29 de maio de 2009

SERÁ QUE SÓ INFELIZ PODE SER ATEU?


Toda vez que aceito conversar sobre deus com alguém mais hora menos hora, se a pessoa não desiste simplesmente, ela corta o assunto me acusando de infeliz. Sempre vem uma frase mais ou menos assim: “Eu sou feliz e creio em deus, se você é infeliz e não acredita o problema é seu.” E isso depois de eu ter afirmado que quando falo sobre a vida e os horrores da vida estou falando no geral. Que parte de “no geral” essas pessoas não entendem?


Acho que vou ter que começar todos os meus textos com o seguinte aviso: “Sou atéia mas não sou infeliz, acho a vida horrível mas a minha vida é ótima!” Será que assim vão parar de me julgar uma velha infeliz e frustrada só porque não passo a vida olhando pro meu próprio umbigo?


É revoltante ver que as pessoas acreditam em deus porque são felizes e esquecem que milhões de pessoas não são. Agradecem a deus porque têm bens materiais, saúde, família, amor e esquecem que milhões de outras pessoas não têm nada disso. Por que será que tantos tendem a tirar a conclusão de que tudo é maravilhoso só porque tem coisas boas no seu pequeno mundinho? Será tão difícil assim olhar pra fora da sua concha?


Tenho que afirmar novamente: Atenção gente, atenção todo mundo, que fique bem claro e que todos saibam. EU SOU FELIZ! Tenho onde morar, tenho amigos, tenho amor, tenho um filho do qual me orgulho, tenho tudo que qualquer pessoa feliz pode ter e que qualquer pessoa pode querer pra ser feliz. Falando novamente: Eu sou muito feliz! EU.


Mas acontece que tenho senso de ética, tenho senso de moral, tenho senso de justiça. Não posso, não sei e não consigo ficar feito babaca levantando louvores a deus se existir um deus que me deu tudo que tenho sem ter dado a mesma coisa para o resto do mundo. Não sou melhor do que o coitado que morre de câncer depois de muito sofrer e muito rezar, por que mereço ter saúde e ele não? Por que tenho que agradecer a deus se ele foi injusto? O fato de a injustiça desse deus ter me favorecido, afinal não morri de câncer e o outro morreu, torna menos injusto o que aconteceu?


Acho as pessoas que usam o exemplo da cura das suas mazelas como prova da existência de deus muito egoístas, egoístas e desonestas. Elas nem sequer se dão conta do quanto estão sendo desonestas, mas estão! elas nem percebem que estão o tempo todo apenas olhando para o próprio umbigo, mas é o que estão fazendo. Tenho muita pena dessas pessoas! Elas se acham tão boas que nem percebem o quanto são más!


Antes que me acusem de mais essa, deixa eu esclarecer: Não, eu não sou boa, não me acho um poço de bondade, não me acho acima de qualquer crítica. Sei que sou má, sei que muitas vezes faço coisas erradas, piso na bola, faço julgamentos injustos, tomo decisões precipitadas e até (isso eu juro que é sempre sem querer) ofendo ou magôo as pessoas. Mas pelo menos eu sou má com conhecimento de causa. Sei que sou má, por isso estou sempre tentando melhorar, as pessoas que são más e não sabem disso não têm como tentar melhorar.


Quando afirmo que não acredito no deus delas, muitas pessoas cortam relações comigo, me chamam de infeliz e frustrada. Algumas ainda me ameaçam com o inferno eterno ou prevêem que um dia algo de bom acontecerá em minha vida e aí então eu vou creditar no deus delas. Mas se algo bom acontece pra mim ao mesmo tempo que “algos ruins” acontece para milhões de pessoas, eu não vou passar a acreditar em deus, pelo contrário, aí é que duvido mais; e se acreditasse eu ficaria com raiva dele e não agradecida.


Por que eu e não todo mundo? Por mais que eu afirme que o deus delas, se existisse, seria ruim e injusto demais para que eu ao menos o respeitasse, não adianta, elas repetem o jargão da minha suposta infelicidade e muitas vezes terminam com a afirmação oca e sem sentido de que Jesus me ama. Chego a ter dúvidas sobre o nível de alfabetização de algumas dessas pessoas.


Eu digo: Se deus me deu, por exemplo, uma casa mas tem milhões de pessoas sem casa, então não vou agradecer a ele pela minha casa, na hipótese de que ele exista, vou chamá-lo de injusto e cruel por ter dado uma casa a mim e não a outros milhões de pessoas que mereciam mais do que eu ter uma casa. Eles dizem: Mas se tem tanta gente sem casa não é culpa de deus, é culpa do homem e da ganância que não permite uma justa distribuição de renda. Aí eu respondo: Mas peraí, se tenho uma casa e isso é prova da bondade de deus que deu essa casa pra mim, e se o fato de outro não ter uma casa é culpa da ganância dos homens... Tem alguma coisa errada nessa equação. Dois mais dois tá dando cinco. Se deus pode dar uma casa pra minzinha, que não fiz nada por merecer, por que não pode fazer a mesma coisa pra outras pessoas que até fizeram por merecer? Se a ganância dos homens não impediu deus de me dar uma casa, por que essa mesma ganância o impede de dar uma casa às outras pessoas? E isso vale para tudo, da casa à cura da doença incurável.


Nesse ponto param de me responder, ou mandam uma mensagem me acusando de infeliz e informando que eles são felizes e por isso crêem e agradecem a deus e às vezes até me ofendem dizendo que estou sendo mal educada! Não entendo onde é que deus esconde o senso de justiça das pessoas que crêem nele, e não entendo também como é que ele tira delas a capacidade de compreensão de um raciocínio lógico tão simples.


Como sei que não vou entender isso nunca, nunquinha, jamais. Vou apenas reiterar aqui e novamente minha afirmação: EU NÃO SOU INFELIZ, sou apenas atéia!

