12 de novembro de 2008

UMA ADOLESCÊNCIA

Na escola tinha festa junina todo ano e todo ano eu dançava quadrilha, a professora encarregada de fazer os ensaios foi escolher os pares e me colocou ao lado de um menino que alguns anos atrás era um dos que riam de mim fazendo a brincadeira da calcinha debaixo da frigideira, eu saltei, afastei-me rápido e longe, não danço com ele de jeito nenhum! Ele ficou sem saber onde tinha braços e pernas, a professora insistiu, argumentou, tentou dar ordem, o garoto vermelho de vergonha e a escola inteira vendo, com ele eu não danço! Daí apareceu um menino negro alto e bonito que não estava inscrito mas aceitou dançar, peguei no braço dele e participei dos ensaios, eu e o menino negro, alto e bonito que foi meu par ficamos amigos. Foi uma pequena vingança pelos anos de humilhação da infância, mas foi uma boa vingança. Fui a um baile e, surpresa! Minha paixão de infância estava lá! perguntou das minhas sardas que eram tão abundantes e que haviam desaparecido, dançamos juntos, fui toda charmosa e sedutora, usei de todos os truques que o instinto feminino nos ensina e ao final da festa ele pediu pra namorar comigo, minha vontade de primeiro impulso foi gritar creeeedo! como ele tinha feito quando éramos crianças, mas não o fiz, apenas o recusei com a elegância com que uma garota recusa um cara por quem não está interessada, teve um gosto bem agradável esse não. colocou logo em alerta e enquanto minhas amigas, colegas e conhecidas diziam com orgulho e até levantando um pouco o peito e a cabeça: “Eu sou virgem”, euzinha aqui tinha uma vergonha danada de dizer isso, me parecia ser algo como expor minha vagina ao público para provar de certa forma e sei lá por que razão que nenhum pênis tinha penetrado minha intimidade. Pra mim parecia muito vergonhoso; assumir com palavras minha virgindade era como me assumir inferior, nenhum homem tinha que dizer sou virgem e muito menos, menos mesmo! sentir orgulho disso, por que então eu o faria? Para escapar dessa armadilha ridícula e muito comum nessa fase da minha vida, sempre que alguém perguntava você é virgem, eu respondia rápido: “Não, eu sou câncer!” e cortava o assunto. Minha mãe afirmava que a virgindade era algo de extremo valor e se eu não fosse virgem homem nenhum aceitaria se casar comigo, nessa hora eu dizia com a maior convicção do mundo que se um dia um homem se recusasse a ficar comigo por eu não ser mais virgem, o que eu faria seria erguer as mãos para o céu e agradecer a deus por me livrar de um imbecil tão grande como esse. E dizia também que, na minha opinião, a mulher deveria ser cirurgicamente desembaraçada do hímen assim que nasce, só que eu dizia isso com mais violência e raiva, eu falava que, quando a criança nasce e o médico pega pelos pezinhos, o que ele deveria fazer era, se for um menino dar o clássico tapinha na bunda, se for menina enfiar o dedo, minha mãe corria para o quarto chorar, coitada, ela tinha uma filha perdida!
Como não poderia deixar de ser, essa minha condição de ser câncer somada a toda a minha história de infância, me causou vários embaraços e até mesmo perigos, afinal, e isso foi algo que eu nunca consegui entender, todo homem achava que, pelo fato de não ser virgem eu tinha que dar pra ele, e por conta dessa mentalidade deles e da minha recusa em “confessar” minha virgindade, eu acabava entrando em boas enrascadas. Alguns homens casados, maridos de colegas minhas ou de minha mãe, aproveitavam a oportunidade que o fato de freqüentarem a minha casa ou eu a deles dava para vir com intimidações do tipo você dá pra todo mundo então tem que dar pra mim também, e a coitadinha da eu aqui nem sequer dava e, coisa inacreditável para qualquer um que estava acostumado com meu jeito risonho e desembaraçado, não contava isso a ninguém por vergonha... Era uma vergonha ao contrário da que parecia lógica na cabeça das pessoas, mas era uma vergonha pra mim.
