14 de abril de 2009

COMENTÁRIOS DA MIRIAM

(Sobre o Texto O Segundo Gênese)


Querida Divina,


Eu sou chata, então, vou lhe dar mais algumas coisas para pensar.


1) Na realidade os bebês não nascem por livre e espontânea vontade. Eles só nascem porque são literalmente expulsos do mundo uterino, caso contrário, permaneceriam lá para sempre, no bem bom. O nascimento é uma das primeiras lutas que os seres travam para sobreviver.


2) Admitindo-se que os novos bebês fossem muito curiosos e que saíssem do útero materno só para espiar o mundo lá fora, sem necessidade de alimento e proteção, seria completamente improvável que os mesmos desenvolvessem algum tipo de vínculo com suas mães.


3) Sendo muito curiosos e invulneráveis acho correto supor que eles sairiam por aí explorando novas fronteiras, o que a princípio me parece bom. Os bebês humanos, antes os mais indefesos de todas as espécies, tão logo caminhassem seriam independentes e libertariam seus genitores do trabalho de criá-los.


4) Esses novos bebês que não poderiam ser feridos, cortados, queimados ou aprisionados, em tenra idade (você não explicou se emocionalmente eles seriam mais maduros que os bebês comuns) sairiam a experenciar o mundo e logo se dariam conta de sua invulnerabilidade, o que lhes permitiria viver experiências que os humanos comuns jamais sonharam. Eles se atirariam de qualquer altura, nadariam em represas, lagos e oceanos, atravessariam ruas e avenidas sem se importar com os veículos, ateariam fogo em qualquer coisa por puro prazer e divertimento e, fatalmente, machucariam os seres que não fossem como eles, não por maldade, apenas por curiosidade, posto que não conheceriam limites. Sinceramente, não sei o que se poderia esperar do caráter dos novos bebês.


5) As primeiras gerações de imortais sofreriam influência dos mortais anteriores, então, provavelmente seriam criados, na medida do possível, dentro dos mesmos moldes e parâmetros. Seriam cuidados, amados, alimentados, cercados de conforto, carinho e afeto e conheceriam a perda. No entanto, em pouco tempo, não haveria mais mortais, nem relação de parentesco, posto que não haveria mais nascimentos nos moldes tradicionais e as perdas seriam tão raras e distantes que poucos se dariam conta delas. As famílias se extinguiriam e as relações sociais seriam totalmente diferentes de tudo que conhecemos: mais livres, superficiais e voláteis, o que não é de todo mau sob alguns aspectos.


6) Você colocou que os imortais não necessitariam de alimentos. Sábia decisão, posto que a partir do momento que não houvessem mais mortes e nascimentos para todos os seres vivos também não existiriam mais alimentos, pelo menos não os alimentos naturais e orgânicos. Como todos os seres vivos passariam a ser imortais, não haveria meio de abatê-los. Na verdade, os imortais não seriam vegetarianos, eles simplesmente não teriam o que comer, mesmo que fosse só por prazer. Eles não teriam como obter leite, ovos ou mel, posto que esses alimentos só são obtidos naturalmente por força da necessidade de reprodução. Sem essa necessidade básica vacas não produzem leite e abelhas não fazem mel.


7) Não me recordo se os seres vegetais também se tornariam imortais, acredito que sim, pois são seres vivos. Quem os polinizaria e fecundaria? O fato é que em pouco tempo não haveria mais alimentos orgânicos de nenhuma espécie.


8) Como só nasceria uma pessoa quando outra morresse o que seria do sexo? Sem a responsabilidade da concepção, penso que inicialmente o sexo viraria uma febre mundial, mas com o passar do tempo, por que razão o organismo manteria milhões de células em funcionamento para fabricar hormônios diante de uma necessidade de reprodução mínima ou inexistente? Concluo que o futuro seria assexuado.


9) Como seria impossível matar os imortais e eles não precisariam absolutamente de nada para viver, muitas profissões e ocupações deixariam de existir, eu diria mesmo, que a maioria delas, porque a atividade econômica está ligada em cadeia e a supressão de algumas eliminaria a possibilidade de existência de outras. Haveria uma crise econômica astronômica e, a essa altura, os mortais que tivessem restado se veriam privados de muitas coisas vitais a sua sobrevivência e extinguir-se-iam.


10) Os imortais, bons por natureza, não entenderiam porque suscitariam tanto medo e ódio entre os mortais e se fossem capazes desse sentimento, se sentiriam profundamente infelizes. Penso que o índice de mortalidade entre eles seria elevado, pelo menos durante um certo período.


11) Tendo em vista a natureza dos imortais, não creio que seriam capazes de criar laços afetivos profundos, mas se fossem, conforme fossem crescendo, penso que morreriam mais de tristeza e tédio do que de desilusão amorosa. Sem dúvida a principal causa de morte entre eles seria a depressão.


12) Eu não consigo imaginar como as novas crianças se tornariam prestativas, carinhosas e amigas. Elas nasceriam assim? Nasceriam dotadas e equipadas com esses sentimentos? Caso contrário, a probabilidade de serem egoístas, frias e distantes seria muito grande, posto que nunca precisaram de nada, nem de ninguém.


13) Aceitando-se a hipótese de que as novas crianças fossem naturalmente dotadas de bons sentimentos e que seriam naturalmente curiosas, acredito que algumas quisessem estudar, mas não todas e não haveria nada, nem ninguém que pudesse obrigá-las. Enquanto uma parte se dedicaria aos estudos, esportes e artes, algumas não fariam nada e o tédio se alastraria de vez. Se não fosse preciso fazer nada para sobreviver sobraria muito tempo livre, mas livre para fazer o quê?


14) Não entendo como ou porquê os imortais continuariam a produzir coisas. Se não precisassem se abrigar, se alimentar ou se proteger com que finalidade construiriam prédios, edifícios, casas e todos os artigos de uso doméstico? Por que buscariam soluções para problemas inexistentes? Por curiosidade, engenhosidade, prazer, conforto, vaidade?


15) Penso que seria mais fácil imaginar que os novos seres se dedicariam muito mais à tecnologia: comunicação, fontes de energia, meios de transporte, viagens espaciais, etc, mas ainda sim tenho dúvidas, pois não sendo ameaçados por coisa nenhuma, não sendo consumistas, nem gananciosos, não estando limitados pelo tempo, onde encontrariam motivação?


16) As artes empobreceriam demasiadamente. Toda manifestação artística é oriunda do desejo de entender, explicar ou transformar a realidade. Boa parte das grandes obras foi feita em face do sofrimento. Se não há sofrimento, não há indignação, nem o que transformar. A expressão artística seria meramente contemplativa. Todos tocariam lira e com tempo aprenderiam a pular nas nuvens, num aborrecido e eterno balé.


17) Com relação a deus, tanto o que não existe, quanto o deus criado pelo homem a sua imagem e semelhança já teriam deixado de existir há muito tempo. Em boa parte, Deus é um consolo para o sofrimento humano, sem sofrimento os homens dispensariam deus rapidinho.


