24 de dezembro de 2009

ACREDITAR EM DEUS

Tem gente que acredita em deus, estão em maioria, são felizes porque colocam tudo “nas mãos de deus” e vivem sua vida esperando pela eternidade no paraíso, uma felicidade eterna prometida para depois da morte, eu não consigo, não sei, não tenho condições de acreditar nisso tudo: nem em deus nem em paraiso eterno. No final das contas quem sai mal nessa sou eu, afinal, acreditar em um deus criador faz bem e dá paz às pessoas.


Não é por querer, não é de propósito, é por incapacidade minha mesmo. Eu não ficaria bem e não me sentiria nunca em paz com esse deus criador caso acreditasse na existência dele. Tenho que ser ateia para não odiar deus porque, para mim, caso existisse, o único sentimento que eu seria capaz de nutrir por ele seria esse: ódio. E eu odeio odiar! O amor é tão melhor e tão mais gostoso! Sou ateia para não odiar, fico livre e leve sendo ateia, não me sentiria livre se acreditasse.


Tem gente que admite a existência de deus e a admite com base na razão, pelo menos é o que afirmam e Tomás de Aquino teve um trabalhão para ajudar essas pessoas que querem crer com base na razão. Mas aí está um problema grande para mim: por mais que leia Tomás de Aquino, minha razão não consegue admitir a existência de um deus criador. Não consigo pensar em um deus que, sendo todo poderoso e todo bom, fosse capaz, conscientemente, de criar o mundo e a vida como ela é. Minha razão não consegue casar uma bondade suprema aliada a um poder supremo que crie, por exemplo, coisas que matam crianças; sejam essas coisas outros seres humanos, vírus, bactérias, catástrofes naturais, parasitas, não importa. Para mim, um deus bom seria incapaz de criar algo que mate crianças. E esse é só um dos motivos que levam a minha razão a rejeitar a possibilidade da existência de deus.


Tem as pessoas que costumam não se ligar a nenhuma religião tradicional, apenas aceitam a idéia de um criador mas acreditam que ele não interfere na criação. Para a minha razão, dentro desse juizo, o deus fica pior ainda. Ele cria todo esse circo de horrores que é a vida, coloca suas criaturas inseridas numa corrente macabra de sangue e de morte e deixa que se virem como puderem sem tomar conhecimento e sem se importar com o que acontece. Se ele criou e saiu de perto, não está nem olhando, não sabe nem quer saber o que rola, ele é mal por omisso; se criou e fica só olhando sem interferir, é mal por sadismo. Não sei em qual dos dois casos eu o julgaria pior.


Outros dizem que deus não interfere por causa do livre-arbítrio, difícil ver desculpa mais sem nexo do que essa. Então uma criança quando é estuprada tem o livre-arbítrio de se negar ao estuprador? Um bebe quando é espancado tem o livre-arbítrio de se negar ao seu algoz? Uma criança quando acometida por uma doença tem o livre-arbítrio de se negar ao vírus, bactéria ou parasita que a esteja matando? Não, eu não consigo entender mesmo essa história de livre-arbítrio que parece ser apenas mais uma mentira criada para inocentar deus e fazer com que se continue acreditando nele apesar de todas as evidências em contrário.


O livre-arbítrio me parece uma espécie de coringa que as pessoas tiram da manga para justificar o injustificável, puxam essa carta e a mostram com a certeza de que dessa forma encerram o assunto e ganham qualquer discussão. Mas como? Eu não entendo um deus todo bom e todo poderoso que, com a desculpa de um livre-arbítrio que ninguém pediu, se omitisse de ajudar criaturas que ele mesmo, em sua maldade suprema, criou e colocou para sofrer nesse teatro macabro. Então querem me convencer de que um filhote de foca tem livre-arbítrio para fugir do predador? ou o livre-arbítrio é coisa só de homens e só de adultos? Eu pediria que me explicassem porque não consigo entender, mas sei que quanto mais as pessoas me explicarem menos eu entenderei e menos concordarei com a possibilidade, inviável e absurda, de um criador bom e poderoso que fizesse esse papel infeliz.


Algumas pessoas deixam de crer em deus quando enfrentam problemas graves, não foi o meu caso, acho que nem sequer deixei de crer, simplesmente descobri que não acreditava, descobri que já desde muito não negava deus simplesmente porque me negava a pensar no assunto, quando pensei vi que a crença firme que costuma estar dentro das pessoas nunca esteve dentro de mim. Tem gente que deixa de crer por raiva, acontece uma desgraça e a pessoa vê que deus, embora tenha sido chamado, não esteve lá para ajudar e conclui que ele não existe. Mas tem também o contrário; tem aqueles que passam a crer em deus, e às vezes se tornam fanáticos, justamente quando enfrentam um problema grave e o superam.


Acho hilário que alguém consiga fazer isso! A situação fica assim: Milhares de pessoas tem câncer todo ano e milhares de pessoas morrem de câncer todo ano, mas se eu tenho um câncer e consigo escapar, tomo isso como prova de que deus existe e me curou e esqueço os milhares que ele não curou. É como se eu estivesse afirmando que deus curou a mim porque eu sou melhor do que todo mundo e mereço mais do que todo mundo. Pessoas se tornam religiosas por causa de coisas assim e pessoas que já eram religiosas vivem fazendo alegações desse tipo como se isso fosse uma prova inquestionável da existência de deus e de sua suprema bondade, e elas fazem isso o tempo todo e a respeito de qualquer coisa, até o fato de não ter chovido antes que ela chegasse em casa é motivo para dizer que foi deus quem “segurou” a chuva porque naquele dia ela - a pessoa mais importante do universo - saiu de casa sem guarda-chuva. Não consigo ver isso se não como piada. Piada de mal gosto.


