arrumando alguma coisa que eu não me lembro e me trancou lá e não tinha nem cama nem cadeira nem nada e eu fiquei sentada no chão chorando muito porque estava doendo todo lugar onde eu tinha apanhado mas nem me lembro dessa dor, a que lembro bem é a outra, a de ficar perguntando por que foi que meu pai me bateu. De tardinha meu tio pediu ao meu pai pra abrir a porta do quarto porque queria me dar uma coisa e meu pai não deixou que eu estava de castigo e ninguém tinha que me dar nada, então meu tio esperou meu pai sair de perto e, escondido dele, jogou por cima da porta um pacotinho de balas de hortelã que era a que eu mais gostava e o pacotinho abriu quando caiu no chão e espalhou um pouco de bala pelo quarto mas eu peguei todas e chupei muitas balas com gosto de lágrimas com hortelã porque eu pensava no meu tio sendo tão bom pra mim e me dando balas por cima da porta e no meu pai me batendo tanto e me deixando trancada no quarto sozinha o dia inteiro, e pensar nisso me dava uma tristeza bem funda e eu chorava com as balas na boca. Demorei alguns anos pra saber por que meu pai me bateu naquele dia, pra entender mesmo ficou bem mais difícil.
Não sei como eu era, mas sei como parecia a mim mesma, minha mais antiga lembrança, eu era só pernas e cabeça, muito alta, muito altas as pernas porque chegavam até o pescoço, então havia a cabeça com os cabelos enormes e que não ficavam como eu queria que ficassem, eu nem mesmo sabia como queria que ficassem, o rosto com olhos enormes que sabiam ver mas não sabiam entender nada do que viam e a boca que sempre se arrependia do que dizia e que nunca conseguia ficar fechada; tinha também a testa, quase tão grande como as pernas e que se enchia de espinhas o tempo todo e de suor todo o dia, e havia os joelhos, eram dois e estavam sempre machucados, um sangrava, outro tinha ferida com casca que era bom de tirar, aí o que estava com casca ralava de novo e sangrava e o que estava sangrando criava casca que era bom de tirar; mas tirar casca de ferida fazia sangrar e se a mãe visse fazia levar bronca, às vezes os dois joelhos estavam iguais, ou sangrando ou com casca: Você vai ter pernas feias, os joelhos cheios de cicatrizes, não vai arrumar namorado desse jeito, era a mãe falando; um dia eu apanhei de duas meninas na rua e doeu tanto que até hoje não sei se doeu mais o machucado de apanhar de duas meninas na rua ou a humilhação de apanhar de duas meninas na rua, apanhei na rua porque quando entrei na escola só conseguia copiar meu nome e as palavras que estavam escritas nas latas de óleo e de leite em pó, mas eu não sabia ler de verdade só sabia fazer de conta que lia e desenhar coisas e pintar com lápis de cor de tudo que é cor, menos amarelo, porque amarelo de noite não aparecia nada e só ficava bonito no outro dia quando amanhecia e a gente via que tinha pintado muito bonito, então o amarelo era uma cor mágica mas eu tinha medo de usar e ele não aparecer no outro dia ou aparecer mas eu ter pintado errado e fora da linha, eu sabia falar e fingir que estava lendo a poesia da sementinha que eu era uma sementinha que o vento levou de terra me cobriram o tempo passou caminhando com o vento a chuva chegou e veio o calor do sol cresceu e aumentou e eu esqueci o resto, mas a flor crescia e tinha muitas folhas e era linda e eu sabia tudinho de cor, mas não sabia ler de verdade, a menina que já estava na escola quando eu entrei ficava na fileira dos mais adiantados e a lição dela era diferente da minha, eu fui fazendo a minha lição e gostava tanto que acabei rápido e copiei a dela também, mas copiei escondido para o professor não ver. Era um professor tão legal que se não tivesse um pai que eu amava muito demais eu ia querer que ele fosse o meu pai mas eu tinha um pai que eu amava muito, então eu gostava do professor como professor mesmo mas achei que ele não ia gostar de eu ficar copiando a lição da outra turma que não era a minha, resolvia os problemas e respondia as perguntas, mas tudo bem escondido atrás dos meninos gêmeos que ficavam fazendo muita bagunça, o professor dava bronca neles e nem via que eu estava fazendo a lição da outra turma; um dia o professor foi olhar o meu caderno e achou tudo escondido a lição, fiquei com tanto medo que quase chorei, a lágrima queria porque queria correr e eu achei que ele ia me mandar para a diretoria e a diretora ia me bater mais ainda do que o meu pai batia, mas ele riu e me perguntou se