Faz a fama, deita na cama é como diz o “velho deitado”, e eu, sem ter essa intenção, fiz uma fama danada! O resultado disso é que eu evitava freqüentar a casa das mulheres casadas que eu conhecia e quando alguma vinha à minha casa com o marido eu não me deixava pegar sozinha com ele nunca... Mesmo agindo assim não ficava totalmente livre de embaraços, uma vez o marido de uma vizinha me agarrou no quintal e a própria esposa teve que ajudar a me livrar das garras dele, que estava bêbado na ocasião e depois veio pedir desculpas, mas só porque estava na frente da esposa e ela mandou. Outra vez fui à casa e uma amiga recém casada e o irmão do marido dela estava lá, ele me chamou para levar o carro até o posto para botar combustível e explicou que era uma desculpa para deixar o casal sozinho algum tempo, eu, inocentemente, baixei a guarda e saí com ele, que parecia ser um rapaz muito legal, colocamos combustível e ele falou que me levaria para um motel, eu disse que não e ele veio com a razão clássica de que já que eu dava pra todo mundo tinha que dar pra ele também, eu respondi que dava pra quem eu quisesse e que não queria dar pra ele, ele ficou ofendido, ficou bicudo, me levou de volta pra casa da minha amiga e nunca mais falou comigo. Era noite, a casa da minha amiga era longe, eu não sabia voltar pra lá e nem pra minha casa sozinha, senti medo pela primeira vez!
Mas, a gente nunca está totalmente vacinada. Tive uma paixão adolescente cheia de frustrações, o cara brincava de gostosão comigo e com outra menina que, como eu, era doidinha por ele, só que ela era mais doidinha ainda, engravidou e ele casou com ela... Eu fiquei a ver navios e, soube depois, com a fama de ter dado pra ele e feito um aborto, o segundo da minha carreira... Pois bem, nessa minha paixão frustrada, acabei por fazer amizade com um rapaz que conheci através desse cara, que era amigo dele e que, portanto, sabia da história da minha paixão que agora parece tão idiota mas que na época tinha uma importância vital. Eu achei que o rapaz era meu amigo e que nunca teria qualquer outra intenção comigo, e meio que me escorei na amizade para afogar a dor do amor perdido. Um dia meu amigo comprou um carro e veio me mostrar, eu, feliz por ele, aceitei, é claro, passear um pouco para que ele pudesse testar a máquina. O problema foi que anoiteceu e esse meu amigo parou o carro em um lugar que eu não tinha a mínima idéia de onde era e que estava tão escuro que de olhos abertos eu enxergava tanto quanto de olhos fechados, sei que era assim porque fiz o teste. Quando parou o carro, ele começou com aquele mesmo papo que eu já ouvira antes, a primeira vez do pai da minha amiga; eu tinha que dar pra ele porque afinal de contas eu tinha dado para fulano, sicrano, beltrano e, surpresa!, para o amigo dele, minha paixão, que disse a ele que tinha transado comigo, ah, a necessidade que os homens têm de se auto-afirmar! Pelo discurso dele eu fiquei sabendo que praticamente todos os caras casados e solteiros que tinham tentado transar comigo, tinham dito aos quatro ventos que o conseguiram, e até mesmo alguns que nunca falaram comigo nada além de bom dia, para esse meu amigo e certamente para o bairro inteiro, tinham transado comigo, eu soube até mesmo de uma mulher da vizinhança que tinha se mudado do bairro porque estava com ciúme do marido dela que, como todo mundo sabia, tinha “andado” comigo... Fiquei sabendo muito sobre mim nessa dia!