Acho que é muito convencimento, muita pretensão, muito egoísmo por parte das pessoas agirem e pensarem assim, e no entanto, é exatamente como elas pensam e agem. Se um ônibus escolar sofreu um acidente e de trinta e cinco crianças só uma escapou e é meu filho, vou dizer que foi milagre e que deus é bom e misericordioso porque salvou meu filho, e danem-se as outras trinta e quatro crianças que morreram e os trinta e quatro pais que perderam seus filhos! Essa visão tacanha chega a me dar raiva!


Fala-se muito também em “Justiça Divina”. Acho que não entendo bem isso de justiça divina, onde está ela que não a vejo em canto nenhum desse mundo em que vivo? Dizem que todos temos a mesma capacidade. Mas basta olhar pra ver que um aleijado, um portador de síndrome de down, um órfão jogado em orfanatos-depósitos ou nas ruas para comer cola e craque não tem a mesma capacidade nem a mesma oportunidade de uma pessoa que nasce perfeita em um lar saudável; basta olhar para ver que uma borboleta não tem a mesma capacidade de sobrevivência que tem um leão. Não dá pra falar em justiça se a gente for por aí.


Eu não sei, não consigo ver igualdade e justiça na criação e na “manutenção” desse mundo que me garantem ter sido criado por um deus justo. Pessoas que acreditam dizem que nós somos parte do criador e saber disso faz com essas pessoas se sintam bem, no meu caso, se acreditar em um criador e me sentir parte dele me sentirei muito mal porque saberei que sou parte de algo pior do que eu ou qualquer pessoa consegue ser... espero mesmo que esse criador não exista e que eu não seja parte dele e nunca me senta como tal, seria terrível pra mim, já não tenho um amor-próprio dos mais evoluídos, sabendo-me parte desse ser que consideraria abominável caso existisse, eu teria que odiar muito ser o que sou, prefiro continuar sendo ateia para que, já que não posso me amar porque sei que sou um ser cheio de defeitos e falhas e não tenho o poder de corrigir os piores deles, que eu consiga ao menos não me odiar.


Tem gente que diz, diante desses sofrimentos inexplicáveis, que eles fazem parte da justiça de deus, que essas pessoas que sofrem dessa forma são as que, em uma outra vida, fizeram alguém sofrer; quanto a isso achei demais a colocação de uma amiga sobre o algoz! Ela se pergunta se o algoz teria como “missão” prejudicar sua vítima e se, portanto, está isento de castigo. No caso daqueles que acreditam que o que sofremos aqui é causado por algo de ruim que tenhamos feito em outra vida, a pergunta faz sentido. Se fosse acreditar num deus que castiga numa encarnação os pecados da encarnação anterior, essa colocação seria perfeita! Deus poderia ter realmente feito com que o cara nascesse com a “missão” de estuprar a fulana que, em encarnação anterior, estuprou alguém; e esse estuprador em uma próxima encarnação nasceria com a “missão” de ser estuprado para pagar pelo seu crime; isso gera uma corrente sem possibilidade de fim, acho.


Para mim o algoz, quando é um ser humano, é uma criação com defeito e contraria nele mesmo e na sua existência a própria definição de deus como ser perfeito. Se existisse um deus e ele fosse perfeito não criaria seres imperfeitos, ou seja, com defeitos físicos ou mentais, como aleijões, má formação ou taras para estupro, pedofilia e outras aberrações que, infelizmente, são mais comuns do que a gente pensa, e não adianta dizerem que é culpa do nosso mundo atual que, por causa da poluição e dos ataques à natureza e ao corpo, tem propiciado o nascimento de pessoas assim, isso é mentira, ou no mínimo exagero; pessoas com defeitos e doenças mentais sempre existiram, muito antes de que pudéssemos sequer pensar em ter algum poder sobre a natureza. Na minha opinião cada estupro, cada assassinato, cada violência que acontece no mundo prova a inexistência de deus.


Não sei se estou correta em algum ponto do que penso, mas mesmo que não esteja em ponto nenhum, o meu problema é que simplesmente não consigo ver a coisa toda de outro modo. Cada vez que vejo uma notícia ruim no jornal, seja um desastre causado por algum fenômeno natural como tempestade ou terremoto ou um crime cometido por um ser humano, vejo nessa notícia a confirmação da impossibilidade de existência de um deus criador que seja consciente e bom. Estou em um mundo que de forma alguma poderia ter sido criado por um personagem como esse. É como me sinto.


