14 de abril de 2009

COMENTÁRIOS DA MIRIAM

(Sobre o Texto O Segundo Gênese)


Querida Divina,


Eu sou chata, então, vou lhe dar mais algumas coisas para pensar.


1) Na realidade os bebês não nascem por livre e espontânea vontade. Eles só nascem porque são literalmente expulsos do mundo uterino, caso contrário, permaneceriam lá para sempre, no bem bom. O nascimento é uma das primeiras lutas que os seres travam para sobreviver.


2) Admitindo-se que os novos bebês fossem muito curiosos e que saíssem do útero materno só para espiar o mundo lá fora, sem necessidade de alimento e proteção, seria completamente improvável que os mesmos desenvolvessem algum tipo de vínculo com suas mães.


3) Sendo muito curiosos e invulneráveis acho correto supor que eles sairiam por aí explorando novas fronteiras, o que a princípio me parece bom. Os bebês humanos, antes os mais indefesos de todas as espécies, tão logo caminhassem seriam independentes e libertariam seus genitores do trabalho de criá-los.


4) Esses novos bebês que não poderiam ser feridos, cortados, queimados ou aprisionados, em tenra idade (você não explicou se emocionalmente eles seriam mais maduros que os bebês comuns) sairiam a experenciar o mundo e logo se dariam conta de sua invulnerabilidade, o que lhes permitiria viver experiências que os humanos comuns jamais sonharam. Eles se atirariam de qualquer altura, nadariam em represas, lagos e oceanos, atravessariam ruas e avenidas sem se importar com os veículos, ateariam fogo em qualquer coisa por puro prazer e divertimento e, fatalmente, machucariam os seres que não fossem como eles, não por maldade, apenas por curiosidade, posto que não conheceriam limites. Sinceramente, não sei o que se poderia esperar do caráter dos novos bebês.


5) As primeiras gerações de imortais sofreriam influência dos mortais anteriores, então, provavelmente seriam criados, na medida do possível, dentro dos mesmos moldes e parâmetros. Seriam cuidados, amados, alimentados, cercados de conforto, carinho e afeto e conheceriam a perda. No entanto, em pouco tempo, não haveria mais mortais, nem relação de parentesco, posto que não haveria mais nascimentos nos moldes tradicionais e as perdas seriam tão raras e distantes que poucos se dariam conta delas. As famílias se extinguiriam e as relações sociais seriam totalmente diferentes de tudo que conhecemos: mais livres, superficiais e voláteis, o que não é de todo mau sob alguns aspectos.


6) Você colocou que os imortais não necessitariam de alimentos. Sábia decisão, posto que a partir do momento que não houvessem mais mortes e nascimentos para todos os seres vivos também não existiriam mais alimentos, pelo menos não os alimentos naturais e orgânicos. Como todos os seres vivos passariam a ser imortais, não haveria meio de abatê-los. Na verdade, os imortais não seriam vegetarianos, eles simplesmente não teriam o que comer, mesmo que fosse só por prazer. Eles não teriam como obter leite, ovos ou mel, posto que esses alimentos só são obtidos naturalmente por força da necessidade de reprodução. Sem essa necessidade básica vacas não produzem leite e abelhas não fazem mel.


7) Não me recordo se os seres vegetais também se tornariam imortais, acredito que sim, pois são seres vivos. Quem os polinizaria e fecundaria? O fato é que em pouco tempo não haveria mais alimentos orgânicos de nenhuma espécie.


8) Como só nasceria uma pessoa quando outra morresse o que seria do sexo? Sem a responsabilidade da concepção, penso que inicialmente o sexo viraria uma febre mundial, mas com o passar do tempo, por que razão o organismo manteria milhões de células em funcionamento para fabricar hormônios diante de uma necessidade de reprodução mínima ou inexistente? Concluo que o futuro seria assexuado.


9) Como seria impossível matar os imortais e eles não precisariam absolutamente de nada para viver, muitas profissões e ocupações deixariam de existir, eu diria mesmo, que a maioria delas, porque a atividade econômica está ligada em cadeia e a supressão de algumas eliminaria a possibilidade de existência de outras. Haveria uma crise econômica astronômica e, a essa altura, os mortais que tivessem restado se veriam privados de muitas coisas vitais a sua sobrevivência e extinguir-se-iam.