O escuro de breu, a voz desafiante dele, a certeza com que dava as justificativas, a expressão que eu não podia ver mas imaginava me deixaram apavorada! Eu achei que seria estuprada, poderia até, sei lá, se ele me surpreendeu se mostrando meu amigo e depois fazendo isso, quem sabia que eu estava com ele e onde? Comecei a tentar lembrar se alguém tinha visto a gente sair de carro juntos... não tinha certeza, mas pensei que se ele me violentasse e me matasse, poderia me jogar ali, seja lá onde ali fosse, e voltar pra casa numa boa que ninguém nunca saberia que foi ele, pensariam que eu resolvi dar pra algum desconhecido e que me dei mal por isso, até imaginei o que diriam, eu procurei por isso, vinha pedindo um fim desses desde criança... enfim, o medo foi tanto que de repente, interrompendo o que ele dizia e que eu não estava escutando mais, eu disse rápido e com força, para salvar minha vida: Eu sou virgem!
Ele parou de falar, ficou em silêncio e eu esperei, parecia que aquilo não ia acabar nunca, passou muito tempo, muito tempo que eu não sei quanto porque não tinha como ver o relógio nem lua nem sol... até que ele simplesmente virou e me perguntou de chofre: Quer casar comigo? Ah, que alívio! O quanto eu relaxei com essa frase! Ele tinha compreendido tudo! Ele não ia me estuprar nem me matar! Do peito saiu uma pedra muito pesada e pude conversar, pude dizer que ainda não estava curada do meu amor pelo outro; mentira, depois de saber que ele tinha mentido tanto sobre mim não havia mais nem sombra de amor! disse que gostava muito dele mas não tinha nunca pensado nele a não ser como amigo, que um casamento não se decide assim de impulso... etc, etc. Nem sei o que falei mais, só sei que ele falou com muita raiva do amigo que tinha me caluniado e de todos os caras que viviam dizendo que já tinham transado comigo... Porque ele perguntou, eu expliquei que tinha vergonha de dizer que era virgem e ele riu porque soube o motivo de eu ter sempre afirmado que não sou virgem, sou câncer! Nem lembro da volta para casa, o fato é que, pouco tempo depois esse rapaz se casou com uma vizinha minha e a última vez em que os vi pareciam muito felizes.
Trabalhei com uma moça que já tinha sido casada, ela tinha um filho e um dia fui com ela à casa da ex-sogra dela para visitar o filho, não lembro bem da carinha do menino, mas era pequeno e agarrava a avó sem querer chegar perto da mãe, ela era uma estranha pra ele, estranha e assustadora... Depois que saímos de lá ela contou a história, o ex-marido tinha família em outro estado e um bom emprego, quando se separaram ele ficou com do direito de visitar o menino uma vez por semana, ajeitou em segredo a transferência de trabalho e, numa das visitas semanais levou o menino embora para o outro estado onde tinha família e, agora, emprego; ela não tinha nada, trabalhava para viver e morava com os pais, tentou reaver o filho mas a justiça é lenta e depois de alguns anos, dois ou três acho, ela conseguiu que o ex-marido e os pais dele voltassem a morar perto o suficiente para que ela pudesse visitar o filho; a situação se inverteu, agora ela é quem tinha um dia por semana para ficar com o filho. Essa história me tocou tanto que não conseguia parar de pensar e de ter medo de que isso pudesse um dia acontecer comigo. Não dá pra explicar como passei horas e mais horas, noites e mais noites imaginando o quanto eu também estava em situação de dar chance a que essa história terrível acontecesse comigo! O engraçado é que essa minha amiga parecia que não sofria tanto quanto eu tinha certeza de que sofreria se estivesse na situação dela, ela era alegre, tinha um namorado e não falava muito sobre o filho, passava a impressão de que já tinha superado o choque e que estava bem com a idéia de ver o filho só uma vez por semana e ser olhada por ele como uma estranha invasora. Eu tinha certeza de que comigo não haveria aceitação, tinha certeza de que meu sofrimento seria incontrolável e de que nunca poderia viver bem se tivesse um filho e ele não estivesse comigo. Eu sentia meu instinto maternal tão forte que chegava a chorar de amor por uma criança que não existia e que poderia nunca vir a existir mas que eu amava acima de todas as coisas. Sei que parece exagero, mas não é, eu me sentia assim desde muito nova e pensar na possibilidade de um filho era algo que me inundava de amor de uma maneira inexplicável. No primeiro ano do ensino médio teve um concurso de redação cujo tema era o amor e estava ligado ao dia dos namorados, eu fiz um texto para o meu filho que não existia e ganhei o primeiro lugar, só não consegui nunca ter esse texto de volta e tive um trabalho danado para receber o prêmio, que era uma quantidade qualquer em dinheiro e que o diretor da escola não sei se por conta de burocracias ou porque não queria mesmo, nunca pagava quando eu ia até a sala dele buscar... Eu jurei que não ia nunca permitir que roubassem meu filho.