Amiga, entre todas as coisas maravilhosas que você imaginou, penso que você poderia se ater somente a uma: em um dado momento e por razões inexplicáveis, os homens passaram a nascer com um amor desmedido por todas as criaturas e seres viventes, independentemente do grau de parentesco, proximidade, raça ou espécie. Em função disso não conseguiam mais prejudicar nada ou ninguém, nem aceitar qualquer tipo de função, orientação, instrução ou comando que os levasse a isso. Não seria perfeito, mas metade dos problemas estariam automaticamente resolvidos e toda e qualquer dor seria menor e mais suportável.


Grande beijo,

Mi

13 de abril de 2009

AOS MEUS AMIGOS

Dizem que deus é capaz de iluminar a minha vida.
Não!
mas o sorriso de um amigo é!

Dizem que na bíblia posso encontrar tudo o que faz bem à minha alma.
Não!
mas nos olhos de um amigo posso!

Dizem que crer em deus me levará ao paraíso.
Não!
mas ver um amigo feliz me leva!

Dizem que encontrar Jesus é a suprema felicidade.
Não!
mas encontrar um amigo que não vejo há muito tempo sim!

Dizem que a palavra de deus consola e traz a paz.
Não!
mas as palavras de um amigo fazem isso!

Dizem que o amor de deus me fará sentir compreendida e agasalhada.
Não!
mas o carinho dos amigos faz!

Dizem que ser serva de deus é a maior das felicidades.
Seguramente não!
mas estar junto dos amigos é sim, é sim, é sim!

Dizem que deus é o amor mais sublime, abrangente e completo.
Não!
mas o amigo é!

Dizem que saber que deus existe
dedicar minha vida a glorificá-lo
é a única maneira de me salvar do sofrimento eterno.
Não e não mesmo!

Mas estar à disposição dos amigos,
dar apoio, carinho, companhia,
força, consolo, alegria;

isso sim, pode me salvar,
- e aos meus amigos -
do sofrimento eterno!

Não creio em deus
mas creio na amizade...

Quando me ouvir ou me ler
abominando religião e crença,
não se sinta abominado por mim.

Eu combato as idéias
não as pessoas
Menos ainda os amigos.

(-----------)

Sempre recebemos, vindos de todos os lados, recados, mensagens, avisos e até ameaças pretensamente chegados a nós diretamente de deus. Alguns deles chegam até a vir assinados.

Como todo mundo, recebo, direta e indiretamente em todas as formas, por todas as vias de comunicação e praticamente em tempo integral, lembranças de religiosidade. A diferença, e assumo a culpa por isso, é que, em meu caso, muitas delas me irritam, me aborrecem, me revoltam, acionam em alto e bom som o meu alarme antiestupidez. Daí eu fico brava e respondo dirigindo minha ira a quem teve a infeliz idéia de criar mensagens estúpidas.

A minha falha, muito séria eu admito, é que em geral quem manda para mim essas mensagens não é a pessoa que as criou, mas é o meu remetente, junto com todas as outras pessoas da minha lista de endereços, que recebe a resposta. Então os amigos, pessoas de quem gosto muitíssimo, ficam muitas vezes magoados, ofendidos até, e não era minha intenção ofender nenhum amigo; era minha intenção sim provocar o máximo de pessoas para que pensem melhor nas mensagens em questão, para que percebam a estupidez camuflada de “milagre divino” contida nelas e enviem minha resposta pelo caminho de volta até que ela chegue à pessoa que criou a mensagem para que, quem sabe, essa pessoa pense melhor antes de escrever e publicar besteiras.

Exemplos são fartos, como aquela historinha do menino que faz xixi na roupa em plena aula. Depois de pedir a deus que o salve, ele é salvo, não por deus mas por uma coleguinha de classe, uma menina que teve a sensibilidade de perceber o que acontecia e a inteligência de criar uma situação que livrasse o menino do vexame, e ela explica depois que fez isso porque já passou por essa situação uma vez e sabe o quanto é desagradável. Acontece que o gesto nobre da garota é recompensado com desprezo e ofensas vindos dos outros alunos que a acusam e a afastam por ter sido “desastrosa”. O menino salvo não faz nada para ajudá-la, não mostra a nobreza dela.

A pessoa criou a mensagem colocando lindas fotos, musiquinha adequada e palavras de fé alertando-nos para a “bondade” do deus que atendeu a oração do menino e livrou-o do sofrimento, mas essa pessoa parece não ter pensado um segundo sequer na garotinha que passou por situação constrangedora DUAS VEZES, mesmo tendo ela, embora tão pequena, mostrado o melhor caráter que se pode esperar de um ser humano. Será que esse ser religioso ao ponto de cegueira não se deu ao trabalho de sequer considerar a menina só porque não diz na história que ela tenha rezado em algum momento?

É esse tipo de cegueira racional que leva pessoas que se acham boas e santas a cometerem crimes, agirem com injustiça, desprezarem os valores humanos. Foi esse tipo de mentalidade estreita que mostrou ter o tal “bispo excomungador”; que o papa visivelmente está mostrando ter quando abomina os homossexuais, condena o uso de preservativos e MENTE afirmando que camisinha não evita AIDS; é o que os líderes religiosos que respondem a processos mostram ter quando continuam pedindo dinheiro aos fiéis, e é o que os próprios fiéis mostram, até sem o notar quando, em lugar de ajudar uma criança a sair da rua, aprovam a pena de morte e ajudam a engordar a fortuna desses líderes ladrões.

Se me revolto com isso, quero crer que tenho motivos mais do que justificados. Ao longo dos anos tenho visto uma crescente intolerância que me preocupa sinceramente. A razão da minha revolta é a percepção de que as pessoas se recusam a pensar e, o que é muito pior, ensinam as crianças a não pensar. Vejo em sala de aula, aluninhos de quinta série, ofendendo colegas por causa da religião com palavras e frases que não são deles, que ouviram em casa dos pais e na igreja do padre ou do pastor. Algumas dessas crianças me olham como se eu fosse um extraterrestre quando digo que não tenho religião (e olha que eu nunca disse em sala que sou atéia!).

Quando trabalho com o tema preconceito eles são rápidos em citar a bíblia para afirmar que “Se encontro um “viado” na rua eu caceto mesmo!”, “pode descer a lenha sim, professora, deus não gosta dessa gente, tá na bíblia!”. É só permitir uma conversa a respeito da homossexualidade que qualquer professor vai ouvir frases desse tipo, pronunciadas por alunos desde as primeiras séries do ensino fundamental até já adultos nas aulas de suplência. E o mais terrivelmente assustador é que se levantar o problema na sala dos professores, vai ouvir frases semelhantes dos próprios colegas. A grande maioria dos trabalhos abordando preconceito desenvolvidos nas escolas exclui qualquer menção à homossexualidade.

Textos do tipo dessa mensagenzinha idiota que citei acima costumam ser usados nas escolas, por professores, principalmente de ensino religioso, e pela direção e coordenadoria. Eu mesma o vi pela primeira vez em uma reunião de professores. As pessoas não pensam. Eu não entendo por que pessoas cultas, inteligentes e boas se recusam a pensar quando o assunto é religião. Em nome de um “amor a deus”, de uma adesão irrestrita ao que afirmam ser a “verdade”, as pessoas esquecem o simples e básico sentimento de respeito ao próximo; e nem sequer se dão conta disso!

