16 de dezembro de 2008

FILOSOFANDO COM A MIRIAM

Acho que sou uma daquelas pessoas que suportam perdas com facilidade... mas como quase nada na vida é irrevogavelmente real, suporto as perdas com "relativa" facilidade. Depende da perda, depende do que é facilidade. Coisas materiais podem se perder que praticamente nunca me doem; não lamento uma roupa que se rasgou, um sapato que furou, um carro que foi roubado, uma retirada do caixa eletrônico que coloquei no bolso errado e um ladrão de mãos muito leves levou... Não lamento também as perdas normais que vêm em conseqüência das mudanças; não fico deprimida porque possivelmente não vou mais caminhar por aquela rua de que tanto gostava no bairro em que morei por décadas, não lembro com tristeza o restaurante aconchegante onde estive várias vezes com os amigos de uma determinada época da vida, e – desapego mais questionável ainda na opinião de muitas pessoas - não morreria de saudade do Brasil se tivesse que morar o resto da minha vida em outro país qualquer. Não sou patriota, não sou bairrista, não tenho raízes...

Mas me lembro das pessoas. Não fico fazendo um milhão de coisas para manter o contato com alguém que ficou distante no tempo ou no espaço, e isso pode parecer o mesmo desapego que tenho com as coisas, mas não é. Das pessoas me lembro com carinho, nelas penso e a elas sempre paro para desejar alguma coisa do bem que possa existir no mundo, se é que algum bem existe... Vez em quando “envio” um abraço cheio de amor para a Vilma, a amiga que ia comigo à escola todos os dias quando nós tínhamos sete/oito anos. Não sei nada sobre ela desde que se mudou ainda na nossa infância, mas pra mim ela é minha amiga hoje tanto quanto era quando a gente combinava ir pra escola de chinelo nos dias de chuva para ir andando por dentro das enxurradas e para atravessar a pé o riozinho que tinha no caminho mais comprido, que era o que a gente fazia nesses dias. Não lamento a perda dessa amizade, não a perdi. Dizem que só os poetas conseguem ver as coisas com os olhos da primeira vez; não sou poeta, vejo muito as coisas como banalidades, ou com olhos de última vez; não última-vez-despedida-melancólica, apenas natural e saudável olhar de mudança, “Sei que nada será como antes amanhã”. Certamente minha amiga Vilma não é hoje a Vilma que conheci há tantos anos, talvez a Vilma de hoje nem se lembre da Divina daqueles tempos, as coisas mudam, as pessoas mudam e isso é natural, não lamento; às vezes fico muitíssimo brava com algumas mudanças, mas não lamento, só sinto dor se elas forem muito ruins, mas sinto dor por qualquer coisa que seja muito ruim, a dor faz parte de mim e também é natural.

Li em algum lugar a teoria de que o tempo é algo que se gasta, assim como as coisas se gastam; como uma engrenagem vai ficando com os dentes gastos e cada uma de suas partes vai girando com mais rapidez por encontrar menor resistência e encaixe menos rígido, o tempo também se gasta e vai passando mais rápido. Essa teoria é colocada pela personagem Úrsula em Cem anos de solidão; ela pensa em como dava tempo de acontecerem tantas coisas antes que um filho se tornasse adulto e como naquele momento os netos de seus filhos cresciam tão rápido que não dava tempo sequer de prepará-los para a vida. Não sei o que é o tempo, mas sei que ele não é amigo; a idéia mitológica do tempo como o pai que devora os próprios filhos é a idéia que mais me parece viável; não sei se minha sensação de que ele passa mais rápido agora do que passava antes é real, às vezes acho que é uma ilusão porque a sensação de variação na velocidade do tempo também se sente de dia para dia, um determinado dia pode parecer muito mais curto ou longo do que outro e a ordem não é obrigatoriamente decrescente. Acho que o tempo seria ótimo... se a gente tivesse mais tempo, muito mais tempo.

Ao contrário do físico austríaco Erwin Schrödinger, que a Miriam disse ter afirmado ser o impossível apenas algo cujas possibilidades de existência são infinitamente pequenas, eu acredito na possibilidade do impossível. Acho, por exemplo, impossível que o deus bíblico exista, acho impossível que o ser humano possa ter uma vida eterna e individual após a morte, acho impossível que o homem se torne um animal carregado de bondade e acho completamente impossível que a vida venha a ser realmente boa para todas as pessoas do planeta.

