23 de janeiro de 2009

HOJE ESTOU DEIXANDO DE SER HIPÓCRITA

(ou de como o ateísmo me tornou vegetariana)

Até o ano passado, sempre que alguém me perguntava qual é a minha religião, eu respondia: “Não sou nada.”, ou então, para ser mais engraçadinha, eu dizia que “Eu não sou de nada.”
Quando essa pergunta era feita por alunos, dificilmente ficavam satisfeitos com a resposta e geralmente me perguntavam se sou atéia, daí então eu explicava que “Não sou atéia por dois motivos: o primeiro é que acho essa palavra horrorosa e o segundo é que eu simplesmente não sei se deus existe ou não.” Era fatal que algum, ou alguns alunos viessem com as frases feitas daquela certeza total da existência, da glória, da sabedoria e da verdade de deus que ouviram em casa e na igreja a que foram levados pelos seus pais desde muito pequenos a fim de aprenderem a recitar os dogmas sem questioná-los e a citar versículos da bíblia sem tê-la lido. Os mais insistentes, geralmente evangélicos, freqüentemente queriam tomar a si a nobre missão de me converter e muitas vezes eu tinha que cortar o assunto e dizer que precisava continuar a aula e dar atenção aos outros alunos.
Mas ultimamente me permiti pensar muito a respeito desse assunto e dos meus sentimentos quanto a ele, desses pensamentos e consultas resultou que simplesmente descobri que sou atéia sim e que mesmo continuando a achar feia a palavra é o significado dela que me define. Não é muito fácil se assumir atéia, acho que foi por isso que cunharam a palavra “agnóstico”; ela é menos definitiva, meio que deixa uma porta aberta para dar ao mundo a impressão de que ainda é possível que se mude de idéia. O agnóstico parece não ser tão “abominável aos olhos de deus” como são os homossexuais e os ateus. Mas é claro que isso é apenas uma impressão minha...
Quanto a comer carne, sempre afirmei que sou hipócrita: como a picanha sem me lembrar do boi, e se alguém tentava insistir eu dizia que “Oras, não afirmam que fui criada por deus? Se fui criada por deus e sou onívora, a culpa de eu comer carne é dele e não minha”. E a minha consciência nunca pesou diante de um belo bife a não ser pelo fato de saber que isso geralmente significaria alguns quilinhos a mais. Eu coloquei a culpa em deus e deixei pra lá, assumi a minha hipocrisia e não pensei mais no assunto, estive todos esses anos me alimentando de suculentas coxas de frango e lingüiças de porco, filés de picanha e postas de cação, hambúrgueres maravilhosos e rosadas fatias de presunto.
Mas nos últimos dias, depois de passar algum tempo colhendo material para ilustrar algo que pretendo escrever sobre cadeia alimentar e esporte de caça e pesca, comecei a repensar minha postura de colocar a culpa em deus e deixar pra lá, ou seja, comecei a ver o óbvio que estava me negando a olhar por puro comodismo, preguiça e facilidade de encontrar uma boa desculpa para não me privar de coisas que me agradam.
Bem, o fato é que sou atéia e portanto não acredito em deus e não acho possível, crível ou aceitável que essa figura mitológica exista. Se ele não existe é mais do que lógico que ele não me criou e muito menos decidiu se eu seria onívora ou não; então, como é possível que eu coloque sobre algo que não existe a responsabilidade por ser como sou? Não é culpa de deus eu ser onívora assim como não é culpa do papai Noel eu não ter recebido presente no natal de dois ou três anos atrás, não é culpa do duende da sorte eu ter perdido meu anel de formatura e não é culpa da fada azul eu não ter um vestido maravilhoso para o baile de casamento daquela minha amiga mais ou menos rica.
Isso não significa, é claro, que tudo isso seja culpa minha. Ah, mas isso não é mesmo! Se não existe um deus para ser responsável pela minha criação e pelo fato de eu ter nascido onívora e gostar de carne, muito menos existe a possibilidade de que eu mesma tenha me criado e decidido me fazer gostando de carne. Esse deus fantasia incoerente na qual tanta gente crê não é culpado porque não existe e eu não sou culpada porque não tive escolha quanto a ser o que sou.
Mas penso que embora a vida seja horrível, ruim, triste e inútil no geral, os seres vivos tendem a querer preservá-la e a ameaça a essa vida causa pânico em todos os seres vivos e não apenas nos oniprepotentes seres humanos. Penso também que um ferimento pequeno ou grande vai certamente resultar em dor, seja no corpo de um ser humano ou no de outro ser vivo qualquer. Eu não sou culpada por sermos, nós e os outros, sensíveis à dor e capazes de sofrer e de sentir medo, mas os outros seres vivos que habitam o planeta também não são.
Se eu sei o que sinto quando me cortam a carne ou quando ameaçam a minha segurança, não tenho nenhuma razão para não saber, ou pelo menos ter uma idéia, do que sente uma galinha, um boi, um porco ou uma sardinha. Racionalmente, depois de ter pensado nisso e de ter essa consciência de algo não mais desculpável por subterfúgios de um raciocínio hipócrito-programável, não tenho mais nenhuma justificativa para continuar comendo carne.
Uma amiga minha deixou de comer carne mas continua comendo peixe porque ela é muito religiosa e diz que Jesus era amigo dos pescadores e mandava (ou autorizava) que se comesse peixe; então, para ela o peixe é permitido. Eu não posso me dar a esse luxo. Não tenho nenhuma crença ou respeito pela bíblia que não tenha também pelo Senhor dos Anéis ou pelo gibi do Pato Donald e não dou mais importância à figura de Jesus do que dou à do Pequeno Príncipe, portanto para mim os peixes são tão dignos e merecedores do meu respeito e da minha abstinência consciente quanto o coelho ou o leitão.
Por essas razões, apesar de adorar carne, de ser apaixonada por sachimi, de sentir uma fominha danada só com cheirinho de bacon e de achar o Mc Donald’s um dos lugares mais freqüentáveis do mundo, a partir de hoje não mais comerei nenhum tipo de carne... Agora, cerveja eu não vejo nenhuma razão pra cortar da minha dieta não.

Será que cevada sente dor???