É comum, quase obrigatório, afirmar que não podemos falar mal de religião, que não se pode criticar qualquer crença ou manifestação religiosa. Não podemos nem sequer reivindicar o direito básico de ter um estado realmente laico como está definido na Constituição. Qualquer tentativa de mostrar que escola pública é um órgão público, nem mesmo pela redundância é levada a sério. Lá se faz orações no pátio com os alunos, se abriga missas e cultos evangélicos a propósito de qualquer coisa, se abarrota os quadros de avisos com imagens de santos, Jesus e coisas do tipo acompanhadas de orações e trechos bíblicos. E temos que achar tudo muito lindo, muito educativo e muito bom!

E os professores de ensino religioso comemoram o “dia da bíblia” mas nem sabem se existe um “dia do alcorão”, comemoram com orações o dia da páscoa ensinando aos alunos seu valor religioso e até desprezando o apego ao chocolate como sendo um pecado contra o “verdadeiro sentido da data” mas não falam nada sobre o dia de jogar rosas no mar em homenagem a Yemanjá. Aliás, muitos desses professores nem citam o candomblé como religião, ou ignoram totalmente, como se não existisse, ou falam que é “coisa do capeta”. Mas, apesar disso, tente alguém dizer que não aprova a existência dessa disciplina! no mínimo será acusado de estar tentando tirar o trabalho dos colegas.

Droga, eu tenho amigas que dão aula de ensino religioso, amigas que sei serem pessoas maravilhosas, amigas que considero muito e de quem gosto muito, não quero ofendê-las, não quero magoá-las, não quero fazer com que pensem que tenho algo contra elas. Mas será possível que não posso mesmo dizer que aulas de ensino religioso são um retrocesso histórico e deveriam ser ilegais por serem basicamente inconstitucionais?

Fico brava! Fico irritada! Me sinto agredida! E não quero, não posso, não consigo deixar de gritar que odeio tudo isso; mesmo amando do mais profundo da minha alma os meus amigos que têm suas religiões, ou os que, mesmo sem serem religiosos, não partilham da minha raiva!

1 de abril de 2009

O SEGUNDO GÊNESE

(Com a excelente crítica do meu filho)

E eram dois deuses. Havia o deus que o homem criou à sua imagem e semelhança e havia o deus que não existe. O primeiro deus criou o mundo em seis dias, olhou e achou que tudo era bom. O deus que não existe não conseguia olhar tudo de uma vez e foi olhando aos poucos. Foi ouvindo aos poucos, foi sentindo aos poucos. Aos poucos, o deus que não existe descobriu que o mundo criado pelo deus que o homem criou à sua imagem e semelhança não era, na verdade, bom. Então o deus que não existe ficou triste e enojado, mas não pensou em criar um outro mundo porque para isso ele teria de destruir o primeiro, e o deus que não existe achava que o deus que o homem criou à sua imagem e semelhança já tinha destruído muito e muitas coisas e muitas vezes desde que, criado pelo homem, resolveu criar o mundo. Além disso, o deus que não existe não só não gosta de destruir como acha que é justamente a destruição uma das coisas mais tristes e feias que existem no mundo criado pelo deus que o homem criou à sua imagem e semelhança. Então o deus que não existe fez com que a partir daquele dia as crianças nascessem diferentes. E o milagre da vida passou a ser um milagre mesmo.

O primeiro médico que tirou de dentro de uma mulher uma criança com o umbigo já perfeitamente curado como só costumava ser até aquele momento o umbigo de crianças que já nasceram há muitos dias ficou espantado e não entendeu como aquela criança havia permanecido sem ligação com a mãe durante todo o tempo que é necessário para cicatrizar o umbigo de uma criança. Como ele havia respirado e se alimentado sem estar ligado à mãe através do cordão umbilical? Vendo que a criança não chorava e olhava a seu redor com olhos curiosos e aparência perfeitamente saudável, o médico chegou a pensar que faria daquele parto um marco em sua vida. Examinou a criança e já estava em sua sala sonhando com a fama que aquele parto tão incomum lhe daria quando um colega entrou com ar incrédulo e contou-lhe que havia acabado de realizar um parto em que a criança tinha o umbigo cicatrizado, não chorara ao nascer, estava perfeitamente bem de saúde e olhava tudo a seu redor com olhos curiosos e inteligentes.

Demorou pouco tempo para que se soubesse que as crianças não nasciam mais como eram as crianças que haviam nascido até aquele dia, e demorou só um pouco de tempo a mais para que os veterinários e criadores dessem a informação de que o mesmo que acontecia com as crianças, acontecia também com os animais. Gatinhos, cachorrinhos, tigres e macaquinhos saiam de suas mães como se já estivessem sem a ligação do cordão umbilical há muitos dias. Começou-se a pesquisar todos os seres vivos e aos poucos os jornais, as revistas e as emissoras de televisão e rádio começaram a noticiar coisas que deixavam as pessoas estarrecidas e que elas teriam muita dificuldade para acreditar se cada uma delas não estivesse de uma forma ou de outra presenciando esses fenômenos em seu dia a dia. Não há como dar uma ordem fiel às notícias porque cada publicação, cada programa tinha uma coisa nova a dizer e a avalanche atordoava as pessoas a ponto de não saberem mais se tinham lido, escutado ou presenciado o que cada novidade continha.

Resumindo um pouco e da melhor maneira que se pode colocar, o fato é que se descobriu que os nascimentos estranhos eram bem mais estranhos do que se pensara a princípio. Todos os seres vivos nascidos a partir daquele dia eram completamente diferentes dos seus genitores em muitos aspectos, e isso não era verdade apenas no caso dos mamíferos, valia também para os insetos, os peixes e todos os seres vivos que se foi estudando, até mesmo os microscópicos. Para começar eles não precisavam comer. Os bebês mamíferos em geral mamaram o leite de suas mães, mas logo se pôde perceber que o faziam pelo prazer da proximidade do corpo que os aconchegava e não pela necessidade de alimento. Também não precisavam de água e no momento em que o primeiro criador tentou matar o primeiro filhote nascido depois da data em que tudo mudou, esse criador pensou estar louco. Era um homem acostumado a matar, o filhote foi caminhando como estava sendo conduzido para caminhar e o homem enfiou no lugar do coração o afiado instrumento de morte, a lâmina entrou no corpo do animal e de lá saiu tão limpa e clara como havia entrado. O homem não entendeu, repetiu o golpe e não obteve resultado diferente. O bichinho continuava parado e com os olhos claros e inocentes olhava para o homem que não sabia o que fazer com o seu espanto. Um agricultor que encontrou, em meio aos arbustos, uma pequena cobra com toda a aparência de ser venenosa ficou parado, segurando a enxada no ar e sem saber o que pensar quando, depois de receber o golpe que teria decepado sua cabeça, a pequena serpente deslizou vagarosamente por entre as folhas arrastando seu corpo intacto. Depois de muito espanto de todo tipo e em todo lugar, soube-se que os seres vivos nascidos depois daquele dia não podiam ser feridos, cortados, queimados ou aprisionados.