28 de maio de 2009

SOBRE AS COTAS: RESPOSTA AO TEXTO DO MEU FILHO

Bem, vamos à minha resposta:
Cotas para negros, índios, mulheres, gays, marcianos, ou qualquer outra coisa, são sim uma coisa estúpida que inventaram para tentar corrigir desigualdades sociais, se esse e só esse foi o objetivo. Eu digo sempre que sobre esse assunto a minha postura é a seguinte: Concordo com praticamente tudo o que dizem os que são contra, mas ainda assim sou a favor...

Portanto, acho que existe sim forma de se enxergar isso de maneira positiva, e não acho que esta fórmula alcance exatamente o objetivo contrário do que se propõe, acho que esse exacerbamento do preconceito e da discriminação de que falam as pessoas não é bem um exacerbamento, é uma mostra pura e simples do que já existia e estava camuflado por uma casca, em muitos casos finíssima, de tolerância.

Como é que um movimento pode querer a igualdade, e ao mesmo tempo, promover a desigualdade? Pois é, parece um contra-senso, e talvez seja, mas não dá pra promover igualdade sem colocar a desigualdade à vista. As pessoas não admitem que têm preconceito, não admitem que há desigualdade, não enxergam o óbvio e ainda se orgulham disso. Esse sistema de cotas, apesar de todos os contras com os quais concordo, tem um pró enorme no fato de expor um fato, de obrigar a sociedade a olhar, a enxergar, a discutir, a colocar em palavras uma coisa que até agora esteve jogada debaixo do tapete.

Não sei se o objetivo é mesmo acabar com o racismo. Se for é óbvio que você tem razão, não faz sentido. Mas acho que, mesmo que o objetivo, na cabeça de quem criou o sistema, fosse esse, não deveria ser. Acabar com racismo não se acaba dessa forma, lógico! Pra mim, o objetivo deveria ser (e mesmo que não tenha sido essa a intenção é o que está acontecendo), o objetivo deveria ser o de colocar a sociedade diante de um espelho metafórico, de forçar o preconceituoso a admitir que o é e a ver que ele também pertence à raça que odeia ou simplesmente ignora. Esse objetivo, na minha opinião, está sendo alcançado. Do jeito que estava até agora, camuflando, escondendo, ignorando como se não existisse, desse jeito também não se acaba com o racismo.

Ainda que o objetivo de determinar onde termina um negro e começa um branco fosse aceitável, ele continua impraticável e impossível. Principalmente em um país como o Brasil, onde existe tanta mistura de raças. Pois é, meu lindo, isso que você disse está certíssimo, claro! Não há como negar o óbvio (não há?), mas é o que se faz no Brasil desde a libertação dos escravos e desde que pararam de caçar índios como caçavam lebres. Apesar de praticamente não existirem brancos de verdade no país, muita, muita gente mesmo, sempre se julgou ariano puro. Agora, algumas dessas pessoas estão falando (e pensando pela primeira vez!) exatamente isso que você disse aí em cima! Essa é pra mim a maior qualidade do sistema de cotas.

Quase a totalidade dos considerados negros são uma gigantesca mistura de negro, branco, vermelho e amarelo. Pois é, né? E, como você disse, são considerados negros, e são considerados negros principalmente na hora de serem discriminados. Esse fato é que sempre me emputeceu. Tinha uma frase, que o meu pai dizia como brincadeira mas na qual nunca vi a mínima graça, que dizia assim: “Passou do meio-dia é preto.” Ou seja, a típica frase do racista: se a pessoa tem a pele um pouquinho escura já pode ser considerada negra e já pode ser considerada inferior.

Então, filho, a dificuldade, ou impossibilidade de determinar quem é negro e quem não é, é um assunto que só agora está sendo considerado assunto e fato sem que essa dificuldade tenha o objetivo de simplesmente afirmar a suposta e ridícula idéia da inferioridade dos negros. Isso para mim é um tremendo progresso! Não sei quais serão as conseqüências, mas é hora de os otimistas de plantão verem que tem chance de que serem colocadas diante desse espelho faça com que as pessoas melhorem.

O que você disse a respeito das estatísticas, novamente, está certíssimo. Mas acho que ficou claro com o que eu coloquei lá em cima que a impossibilidade de determinar quem é negro e quem não é, ao invés de ser um ponto contra a política de cotas é, para mim, justamente o ponto mais favorável. É justamente a partir da constatação dessa impossibilidade que muito racista declarado ou enrustido está sendo obrigado a por em questão seu conceito básico do “eu sou branco e por isso sou superior”. Eles estão vendo, e dizendo, isso! Pra mim a cota, já atingiu seu objetivo.

Olha só que lindo o que você escreveu: a chance de um negro ser vítima de homicídio pela polícia é quase três vezes maior do que a de um branco. Ora, então poderia se criar uma cota para incentivar a polícia a matar mais brancos. Dessa forma se resolveria o problema de racismo na polícia. Não seria lindo, e justo? É claro que ninguém vai achar certo que a polícia tenha uma cota de brancos para matar, mas tem muita gente que não estranha que tantos negros sejam mortos, não estranha que haja tantos negros nas penitenciárias e tantos criminosos brancos soltos e vão mais longe: defendem a pena de morte com ardor; afinal, quem se importa se essa lei mataria quase que apenas negros e pobres?

O que é claro para mim, é que não existe diferença entre negros e brancos. Meu amor, é por isso que te amo tanto, entre outras razões. Você é bem consciente daquilo que sempre procurei te mostrar e acho que se eu não tivesse ensinado a você que preconceito é burrice, você teria aprendido isso sozinho.