Mas me apaixonei e resolvi finalmente me livrar da tão pesada quanto inútil virgindade. O garoto ficou surpreso porque não sabia que eu era virgem, ele também tinha ouvido todas as histórias que contavam a meu respeito. Eu o amava mas por alguma razão o início de uma vida sexual foi demais para esse sentimento e ele acabou por se esvanecer... procurei descobrir o que havia de bom no sexo e quando tive um orgasmo pela primeira vez levei um tremendo susto! Me acomodei à idéia de que sair com um homem casado era algo tremendamente vantajoso porque ele não ficaria meloso, não ameaçaria se matar, não roubaria meu filho se eu tivesse um...se eu tivesse um, porque um dia um ginecologista me disse que eu não poderia ter filhos com facilidade, que eu poderia fazer tratamento e talvez desse certo, mas não era certeza... Nesse dia saí do consultório dolorida, fui até uma praça no centro da cidade, procurei um cantinho meio escondido e fiquei lá chorando durante muito tempo, uma hora um conhecido passou e me viu, ele se aproximou e eu contei o que estava passando, ele foi legal e me deu o ombro para chorar, mas deve ter pensado que eu era louca por ficar naquele estado com uma notícia que seria recebida com fogos de artifício pela maioria das mulheres. Fixei-me na idéia do tratamento, pensei que quando pudesse ter um filho faria o tratamento e a minha vontade, o meu desejo e o meu amor seriam tão fortes que daria certo, eu só precisava conseguir independência financeira... mas não era fácil.
Eu trabalhava em uma auto-peças e fui fazer um trabalho externo, fui levada à outra empresa pelo motorista da fábrica onde trabalhava e fiz o trabalho, almocei com os rapazes que trabalhavam lá e fiz amizade com eles, numa segunda vez que fui a essa mesma empresa, o motorista me levou mas disse que tinha um problema qualquer para me buscar e me pediu que voltasse sozinha, eu não sabia como, perguntei sobre que ônibus tomar e onde mas antes que alguém respondesse um dos rapazes se ofereceu para me levar até a fábrica em que eu trabalhava, o motorista achou legal, todos concordaram que estava bem e trabalhei normalmente. No fim do expediente saí com o rapaz e ele ia por caminhos que eu não conhecia, mas tudo bem porque eu não conhecia mesmo muito bem os arredores de nenhuma das duas empresas, só sabia pegar o ônibus no centro da cidade e descer perto da fábrica. Só que em determinado momento chegamos a um drive-in e ele embocou o carro para entrar, eu perguntei o que estava fazendo e ele disse que estava entrando pra gente tomar alguma coisa, eu neguei e ele falou a famosa frase idiota da piadinha: ou dá ou desce. Eu desci e ele fez meia volta e foi embora. Fiquei em uma estrada de terra comprida que não acabava mais e com mato dos dois lados, não era um lugar muito animador para se ficar quando já estava começando a anoitecer, andei para um dos lados aleatoriamente até que encontrei um ponto de ônibus, esperei bastante, os dedos cruzados e o coração disparando, mas finalmente chegou um ônibus e para meu alívio ele passava no centro da cidade, que eu conhecia e onde poderia pegar outro ônibus para casa. No dia seguinte contei ao motorista o que aconteceu e quando voltei à mesma empresa todo mundo já sabia e estavam fazendo uma espécie de ostracismo com o cara, pelo menos na minha frente e enquanto eu estava lá ninguém falava com ele, mas, que eu saiba, fora isso ele não recebeu nenhuma outra punição.