SOBRE JESUS


Tenho uma amiga espírita, aliás, uma amiga de quem gosto muito. Estamos afastadas já faz um tempo porque a vida nos levou para lados diferentes, ficamos então com os “oi, eu te amo” que a gente troca por e-mail e por Orkut. Ela já me falou um bocado de coisas a respeito do espiritismo, acho que não é uma doutrina hipócrita como muitas das religiões cristãs e não cristãs que eu conheço pouco mais ou pouco menos, mas não consegui me convencer porque, pra variar, tem coisas demais que eu questiono: o próprio número de habitantes do planeta durante o tempo que a história marca como “a evolução do homem na terra” dificulta bastante a compreensão do que o espiritismo aceita como verdade; a pergunta é: De onde vieram tantas almas tendo a população do planeta aumentado tanto? Pela teoria de que cada alma reencarna num processo de evolução até se tornar algo especial que eu não sei exatamente o que seja, a lógica seria que a população do mundo diminuisse e não o contrário. Mas esse não é o mais grave problema para mim, tem o detalhe de qual eu reencarnaria; sim porque eu sou muitas, eu-velha não sou a mesma eu-adulta e não sou a mesma eu-jovem e não sou a mesma eu-adolescente e por aí vai. Qual dessas eu, múltiplas e tão diferentes, terá o privilégio de reencarnar? Nenhuma resposta que consiga imaginar para essa pergunta consegue me convencer de que isso faça sentido. Mas a pergunta mais terrível mesmo é outra: se estamos vivendo e evoluindo, se estamos reencarnando sucessivamente a fim de aperfeiçoar quem somos, então por que não evoluímos como espécie? Por que ainda temos os crimes, os abusos de poder, as aberrações que tínhamos desde que habitamos o planeta?


Além de tudo isso, o espiritismo é também cristão, também acredita em deus, na bondade de deus, e em Jesus e no fato de que ele foi esse cara que o Paulo de Tarso inventou que ele era. Não levo Jesus muito a sério, ele está no meu nome e tudo, mas não boto muita fé na existência dele não. Acho que pode até ter existido uma pessoa com esse nome, que andou pregando por aqueles desertos e que morreu na cruz, mas acho que, se existiu essa pessoa, ele e sua história foram muito diferentes do que nos pregam e do que está na bíblia. Sei que para os espíritas Jesus foi apenas uma alma mais evoluída, mas acho que nem isso ele foi. Acho que, caso tenha existido, foi um Antônio Conselheiro da Palestina, mais um profeta meio maluco que conseguiu levar desesperados na conversa, só isso.


Pronto! Sou uma herege mesmo! Não só não acredito no pai como não acredito no filho... o espírito santo então, nesse é que não acredito mesmo!


Voltando a Jesus, fala-se da força de seu exemplo. A primeira vez que fiquei decepcionada com o exemplo de Jesus foi a primeira vez que li a bíblia. Ele trata a própria mãe com uma falta de respeito e de mínima educação que não condiz de forma alguma com o comportamento de alguém que tem exemplos a dar. Me lembra aquela recomendação romântico-social: “Não se apaixone nunca por um rapaz, por mais perfeito que ele seja ou aparente ser, se ele, em um restaurante, tratar mal o garçom”, porque se alguém não é capaz de tratar com educação e respeito uma pessoa que está em determinado momento em uma situação social inferior, é porque essa não é na verdade uma boa pessoa. Na minha visão Jesus fez muito pior do que tratar mal o garçom. Tem mais uma porção de coisinhas sobre ele que pra mim não casam, por exemplo aquela história de colocar demônios nos corpos dos porcos e depois levá-los à morte, que culpa tem os coitados dos porcos? E as curas então! Por que, se tinha poder dado pelo seu pai, ao invés de curar uma meia dúzia de leprosos, ele não curou logo a lepra? Por que ressuscitar alguém da família e não uma criança que teria a vida toda pela frente? Por que ele, e ninguém em nome dele, nunca curou um amputado? Enfim, são questões que indicam mais lendas e charlatanismos do que milagres e suprema bondade, a meu ver. E tem ainda mais coisas que não fazem sentido: Querem muitos cristãos que o antigo testamento meio que deixou de ter validade com o advento de Jesus, mas ele mesmo diz na bíblia que não veio para modificar as leis do pai. Ora, se isso não é uma incoerência então eu não sei o que seja.


DA BÍBLIA


Gostei muito da expressão “Teologia curupira” que uma amiga me disse que um teólogo define como sendo a tentativa de ler e seguir a bíblia como ela está escrita, sem levar em conta a passagem do tempo, as mudanças que a história impõe, ou seja, esse teólogo defende que a bíblia deve ser interpretada e não seguida à risca. Mas aí entro eu com a minha lógica questionadora: Se a pessoa é religiosa e pertence a uma religião que afirma que a bíblia é a palavra de deus, ela, pela lógica, teria que aceitar a bíblia literalmente. Para mim não faz sentido aceitar a bíblia como a palavra de deus mas ficar fazendo “interpretações” e adaptações para a realidade atual. Na minha opinião a bíblia ou é a palavra de deus ou não é. Esse meio termo que inventaram só serve para que as pessoas deixem de ver o óbvio: que a bíblia não faz sentido nenhum como palavra de deus. Um deus que se diz único, perfeito e imutável, se tiver uma palavra, essa palavra também tem que ser única, perfeita e imutável. Para que a bíblia se sustente como “palavra de deus” - o que claramente ela não é - inventou-se essa coisa de “interpretação”. Lógico que não é possível seguir o “livro sagrado” literalmente, até porque ele é cheio de contradições e manda cometer crimes que hoje levaria o fiel à prisão, sem dúvida, então, para escapar dessa arapuca que o texto coloca, faz-se a chamada “interpretação”. É como os oráculos da Grécia antiga: Cada templo tinha seus sacerdotes cuja função era “interpretar” o que a pítia dizia sob efeito da fumaça aromática que ela cheirava. E os sacerdotes de então, como os de hoje, recebiam presentes e eram sustentados pelos fieis do templo. A bíblia é a pítia dos nossos tempos, e isso desde antes do cristianismo já que os judeus a interpretavam antes mesmo de Jesus nascer.