eu sabia fazer também aquela lição que estava na lousa, eu disse que sabia e ele falou que então eu tinha que mudar de turma e ir para a turma mais adiantada, não tinha lugar na turma, mas tinha essa menina que não conseguia fazer a lição da turma adiantada, então o professor falou para ela sentar no meu lugar na turma menos adiantada e eu sentar no lugar dela na turma mais adiantada, ela me olhou com tanta raiva que eu fiquei com medo e nem consegui ficar muito feliz porque ela era maior do que eu e falou que ia me bater, fiquei com medo e queria não trocar de lugar com ela mas o professor mandou, na saída ela foi embora sem me bater e eu fiquei feliz, contei para o meu pai que tinha ido para a turma mais adiantada e o meu pai me deu um dinheiro para comprar doce, fui no outro dia comprar doce e a menina chegou junto com a prima dela que era bem grandona e as duas bateram em mim, não adiantou nada porque o professor não mudou a gente de lugar e no fim do ano eu passei de ano e ela repetiu, mas doeu; e um dia o professor descobriu que eu já sabia ler, ele me viu copiando a lição da lousa e perguntou como eu fazia, então me dei conta de que lia um pedaço do que estava escrito na lousa, escrevia aquele pedaço no caderno, levantava os olhos para ler mais um pedaço e baixava para o caderno e escrevia lá o que havia lido, esse processo passou despercebido para mim, não para o professor, e ele me disse agora você já sabe ler, cheguei em casa e contei a meu pai que eu já sabia ler, meu pai me parabenizou e saiu de casa, voltou com um gibi do Tio Patinhas para mim, não sei de já ter recebido um presente que me desse tanta alegria, sem contar, é claro, meu filho, que nasceu muitos anos depois, li o gibi tanto e tanto e o amei como a um amigo, ganhei outros, mas aquele foi o primeiro, depois descobri o Mandraque e meu pai me dava muitos gibis do Mandraque, e meu pai lia bolsilivros de histórias de bang-bang e eu lia depois dele, e também lia as fotonovelas que algumas amigas compravam, apaixonei-me por um rosto das fotonovelas e por um desenho no gibi do Mandraque, o rosto das fotonovelas era um galã italiano e eu recortava suas fotos e fazia álbuns que colecionava, sonhando que ele seria meu namorado quando eu fosse maior, o desenho do gibi, este era proibido, eu nem contava para ninguém que estava apaixonada por ele porque ele era um rei, casado com uma linda rainha, tinha uma filhinha e vivia salvando as duas de incríveis perigos, eu sabia que era proibido ser apaixonada por um homem casado, mesmo sendo ele um desenho em um gibi, um rei de outro planeta que vivia aventuras com seres intergalácticos em historinhas paralelas nos gibis do Mandraque; então eu pensava no namorado que não teria por causa dos joelhos feios e cheios de cicatrizes, ele era moreno e bonito e gostava de outra menina que além de pernas tinha também um corpo, uma cara bonita e enormes cabelos que ficavam do jeito que ela queria que ficassem, ela sabia como queria que eles ficassem; tinha a professora que era preta, era gorda e era linda mas que passava o tempo todo escrevendo na lousa e escrevia tão depressa que não dava tempo de copiar, principalmente de copiar enquanto olhava para o menino que era o namorado que não ia me querer nunca porque eu era só pernas e cabeça, mas um dia eu tive um vestido de papel e fui uma boneca frágil e linda porque era vermelha e amarela e nenhum vestido foi mais bonito do que o meu, e era meu aniversário e a professora que era preta, gorda e linda deixou que eu servisse os docinhos porque era meu aniversário e eu fiquei feliz mas acabou porque teve o dia que eu entrei na sala da menina que sabia como queria que o cabelo dela ficasse para ser bonito e o meu namorado que não me queria tinha deixado um recado de amor para ela e eu chorei; na hora de brincar de roda eu e minhas pernas sempre escolhíamos o meu namorado que não me queria para brincar e ele escolhia a menina de cabelos bonitos e eu ficava triste, mas eu tinha uma amiga que me dava bisqüi e copiava a lição pra mim porque ela sabia escrever muito rápido e era muito, muito boa mesmo e ela morava perto da escola e a casa dela só tinha uma mesa e pacotes de bisqüi porque eu fui lá algumas vezes e não me lembro de nada além de uma mesa e pacotes de bisqüi; eu achava também que o meu namorado que não me queria não gostava de mim porque um dia eu fui comprar paçoquinha e umas crianças que eu não conhecia direito