Existem motivos históricos, e todo mundo sabe quais são, para os negros serem maioria entre os pobres. Em função disso, acabam sendo maioria entre criminosos, vítimas de homicídio e presidiários. Isto é um fato, e nada tem a ver com a cor da pele ou com preconceito. Não, Daniel. Aí eu discordo de você: infelizmente nesse caso, como você mesmo diz: “Todo mundo é muita gente”. O fato é que tem gente demais que não sabe, não quer saber e tem raiva de quem sabe os motivos históricos da pobreza dos negros, muitas pessoas atribuem isso, com a maior cara de pau, a uma suposta inferioridade intelectual dos negros, defendida por cérebros de minhoca. Esses doentes que existem e existiram sempre são também responsáveis por esse quadro que você pintou aí em cima e que é a nossa realidade. Muita, muita gente mesmo, sempre fez questão de “colocar os negros nos seus lugares” roubando deles ou negando a eles sempre que possível qualquer chance ou oportunidade. Isso, meu querido filho é também um fato histórico.

Concordo que cotas para os mais pobres seria a solução mais lógica, e concordo que este é um dado mensurável, justo e não hereditário. Mas acho que se fizessem assim, logo logo alguém daria um jeito “legal” de excluir os negros e índios, se não de direito, certamente de fato. Desculpe o meu pessimismo, mas estou acostumada demais ao “jeitinho brasileiro” de ter uma lei no papel e outra nas ruas, é difícil não pensar na prática de distorções e não aplicação de leis que têm os nossos “homens da lei”.

A pobreza ou a riqueza depende também do empenho individual. É fato, mas eu acrescentaria um outro fato para tornar a exposição desse fato mais verdadeira: A pobreza ou a riqueza depende também do empenho individual, que os brancos têm em geral muito mais chances de por em prática.

Você se lembra de quando li os livros do Monteiro Lobato pra você? Lembra da Emília e da mágica que ela tem? Pois bem, se fosse uma estudante pré-vestibulanda ou fosse prestar um concurso agora, eu aplicaria a mágica do Faz de Conta da Emília da seguinte maneira: Tem ao todo 50 vagas para o curso ou cargo que eu quero, dessas 50, dez estão reservadas para negros, índios, estudantes oriundos de escola pública e deficientes físicos, então são na verdade 40 vagas para mim, portanto, vou estudar e me aplicar para estar entre os primeiros 40. Ou seja, Faz de Conta que tem 40 vagas, é a essas 40 que eu vou concorrer. Pronto! (os números aí são hipotéticos e apenas para exemplo).

Usando o Faz de Conta da Emília, eu estaria preparada e não me sentiria roubada de jeito nenhum. Pra mim, essa de estar sendo roubado é coisa de aluno que passou todos os anos de estudos jogando pela janela o dinheiro dos pais, precisando de professores particulares ao final de cada ano porque passou o restante dele brincando e atrapalhando todas as aulas e depois quer usar esse suposto roubo como desculpa por não conseguir entrar na faculdade. É privilegiado querendo ser privilegiado sempre. Tudo bem que não posso generalizar, mas tive alunos assim em número suficiente pra saber que eles não são poucos. O “melhor desempenho escolar” de muitos alunos se resume a um bom professor particular no final de cada ano.

A mim também não espanta que as pessoas estejam se declarando como negras, mas você há de convir que isso seria impensável antes das cotas. Para mim isso é prova de duas coisas: da desonestidade das pessoas e do fato inquestionável mas nunca realmente assumido como tal por muitas delas até então; o fato de que somos todos negros e ninguém é inferior a ninguém por causa da cor da pele.

Considero esta tentativa além de estúpida, perigosa. Pois ela evidencia as desigualdades e incentiva a criação dois lados inimigos. Querido, ter dois lados inimigos torna essa inimizade bastante enfraquecida quando membros de um dos lados estão querendo se fazer passar por membro do outro lado. Mas você tem razão, há esse risco, só que essa divisão de dois grupos inimigos definidos pela cor da pele sempre existiu. Então, não haverá mudança significativa, apenas a consciência do fato, o que para mim é um ganho e um progresso.

Será que existem pessoas de pele escura que nunca tinham pensado nelas como negras? Acho que não, aqueles que têm a pele clara, que nunca pensaram em si mesmos como negros até agora, não costumavam deixar o negro se esquecer de que era negro. Essas pessoas de pele branca se verem obrigadas a pensar em si mesmas como negras é para mim um fato digno de ser comemorado com rojões e festas, não lamentado.

São incentivadas a enxergar a desigualdade como preconceito racial, é verdade, Daniel, infelizmente são incentivadas porque tem muita gente trabalhando pra isso. Tem um livrinho nas livrarias, bancas de jornal e até super mercados com um título tipo “Não somos racistas” que, visivelmente foi escrito por um branco idiota usando a falácia de que no Brasil não tem preconceito para falar contra as cotas. Não li o livro, mas as frases da capa mostram claramente isso. É como se com a assinatura da lei de cotas, a caneta tivesse criado magicamente um racismo que antes dela não existia. Pessoas burras, que acreditam em qualquer coisa que lhe dizem sem usar um centésimo da massa cinzenta pra pensar a respeito vão certamente engolir essa, mas cérebros virgens engolem qualquer coisa mesmo...

Daqui a pouco, acho que estará na hora de se fazer como no filme “A onda”, você viu a resenha? Vi o filme original, aquele antigo feito pra televisão. Quando o professor revela o que são os alunos que estão vestindo a camisa e aceitando as idéias da “Onda”, todos ficam mortificados e envergonhados. Acho que o governo, via algum porta-voz bem articulado, poderia mostrar o espelho e fazer com que as pessoas vejam o que estão fazendo. Daí eles acabariam com o sistema de cotas para negros e índios e manteriam cotas para pobres. Talvez, só talvez, a vergonha fizesse com que as pessoas começassem a ver o que realmente são.
Contrariando minha própria personalidade, acho que estou sendo otimista demais...