POR QUE AS PESSOAS CREEM?


Eu sempre me questionava (e me questiono ainda mais quanto mais o tempo passa e quanto mais penso e aprendo) sobre o que leva as pessoas a acreditarem a ponto de abraçarem religiões muitas vezes exploradoras e claramente “lavadoras de cérebros”. Além do óbvio daquelas pessoas que se deixam explorar por verdadeiros bandidos que usam o nome de deus para tirar dinheiro delas, é difícil pra mim, por exemplo, entender como pessoas esclarecidas conseguem ser católicas. A história da igreja católica é tão horrível que, pra mim, abraçar essa religião é muito parecido com aderir ao nazismo e afirmar que o faço porque o nazismo hoje é diferente e não se cria mais campos de concentração. Não acho que estou exagerando no paralelo, acho que é bem por aí: Assim como eu, se aderisse ao nazismo, mesmo não havendo mais campos de concentração, estaria obrigatoriamente aderindo à instituição que os aprovou e os colocou em prática e me propondo a participar ativamente caso essa atividade volte a ser praticada; como católica eu pensaria que estou aderindo à instituição que criou e aplicou a inquisição e que estaria também disposta a jogar meu fósforo aceso na lenha assim que essa instituição ache que devemos voltar a queimar hereges.


SOBRE FÉ E RAZÃO


Talvez até haja um pouco de preconceito da minha parte nisso e eu esteja errada, mas acho que não; sempre vi teologia como um estudo ligado a uma religião, sempre penso em teologia como uma tentativa de colocar lógica na fé, que é por si só algo ilógico. Não sei muito sobre teologia, mas só vejo esses cursos ligados a instituições religiosas, daí que, me perdoem se eu estiver blasfemando, mas nunca consegui encarar teologia como uma ciência. Por conta disso fui para a filosofia. Estou fazendo esse pós e, para minha surpresa, sou a única ateia da turma, eu que pensei que encontraria muitos iguais por lá! Tem religiosos bastante convictos até, não só entre os alunos mas também entre os professores. Isso bate bem com o que me disse uma amiga: “São pessoas, estão por toda parte”, só não consigo ver muito onde estão as pessoas que são ateias como eu.


Outra coisa com que não consigo concordar, ainda nas malhas da teologia e que está muito na moda afirmar, é isso de que a ciência, a filosofia e a religião podem andar juntas. Ciência e filosofia sim, sem dúvida podem e devem andar juntas, são irmãs, são mãe e filha, são consequência uma da outra. A ciência pesquisa e descobre que algo é assim, a filosofia pergunta por que é assim; a ciência dá uma resposta e volta-se para a próxima pergunta, a filosofia pensa o que fazer com essa resposta. Mas a religião? A religião amarra a ciência e submete a filosofia, a religião tem respostas prontas onde a filosofia tem perguntas, não aceita os avanços científicos e nega provas na teima por seus dogmas. Na minha opinião, o casamento da filosofia e da ciência com a religião só serve para atrasar qualquer avanço no pensamento humano. Religião não busca conhecimento, ela se julga dona dele. A mais atual prova do absurdo desse casamento é o fato de se estar querendo forçar a que se ensine o criacionismo junto com a teoria da evolução nas aulas de ciências; em vários lugares dos Estados Unidos já se está fazendo isso, e há uma pressão para que o mesmo seja feito aqui no Brasil. Não faz sentido o casamento da liberdade de pensamento e pesquisa com a proibição da liberdade em qualquer sentido em que esta se manifeste. Outra coisa que, sem partir para a apelação dos radicalismos do oriente médio, mostra bem a intransigência da religião e seu estranhamento quanto à ciência e até quanto à ética, é o número de assassinatos de médicos que fazem aborto, e o exemplo que foi noticia recente da excomunhão, por parte da igreja católica, do médico e da mãe que, com a intenção de salvar a vida de uma menina de nove anos estuprada pelo padrasto, optaram pelo aborto. Estas histórias, que me dão nojo, não conseguem tirar os fieis das igrejas e eu simplesmente não consigo entender por quê.


Talvez eu esteja sendo radical demais, mas é que acho que quando a religião fala em liberdade ela mente, e eu vejo essa mentira e não gosto dela porque ela me parece uma mentira deliberadamente construída com aparência de verdade para enganar e direcionar os pensamentos para onde a religião quer que eles se direcionem. Eu não consigo me imaginar livre sem poder, por exemplo, questionar a existência de deus a ponto de negá-lo, olhar a vida e a história da mulher antes de condenar o aborto, ver as crianças jogadas pela calçada das cidades grandes e me perguntar que raio de deus é esse que permite algo assim em nome de uma abstração tão falsa quanto incoerente chamada livre-arbítrio. Se minha liberdade tem que ser montada sobre uma verdade construída, ela deixa de ser liberdade. É assim que a filosofia fica quando se alia à religião.