10) Os imortais, bons por natureza, não entenderiam porque suscitariam tanto medo e ódio entre os mortais e se fossem capazes desse sentimento, se sentiriam profundamente infelizes. Penso que o índice de mortalidade entre eles seria elevado, pelo menos durante um certo período.


11) Tendo em vista a natureza dos imortais, não creio que seriam capazes de criar laços afetivos profundos, mas se fossem, conforme fossem crescendo, penso que morreriam mais de tristeza e tédio do que de desilusão amorosa. Sem dúvida a principal causa de morte entre eles seria a depressão.


12) Eu não consigo imaginar como as novas crianças se tornariam prestativas, carinhosas e amigas. Elas nasceriam assim? Nasceriam dotadas e equipadas com esses sentimentos? Caso contrário, a probabilidade de serem egoístas, frias e distantes seria muito grande, posto que nunca precisaram de nada, nem de ninguém.


13) Aceitando-se a hipótese de que as novas crianças fossem naturalmente dotadas de bons sentimentos e que seriam naturalmente curiosas, acredito que algumas quisessem estudar, mas não todas e não haveria nada, nem ninguém que pudesse obrigá-las. Enquanto uma parte se dedicaria aos estudos, esportes e artes, algumas não fariam nada e o tédio se alastraria de vez. Se não fosse preciso fazer nada para sobreviver sobraria muito tempo livre, mas livre para fazer o quê?


14) Não entendo como ou porquê os imortais continuariam a produzir coisas. Se não precisassem se abrigar, se alimentar ou se proteger com que finalidade construiriam prédios, edifícios, casas e todos os artigos de uso doméstico? Por que buscariam soluções para problemas inexistentes? Por curiosidade, engenhosidade, prazer, conforto, vaidade?


15) Penso que seria mais fácil imaginar que os novos seres se dedicariam muito mais à tecnologia: comunicação, fontes de energia, meios de transporte, viagens espaciais, etc, mas ainda sim tenho dúvidas, pois não sendo ameaçados por coisa nenhuma, não sendo consumistas, nem gananciosos, não estando limitados pelo tempo, onde encontrariam motivação?


16) As artes empobreceriam demasiadamente. Toda manifestação artística é oriunda do desejo de entender, explicar ou transformar a realidade. Boa parte das grandes obras foi feita em face do sofrimento. Se não há sofrimento, não há indignação, nem o que transformar. A expressão artística seria meramente contemplativa. Todos tocariam lira e com tempo aprenderiam a pular nas nuvens, num aborrecido e eterno balé.


17) Com relação a deus, tanto o que não existe, quanto o deus criado pelo homem a sua imagem e semelhança já teriam deixado de existir há muito tempo. Em boa parte, Deus é um consolo para o sofrimento humano, sem sofrimento os homens dispensariam deus rapidinho.


Amiga, entre todas as coisas maravilhosas que você imaginou, penso que você poderia se ater somente a uma: em um dado momento e por razões inexplicáveis, os homens passaram a nascer com um amor desmedido por todas as criaturas e seres viventes, independentemente do grau de parentesco, proximidade, raça ou espécie. Em função disso não conseguiam mais prejudicar nada ou ninguém, nem aceitar qualquer tipo de função, orientação, instrução ou comando que os levasse a isso. Não seria perfeito, mas metade dos problemas estariam automaticamente resolvidos e toda e qualquer dor seria menor e mais suportável.


Grande beijo,

Mi

13 de abril de 2009

AOS MEUS AMIGOS

Dizem que deus é capaz de iluminar a minha vida.
Não!
mas o sorriso de um amigo é!

Dizem que na bíblia posso encontrar tudo o que faz bem à minha alma.
Não!
mas nos olhos de um amigo posso!

Dizem que crer em deus me levará ao paraíso.
Não!
mas ver um amigo feliz me leva!

Dizem que encontrar Jesus é a suprema felicidade.
Não!
mas encontrar um amigo que não vejo há muito tempo sim!