e que eram os filhos do homem que vendia paçoquinha estavam sozinhas em casa e acharam que eu não era só pernas e cabeça e viram que eu usava calcinhas e quiseram que eu brincasse de mamãe e disseram que a mamãe tira a calcinha na hora que vai dormir, eu que tinha olhos enormes que viam e não entendiam nada, não entendi o que era a brincadeira e nem sabia porque uma mãe iria tirar a calcinha para dormir mas não entendia e eles sabiam brincar de um brinquedo novo que era fingir que dormia só que antes tinha que tirar a calcinha e então eu que não entendia nada tirei a calcinha e eles esconderam a calcinha e não queriam me devolver e eu comecei a chorar mas eu não tinha vergonha porque era muito burra de sexo e nem sabia que eles não eram burros de sexo que nem eu, nem a menina que era do meu tamanho, e eles me deixaram chorando um monte de tempo antes de devolver minha calcinha porque tinham escondido debaixo de uma frigideira mas eu fui pra casa e fiquei parada perto da minha mãe e queria contar uma coisa para ela mas era uma coisa que eu não sabia o que era e nem tinha certeza se era uma coisa das que se conta para a mãe da gente e eu esperei com cara de quem fez alguma arte e a minha mãe parou de lavar a roupa um pouquinho e me perguntou por que eu estava olhando pra ela com aquela cara lambida e o que eu tinha feito de arte para estar com aquela cara de culpada, então eu pensei que não podia perguntar para ela por que as mães tiram a calcinha para dormir e se as mães tiram a calcinha para dormir e se era muito errado brincar de fingir que dorme como a mãe que tira a calcinha para dormir e deixar que as outras crianças escondam a calcinha da gente debaixo de uma frigideira e pensei que se eu perguntasse ela talvez fizesse como no dia que eu chamei ela de filha da puta e ela me bateu muito muito até eu ficar chorando e pensando muito para tentar descobrir o que era uma filha da puta que ela falava para mim mas eu não podia falar para ela. Agora eu sei que ela falava porque não queria me xingar mas eu falando estava xingando ela. Eu não entendia nada com os meus olhos enormes que só viam sem saber e as minhas pernas enormes que só tinham joelhos machucados que seriam muito feios e que o meu namorado nunca ia me querer. Mas acabou o tempo gostoso das férias e na volta da escola tudo ficou ruim porque os meninos gritavam cadê a minha calcinha e riam muito e um outro respondia está debaixo da frigideira e riam muito e só me viam andando na rua que riam muito e gritavam cadê a minha calcinha e outro respondia está debaixo da frigideira e eles riam muito e as meninas riam muito também e eu não sabia o que fazer porque não sabia que era tão bom humilhar as pessoas assim e eu fiquei com medo do meu pai me bater muito muito porque tudo que falava de menino e de mim junto meu pai ficava bravo porque ele achava que menino e menina não podiam nem brincar de nada muito menos de esconder a calcinha debaixo da frigideira e eu fiz de conta que não sabia nada, nada, nem o pouquinho que eu sabia. Perguntei para as meninas que não riam e que olhavam para mim com cara de muita pena e de muita tristeza por causa da pobre coitada que eu era e elas me contaram que os meninos falaram que fizeram besteira comigo e eu não sabia o que era fazer besteira mas achei que era a mesma coisa que brincar de fingir que dormia que nem a mãe que antes de dormir tirava a calcinha e eu disse que não fiz nada e elas não acreditaram muito mas eu disse que não fiz nada e fiquei a vida inteira dizendo que não fiz nada e disse que não fiz nada para todo mundo e quando minha mãe me perguntou eu disse que não fiz nada e quando meu pai me perguntou eu disse que não fiz nada e quando todo mundo me perguntou eu disse que não fiz nada e eu fiquei sendo a maior mentirosa do mundo porque eu aprendi a dizer tão bem uma mentira que ninguém podia deixar de acreditar em mim e meu pai e minha mãe acreditaram mas os meninos ficaram perguntando onde é que está minha calcinha o tempo todo porque não adiantava nada eu dizer que não fiz nada e eles diziam que eu ia ficar grávida e que eu ia tirar o neném e eu não sabia de onde é que eu ia tirar um neném mas eles riam muito de mim e eu nem queria ir para a escola mas meu pai não deixava eu não ir e um dia a professora brigou com todo mundo porque ficavam rindo de mim e eu gostei tanto tanto da professora que sempre sempre ia lembrar muito dela mas agora eu esqueci.