Estudiosos explicaram que esses novos seres, que começaram a ser chamados de Imortais por alguns, de Highlanders por outros, de Mutantes por mais alguns e de outros nomes do tipo em diferentes lugares e em diferentes línguas, parece que tinham a faculdade de permitir que os átomos que compunham seus corpos deixassem espaço para a passagem dos átomos que compunham outros corpos, vivos ou não. Muito se aprendeu sobre os átomos e as moléculas graças a essas explicações. Revistas e livros foram publicados colocando em linguagem acessível a noção científica de vazio. O que as pessoas comuns ficaram sabendo no final de tudo foi mais ou menos que todos os seres, vivos e inanimados, são compostos de átomos, que esses átomos não são corpos sólidos e densos, que entre os átomos e entre as partículas que compõem os átomos existem espaços vazios proporcionalmente imensos. Com essa explicação simplificada ao máximo, começou-se a entender que esses espaços vazios dos corpos estavam agora permitindo a passagem de partes de corpos diferentes. No final de tudo viu-se os seres como um aglomerado de substâncias que se juntam como se juntam as partículas de água no céu, que formam nuvens, que podem adquirir variadas formas mas que podem ser varadas sem dificuldade por um avião, um pipa, um pássaro e até um pico de morro mais alto. Uma discussão interessante e acalorada que dividiu opiniões e rendeu muitas publicações e programas especiais de televisão foi se os novos seres quebravam ou não a lei da física chamada Princípio da Exclusão de Pauli, segundo a qual dois corpos não podem ocupar o mesmo lugar no espaço ao mesmo tempo.

Logo se começou a denunciar com manchetes alarmantes o problema da superpopulação de todos os seres vivos do planeta. Havia uma catástrofe de imensas proporções à vista, o que se poderia fazer quanto a isso? Muita gente começou a tentar métodos sofisticados a fim de descobrir como matar os imortais. Ninguém mais falou em espécies em extinção; o que há tão pouco tempo era a grande preocupação de muitos biólogos, naturalistas e outros apaixonados pela natureza, simplesmente deixou de ser assunto. Não havia mais risco de extinção, o perigo agora era justamente o oposto. Algumas pessoas mais radicais começaram a dizer que os imortais eram seres diferentes dos mortais e, como não nasciam mais mortais, esses é que estavam por extinguir-se. Teria começado uma amostra de brutalidade inusitada entre os homens se não se descobrisse logo depois que os nascimentos diminuíam drasticamente.

A princípio apenas uma ou outra pessoa notou que não era mais comum encontrar cardumes nos rios e mares, nuvens de aves ou de insetos na terra. Alguém, provavelmente um veterinário, percebeu que nenhum animal dava cria a mais de um filhote. Percebeu-se também que não nasciam mais gêmeos e que a atividade nas maternidades estava diminuindo muitíssimo. Um dia um hospital não teve nenhum parto, depois outro hospital e aos poucos não se via partos com muita freqüência. O pavor da superpopulação se extinguiu tão rapidamente como começara e outro medo, mais sutil e mais corrosivo começou a surgir com toda a força com que esse tipo de medo sempre surge: o medo do diferente, a inveja, a não compreensão que já tantas vezes em nossa história tem feito surgir o preconceito.

E os lindos bebês que nasceram sem chorar já não eram vistos com tanta boa vontade, em geral somente seus pais os amavam, as demais pessoas os temiam e evitavam sua proximidade. Muitas crises de depressão a mais do que o normal foram tratadas, muito mais livros foram publicados explicando muito bem para os mortais comuns o quanto o curso natural da vida é bom, como nosso corpo é apenas uma moradia temporária, que depois disso teremos uma existência maravilhosa aí sim, eterna e livre. As igrejas do deus que o homem criou à sua imagem e semelhança ficaram cheias. Multidões de fiéis agradeciam a ele por sua mortalidade, mesmo que, no fundo e em silêncio, estivessem fazendo uma prece muito intensa para que o deus que o homem criou à sua imagem e semelhança fizesse o milagre de os tornar iguais aos imortais.

Mas o milagre que aconteceu foi outro. Os homens começaram a perceber e depois comprovaram que os seres vivos nascidos depois daquele dia não eram na verdade imortais. Depois de esgotarem as possibilidades de destruir esses seres (a maioria das tentativas foram feitas com animais, mas não todas), começaram a encontrar animais mortos. Era apenas um ou outro mosquito, uma ou outra formiga e até alguns pássaros. O problema é, pela raridade da ocorrência, que foi um pouco difícil comprovar que os mortos eram seres nascidos depois daquela data, quando alguém afirmava ter visto, por exemplo, uma mosca morta, outras pessoas duvidavam da veracidade da informação e, mesmo que mostrassem o inseto, muitos diziam que era guardado de antes daquele dia. Animais mortos que tivessem nascido depois daquele dia tomaram o lugar dos OVNIs, muito vistos, muito fotografados mas de pouca credibilidade. Puderam, enfim, acreditar quando morreu um camundongo em um laboratório. Aquele animal seguramente tinha nascido depois da data, tinha se tornado inútil para os estudos normais de laboratório porque não se podia inoculá-lo com nenhum tipo de vírus, bactéria, veneno ou qualquer outra substância que seu corpo pouco depois expulsava o preparado em forma gotas que, como suor, saiam por sua pele. Conseguiram conservar o pequeno rato no laboratório dando a ele tudo o que pudessem pensar que o agradaria, sua gaiola ficou tão atraente que, embora pudesse atravessar as grades e a parede e fugir para onde quisesse, o pequeno ratinho dava apenas alguns pequenos passeios pelo laboratório e voltava para o seu ninho tão familiar, os cientistas o queriam para tentar estudar justamente a sua condição de imortal, mas um dia alguém o encontrou morto em sua gaiola. O fato foi anunciado e levado aos jornais, logo outros fatos, bastante raros mas convincentes, vieram confirmar que os imortais na verdade não eram imortais.

Mas como morriam? De quê? Qual a doença, o sintoma, o veneno, o tempo? Tudo ficava sem respostas e demorou ainda alguns anos para se descobrir que os imortais só morriam quando queriam morrer. E isso só se soube quando morreu o primeiro jovem que sofreu uma grande desilusão amorosa. Não disseram se foi um rapaz ou uma moça, soube-se apenas que esse jovem desejou morrer, deitou-se em sua cama e morreu silenciosa e calmamente, com olhos fechados e expressão de profunda amargura. Dizem que deixou um bilhete explicando que não queria viver sem aquele amor e não queria apagar nem esquecer aquela pessoa que tanta paixão lhe inspirara. A identidade de uma pessoa menor de idade foi preservada, mas, conversando com seus filhos, muitas mães e pais ficaram sabendo que aquela criatura só estava ao lado deles porque assim o desejava.

Antes disso as crianças foram crescendo e aos poucos muito se soube a respeito delas. Muito se soube também a respeito do mortal comum; enquanto alguns revelavam seu egoísmo e sua bestialidade, outros procuravam encontrar sua tolerância, sua bondade, sua humanidade enfim. Estes olhavam para os seres diferentes como um bom professor olha para seus alunos. Sabe que eles têm um poder que está longe de sua compreensão e um caminho a percorrer iluminado por brilhos e cores que sua percepção não consegue alcançar, mas sabe também que eles são merecedores desse caminho e, mesmo cego e trôpego, ele, professor, pode estender sua mão e abrir seu sorriso para que tudo seja mais fácil nessa vida que se inicia e vai até onde ele e seu sorriso não poderão ir.