Dizem que a palavra de deus consola e traz a paz.
Não!
mas as palavras de um amigo fazem isso!

Dizem que o amor de deus me fará sentir compreendida e agasalhada.
Não!
mas o carinho dos amigos faz!

Dizem que ser serva de deus é a maior das felicidades.
Seguramente não!
mas estar junto dos amigos é sim, é sim, é sim!

Dizem que deus é o amor mais sublime, abrangente e completo.
Não!
mas o amigo é!

Dizem que saber que deus existe
dedicar minha vida a glorificá-lo
é a única maneira de me salvar do sofrimento eterno.
Não e não mesmo!

Mas estar à disposição dos amigos,
dar apoio, carinho, companhia,
força, consolo, alegria;

isso sim, pode me salvar,
- e aos meus amigos -
do sofrimento eterno!

Não creio em deus
mas creio na amizade...

Quando me ouvir ou me ler
abominando religião e crença,
não se sinta abominado por mim.

Eu combato as idéias
não as pessoas
Menos ainda os amigos.

(-----------)

Sempre recebemos, vindos de todos os lados, recados, mensagens, avisos e até ameaças pretensamente chegados a nós diretamente de deus. Alguns deles chegam até a vir assinados.

Como todo mundo, recebo, direta e indiretamente em todas as formas, por todas as vias de comunicação e praticamente em tempo integral, lembranças de religiosidade. A diferença, e assumo a culpa por isso, é que, em meu caso, muitas delas me irritam, me aborrecem, me revoltam, acionam em alto e bom som o meu alarme antiestupidez. Daí eu fico brava e respondo dirigindo minha ira a quem teve a infeliz idéia de criar mensagens estúpidas.

A minha falha, muito séria eu admito, é que em geral quem manda para mim essas mensagens não é a pessoa que as criou, mas é o meu remetente, junto com todas as outras pessoas da minha lista de endereços, que recebe a resposta. Então os amigos, pessoas de quem gosto muitíssimo, ficam muitas vezes magoados, ofendidos até, e não era minha intenção ofender nenhum amigo; era minha intenção sim provocar o máximo de pessoas para que pensem melhor nas mensagens em questão, para que percebam a estupidez camuflada de “milagre divino” contida nelas e enviem minha resposta pelo caminho de volta até que ela chegue à pessoa que criou a mensagem para que, quem sabe, essa pessoa pense melhor antes de escrever e publicar besteiras.

Exemplos são fartos, como aquela historinha do menino que faz xixi na roupa em plena aula. Depois de pedir a deus que o salve, ele é salvo, não por deus mas por uma coleguinha de classe, uma menina que teve a sensibilidade de perceber o que acontecia e a inteligência de criar uma situação que livrasse o menino do vexame, e ela explica depois que fez isso porque já passou por essa situação uma vez e sabe o quanto é desagradável. Acontece que o gesto nobre da garota é recompensado com desprezo e ofensas vindos dos outros alunos que a acusam e a afastam por ter sido “desastrosa”. O menino salvo não faz nada para ajudá-la, não mostra a nobreza dela.

A pessoa criou a mensagem colocando lindas fotos, musiquinha adequada e palavras de fé alertando-nos para a “bondade” do deus que atendeu a oração do menino e livrou-o do sofrimento, mas essa pessoa parece não ter pensado um segundo sequer na garotinha que passou por situação constrangedora DUAS VEZES, mesmo tendo ela, embora tão pequena, mostrado o melhor caráter que se pode esperar de um ser humano. Será que esse ser religioso ao ponto de cegueira não se deu ao trabalho de sequer considerar a menina só porque não diz na história que ela tenha rezado em algum momento?

É esse tipo de cegueira racional que leva pessoas que se acham boas e santas a cometerem crimes, agirem com injustiça, desprezarem os valores humanos. Foi esse tipo de mentalidade estreita que mostrou ter o tal “bispo excomungador”; que o papa visivelmente está mostrando ter quando abomina os homossexuais, condena o uso de preservativos e MENTE afirmando que camisinha não evita AIDS; é o que os líderes religiosos que respondem a processos mostram ter quando continuam pedindo dinheiro aos fiéis, e é o que os próprios fiéis mostram, até sem o notar quando, em lugar de ajudar uma criança a sair da rua, aprovam a pena de morte e ajudam a engordar a fortuna desses líderes ladrões.