TEXTO DO DANIEL

Ok... tem um assunto que eu sou obrigado a comentar. As cotas.
Cotas para negros, índios, mulheres, gays, marcianos, ou qualquer outra coisa, são a coisa mais estúpida que já inventaram para tentar corrigir desigualdades sociais. Não existe forma de se enxergar isso de maneira positiva, pois esta fórmula alcança exatamente o objetivo contrário do que se propõe. Como é que um movimento pode querer a igualdade, e ao mesmo tempo, promover a desigualdade?

Ora, se o objetivo é acabar com o racismo, então como é que se pode criar uma lei que para funcionar depende de uma definição clara do que é uma raça? Ainda que o objetivo de determinar onde termina um negro e começa um branco fosse aceitável, ele continua impraticável e impossível. Principalmente em um país como o Brasil, onde existem tanta mistura de raças. Quase a totalidade dos considerados negros são uma gigantesca mistura de negro, branco, vermelho e amarelo.

Por causa desta mistura fica realmente impossível fazer qualquer distinção imparcial sobre quem é negro e quem não é. Veja, quando uma pessoa negra e uma branca têm um filho (vamos imaginar que neste exemplo os dois sejam "puros", o que simplesmente não existe no mundo real), a criança herda dos pais várias características, entre elas a cor da pele. Esta divisão não é feita de maneira uniforme, ou seja a cor da criança não será 50% da cor da mãe e 50% do pai. Ela pode ser mais para um do que para outro e pode inclusive herdar somente a cor de um dos dois, enquanto outras características menos visíveis poderiam vir do outro.

Ainda, se este mesmo casal tiver outros filhos juntos, a divisão será feita novamente, com resultados diferentes. Ou seja, dois filhos do mesmo casal podem ter cores de pele bastante diferentes um do outro. Isso sem levar em conta que os pais carregam características dos avós, que podem passar (e passam) para os filhos, tornando ainda mais difícil qualquer classificação entre quem é negro ou deixa de ser. É simplesmente desta forma que a genética funciona e todos nós somos obrigados a trabalhar com estas regras, a não ser que alguém queira criar seu filho por clonagem num laboratório, escolhendo apenas os genes "brancos" ou "negros".

Agora, imaginando que nada disso fosse verdade (mas é), e que fosse perfeitamente possível distiguir um negro de um branco de uma maneira justa e imparcial, ainda assim acontecem muitos outros problemas. Este tipo de solução, as cotas, tem como base para determinação de suas políticas, as estatísticas. Acontece que estas podem ser muito enganosas. A estatística é uma ferramenta para diagnóstico, ou seja, para visualizar uma situação e detectar um problema de maneira mais clara. Ela não serve para solução de problemas, não se pode tentar corrigir as estatísticas. Deve-se usá-las para detectar a existência de um problema, depois buscar as causas deste problema, e só então, tentar resolve-lo de forma adequada.

Ou seja, a estatística é como uma balança, que vai dizer que um lado está mais pesado do que outro. A solução proposta pelas cotas seria como ajustar o centro desta balança para equilibrar os dois lados. Obviamente isso não mudaria o peso de nenhum deles, e não resolveria absolutamente nada, pois é óbvio que o problema está nos pesos, e não na balança.

No Brasil, 45% da população é composta por negros e pardos (o que mostra que, ao contrário do que a mídia diz, eles não são uma minoria), no entanto há várias diferenças, indicadas pelas estatísticas, entre negros e não negros. Por exemplo, a chance de um negro ser vítima de homicídio pela polícia é quase três vezes maior do que a de um branco. Ora, então poderia se criar uma cota para incentivar a polícia a matar mais brancos. Dessa forma se resolveria o problema de racismo na polícia. Não seria lindo, e justo? Ainda, apesar de ser praticamente metade da população, negros e pardos são responsáveis pela esmagadora maioria dos crimes violentos. Então seria uma boa política de segurança pública a criação de uma cota de prisão preventiva para negros. Ora, se a chance de um negro cometer um crime é muito maior do que a de um branco, por que já não colocar alguns na cadeia para prevenir?

O que é claro para mim, é que não existe diferença entre negros e brancos. Até porque, como disse anteriormente, não é possível separar uns dos outros. O que existe, na sociedade onde vivemos, são diferenças entre os que tem poder e os que não tem. Como poder é igual a dinheiro, então é claro que o problema está na má distribuição de renda, e não na discriminação racial. Existem motivos históricos, e todo mundo sabe quais são, para os negros serem maioria entre os pobres. Em função disso, acabam sendo maioria entre criminosos, vítimas de homicídio e presidiários. Isto é um fato, e nada tem a ver com a cor da pele ou com preconceito.

Se querem aumentar as chances de negros entrarem em faculdades (o que considero um objetivo bastante nobre), então deveriam ser criadas cotas para os mais pobres, pois este é um dado mensurável, justo e não hereditário. E mais, ao contrário da cor da pele, a pobreza ou a riqueza depende também do empenho individual. Além disso, as cotas criam privilégios para uns ao custo de penalidades para outros. Cada vaga dada a um negro pelo sistema de cotas é "roubada" de um branco (ou de um negro que esqueceu de se declarar como tal), com melhor desempenho escolar. Não me espanta nem um pouco que as pessoas estejam se declarando como negros em uma situação como esta, quando há uma óbvia vantagem em mentir, e um risco desproporcional em permanecer honesto.