Confirmando a impressão do “encurtamento” do tempo. As pessoas não têm mais tempo para filosofias, não conseguem mais parar um pouco para pensar no que estão fazendo e nessa massa incompreensível de concreto-abstrato em que estamos mergulhados e da qual somos parte integrante. Quanto àquele apego que temos ao passado e ao futuro ele, como tudo na vida, tem seus prós e contras. O passado faz de nós o que somos, o futuro dirige nossos atos para o que poderemos vir a ser; portanto, ambos são necessários para que vivamos o presente, mas podem prejudicar esse mesmo presente caso a gente se apegue demais a um ou ao outro. É a cultura do meio termo que quase sempre parece tão lógica e saudável. Só se pode comer geléia agora se ela tiver sido preparada no passado e só se poderá comer da geléia amanhã se ela for preparada hoje. Isso parece lindo como uma lição de auto-ajuda de livros babacas como o tal Quem mexeu no meu queijo?, mas podemos ser menos superficiais e mais realistas se nos lembrarmos de que chegará o dia em que não poderemos mais comer geléia nenhuma e, o mais triste, se lembrarmos de que, por mais que se tenha preparado geléia no passado, muitos - muitos mesmo - não podem comê-la hoje e, por mais geléia que se prepare hoje, muitos - muitos mesmo - não a poderão comê-la amanhã. Quem diz que a vida é linda é porque está olhando apenas para o próprio umbigo.

Será que nosso passado faz mesmo com que acumulemos sabedoria? Sou uma pessimista de carteirinha e não acredito nisso; individualmente, em alguns poucos casos sim, mas como raça, como grupo, seguramente não. O Chico Buarque afirma “Não sou eu quem repete essa história é a História que adora uma repetição” e eu acho que ele tem razão; depois de tantas guerras ao longo de séculos, ainda existem guerras e o mundo nunca esteve em paz; depois de tanto acúmulo de conhecimento ainda não aprendemos a ver o outro como um ser humano igual a nós; depois de tantas religiões pregando o amor ainda sabemos odiar muito melhor do que amar; depois de tanto dizer que aceitamos a chantagem de sermos bons aqui para sermos premiados na outra vida, ainda roubamos de quem não tem nada, ainda torturamos o outro e ainda chamamos assassinato de esporte. Decididamente acumulamos um pouco de conhecimento, talvez, mas não adquirimos sabedoria nenhuma.

Planejar o futuro, ter esperança no futuro, acreditar no futuro... Essas são as necessidades que temos em função da preservação da vida; não fosse esse “olhar voltado para o futuro” nós saberíamos que a vida não vale a pena, haveria suicídio em massa, nos recusaríamos a trazer outro ser humano para esse circo de horrores e aconteceria a extinção da raça humana, simples assim. Precisamos do futuro para existir como raça, isso deve estar implantado em nossos genes ou em algo subjetivo e imaterial que forma o que somos, se houver isso. A vida dá prioridade à vida, e a vida da raça humana depende de os indivíduos em sua maioria acreditarem que o futuro será melhor do que o presente.

Eu, que não acredito em nada, também não acredito nesse futuro utópico. “As coisas quanto mais mudam mais iguais ficam”. Acho que no futuro ainda pode ter outro (ou outros) holocausto; outras queimas de infiéis condenados por outro (ou outros) “santo” tribunal, outros Hitlers, gengiscans, Francos sendo seguidos, servidos e louvados por outras massas prontas a eliminar qualquer manifestação contrária. Mas, para não levar o pessimismo a um radicalismo nocivo, pode ser também que no futuro caia outro (ou outros) muro de Berlim, que nasçam e vivam outros Gandis, outros Betinhos, outros Martin Luther Kings. Eu gostaria, como quase todo mundo, que só a segunda parte dessas possibilidades acontecesse, mas o que dentro de mim por acaso insistir que assim acontecerá será aquilo que existe na gente para evitar o fim da raça humana, não será nada lógico e nada minimamente provável.

Taí, Mirinha, pensei a respeito.