SOBRE EVOLUÇÃO E SER OU NÃO VEGETARIANO


Se existisse um deus, na minha opinião, independente de toda a verdade da teoria da evolução, ele teria sim me criado onívora, criado a todos nós, humanos, como animais onívoros. Afinal, o que dizem dele, entre outras coisas, é que ele é onisciente, então, antes mesmo de ter criado o mundo, antes da primeira forma de vida unicelular e aquática, ele teria, obrigatoriamente, que saber que a evolução levaria à criação do homem e que um dia eu nasceria e que seria humana, portanto, um animal onívoro. Ele saberia também que eu seria uma privilegiada e teria, ao contrário de muitos outros animais, humanos e não humanos, condições de negar essa minha característica e optar por não comer carne. Se deus existisse, eu não teria optado por me tornar vegetariana, continuaria comendo meus filés de picanha e meus sashimis sem culpa porque teria a certeza de que a culpa seria dele, só dele...


Também, ao contrário de alguns religiosos que aceitam a teoria da evolução querendo, numa tentativa de casar ciência com religião, afirmar nossa evolução maestrada por um deus bondade que deu oportunidade a que vivêssemos nesse mundo evoluindo de acordo com o que eles acreditam que Darwin afirmou que evoluímos. Eu não vejo essa evolução no sentido que percebo na afirmação dessas pessoas que crêem em um deus maestro da teoria de Darwin. Não acho que nós evoluímos no sentido de nos tornarmos melhor, evoluímos apenas no sentido que Darwin deu a essa palavra: no sentido de mudar, não necessariamente para melhor, a fim de adaptarmos nosso organismo às condições de nosso habitat. Isso vale para todos os animais, inclusive os humanos. Não há um juízo de valor na teoria da evolução de Darwin. E, aí estou sendo mais radical, mas acho que já expliquei essa minha descrença lá em cima quando falei de reencarnação, não acho que haja evolução espiritual também, se houvesse não teríamos esse mundo moderno tão cheio de assassinos e doentes morais como é o presente em que vivemos. Não evoluímos, apenas nos adaptamos, na minha opinião sem deus e sem alma, até que a terra consiga de alguma forma se livrar de nós.





11 de dezembro de 2009

TROCA

Às vezes ao tentar contar uma história não encontramos o ponto exato onde tudo começou, no meu caso tenho esse ponto exato muito claro em minha mente. Era sábado e eu estava deitado na cama e vendo televisão enquanto ouvia, vindo do banheiro, o barulho do chuveiro ligado. Ouvi o momento em que o barulho cessou e poucos minutos depois a porta se abriu e eu quase caí da cama. Saindo do banheiro, ao invés da minha esposa enrolada na toalha, vi uma mulher nua que não se parecia em nada com ela. Corri ao banheiro passando pela desconhecida e conferi que não havia ninguém lá, minha esposa havia sumido! Parei diante da outra perguntando apressadamente quem era, como havia aparecido assim e por quê. Antes de perceber que ela falava comigo, percebi que estava me comportando como louco, eu estava mesmo enlouquecido! Parei, respirei fundo, voltei ao banheiro, peguei a toalha e entreguei à mulher, ela ficou segurando-a como que sem saber o que deveria fazer com ela e continuou falando. Dei-me conta então de que ela estava repetindo algo como se fosse uma espécie de mantra, mas eu não entendia nada e não conseguia identificar que língua era aquela. Sentei na cama e tentei me acalmar olhando para a mulher que continuava em pé e que parecia não saber que a toalha serviria para cobrir seu corpo nu. A primeira coisa que me veio à mente foi que ela parecia uma boneca de plástico daquelas com as quais minha filha brincava. A pele era muito lisa e muito “certa”, os cabelos pareciam sintéticos de tão certos. Detectei “certo” demais na minha definição mental da mulher.

Ela continuava falando e sua voz havia subido um tom, achei que estava se desesperando e por isso olhei de frente para ela e disse, fazendo os sinais que achei adequados, que eu não estava entendendo nada do que ela dizia, ao mesmo tempo tomei de sua mão a toalha e, devagar, enrolei-a em seu corpo de boneca de plástico. Ela foi parando de falar à medida que eu falava, parece que também não conseguia entender o que eu dizia. Quando se calou, caminhou devagar até a cama e sentou-se, parecia ter desistido de entender o que estava acontecendo. Sentei-me a seu lado e perguntei “Quem é você?” Ela me olhou e adivinhei uma incompreensão em seus olhos, percebi, aliás, que os olhos dela, ao contrário do rosto, eram muito expressivos. Lembrei dos filmes de televisão e fiz os típicos gestos enquanto dizia meu nome e perguntava o dela:

- Meu nome é Ivan, eu sou Ivan. – e eu tocava meu peito com a mão esquerda (sou canhoto) – e o seu, qual é o seu nome? - E eu tocava de leve a ponta do dedo indicador na toalha na altura do peito dela.

- Lua – Ela disse essa palavra que parecia com a palavra lua, mas não era exatamente a mesma pronúncia, o L era também um pouco N e o U era também um pouco O.

Eu simplesmente não sabia o que fazer, fiquei em pé e comecei a andar devagar pelo quarto enquanto tentava pensar:

- Onde diabos se meteu minha mulher?