O preconceito existe sim, pois existem pessoas idiotas o bastante para mantê-lo vivo. Mas esta não é a causa de todos os problemas, e nem da desigualdade social. A escravidão já acabou há mais de 120 anos, e embora tenha deixados cicatrizes horríveis no tecido social, já não faz mais sentido tentar corrigir os erros do passado recriando-os e apenas invertendo o sinal. Considero esta tentativa além de estúpida, perigosa. Pois ela evidencia as desigualdades e incentiva a criação dois lados inimigos. Pessoas que nunca tinham pensado nelas como brancas ou pretas, agora se vêem obrigadas a fazê-lo. São incentivadas a enxergar a desigualdade como preconceito racial. A se revoltar contra aqueles que consideram opressores, sempre do outro lado da divisão racial. Uma receita perigosa, com resultados já bastante conhecidos que acredito que ningém quer novamente.


Daniel Scarpim

13 de maio de 2009

RESPOSTA AO TEXTO “O EXERCÍCIO DA FÉ”, DE HENRIQUE MOURA

Bem, se for seguir o exemplo da sua história (diga-se de passagem e com todo respeito à sua cunhada, igual a uma dezena ou mais de histórias de "curas milagrosas" que já ouvi) eu teria que me lembrar também de outras histórias igualmente acontecidas e não tão felizes...

Vou colocar como exemplo a história do Seu Hélio, um senhor todo bondade, dedicação, carinho e humildade que trabalha na escola em que dei aulas durante quatro anos. Seu Hélio além de ser, no dia a dia e para todos os que convivem com ele, esse perfeito candidato merecedor ao cargo de santo, é muito religioso, está sempre, com palavras como “Deus te ajude e ilumine” desejando que deus ajude a todos a seu redor da mesma forma e com a mesma boa vontade com que ele nos ajuda no nosso trabalho.

Detalhe: Assim como é na escola, Seu Hélio é em casa, já tive oportunidade de vê-lo em família mais de uma vez e é difícil não se comover com o ambiente de amor que ele cria a seu redor. O resultado mais visível disso são seus filhos, que estudam na mesma escola, que já foram alunos de vários de nós e que são exemplos daqueles jovens, infelizmente raros, que a gente vê que tiveram e têm educação e amor em casa.

Pois bem, um dos filhos do Seu Hélio, um adolescente que estava na sétima série (portanto bem mais jovem do que sua cunhada) teve um câncer numa das pernas e começou a via-crúcis do pobre pai e dos demais membros da família, e começou também o sofrimento do garoto.

Foram mais de dois anos, todos que conheciam aquele pai e aquele filho e que tinham qualquer tipo de fé, passaram esse tempo em prece por eles. Até mesmo eu, uma atéia assumida, passei esse tempo desejando muito e com todas as minhas forças que de alguma forma aquela comoção e aquela corrente tão forte de apelo a deus tivesse algum efeito. Eu quis que, no mínimo, a força da mente tivesse como ajudar essas pessoas, desejei até, nos momentos mais críticos, estar errada, e que existisse mesmo algum poder capaz de impedir aquela injustiça.

Nenhum tipo de oração ou corrente de orações, nenhum tipo de desejo ou torcida teve qualquer efeito. Depois de muito sofrer o garoto morreu. E o Seu Hélio continua na escola, trabalhando, distribuindo bondade e carinho à sua volta. E, embora convivesse com ele diariamente, nunca o ouvi dizer uma palavra ou frase que desse a entender que ele perdera sua fé em deus.

Para mim, o coitado do homem não perdeu a fé porque não suportaria o resultado disso. Ter que encarar que não há um deus e que alguns se curam outros não, aleatoriamente e independente de qualquer tipo de mérito - sem que deixe de acontecer de pessoas com mérito serem privilegiadas, como foi certamente o caso da sua cunhada - acho que seria doloroso demais para ele. Então, ele e as muitas outras pessoas que não têm coragem de abrir os olhos para o óbvio, dizem suspirando e fazendo de conta que acreditam nisso: “Deus quis assim.”

Eu poderia dizer agora que se você teve motivos para recuperar a sua fé (desculpe se parecer que estou tentando diminuir a importância da cura de sua cunhada, não é isso que estou fazendo e não é essa minha intenção), maiores motivos ainda teria o Seu Hélio para perder a dele. Acontece que ele já está tão condicionado, já teve o cérebro tão lavado com essas historinhas de adormecer crianças que não é mais capaz de deixar de fazer parte da manada não pensante, das ovelhas que o pastor (diga-se qualquer líder religioso) conduz para onde quer porque elas não têm vontade própria.

Eu nunca vou dizer isso ao Seu Hélio, só o que fiz até o último dia que trabalhei com ele foi tentar dar a ele muito carinho e muita atenção, mostrar-me reconhecida e deixar claro que valorizo muito o privilégio de tê-lo conhecido. Sei que você vai achar uma heresia o que vou dizer, mas e daí? sou uma herege mesmo! Eu, uma atéia ralé e insignificante, dei ao Seu Hélio mais do que um deus todo poderoso e todo bondade, caso esse ser mitológico existisse, teria dado.

Não sei se me explico bem, mas o que acho é que colocar coisas boas que acontecem à gente e aos que nos são caros como exemplo e prova da existência de deus é ser muito egoísta e fazer questão de esquecer e ignorar os milhões de pessoas tão ou mais merecedores do que nós que não tiveram direito a esses acontecimentos bons. Ao invés de agradecer a deus e passar a crer nele e em sua bondade por eu ou alguém que amo ter escapado “milagrosamente” de um acidente ou de uma doença grave, sinto isso como prova de que deus não existe e eu simplesmente tive sorte ou, caso eu esteja errada, de que ele é mau e injusto por ter “salvado” com um “milagre” a mim ou à pessoa que amo e não a tantas outras pessoas que merecem tanto ou mais.
Se houvesse mesmo esse deus, eu é que não iria querer compactuar com ele! Não o admiraria, não o amaria e não o respeitaria. O fato de eu ter sido privilegiada com uma injustiça não torna essa injustiça menos injusta.