Se me revolto com isso, quero crer que tenho motivos mais do que justificados. Ao longo dos anos tenho visto uma crescente intolerância que me preocupa sinceramente. A razão da minha revolta é a percepção de que as pessoas se recusam a pensar e, o que é muito pior, ensinam as crianças a não pensar. Vejo em sala de aula, aluninhos de quinta série, ofendendo colegas por causa da religião com palavras e frases que não são deles, que ouviram em casa dos pais e na igreja do padre ou do pastor. Algumas dessas crianças me olham como se eu fosse um extraterrestre quando digo que não tenho religião (e olha que eu nunca disse em sala que sou atéia!).

Quando trabalho com o tema preconceito eles são rápidos em citar a bíblia para afirmar que “Se encontro um “viado” na rua eu caceto mesmo!”, “pode descer a lenha sim, professora, deus não gosta dessa gente, tá na bíblia!”. É só permitir uma conversa a respeito da homossexualidade que qualquer professor vai ouvir frases desse tipo, pronunciadas por alunos desde as primeiras séries do ensino fundamental até já adultos nas aulas de suplência. E o mais terrivelmente assustador é que se levantar o problema na sala dos professores, vai ouvir frases semelhantes dos próprios colegas. A grande maioria dos trabalhos abordando preconceito desenvolvidos nas escolas exclui qualquer menção à homossexualidade.

Textos do tipo dessa mensagenzinha idiota que citei acima costumam ser usados nas escolas, por professores, principalmente de ensino religioso, e pela direção e coordenadoria. Eu mesma o vi pela primeira vez em uma reunião de professores. As pessoas não pensam. Eu não entendo por que pessoas cultas, inteligentes e boas se recusam a pensar quando o assunto é religião. Em nome de um “amor a deus”, de uma adesão irrestrita ao que afirmam ser a “verdade”, as pessoas esquecem o simples e básico sentimento de respeito ao próximo; e nem sequer se dão conta disso!

É comum, quase obrigatório, afirmar que não podemos falar mal de religião, que não se pode criticar qualquer crença ou manifestação religiosa. Não podemos nem sequer reivindicar o direito básico de ter um estado realmente laico como está definido na Constituição. Qualquer tentativa de mostrar que escola pública é um órgão público, nem mesmo pela redundância é levada a sério. Lá se faz orações no pátio com os alunos, se abriga missas e cultos evangélicos a propósito de qualquer coisa, se abarrota os quadros de avisos com imagens de santos, Jesus e coisas do tipo acompanhadas de orações e trechos bíblicos. E temos que achar tudo muito lindo, muito educativo e muito bom!

E os professores de ensino religioso comemoram o “dia da bíblia” mas nem sabem se existe um “dia do alcorão”, comemoram com orações o dia da páscoa ensinando aos alunos seu valor religioso e até desprezando o apego ao chocolate como sendo um pecado contra o “verdadeiro sentido da data” mas não falam nada sobre o dia de jogar rosas no mar em homenagem a Yemanjá. Aliás, muitos desses professores nem citam o candomblé como religião, ou ignoram totalmente, como se não existisse, ou falam que é “coisa do capeta”. Mas, apesar disso, tente alguém dizer que não aprova a existência dessa disciplina! no mínimo será acusado de estar tentando tirar o trabalho dos colegas.

Droga, eu tenho amigas que dão aula de ensino religioso, amigas que sei serem pessoas maravilhosas, amigas que considero muito e de quem gosto muito, não quero ofendê-las, não quero magoá-las, não quero fazer com que pensem que tenho algo contra elas. Mas será possível que não posso mesmo dizer que aulas de ensino religioso são um retrocesso histórico e deveriam ser ilegais por serem basicamente inconstitucionais?

Fico brava! Fico irritada! Me sinto agredida! E não quero, não posso, não consigo deixar de gritar que odeio tudo isso; mesmo amando do mais profundo da minha alma os meus amigos que têm suas religiões, ou os que, mesmo sem serem religiosos, não partilham da minha raiva!