Tentando ser racional e prático, fui até o guarda-roupas e peguei um vestido da minha esposa para a desconhecida “Lua”. Mostrei a ela o vestido, fiz os gestos mostrando que ela deveria tirar a toalha e colocar o vestido para que pudéssemos sair do quarto; eu me sentia um palhaço fazendo todas aquelas mímicas exageradas, e não sabia se ela estava entendendo. Parece que entendeu alguma coisa, tirou a toalha (a nudez parece que não era problema para ela) e pegou o vestido se atrapalhando para colocá-lo, tive que ajudá-la e me parabenizei por ter pegado um vestido tipo robe, o que facilitou muito porque a mulher parece nunca ter visto um vestido em sua vida, ela não sabia nem o que era em cima e o que era embaixo naquele pedaço de pano. Pensei em pegar uma calcinha, mas desisti, o vestido era comprido e o tecido era grosso o suficiente para que ela não tivesse constrangimento, ou melhor, para que ela não ME fizesse ter constrangimento.

Saí do quarto com ela e desci as escadas ainda sem saber direito o que faria. Tenho um casal de filhos e eles estavam na sala jogando vídeo game, nem me viram entrar, tive que chamar por eles:

- Gabriel, Amanda! – os dois se viraram ao mesmo tempo e olharam com estranheza para a mulher

Enquanto a puxava delicadamente para a frente, tentei explicar o que aconteceu tendo total consciência do absurdo que estava falando.

- Sua mãe foi tomar banho e sumiu no banheiro, ela apareceu no lugar, não sei como...

- Por que ela está usando o vestido da mãe? – Amanda perguntou apontando a mulher com o dedo, e sua voz tinha um tom recriminatório.

Antes que eu tivesse tempo de responder os dois falaram ao mesmo tempo, Gabriel e a mulher.

- Quem é ela? – isso foi o que ele disse, também apontando para ela, o que ela disse nenhum de nós três entendeu.

- Como eu disse, sua mãe entrou no banheiro e ela saiu. – eu falava e sentia o quanto era difícil acreditar no que eu dizia.

Meus dois filhos e a mulher começaram a falar ao mesmo tempo, sentei-me no sofá e fiquei esperando que parassem. Pararam daí a pouco e ficaram se olhando em silêncio.

- Que língua ela fala? – e enquanto perguntava, Gabriel veio sentar-se no outro sofá à minha frente.

Amanda sentou-se ao lado de Gabriel e a mulher sentou-se também na outra ponta do sofá onde eu estava. Os olhos dela expressavam mil pontos de interrogação que eu quase podia enxergar envolvendo nós todos.

- Não sei – eu disse um pouco alto demais – não sei quem é ela, não sei que língua fala, não sei de onde veio e ela está usando um vestido de sua mãe – olhei diretamente para Amanda – porque ela saiu do chuveiro nua e tive que dar algo para que ela vestisse.

- E cadê a mãe? – perguntou Gabriel muito baixinho.

- Também não sei – e eu tentava fazer sentido sem conseguir – ela entrou no banheiro, ouvi o barulho da água do chuveiro, depois o chuveiro parou e essa mulher saiu do banheiro no lugar da sua mãe.

- Ela deve ter vindo de um universo paralelo, e a mãe deve estar lá – Amanda apontou o armário onde ficavam os jogos de vídeo game como a explicar que os universos paralelos estavam nas caixinhas de jogos.

- Sei lá, pode ser – joguei o peso em cima deles – não sei o que fazer, vocês sabem?

Meus filhos tinham 15 e 16 anos. Amanda tinha usado seu lindo vestido rosado de baile há duas semanas e Gabriel teve sua festa de 16 anos no mês anterior. A mulher pareceu ter desistido de participar da conversa, levantou-se e começou a andar pela sala olhando todas as coisas com muita curiosidade nos gestos e nos olhos, ela rodou a sala, parou bastante tempo diante do aparador olhando as fotos, pegou algumas, olhou para a foto e para nós e, sem que percebêssemos o momento exato, foi andando para a cozinha.

- Não sei – era Amanda quem falava – podemos ensinar português para ela, mas vai demorar... temos que perguntar onde está a mãe.

- E aquele seu amigo que dá aula de latim – agora era Gabriel quem pensava em uma sugestão para o nosso problema - não conhece um montão de línguas? Talvez ele saiba que língua ela fala.

- Tá – e Amanda olhou o irmão com desprezo – se ela veio de um mundo paralelo, é claro que a língua dela é diferente de qualquer língua que a gente fala nesse mundo aqui, né? Seu babaca!

- Sem ofensas! – e eu tentava botar ordem no caos – a sugestão de chamar o Carlos é boa sim, mesmo que ele não conheça a língua dela, pode ter alguma semelhança com alguma das línguas que ele conhece, isso já pode ajudar...

- Isso é – admitiu Amanda a contragosto.

- Cadê ela – Gabriel olhava para os lados e realmente constatamos que a mulher de plástico não estava mais na sala.

Fomos todos olhar a cozinha, ninguém, saímos para o quintal e lá estava ela, pisando a terra do pequeno jardim que minha esposa cultivava.

- Fiquem com ela, eu vou ligar pro Carlos – fui correndo para dentro da casa deixando a estranha pisoteando a terra e falando, ou resmungando, com meus filhos, ou consigo mesma.

Entrei na sala e, antes que ligasse, meu filho veio atrás.

- Pai, acho melhor esperar um pouco mais antes de fazer qualquer coisa. Essa história é absurda demais, acho que quanto menos gente envolver, melhor... E se a gente tiver que explicar o desaparecimento da mamãe pra polícia? – meu filho tentava esconder o nó na garganta que tinha quando pensava na possibilidade de que a mãe não aparecesse nunca mais...