Você citou Josué para falar da força da fé e da oração, eu diria: Logo Josué! Aquele assassino que em nome do deus bíblico megalomaníaco e sedento de sangue do antigo testamento, matou tantas pessoas para tomar posse de seus lares? Acho esse personagem bíblico nojento e abominável, e a presença dele como protegido de deus é um dos motivos por que não tenho nenhum respeito por esse livro pleno de histórias de terror que tantos dizem “sagrado”.

Você convidou as pessoas a “malharem” exercitando a fé, eu prefiro convidá-las a malharem o cérebro, exercitando sua capacidade de pensar sem se deixar levar como ovelhas acéfalas que seguem um pastor muitas vezes desonesto e interesseiro e um deus imaginário, ilógico e incoerente, pra não dizer mau e injusto.


PS: O Texto a que estou respondendo, caso alguém queira ler, está nesse endereço: http://recantodasletras.uol.com.br/artigos/1582282

12 de maio de 2009

O QUE O PROFESSOR ENCONTRA NA ESCOLA

Sou professora, amo a matéria que ensino (português) e estou sempre tentando passar essa paixão para os alunos. Levo textos e mais textos, alguns escritos por mim mesma, peço que escrevam sobre todos os assuntos possíveis, deixo a gramática como secundária (sem desprezá-la) e dou mais valor à palavra. Procuro levar músicas, filmes, fotografias, textos pequenos, frases filosóficas... Tudo que possa ajudar o aluno a pensar e se expressar...

Mas o que encontro na escola? Uma instituição que prega a religião alienante embora a escola legalmente seja laica; pais que, quando contesto em sala de aula as partes da bíblia que servem para justificar preconceito, vão reclamar que estou falando mal da religião e de deus e que estou “estragando” toda a educação religiosa que eles vêm dando aos filhos desde sempre; alunos que têm preguiça de ler uma frase e total incapacidade de ler um texto, recusam-se a pensar porque preferem beijar na boca até cair os dentes, aceitar a alienação como algo útil e conversar só entre eles aos gritos e com um vocabulário reduzidíssimo.

Felizmente! E é só por isso que insisto em continuar fazendo meu trabalho, tem as exceções! Aqueles alunos que, quando convidados a pensar aceitam o convite e fazem descobertas, aqueles que acham maravilhoso se afastar um pouco da boiada quando a percebem; e, pelo menos no meu caso, nem sempre esses são os que têm as melhores notas, embora dificilmente sejam dos que têm as piores porque do jeito que está fácil conseguir nota na escola hoje, só têm as piores notas aqueles que realmente não vêem nada e não querem nada com nada... ou porque não aprenderam educação em casa ou porque não olharam ainda para si mesmos...

Infelizmente o maior prazer de muitos alunos é arruinar a aula do professor, não importa que professor ou que aula, eles não querem nenhuma. Falam, quando questionados, que os professores deveriam dar aulas mais criativas, mas quando são chamados a fazer algo mais dinâmico como um passeio cultural, ver um filme histórico no cinema, ouvir uma música que tem relação com o tema da aula, organizar uma feira ou gincana, ou até quando são questionados sobre o que ELES gostariam de ter e fazer na aula, o que fazem é atrapalhar, arrumar brigas, comportar-se como trogloditas a ponto de um outro local que não seja a escola recusar-se a receber novamente aqueles alunos... Depois, eles contam o caso uns aos outros achando o máximo!

O professor encontra na escola também:

1 - salas de informática fechadas porque não tem ninguém lá para ajudar com os alunos e, se quiser e a escola deixar, ele (professor) tem que assumir a responsabilidade de levar uma turma de 45 alunos a uma sala com 15 computadores, ensinar e ao mesmo tempo ficar atento para que não depredem a sala e não levem embora os periféricos do computador. e no dia seguinte ouvir a bronca da direção porque depois que ele levou sua turma sumiu um mause, um computador parou de funcionar, um teclado está sem duas teclas e tem um computador em um site de pornografia...

2 - Bibliotecas igualmente fechadas porque não tem bibliotecário e se o professor se atreve a levar os alunos assim mesmo, vai ouvir depois que tais livros sumiram, as páginas de tais livros e tais revistas foram arrancadas, apareceram desenhos pornográficos e palavrões escritos em determinados livros e os livros x e y foram encontrados completamente danificados atrás da última prateleira... Isso tudo, é claro, se a biblioteca não for um banheirinho adaptado como depósito de livros e onde não cabe mais do que uma ou duas pessoas...

3 - Inovações grandemente alardeadas pelas quais ele tem que pagar, como o caso da troca dos quadros de giz pelos quadros brancos. Fizeram a troca, não aumentaram um centavo no salário do professor e em geral entregam a ele uma caneta no começo do ano e só. Ele tem que arcar com as despesas das canetas se quiser usar os tão lindos quadros brancos que tantos votos deram ao político que os colocou lá.

4 - Multimídia desastrosa. A escola tem televisão, mas o som é quase inexistente e a caixa de som foi usada no salão na última festa e guardada por fulano que está com a chave mas não veio hoje... Essa semana não vai dar pra usar a sala de vídeo porque tem um grupo que vem apresentar - e vender - para os alunos um livro novo que tem resumo de todas as disciplinas com exercícios resolvidos e comentados... A televisão está aqui, mas o aparelho de vídeo está na caixa, guardado na sala da diretora e ela não vem hoje porque foi convocada para uma reunião na SE... Você pode usar a sala, mas tem que marcar com antecedência, só que no dia que você ia dar a sua aula a diretora resolveu fazer lá uma reunião de emergência com uma turma que colocou uma bombinha de festa junina no banheiro das meninas... Você levou os alunos pra ver um filme ontem e quando a servente foi lá tinha uma carteira toda riscada com canetinha colorida, você tem que tomar conta da turma e não ficar comentando o filme com eles e mostrando os detalhes relevantes que são a razão da escolha desse filme para a aula...