Então chegou a grande descoberta. Na escola havia uma sala fechada e eu fui curiosa, queria saber o que tinha lá dentro, perguntei à Dona Conceição, a inspetora, e ela me disse que aquela sala era a biblioteca. Pedi dias seguidos, prometi e jurei por pai, mãe e todos os santos e anjos do céu que não pegaria um único livrinho, que não estragaria nada e que deixaria tudo arrumadinho no lugar certo, prometi tudo, prometi não contar a ninguém, prometi sei lá mais o que e consegui, nem sei quantos dias depois, vencer pelo cansaço e ter a permissão de entrar naquele santuário sagrado. Minha aula começava a uma da tarde. Eu acordava junto com meu pai às cinco e meia da manhã, ia até a escola e chegava antes da maioria dos alunos que estudavam de manhã. Dona Conceição me dava a chave e eu me trancava na biblioteca, lia até meio dia e meia, saía, devolvia a chave e ia para a fila da merenda. Comia, entrava na fila da minha turma e ia para a sala de aula. Li primeiro Reinações de Narizinho, depois outros de Monteiro Lobato, não todos porque não tinha todos, li muitos livros, todos os livros que pude até chegar o dia em que cresci e pude pegar ônibus sozinha e ir até a cidade. Então levei todos os documentos e fiz uma carteirinha que me dava direito a pegar dois livros, levar para casa e ficar com eles duas semanas, geralmente ia toda semana porque não precisava de mais que isso para ler dois livros. Li Jorge Amado, José Mauro de Vasconcelos, José de Alencar, Machado de Assis e todo livro cujo título me atraía. Se pegava um pelo título e gostava, da outra vez pegava outro do mesmo autor, e assim fui lendo e gostando cada vez mais porque, hoje sei disso mais do que sei de qualquer coisa na vida, esse gosto, esse vício, uma vez adquirido é coisa que não se larga mais.
Mas eu ainda tinha que voltar da escola depois de todas as horas de prazer trancada na biblioteca, um desses dias um monte de meninos estava perguntando cadê a minha calcinha e dando muita risada de mim e eu já devia estar acostumada com isso porque fazia uns dois anos ou mais que eles insistiam sempre nessa brincadeira, mas eu não estava e o meu namorado que não gostava de mim mas que eu ainda gostava dele estava junto e ele também ria de mim e eu senti tanta dor mas tanta dor que peguei uma pedra e joguei para acertar em qualquer menino que estava perguntando cadê a minha calcinha e dando risada de mim e fazendo meu namorado que não gostava de mim rir também e eu joguei a pedra e ela acertou nas costas de um menino que era loiro e inteligente e que disse depois que não estava rindo de mim mas que eu não sei não mas acho que ele estava rindo sim e ele foi para o hospital e levou ponto no machucado dele e a mãe dele foi na minha casa falar para a minha mãe que eu precisava apanhar porque eu tinha jogado uma pedra no filho dela e ele teve até que ir para o hospital e levar ponto porque o machucado foi muito grande e ela estava muito brava comigo e parece que ela queria ela mesma bater em mim e eu disse para ela que joguei a pedra porque eles estavam rindo de mim e perguntando cadê a minha calcinha e eles riam muito e eu fiquei com raiva e joguei a pedra e que podia acertar em qualquer um que estava rindo de mim e que acertou no filho dela, ela então ficou com raiva mas foi com raiva do filho dela e deu uns tapas nele e xingou ele que bem feito de ele ter levado a pedrada e pediu desculpas para a minha mãe e foi embora e eu fiquei gostando muito dela porque o filho dela nunca mais riu de mim quando os outros perguntavam cadê a minha calcinha e riam.