Para os pais era muito fácil educar aquelas crianças. Elas não davam preocupações sérias porque não ficavam doentes e não seriam prejudicadas pelo vício das drogas, não corriam o risco de se ferirem ou morrerem em um acidente qualquer tão comum nas infâncias de até então, e esses pais logo perceberam que seus filhos não precisavam deles, não precisavam de ninguém e de nada, por isso não tinham ambições desmedidas, não tinham desejos pelo que pertence ao outro, não se estragariam no desespero do ter. Os pais em geral não entendiam a impermeabilidade de seus filhos às suas convicções ideológicas, eles não aceitavam um time, uma paixão patriótica, uma “verdade” pré-determinada. Na opinião de algumas pessoas, esses jovens careciam de emoções.

Quando começaram a ir à escola se pode saber como eram eles na convivência com outras crianças às vezes apenas algumas horas mais velhas. As crianças nascidas a partir daquele dia eram muito prestativas, carinhosas e amigas. Logo os professores perceberam que quando havia um problema com algum aluno em aula, esse aluno tinha nascido antes daquele dia. Nunca um mais novo sequer tentava agredir um coleguinha seu, mesmo que com palavras, e como os mais velhos logo percebiam que não tinham como agredir os mais novos, só havia brigas e desavenças entre os mais velhos mesmo.

Os mais novos eram sempre excelentes alunos como tinham sido e continuavam sendo excelentes filhos. Os problemas começaram apenas quando chegaram à adolescência. Alguns mais novos se apaixonavam por alguém mais velho e a diferença, mesmo que de poucos dias, em pouco tempo tornava-se diferença de muitos anos. Os mais velhos envelheciam, os mais jovens atingiam o pico do desenvolvimento físico e não mudavam mais de aparência. A diferença visível nos relacionamentos mistos causou, durante algum tempo, muito sofrimento emocional de ambos os lados. E, mesmo quando a paixão era entre iguais, acontecia de o romance não dar certo, podia acontecer então de o jovem, sofrendo dores de amor intensas, compreensíveis apenas por outro jovem, escrever um bilhete, deitar-se e morrer. Nesse tempo se percebeu que nascia uma pessoa quando outra morria. Quando o primeiro jovem se deixou morrer já tinha acontecido a revolução na medicina que foi, primeiro, uma verdadeira fuga de candidatos às faculdades e depois uma verdadeira corrida dos obstetras para outras áreas onde pudessem atuar. Já não existia maternidade e quando se constatou a gravidez de uma jovem em uma cidadezinha do Canadá a notícia saiu em todos os jornais, como tinha saído em todos os jornais semanas atrás a notícia da morte do primeiro ser humano dentre os considerados até então imortais. A coincidência nascimento-morte só foi assumida como fato depois de quase duas dezenas de casos.

Outra coisa que se descobriu a respeito dos imortais foi que eles não comiam carne. Não havia como uma mãe convencer seu filho de que um hambúrguer pode ser parte integrante de um sanduíche, não havia disfarces possíveis para fazer com que um filé de peixe entrasse no organismo de um imortal, como os animais nascidos antes daquele dia foram se acabando e ninguém conseguia matar um boi ou um frango nascido depois daquele dia, como não se podia pescar nenhum peixe ou capturar nenhuma ave, os não imortais acabaram por, também eles, se tornarem vagetarianos. Nas fazendas ainda se ordenhava vacas e se fabricava queijos e doces de leite, nas prateleiras dos supermercados ainda se encontravam ovos, leite e mel, mas os proprietários e empregados dos abatedouros, dos açougues, das peixarias e das churrascarias tiveram que mudar seu ramo de negócio e suas profissões. Foi necessário um tempo de adaptação, tempo no qual, é claro, muito se falou em crise e desemprego. A grande vantagem foi o fato de que a quantidade de pessoas e de animais que realmente precisavam comer, beber e se abrigar das temperaturas extremas foi diminuindo com o passar dos anos e, portanto, a crise não foi tão terrível assim.

Sabendo da existência de um mundo que a grande maioria das pessoas não via, o mundo dos seres extremamente pequenos, e sabendo que nesse mundo microscópico havia muitos seres nocivos à vida de pessoas, animais e plantas, que por essa razão eram objeto de estudo constante dos cientistas de todo o mundo, únicos a realmente ver alguns dos habitante desse mundo tão estranho, o deus que não existe fez com que no mundo microscópico se reproduzisse uma seqüência de eventos muito semelhantes aos do mundo dos grandes mamíferos, a diferença foi que, como alguns daqueles seres, devido à sua biologia, viviam apenas de e para causar mortes e doenças, esses seres sofreram mutações nas gerações que vieram depois daquele dia, essas mutações permitiam uma vida independente de outros organismos vivos. Não haveria mesmo como continuarem a existir da forma que eram uma vez que os seres vivos nascidos depois daquele dia não eram sujeitos a parasitas ou doenças de qualquer tipo.

E os mortais passaram a ter menos dores e sofrimentos físicos porque os vírus, bactérias e fungos, os parasitas unicelulares ou não que fossem nocivos a outros seres vivos simplesmente deixaram de existir como tais. Não que não se pudesse ver uma ameba, um Staphylococcus, um bacilo de Koch ou um Aedes aegypti. Eles ainda eram encontrados por muitos lugares caso se procurasse por eles, mas não provocavam mais doenças, não agrediam mais o corpo dos outros seres vivos, mesmo que esses seres vivos fossem nascidos antes daquele dia. Portanto, se pessoas e animais continuavam a morrer, não morriam mais por doenças, apenas por acidente, assassinato ou velhice; acontecimentos como acidentes de automóvel, disparo de armas de fogo, ataque de outros animais ou homens, eram sempre provocados por outro ser vivo nascido antes daquele dia.

Muitos animais morreram de fome porque chegou um tempo em que era muito difícil para um leão mortal encontrar uma gazela mortal com que se alimentar, um tubarão mortal já não encontrava peixes mortais com tanta facilidade e bandos de golfinhos ou coiotes mortais, cada vez mais raros, não encontravam mais cardumes de atuns mortais que pudessem cercar ou um pobre bicho mortal ferido ou velho demais para se defender que pudessem atacar. Então eles morriam e eram encontrados por outros animais, até mesmo de sua própria espécie que com aquele canibalismo conseguiam adiar a morte por mais um dia. O resultado de tudo isso foi que não demorou muito para que dentre algumas espécies não se pudesse mais encontrar nenhum exemplar mortal, e esse era sem nenhuma dúvida o destino de todos os animais do planeta, incluindo, é claro, os homens.