E depois de tudo isso, os responsáveis pelo nível baixo do ensino são, logicamente, os professores.

A gente vai muito para os hospitais com graves problemas de depressão por quê?

7 de maio de 2009

ELE



















Ele é um cara legal.
Mas, juro,
Não tenho nenhuma responsabilidade ou mérito por isso.
Ele já nasceu assim.
Nossa história é mais longa do que os anos de vida dele.
Talvez quase tão longa quanto os anos da minha vida.
Era, afinal, um pouco ele as minhas primeiras bonecas.

Ele já foi muitas coisas na minha vida...
Primeiro foi um desejo
Nesse desejo ele era uma pequena lista de nomes
E uma lista um pouco maior de possibilidades.
Eu o criei no meu pensamento e dei a ele uma beleza frágil
Que ele na verdade nunca teve.
Depois ele ficou mais forte e passou a ser um sonho.
Nessa época teve vezes em que ele me machucou,
Não de propósito, sei que jamais o faria,
Mas é que, feito sonho, ele tinha a possibilidade da não existência,
E a não existência dele era uma dor que me doía demais...
Algumas vezes ele chegou a ser possibilidade

Um dia ele se tornou real!

Primeiro ele foi real só pra mim,
As outras pessoas, mesmo quando sabiam da existência dele,
Não sentiam a realidade dele da mesma forma que eu sentia.

E ele foi ouvinte
Nessa época eu falei demais!

Pouco antes de conhecê-lo eu o tinha como urgência
Afinal, meu corpo cresceu demais e eu parecia explodir,
E explodiria duas vezes em uma única explosão,
Explodiria por não comportar mais o tamanho dele que crescia
E explodiria de orgulho,
De felicidade por sabê-lo real

Ele veio a mim saindo de mim
E olhou o mundo com a ajuda dos meus olhos
E me mostrou um mundo que eu só pude ver com a ajuda dos olhos dele.

Então ele foi muito meu,
Meu no sentido em que eu era toda dele,
Meu no sentido de que eu fui sua cama e seu travesseiro,
Ele encheu minha casa mesmo quando eu não tive casa
Ele era pequeno, do tamanho exato da minha coxa
Onde às vezes ele dormia,
Ele era grande, tão grande que o amor dele explodia dentro e fora de mim
Me dava taquicardia
E me espalhava pelo mundo a fora

Ele foi meu pacotinho-de-bem-querer
E naqueles olhos,
Naquele sorriso
Estava todo querer do mundo!
Eu me sentia pobre e abandonada sem ele nos meus braços,
Mas ele sempre estava lá!

Ele saiu do meu colo e andou comigo,
Andamos muitos quilômetros!
E nesses quilômetros de prazer ele falava,
Ah, ele falava tanto!
E falava tão lindo!
Eu... ouvia e respondia
E nós contávamos nossas histórias no ritmo dos nossos passos
Caminhando, trocávamos presentes,
Eu dava a ele um pedaço de plástico colorido
E recebia o espaço sideral que ele criava,
Eu dava a ele uma caixa de pequenos tijolos
E recebia a explicação detalhada de todo um universo
E quando eu dava a ele meu colo
Ele me dava seu sono e a paz de sua expressão,
O meu bem mais valioso!

Um dia a gente se separou
Ele foi viver uma vida desconhecida pra mim,
Ele ficou longe, mas não desapareceu
Da vida que não conheço
Ele traz sempre algum raio de sol pra mim
De longe eu posso ouvir a voz dele
E sei que ele ainda está olhando o mundo
Com os olhos que eu fui a primeira a ver
Do chão que ele pisa, às vezes me manda flores,
Não as flores que se compra com cartão e crepom
Nas lojas cheirando a jardins ou cemitérios,
Ele manda todas as flores que eu vejo
E o colorido delas brilha mais porque sei que ele também as vê
Então naqueles momentos as flores,
Todas as flores do mundo
São minhas e foi ele quem me deu.

Ele vê o mundo mais colorido do que eu vejo,
Ele percebe tons e nuances de azul e de vermelho que eu não consigo perceber
Mas eu o percebo
De uma maneira tão viva e concreta que agora,
Acima de realidade,
Ele passou a ser para mim,
Eternidade...


Divina

6 de maio de 2009

O PRINCIPAL MANDAMENTO







Se metade dos cristãos cumprisse o que eles chamam de principal mandamento do cristianismo e que já me disseram mais de uma vez ser o mandamento único a que Jesus reduziu os dez do velho testamento “simplificando” assim a maneira de seguir a bíblia, que mundo lindo teríamos!

O que eles chamam de “simples” é o “Amai ao próximo como a ti mesmo”, chamam de simples porque não o entendem e não o praticam. Em defesa deles devo dizer que não o praticam por total impossibilidade de fazê-lo. Mentem, mas não é por má vontade, é por ignorância (no bom sentido) e impossibilidade; impossibilidade física, psicológica, mental, de formação, atávica, humana, animal, de praticar o que afirmam praticar. Sim, porque se você pensar um pouco não há como um ser humano amar da mesma forma todos os outros seres humanos. Imagine alguém que ama todas as crianças exatamente como ama o próprio filho; alguém que em situação de pânico e estando os dois juntos se preocupa tanto em salvar o estranho completo quanto o próprio irmão de sangue; alguém que gastaria o último centavo e o último esforço para salvar a mulher da qual ouviu falar da mesmíssima forma e com o mesmíssimo desespero e preocupação que faz naturalmente à sua mãe doente. Há ou houve no mundo alguma pessoa assim? Sou cética e digo que não, o mais crente e iludido Polyana daria uma dúzia de nomes, alguém menos Polyana, mas ainda assim crente, daria o exemplo de uma ou duas pessoas ao longo da história...