Mesmo assim eu tive um amigo, ele era bonito e gostava de mim, ele não se importava com meus joelhos machucados, não ligava a mínima para as minhas pernas enormes nem para os meus cabelos que não queriam ficar no lugar certo que eu não sabia onde era, ele era meu amigo, um amigo que a gente tem pra conversar, pra andar junto, pra tratar como um irmão, e ele ficou meu irmão porque a gente tinha a Dona Adelina e a Dona Adelina não tinha filhos, ela gostava da gente e a gente ia muito na casa dela e ela fazia agrados pra gente, deixava a gente ver televisão na cama junto com ela um de cada lado, ela era a mãe e a gente era os filhos e nós dois éramos irmãos por parte da Dona Adelina que era nossa mãe postiça e a gente gostava dela muito demais; meu amigo parecia um galã mas eu nunca queria que ele fosse meu namorado porque ele era meu amigo e meu irmão por parte da Dona Adelina, então a gente conversava muito e a gente até pensava em formar um grupo de música um dia mas a gente não sabia música, só que chegamos até a inventar um nome bonito para o nosso grupo e a gente ouvia as músicas que a gente gostava e conversava sobre ela um montão e a gente descobria tudo o que ela queria dizer e que a gente pensava que sabia, em geral a gente estava errado. Mas eu tinha muita dor quando ia fazer xixi e passava dias com muita dor e meus pais me levaram ao médico e eu precisei fazer um tipo de cirurgia porque tinha um problema na uretra, eu morria de vergonha do médico e apertava a mão da minha mãe com muita força de até machucar mas ela esquecia de reclamar porque ela também estava chateada e tinha muita pena de mim porque sabia que eu tinha muita vergonha mesmo do médico que ficava mexendo em mim lá onde não devia; o médico disse que eu tinha que operar e eu fui e fiquei no hospital e eu gostei de ficar no hospital porque lá tinha umas comidas legais e tinha umas enfermeiras e uns enfermeiros que brincavam com a gente quando vinham fazer alguma coisa no quarto e meu pai e minha mãe vieram me visitar só na hora de visita e trouxeram um pão doce enorme e cheio daquele creme bem amarelo em cima e era tudo gostoso, menos a dor que nem doía tanto assim, depois me levaram pra casa de ambulância e eu chorei muito porque queria ficar mais um pouco no hospital mas não contei que era isso porque fiquei com vergonha e disse que estava doendo mas era mentira, fiquei uma semana inteira sem poder sair da cama com uma mangueirinha enfiada em mim e que me fazia mijar num vidrinho de gotinha em gotinha e não sentir nada e era pra ficar duas semanas mas o médico falou que não tinha mais mangueirinha do tamanho certo e tiraram tudo e eu tinha que voltar lá toda semana e ficava na mesa morrendo de vergonha e apertando com muita força a mão da minha mãe; o médico brincava que não sabia qual das duas ficava mais nervosa, dizia que eu era mesmo muito nova pra freqüentar ginecologista mas que não precisava me preocupar porque ele era médico e minha mãe estava bem ali e meu pai do lado de fora da porta, mas eu tinha vergonha, e tinha medo, e tinha o desconforto que mesmo hoje depois de tantos anos ainda tenho numa mesa de ginecologista, não sei como possa ser diferente; finalmente acabou tudo e eu pude voltar pra escola mas quando saí de casa vi que todo mundo me olhava esquisito, que riam e era quase igual o outro tempo de quando um menino perguntava cadê a minha calcinha e o outro respondia está debaixo da frigideira, só que agora eles não falavam nada, só riam e conversavam baixinho e eu não sabia o que era, encontrei o pai da minha amiga na rua e ele me disse um montão de coisas indecentes e que queria fazer comigo porque eu fazia com todo mundo mesmo e eu fiquei sem ir mais à casa da minha amiga porque o pai dela tinha coragem de falar aquelas coisas pra gente na rua, mesmo tendo me conhecido desde pequena e sabendo que eu era amiga da filha dele e quase da mesma idade dela, um dia o meu amigo falou uma coisa feia na casa da Dona Adelina e ela perguntou por que ele tinha falado isso pra mim e ele falou que era porque eu tinha ido pro hospital fazer um aborto, eu comecei a chorar muito e não conseguia parar mais e a Dona Adelina contou pra ele que eu estive foi doente e ele pediu desculpas e a gente ficou irmãos de novo.