Muitas coisas foram mudando ao longo dos anos, algumas mudanças mais drásticas outras menos, algumas ajudando a fortalecer determinadas áreas e outras simplesmente extinguindo produtos, serviços, indústrias. Não havia mais aqueles esportes que envolvem assassinatos e cujos nomes, eufemismos, são caça e pesca. Não havia mais vários tipos de remédios como antibióticos, fungicidas, repelentes e outros cujas fórmulas tinham o objetivo de matar ou afastar vírus, bactérias, fungos, parasitas. Não havia mais lojas e indústrias especializadas em produtos de couro ou pele. Não havia mais viveiros, canis, gaiolas e, logicamente, não havia mais abatedouros, açougues, granjas, zoológicos.

As igrejas suntuosas e os templos cujas construções, devido à antiguidade, às características arquitetônicas ou a ambas as coisas, apontavam para a necessidade de preservação tornaram-se locais de estudo e guardiões da história: Escolas, museus, bibliotecas, galerias de arte. Isso porque as religiões foram deixando de existir à medida que deixavam de existir mortais. Aos imortais toda e qualquer manifestação religiosa era tão incompreensível quanto o patriotismo. Dentre as muitas vocações manifestadas pelos imortais não houve nenhum caso de imortal desejando ser padre, pastor, monge ou qualquer outro representante de qualquer religião. Não havia nada em nenhuma religião ou crença teológica que pudesse atrair um imortal de qualquer idade, a não ser, é claro, o estudo dessas manifestações dentro das pesquisas em história, sociologia, arte, etc.

Não se vendiam animais de estimação embora muitos continuassem a ter seus queridos gatinhos e cachorrinhos que permaneciam na casa por fidelidade aos donos. A grande maioria dos animais, no entanto viviam soltos por todos os lugares, nem mesmo os maiores ou antes mais ariscos causavam surpresa quando encontrados pelas ruas ou dentro das casas. Era comum que pessoas tentassem atrair um animal qualquer, desde uma cobra até um tigre, para que ficassem por perto a fim de serem acariciados, amados e adotados pelos habitantes da casa, alguns conseguiam e com o tempo era muito grande a variedade de animais, antes considerados perigosos, que se deitavam nos tapetes ou corriam pelos quintais acompanhando as pessoas.

E os imortais começaram a escolher o futuro que teriam. Alguns queriam ser estudiosos, pesquisadores, cientistas; outros queriam ser jornalistas, escritores, professores, outros ainda preferiam ser pintores, escultores, marceneiros; e havia também os que queriam ser engenheiros, arquitetos, construtores. As vocações variavam muito e havia até mesmo aqueles que não manifestavam nenhuma, esses em geral preferiam andar por todos os lugares, ver todas as paisagens, conhecer todas as culturas ou até mesmo mudarem-se para os lugares mais remotos como os pólos, os grandes desertos ou o fundo dos mares onde pudessem ficar sozinhos, em pares ou em pequenos grupos. Alguns queriam possuir coisas como casas, aparelhos eletrônicos, alimentos industrializados, outros não queriam nada, nem mesmo roupas, não procuravam modernismos, eram imunes a qualquer tipo de desejo de posse.

E mesmo os que possuíam coisas não tinham esse espírito consumista envolto, disfarçadamente ou não, em ganância que tantos conflitos causou e que tornou-se tão conhecido de todo ser humano ao longo de sua história. Os que faziam coisas, produzindo bens ou prestando serviços, que lhes davam direito a receberem dinheiro e poder comprar não tinham nunca aquela sede de acumular riquezas que faz do homem o lobo do homem. E a sede de poder, desejo máximo de tantos personagens da história desde o primeiro rei até o último primeiro ministro mortal, era algo simplesmente incompreensível para um imortal. Alguns se tornaram algo equivalente a governantes, mas estavam apenas exercendo a vocação de tornar a cidade, o bairro, o país mais agradável, mais bonito, mais organizado. E faziam isso.

Havia, aliás, total incompreensão dos imortais para muitas coisas que os mortais faziam, sentiam ou tinham, a começar por toda espécie de violência. Eles não podiam compreender o que levava uma pessoa a agredir outra pessoa, ou um animal, explicar isso a eles era como tentar explicar o que é cor a um cego de nascença. Estudando história, eles ficavam sabendo das inúmeras guerras, do domínio de um povo sobre outro, da instituição da escravidão, considerada normal em tantos períodos e por tantos povos. Na verdade, a própria idéia de povo era estranha aos imortais, eles não podiam compreender como ou por que um grupo de pessoas se sentia superior a outro grupo de pessoas. Por conta disso, desde sempre foi completamente inútil ensinar nas escolas aos imortais o tão valorizado espírito patriótico que sempre foi capaz de arrepiar a pele da maioria das pessoas ao simples toque do hino nacional de seu país. Considerar outro país como um inimigo em potencial era coisa que aos imortais simplesmente não fazia nenhum sentido, da mesma forma que não faz sentido para uma criança recém-nascida as variações das bolsas de valores. Por conta dessa incompreensão o sentido de nação acabou por ser aos poucos abolido, e mais, à medida que os imortais foram se tornando adultos, as barreiras restritivas para migração, emigração e imigração foram deixando de fazer sentido. Não havia mais como um ditador impedir seus jovens de deixarem o país, como fez Fidel durante tantas décadas; não havia como os Estados Unidos barrarem a entrada de mexicanos que quisessem atravessar a fronteira e não havia como a Espanha, a França ou qualquer outro país europeu, impedir a entrada de africanos e asiáticos em seus territórios. Aos poucos, e à medida que passavam a existir mais imortais, as fronteiras foram se tornando meros marcos históricos.

E, sendo coerente com essa incapacidade de compreender a violência mais banal e cotidiana, os imortais tinham atitudes, gestos e fala de uma educação inacreditável, para com toda e qualquer pessoa, fossem imortais ou não. E, tão difícil de compreender quanto a violência, era o amor de família ou a amizade maior a uma ou a um grupo determinado de pessoas. Eles podiam amar alguém e até decidir morrer por amor, mas não saberiam e não viam sentido nenhum em amar o pai mais do que um outro homem qualquer ou a mãe mais do que outra mulher fosse quem fosse. Era difícil para os mortais entender que um imortal sentia o mesmo carinho por sua irmã e pela colega de classe que acabou de se mudar para o bairro. Ele, imortal, não percebia diferença de valor entre as duas pessoas, por mais que uma fosse próxima e outra distante.

As primeiras mães cujos filhos nasceram sem chorar surpreenderam-se e até ficaram um tanto magoadas quando em situações cotidianas percebiam que seu filho tinha por ela absolutamente o mesmo sentimento que tinha pela vizinha, pela enfermeira do posto de saúde, pela vendedora de legumes da feira ou por aquela outra mulher que aparecia no documentário da televisão e que morava em um país distante onde talvez seu filho nunca fosse chegar para conhecê-la.

Não dá para saber com certeza quantos mortais, caso se tornassem livres do medo da morte e do instinto de sobrevivência, suportariam viver da maneira como os imortais viviam, parece que por sua natureza, os animais de todas as espécies, incluindo o homo sapiens, tiravam um prazer vital de suas atividades violentas ou letais. Será que um tigre mortal suportaria muito tempo a vida se não tivesse nunca que correr atrás de um cervo, alcançá-lo ao final de alguns minutos de tensão, acertar com os dentes o lugar certo do pescoço do animal e sangrá-lo até que pare de se debater para então rasgar a pele e devorar a carne ainda quente? Será que um menino mortal chegaria a tornar-se adulto sem poder rolar pela grama com os colegas trocando socos e arranhões na disputa por uma bola, um brinquedo, uma posição no grupo? Será que um homem se tornaria velho se não pudesse brigar literal ou metaforicamente pelo pão de cada dia? Não há como saber.