Pois bem, se metade daqueles cristãos que dizem praticar esse mandamento e tentam nos convencer de que isso é simples fizesse mesmo o que dizem fazer, nós, pobres mortais ateus, agnósticos, descrentes e não-cristãos, certamente viveríamos em um mundo extremamente melhor.

Olhei no Google agora e vi que no mundo existem aproximadamente 2,1 bilhões de cristãos, quanto é a metade disso? Arredondando pra baixo teremos um bilhão de pessoas espalhadas pelo mundo, sendo a maioria no ocidente. No Brasil temos aproximadamente 26 milhões de cristãos, novamente dividindo ao meio teríamos, no Brasil, 13 milhões de pessoas amando ao próximo como a si mesmas. Esses 13 milhões de pessoas não permitiriam que elas mesmas passassem fome, sofressem maus tratos, vivessem jogadas pelas ruas, morressem abandonadas; portanto alimentariam todos os mendigos e crianças abandonadas do país, já que, seguindo o mandamento único e simples, amam a cada uma dessas pessoas como a si mesmas. Acho que 13 milhões de pessoas, algumas certamente ricas, poderiam acabar com a fome no país sem dificuldade.

Continuando: 13 milhões de pessoas amando ao próximo como a si mesmas não permitiriam jamais que uma criança vivesse sem lar, é só fazer as pesquisas: Quantas crianças abandonadas temos? Fui pesquisar e vi que existem no Brasil por volta de dois milhões de crianças abandonadas, se cada cristão que ama ao próximo como a si mesmo adotasse uma criança, ou duas certamente não teríamos mais crianças jogadas pelas ruas. Olhando os números: se 13 milhões de cristãos que amam ao próximo como a si mesmos resolvessem adotar todos os menores abandonados do país nem teria menor pra todo mundo, daí os que não adotassem crianças poderiam acolher um mendigo ou um velho, porque existem também pessoas que não são menores mas que estão igualmente abandonadas. Tendo 13 milhões de pessoas acolhendo um ser humano abandonado que eles amam como a si mesmos não teríamos mais pessoas, menores ou maiores, jogadas pelas ruas e praças das cidades brasileiras. Problema resolvido.

Ainda teríamos o problema não menos grave das famílias que vivem em condições que os sociólogos chamam de “linha abaixo da pobreza”. Então esses 13 milhões de cristãos que realmente seguem o principal mandamento, de repente poderiam pegar o dízimo que dão para encher o rabo dos líderes de suas igrejas de dinheiro e fazer uma desviadazinha básica aplicando essa grana em recursos para ajudar as famílias, primeiro com o urgente e depois dando cursos, profissionalizando e colocando no mercado de trabalho toda essa gente que precisa alimentar, vestir e educar seus filhos mas não pode. Muitos desses 13 milhões de cristãos que amam ao próximo como a si mesmos são empresários e, portanto, poderiam empregar e pagar salários dignos a essas pessoas que eles amam como a si mesmos.

Agora pensem nos outros países de maioria cristã, muitos desses países são ricos, podem portanto, com sua metade de cristãos que realmente seguem o principal mandamento, não só acabar com esses mesmos flagelos, que em seus países existem em números geralmente bem menores, como ainda ajudar, e muito, a acabar com esses problemas nos demais países do mundo. Se metade dos cristãos dos Estados Unidos e da Europa fossem cristãos que seguem o mandamento principal, eu ouso dizer, e duvido estar errada, que não haveria mais crianças morrendo de fome na áfrica, na China, na Índia... Se pararmos por aí já temos o fim de três flagelos: o menor abandonado, o maior abandonado e a família abandonada. No Brasil certamente, no resto do mundo quase com certeza.

Podemos ainda pensar na “contaminação” que essas providências radicais de metade dos cristãos do mundo teria no restante dos cristãos e até nos não-cristãos. Acho que religiosos de outras religiões e seitas ficariam contaminados e sentiriam que seus deuses também querem deles uma atitude de verdadeiro amor ao próximo, então haveria budistas, xaonistas, umbandistas, wicas, e mais milhões de pessoas contagiadas pelo “amai ao próximo como a ti mesmo” trabalhando em tempo integral para tornar o mundo melhor.

Quantos cristãos ou religiosos de outras correntes amando ao próximo como a si mesmos conseguiriam pegar em armas e sair a campo matando gente? Acho que os exércitos do mundo seriam muitíssimo menos violentos, menos letais e mais úteis porque ao invés de estarem os soldados de um país, armados até os dentes, distribuindo tiros e coronhadas para “pacificar” revoltas, estariam os soldados de um país, armados do amor ao próximo, distribuindo sorrisos, alimentos e esperanças para tornar belas as vidas dos habitantes do seu e dos outros países, pessoas que eles amariam como a si mesmos... Além disso, esses soldados estariam obrigatoriamente bem menos armados; sim porque existem também, e deixariam de existir, pelo menos pela metade, cristãos que dizem amar ao próximo como a si mesmos e que são proprietários, dirigentes, engenheiros, criadores e vendedores de armas.

E olha que nem citei os ateus, os agnósticos, os iconoclastas, os descrente que são vistos por muitos cristãos que dizem amar ao próximo como a si mesmos como seres daninhos, crias do mal e entes não humanos que devem ser eliminados da face da terra ou, no mínimo, perderem o direito de serem considerados como cidadãos mas que tenho certeza, teriam muitos de seus representantes (eu inclusive) de mãos dadas com esses cristãos, trabalhando por esse mundo utópico.

Agora dá pra se perguntar: se metade dos cristãos realmente seguisse o mandamento que dizem seguir e que afirmam ser básico, resumo e simplificação da bíblia, viveríamos ou não em um mundo melhor?