Parece que de repente acendeu uma luz na minha cabeça: Tentei de verdade não pensar nisso, mas estava o tempo todo lá no fundo... Minha esposa poderia não voltar! Meu filho, mais prático, pensou também nas conseqüências... se ela não voltasse, como eu poderia explicar o desaparecimento dela? Nesses casos a primeira suspeita é sempre assassinato e o primeiro suspeito é sempre o marido. Pelo menos é o que a gente vê nos seriados de televisão.

- Tem razão, melhor esperar... Não vou ligar pra ninguém - Esperei um pouco sem saber o que dizer – vou esquentar o almoço, fica lá fora com sua irmã...

Temperei a salada, arrumei a mesa, fiz nossos pratos, coloquei no microondas e voltei para o quintal. A mulher continuava pisando a terra enquanto com aparente boa vontade mostrava estar assimilando os ensinamentos do curso “português em 10 minutos” que meus filhos tentavam ministrar a ela.

Avisei que o almoço estava pronto e convencemos Lua a sair do jardim e nos acompanhar até a mesa da sala de jantar. Sentamos todos e eu trouxe os pratos, a mulher olhava tudo com muita estranheza e fez uma expressão de supremo nojo diante dos pedaços de frango assado. Enquanto mostrava sua curiosidade e sua aversão, ela falava num tom um pouco nervoso e nós três, é claro, não entendíamos nada.

Amanda fez as mímicas e usou as palavras para explicar a ela que aquilo era comida e que a gente comia assim, olha. Quando pegou um pedaço do frango e colocou na boca a mulher fez a maior expressão de espanto que já vi em toda a minha vida, empurrou o prato, levantou-se da cadeira e mais correndo do que andando voltou para o quintal.

Almoçávamos, levantávamos, ora um ora outro para confirmar que Lua continuava no quintal com os pés na terra e conversávamos a respeito da estranha mulher e seu comportamento diante da comida. Cláudia, nossa empregada que, felizmente não fica em casa nos finais de semana, é uma boa cozinheira, aquilo não tinha como ser uma crítica aos dotes culinários da moça. Só poderia ser uma estranheza provocada por ela ter visto algo muito diferente do que eram seus hábitos.

- O que será que ela come? Perguntou Gabriel.

- Eu acho que ela não come. – Amanda fazia sua expressão de entendida.

- E como é que ela estaria viva sem comer, sua boba, todo mundo sabe que se não comer a gente morre!

- Certo! “A gente” morre. Mas ela é de outro mundo, talvez no mundo dela não se precise comer para viver...

- E ela tiraria nutrientes de onde?

- Da terra. Vocês não viram como ela procurou depressa a terra e como prefere ficar lá do que em qualquer outro lugar. Acho que ela tira energia da terra meio que como as plantas fazem...

- Ela é então uma mulher-alface e faz fotossíntese? Mas não precisa ser verde pra fazer fotossíntese?

- Talvez não seja exatamente fotossíntese, talvez ela tenha outro sistema de tirar nutrientes da terra, outra maneira diferente de tudo que a gente conhece.

- É, pode ser. Eu queria saber como é isso, mas queria mais ainda que a mãe voltasse... – Gabriel colocou uma espécie de amargura de luto nessa última observação.

- Como será que ela está? Deve estar ainda mais atrapalhada do que essa mulher, sua mãe sempre foi exagerada. – Eu tentava imaginar os apuros de minha esposa, jogada de repente em um mundo estranho. Era difícil pensar...

Minha filha não disse nada, baixou a cabeça e colocou mais uma porção de comida na boca, que mastigou e demorou muito pra engolir...

Terminamos o almoço mais rápido do que o normal e voltamos para o quintal onde a mulher estava, em pé e imóvel pisando a terra. Achei que Amanda estava certa e achei que Lúcia não iria gostar nada de ver alguém pisoteando seu jardim, apesar de que, isso eu tinha que admitir, ela pisava com todo o cuidado para não maltratar as plantas.

Deixei que os meninos continuassem a ministrar seu curso relâmpago de português e fui até a geladeira pensando em oferecer alguma coisa para a mulher. Abri a porta e fiquei olhando a cerveja, o refrigerante, o suco de laranja, o iogurte de morango, a garrafa de água. Concluí que a água era mais segura, enchi um copo e levei para o quintal. Amanda entregou o copo a ela que pareceu apreciar muito, pelo menos isso ela aparentemente não estranhou em “nosso mundo”.

- Vou pra sala descansar um pouco. Qualquer problema me chamem.

Estou muito acostumado a tirar uma soneca logo depois do almoço nos finais de semana e meu corpo estava reclamando pelo sofá, cheguei a tirar um cochilo e acordei com barulho de sorrisos. Voltei ao quintal e quase caí duro quando percebi que os três estavam conversando amigavelmente, em português!

Os meninos tinham levado cadeiras para o quintal e eu levei também a minha. Passamos o resto da tarde conversando. Ficou claro que a mulher estranha já não era mais tão estranha. Lua aprendia as coisas com espantosa facilidade mas não sabia explicar melhor do que eu mesmo o que tinha acontecido. Ela contou que estava em casa sozinha porque todos tinham ido à Festa da Limpeza e ela voltara correndo a fim de pegar um livro que emprestaria para uma amiga, quando estava procurando o livro aconteceu “aquilo”; em um momento ela estava em sua sala e no momento seguinte estava no nosso banheiro.