Mas o fato é que os novos habitantes do planeta viviam muito bem. O tigre encontrava prazer em correr pelos espaços abertos, molhar partes do corpo em um córrego, rolar pela grama com seus iguais ou com outros animais cujos ancestrais foram caça e alimento para seus avós e até mesmo em servir de montaria para uma criança que por correr mais lentamente apreciava o reforço e oferecia em troca sua amizade feita de sorrisos e carinhos. E um homem ou uma mulher conseguia viver muito bem e muito tempo depois de encontrar a pessoa com quem dividir sua vida e a atividade a que sentia prazer em dedicar-se.

Muitas pessoas tornavam-se artistas, estudiosos, atletas, exploradores ou cientistas e passavam muitos anos, ou até muitas centenas de anos, dedicando-se a aperfeiçoar sua arte, desenvolver suas pesquisar, fazer e aperfeiçoar muitas e muitas descobertas, ganhar muitos campeonatos e disputas. Sim, os imortais também disputavam partidas e campeonatos de futebol, vôlei, beisebol ou natação, a diferença era que não havia jogadas desleais, faltas que denotassem agressão ou disputa de resistência. Na natação, por exemplo, não havia disputa por maiores distâncias, todos conseguiam nadar quanto tempo quisessem, só podiam disputar velocidade e variar o estilo, a mesma coisa acontecia com as corridas no solo. Esportes muito apreciados e que ajudavam bastante o desenvolvimento tecnológico eram as corridas de carro, caminhão, moto, e as acrobacias aéreas. Alguns esportes como o boxe e todo tipo de luta corporal com mãos limpas ou armas brancas, touradas e rodeios, simplesmente deixaram de existir e quando os estudavam nas aulas de história ninguém lamentava esses desaparecimentos.

Quanto mais pessoas permaneciam atuantes, menos pessoas nasciam, mas sempre acontecia de um artista, um estudioso, um explorador, um cientista, um atleta, sentir que já fizera tudo que queria ou podia fazer, então, sem alarde, sem dor, sem medo, sem mágoa, essa pessoa saía de cena e permitia que alguém, em algum ponto do planeta, tomasse seu lugar. Acontecia também de um imortal não ter nenhuma vocação específica, viver alguns anos mudando periodicamente de atividade até chegar a um ponto em que não quer mais continuar experimentando, então esse também deixava o palco para um novo ator.

E, depois de muitos anos, quando seres mortais eram apenas informações para a curiosidade lúdica de alguns e objetos de estudo para a curiosidade científica de outros, o deus que não existe olhou o que tinha feito e viu que era bom. Mas o deus que não existe não poderia, mesmo que quisesse, vangloriar-se de sua criação diante do deus que o homem criou à sua imagem e semelhança. É verdade que ele jamais sentiria necessidade disso porque era mais parecido com os imortais do que com aquele seu colega de profissão. Mas, não poderia também o deus que não existe, conversar com seu colega a respeito dos mundos de antes e de depois daquele dia, e não poderia porque o deus que o homem criou à sua imagem e semelhança deixou de existir quando deixaram de existir os mortais humanos. Aquele deus que o homem criou à sua imagem e semelhança estava morto e isso era um fato, não opinião de Nietzsche.
Divina de Jesus Scarpim


CRÍTICA DANIELINA

Ok, li o texto. Vamos às críticas... No geral achei legal. A idéia é interessante e coloca a gente para pensar. Gostei muito da introdução, e acho que seria legal ver o que um deus faria para consertar o planeta. Mas me parece que para consertar de vez, ele deveria é começar tudo de novo. Apagar tudo o que existe e reescrever todas as regras, aí quem sabe seria possível resolver os problemas. Pois para mim apenas mudar uma ou outra coisa no cenário atual cria mais problemas do que resolve.

Depois de pensar eu não acho que a solução apresentada faça muito sentido... pelo menos não para mim. Deve ser porque eu sou um simples mortal e, portanto incapaz de entender certas coisas. Mas para mim este deus que não existe está mais para o deus criado pelo homem do que o outro. Já que tudo o que ele fez foi reformular o universo de acordo com aquilo que parece ser melhor para o homem e, de uma forma meio aleatória, mudou todas as regras de forma que o resto dos seres vivos pensasse e agisse de forma conveniente. Isso me parece uma espécie de autoritarismo divino.

É bem como um deus dizer que todos devem amá-lo, ou rezar para Meca, ou matar os infiéis, ou sei lá, e ao mesmo tempo reprogramar as pessoas e animais para que seja impossível agir ou pensar de outra forma, acabando, portanto, com qualquer possibilidade de questionamento. Tudo bem que a intenção, no caso deste deus que não existe, a princípio pareça (do ponto de vista humano) boa, mas os meios com que ele criou isso, não me parecem muito melhores do que o outro.

Por exemplo, no texto todos viraram vegetarianos, mesmo sem a necessidade de comer. Isso significa que, para este deus que não existe, plantas não são considerados seres vivos, ou pelo menos não se encaixam na mesma categoria que os animais. Então os animais são para ele superiores às plantas e de alguma forma conseguem violar a regra criada pelo próprio deus, de não ferir outros seres vivos, no momento em que o alvo de sua violência for uma planta. Preconceito divino. Sendo assim, seria ainda possível cortar uma árvore? Ou elas cresceriam livremente cobrindo toda a superfície da terra?

Ainda neste tópico, se todos viraram vegetarianos, logo, os animais também viraram. Então, como é que um tamanduá, por exemplo, come? já que a única coisa que consegue entrar na sua boca são formigas, e estas não podem mais ser comidas. E como fazem os animais que vivem em ecossistemas onde não existem plantas, como no fundo do mar? E se for assim, como é que o deus que não existe classifica aquilo que é animal e o que é planta? Já que em um nível celular, alguns seres são muito difíceis de serem classificados em uma ou outra categoria. E se ele for utilizar como critério a evolução, animais e plantas são realmente a mesma coisa, pois possuem o mesmo ancestral comum e são construídos exatamente da mesma forma.

Me parece que, para este deus que não existe, todo o propósito da existência do universo e a única coisa que merece ser observada e protegida é o homem. Quer dizer, em todas as escalas, do macro ao micro, em tudo o que acontece em todas as dimensões e em todo o tempo transcorrido no universo, apenas as opiniões e sensações subjetivas de um aglomerado específico de matéria reunida ao acaso merecem que todas as leis que regem o próprio universo onde ele se encontra sejam distorcidas com o propósito de reduzir uma sensação de sofrimento vivenciada apenas por esta minúscula (ou gigantesca, dependendo da escala) configuração atômica. Isso me parece coisa de um deus muito criado pelo homem.

