30 de junho de 2009

FESTA JOÃONINA

Fui a São Paulo “lamber a cria”, como a data coincidiu, ficamos felizes com isso e aproveitamos os dias em que ficamos lá para ir à “Festa Joãonina”. A festa Joãonina é a festa de aniversário do João, uma festa junina que acontece todos os anos desde quando meu filho era pequeno e nós morávamos em Santo André. Acho que já faz uns 20 anos que fui à primeira. Antes ela acontecia na casa do João e da Cida, um casal de amigos que temos e de quem gostamos muito. Dia 24 de junho é o aniversário do João, então a festa acontece sempre em um fim de semana próximo. Há alguns anos o casal comprou um sítio em Suzano e as festas Joãoninas passaram a acontecer no sítio. Quando nos mudamos para Resende, em 2000, ficamos longe demais para ir à festa todos os anos, acho que fomos apenas a duas. Agora aconteceu essa coincidência das férias do Nêgo com a festa e lá fomos nós.

Ao todo, fomos certamente a mais de cinco, talvez até mais de dez festas Joãoninas desde que nossos amigos João e Cida começaram a organizá-las e a nos convidar. Pois bem, nessa última teve uma “atração” que nunca teve antes: depois da quadrilha, meu amigo João chamou todos para o centro do campo de futebol, pediu que formassem uma roda, fez um discurso religioso e todos rezaram o pai nosso, a ave Maria e sei lá mais o que. Eu fiquei sentada na mureta da cerca vendo aquilo e me sentindo francamente decepcionada. Onde mais falta entrar essa mania de orações a propósito de toda e qualquer coisa?

Eu realmente gosto, e muito, do João e da Cida. São daqueles amigos que a gente poderia chamar de parente se parente fosse uma palavra de sentido positivo em tempo integral. Eles já estiveram em nossa casa em Santo André e já viajaram mais de uma vez para passar alguns dias conosco em Resende, dias que sempre foram extremamente agradáveis em todos os aspectos. Gostamos deles e gostamos tanto que quando lamentamos o fato de estarmos agora morando em uma kitnete e não em um apartamento grande como o de Resende ou em uma casa grande como a de Santo André para hospedar nossos amigos sempre que nos visitarem, na palavra “amigos” estamos sempre colocando, como parte mesmo do significado desse vocábulo, os nomes do João e da Cida.

Ver aquela roda de oração, que provavelmente passará a ser parte integrante das festas Joãoninas a partir de agora, realmente mexeu dolorido alguma coisa dentro de mim. Fiquei lembrando e meio que listando em quantas situações essa mesma cena tem se repetido ultimamente diante de meus olhos ateus. Não há mais como ver um jogo de futebol sem que se veja a rodinha religiosa ao entrar em campo ou (só dos vitoriosos) ao final da partida. Não há mais encontro pedagógico em nenhuma escola que não inicie ou termine com a rodinha. O apelo religioso invadiu até reunião dos Vigilantes do Peso e reuniões de condomínio.

Sinceramente, essa coisa está me assustando. A história tem mostrado que uma religião forte é um caminho reto para a intolerância. Qual será o combustível das fogueiras piedosas do século vinte e um?

Quando brigam comigo dizendo que estou sendo muito radical nessa minha postura antirreligiosa sou obrigada a pensar. Será que estou mesmo? Estudei em escola pública toda a minha vida, não tive aulas de religião a não ser no curso de catecismo que minha mãe me levou para fazer, nenhuma das duas escolas onde estudei tinha corredores e salas de professores, diretoria e secretaria cheios de cartazes religiosos, imagens de santos, bíblias abertas e frases bíblicas espalhadas por todos os lados, nenhum dos diretores das escolas onde estudei faziam pregações religiosas uma vez por semana ou nas datas especiais como festas cívicas ou primeiro dia de aula.

Será que essa invasão de religiosidade em todos os cantos e horas não é mesmo algo para se combater? Onde está a tolerância? O respeito ao outro está onde mesmo? Seguramente esse respeito não existe quando as pessoas se juntam fora de suas igrejas para fazer orações sem nem sequer pensar na possibilidade de estarem causando desconforto a alguma outra pessoa que não partilhe de suas crenças. Nunca, nunca mesmo cai a ficha para os religiosos, eles nunca pensam que podem estar molestando e causando desconforto a alguém.

Quem molesta sou eu, só eu porque falo contra isso em nome dos ateus, dos agnósticos, dos não cristãos, porque tento defender meu direito e o direito das pessoas que, embora sejam minoria, não querem ficar orando e gritando deus ou Jesus a todo momento, por tudo e por qualquer coisa. Isso que estou dizendo consta na Lei máxima do nosso país: Todas as minorias merecem respeito. E eu diria que as minorias religiosas principalmente, pelo perigo que a intolerância religiosa traz.