Nós ficamos imaginando o que faria Lúcia sozinha na casa de Lua, ficamos perguntando mil coisas a ela para ver se conseguíamos imaginar uma maneira de ter certeza de que nossa esposa e mãe estaria bem. Lua tentou nos tranqüilizar dizendo que todos os que moravam com ela eram pacíficos e compreensivos.

- Todos a receberão bem, e antes de voltarem da festa ela terá tempo de conhecer a fábrica.

- Fábrica? Você mora em uma fábrica?

- É, moramos em uma construção bem grande que, muito antes, foi uma fábrica de brinquedos.

- E por que não é mais uma fábrica de brinquedos?

- Na verdade ainda é, só que não é mais fábrica só de brinquedos. Nós fazemos também enfeites, presentes e molduras pra quadros... coisas assim. Além disso, antes, ela era uma grande fábrica com muitos funcionários e uma grande produção, agora somos em onze pessoas e produzimos muito menos do que a quantidade que se produzia antigamente para vender aos montes para outras cidades e outros países.

- Quantas famílias vocês são?

- Uma só, oras...

- Uma só, mas então você tem nove filhos? – Acho que Amanda não achava que Lua parecesse uma mulher que tivesse tido nove filhos...

- Não, eu não tenho filhos. Somos todos adultos e formamos uma família porque estamos vivendo juntos na fábrica, tivemos um filho uma vez, mas ele cresceu e foi viver em outra família.

- E ele não vem te visitar?

Teve muitas perguntas, muitas explicações, muitos estranhamentos de ambas as partes, eu quase não falei e, quando achei que estava na hora, fui até a cozinha preparar o jantar, Gabriel levou outra jarra de água para deixar ao alcance de Lua. Pelo que entendi da conversa o mundo de Lua era muito diferente desse em que ela foi cair mas o mundo dela havia sido, em épocas muito remotas, bastante parecido com o nosso. Talvez – e foi uma idéia que me passou pela cabeça assim de repente e, é claro, uma idéia muito influenciada pelos muitos filmes e livros de ficção científica que já vi. Talvez o mundo de Lua não fosse tão outro, talvez fosse o mesmo em outra época... será que ela é, no final das contas, uma viajante do futuro?

Mas tínhamos um problema prático e tivemos que resolvê-lo, depois de conversarmos muito durante o jantar liguei para a polícia e demos queixa do desaparecimento de Lúcia. Esse telefonema, como era de se esperar, desencadeou uma via crucis que nunca mais parou: policiais aparecendo para fazer perguntas nas horas e lugares mais impróprios, familiares vindo à nossa casa como se fosse para um velório, contar a mesma história um milhão de vezes e até mesmo fazer reconhecimento de cadáveres.

Conseguimos esconder Lua durante algumas semanas e depois ela surgiu como governanta e acabou levantando bem menos suspeitas do que esperávamos, nem Cláudia, que passava a semana toda em casa, fez qualquer ligação entre o desaparecimento de Lúcia e o surgimento de Lua. Acho que se estivéssemos com essa história em um daqueles seriados de tevê em que detetives investigam um desaparecimento e, depois de muitas reviravoltas acabam conseguindo encontrar, julgar e condenar o assassino, eu teria sido julgado. É claro que a cumplicidade e esperteza dos meus filhos fez toda a diferença.

Aos poucos Lua, que tomou posse do quintal e do quarto de hóspedes, foi se adaptando à rotina da casa e começou a ver televisão durante a tarde como quem estudava, com aplicação e empenho, uma matéria da qual não gostava muito. À noite eu voltava do consultório e conversávamos sobre o dia, volta e meia a lembrança de Lúcia embaçava os olhos de Amanda ou de Gabriel e tornava mais áspera e difícil a minha voz. Sempre tentávamos pensar que ela estava bem e a descrição que Lua fazia de seu mundo ajudava muito nesse processo.

- Mas, Lua, se vocês não comem, se não se ferem, se não podem matar nem vegetais, como minha mãe vai conseguir sobreviver? Ela é como nós, precisa comer para viver, mesmo que seja apenas frutas e legumes...

- Meus amigos vão conseguir, com toda a certeza, encontrar frutas maduras e vegetais ainda frescos que as plantas dispensam naturalmente e darão de comer a sua mãe, Gabriel, não se preocupe, se tem uma coisa da qual tenho certeza é que ninguém vai permitir que sua mãe morra de fome, juro.

Essas afirmações sempre nos deixavam menos preocupados e o tempo é um remédio que age mesmo contra a vontade dos doentes, aos poucos a lembrança de Lúcia ficou menos dolorida e não era mais tão comum que eu ouvisse – e fingisse não ter ouvido – os choros abafados de Amanda ou de Gabriel nos seus quartos. Procurei respeitar a privacidade deles e só demonstrava minha compreensão, e os abraçava e consolava da melhor maneira que conseguia, quando eles não escondiam esses soluços e anunciavam sentir saudade da mãe.

Um dia Lua foi embora. Anunciou de repente que resolvera se aliar a alguns biólogos e morar numa reserva onde ajudaria a cuidar de animais e proteger as matas, não ficamos muito surpresos na verdade. Já que não tinha como voltar para casa, ela só poderia mesmo optar por uma vida que tivesse ligação com a natureza e que a deixasse em contato com a terra, que é a única que a alimenta. Só esperávamos que Lúcia também tivesse encontrado algo interessante para fazer de sua nova vida. Ela sempre levou jeito com artesanato, talvez esteja se sentido bem com uma família que fabrica brinquedos.