Agora, analisando alguns detalhes mais mundanos, se as pessoas continuaram se dedicando às artes após esta transformação, mas abominam tudo aquilo que é violência, quer dizer que estas artes foram radicalmente transformadas. Pois é de se imaginar que estas mesmas pessoas odiariam qualquer referência à violência também nas artes e, portanto, filmes como Guerra nas Estrelas ou O Poderoso Chefão nunca mais poderiam ser produzidos e nem apreciados pelos imortais. As produções cinematográficas concentrariam apenas títulos como Os Teletubbies. Isso é claro, não seria um problema para eles, já que todos gostariam basicamente das mesmas coisas, e as salas de cinema estariam sempre lotadas.

Isso, obviamente, se existirem salas de cinema. Pois afinal, se ninguém precisa comer ou se abrigar do frio ou cuidar da própria saúde e da família, a única forma de se construir e manter um cinema, seria que um grande grupo de pessoas com exatamente o mesmo objetivo e tendo como incentivo apenas o amor pela arte, se reunisse e trabalhasse por anos a fio até que ele estivesse pronto. Dentro deste grupo, é claro, haveria pessoas que sentiriam um enorme prazer em preparar e servir pipocas para o público, em limpar os banheiros e fossas sanitárias, pintar paredes e consertar telhados.

Fazer um filme então seria praticamente um milagre, pois as centenas de pessoas diretamente responsáveis pela produção deveriam, por livre e espontânea vontade, concordar com a idéia e a visão do diretor sem jamais ocorrer qualquer desentendimento que ameaçasse o objetivo final. Isso é claro aconteceria também em todas as outras indústrias. Linhas de montagem seriam ocupadas apenas por pessoas que, por algum motivo, adoram gastar oito horas de seu dia apertando parafusos ao invés de, por exemplo, namorar ou passear pelo mundo.

Ainda, se todas as pessoas gostam igualmente umas das outras, como é que elas conseguem se apaixonar? Afinal, quem ama todo mundo não ama ninguém. Sendo assim, como elas podem então morrer de coração partido e desilusão amorosa? Já que alguém apaixonado estaria amando todo o mundo e não uma pessoa só, bastaria para ela focar seu amor em outra pessoa, qualquer outra. Ou quem sabe até um animal, já que eles acabaram ficando tão parecidos com os humanos mesmo.

E se alguém pode realmente se apaixonar, o que impede que milhares de pessoas se apaixonem pela mesma pessoa ao mesmo tempo? Se por exemplo, todos os fãs da Angelina Jolie se apaixonassem por ela, não haveria nada que os impedisse de ir todos morar em sua mansão, já que ninguém pode mais ser preso ou morto. Das duas uma, ou ela iria adorar esta situação e achar o máximo a enorme quantidade de amantes à disposição, por mais feios e escrotos que eles, ou elas, sejam (a feiúra foi eliminada?). Ou ela iria odiar e acabaria morrendo de saco cheio. O que seria tecnicamente, conspiração, formação de quadrilha e assassinato. E, após sua morte, toda a turba de amantes rejeitados poderia focar seus esforços em outra pessoa. Até que eles se cansem disso e decidam morrer também.

Outra coisa, se cada vez que alguém morre outra pessoa nasce em outra parte do mundo, quer dizer que a população total é sempre a mesma, ou seja, para este deus que não existe, a população atual é a proporção perfeita de humanos que devem existir na terra. Mesmo que para chegar a este ponto, milhares de outras espécies tenham sido extintas e ecossistemas destruídos. Pelo jeito o mundo deveria ficar exatamente como está hoje, não há mesmo espaço para o Dodô. Mas as galinhas, que são atualmente o dobro da população humana, ficarão livres para viver suas vidas onde quiserem, infestando cidades e florestas.

Agora, se a população é constante e já não existem mais limites de onde o homem (ou qualquer outro animal) possa viver, pode-se imaginar que dentro de alguns anos, décadas ou milênios (o que não faz diferença para quem é imortal), existam muitas pessoas vivendo em ambientes hoje desabitados, como desertos, o fundo do mar e até o espaço. Isso quer dizer que a população atual poderia se distribuir de forma radicalmente diferente da atual, se espalhando por uma área praticamente infinita. Ou seja, os atuais seis bilhões de pessoas poderiam, na prática, se espalhar na terra até que ficassem 40 pessoas por km² (6.000.000.000 / 150.000.000), isso apenas considerando a área de terra firme do planeta, e lembrando que ela corresponde a menos de 30% da área total de superfície da terra.

E caso esta população resolvesse se diluir ainda mais no espaço, somente na via láctea existem entre 200 e 400 bilhões de estrelas, e sabe-se lá quantos planetas, luas e asteróides (todos agora habitáveis). Então em algum tempo, a população humana estaria tão diluída que poderia ser considerada inexistente, e o universo se tornaria (ou continuaria) um infinito deserto. Um viajante poderia andar por milênios sem jamais encontrar um outro ser humano, e nessas condições talvez ele decida morrer de solidão, gerando uma criança em outro canto do universo. Talvez a mãe desta criança seja ela própria um viajante solitário e agradeça imensamente por agora ter um filho como companhia, mas esta alegria não duraria muito tempo, pois nada impede que este filho resolva sair sozinho pelo universo, ou que se canse de viver apenas com sua mãe e resolva morrer também, recomeçando o ciclo.

Bom, acho que é basicamente isso, veja aí o que você acha da minha opinião...
Daniel Scarpim

RESPOSTA À CRÍTICA DANIELINA

Adorei sua crítica!

Muito legal mesmo. Você ressaltou um montão de pontos, talvez todos, que tornam esse paraíso não tão paraíso assim (pra falar pouco) e está coberto de razão.

Muitas das suas observações eu não tinha feito (quase todas, pra dizer a verdade) porém já tinha começado a quebrar a cabeça com uma ou duas delas, mas fui em frente assim mesmo porque, modéstia à parte, eu estava gostando do texto como texto, do jeito que eu estava escrevendo, entende? E parece que da escrita em si você gostou também.

O problema quando a gente escreve é a maldita "barriga cheia", a tendência é sempre adorar o que se criou, por isso muitos comparam criações artísticas com filhos, e aí a gente perde a capacidade de ver objetivamente, de perceber os defeitos.

É por isso que um leitor que não fica só dizendo "Ai que lindo!", que sabe "descer a lenha" e em quem a gente confie (e puts, meu, como eu confio em você!) é precioso.

Pela conversa que a gente teve em Resende, achei mesmo que você me mostraria coisas que eu não tinha percebido (só não sabia que não tinha percebido tanto!). Você me deixou com muita coisa pra pensar...
Divina de Jesus Scarpim

RESPOSTA DO DANIEL

Legal que você gostou!

É... esse lance de paraíso é meio complicado mesmo. Também fiquei pensando aqui em uma forma de resolver alguns problemas, mas não consegui pensar em nada que não tivesse efeitos colaterais.

Na verdade, eu não vejo nada de estruturalmente errado com o mundo da forma que ele está. As coisas funcionam muito bem da forma atual, o fato de estarmos aqui conversando é prova disso. E quando tiramos deus da jogada as coisas fazem ainda mais sentido e ficam muito mais "belas". Mas esta é apenas a minha opinião. Não tem como escrever sobre paraíso com este ponto de vista.
Daniel Scarpim