Será que não dá pra ver que também temos direitos? Não, parece que os religiosos não veem nada e não raciocinam sobre nada quando o assunto é religião; nem sequer sabem distinguir os direitos mais básicos de todo e qualquer cidadão. Os bons, os melhores deles, os mais acordados, mais críticos, mais lúcidos, mais amigos, mais “João e Cida”, acham que nada pode ser imposto a ninguém sob nenhum tipo de argumento, nem mesmo sob o argumento da maioria. Essas excelentes pessoas defendem os direitos de todos em todos os aspectos da vida social e política. São contrários a todo tipo de coação e constrangimento que se possa impor a qualquer pessoa em qualquer circunstância e em se tratando de qualquer assunto. Exceto suas crenças.

25 de junho de 2009

MEIO SÉCULO DE DESCOBERTAS



Esta semana completei cinqüenta anos. Não gostei. Cinqüenta anos é meio século, meio século é provavelmente mais tempo do que a metade da minha vida. Tive meio século para alcançar o que muitos chamam de sabedoria. Não alcancei sabedoria nenhuma, pelo contrário, quanto mais vivo mais descubro coisas que não sei, mais tenho perguntas não respondidas e questionamentos, metafísicos e objetivos, que só conseguem produzir mais perguntas sem respostas. Não encontrei deus e não vi nenhum milagre, não descobri que mais vale a experiência do que a juventude, a mente do que o corpo, a calma do conhecimento que a excitação da descoberta. Descobri mesmo foi o contrário de tudo isso.


Não me tornei uma velha amarga, não me tornei uma velha feliz, não me tornei uma velha conformada; apenas me tornei uma velha. Não descobri que a vida vale a pena apesar de todas as penas, não descobri que deus é o meu melhor amigo e não encontrei nenhuma paz em nenhuma sensação de dever cumprido. Não fiz as pazes com o espelho, não sinto que a vida é bela, não olho para a natureza como dádiva e não tenho saudade da minha infância. Sou uma pilha de nãos!


Descobri que quanto mais vivo mais me falta o que aprender, que perguntar é uma necessidade perene, independente de haver resposta, que não preciso de nenhum deus para ser ética e moralmente decente, muito menos pra ser feliz, e que amo as pessoas individualmente mas tenho homérico desprezo pela raça humana. Descobri que não tenho amor próprio e não preciso dele para evitar suicídio porque a vida é ruim mas fico nela por falta de melhor opção.


E enquanto vivi fui descobrindo que o amor existe e não dói quando você mantém o orgulho, que amigos valem mais do que tesouros, que filho vale mais do que a felicidade, que ficar sozinha e de mãos vazias não é tão ruim assim se você puder pensar e que quando alguém diz que algo é a verdade a melhor coisa que faço é duvidar.


Pude constatar que a história de todos os povos é feia e sanguinolenta embora todos os lugares sejam lindos e todos os países sejam o melhor do mundo. Vi que todas as línguas são pura poesia, todas as culturas são ricas, todos os times são vitoriosos, todas as crianças são lindas, todos os jovens são fantásticos e o preconceito é a maior das burrices.


Falta descobrir como ganhar muito dinheiro sendo honesta dentro de um contexto honesto, mas isso às vezes acho que ninguém descobriu.

9 de junho de 2009

CRIATURAS MORTAIS

Acabei de ver, agora, no canal de TV da Nacional Geográfica, o “Netgeo” como pronuncia o locutor, um programa sobre animais que são predadores muito eficientes. O programa mostrou formigas extremamente venenosas, uma centopéia que come ratos, cobras, aranhas, tigres, um felino chamado fossa de que eu não me lembro de ter ouvido falar e terminou contando a história de um enorme urso negro que atacou e quase matou um ciclista nos EUA. Concluí que não devo mais ver esses programas, eles literalmente me fazem mal, meus batimentos cardíacos ainda não voltaram ao normal e estou com uma sensação horrível na barriga, uma espécie de amargor dolorido, sei lá... Tenho certeza de que se passasse por um exame médico agora ficaria comprovado que não estou mesmo bem, minha cabeça começou a latejar e estou sentindo uma pontada do lado esquerdo, preciso tomar um copo d’água, volto já.

Quando fui pegar a água descobri que estava tremendo, deitei-me e deixei passar um tempo antes de voltar a escrever.

Eu não entendo: o que é que passa na cabeça das pessoas que faz com que elas digam e acreditem que a natureza é bonita, perfeita, maravilhosa? Sempre que penso nisso sinto engulhos e depois de ver um programa desses fico mais e mais pasma com a capacidade que as pessoas têm de ver beleza no horror puro e simples. Não compreendo, é tudo que posso dizer a respeito. Não compreendo.

Só porque tem uma cadeia em que um devora o outro e é pelo outro devorado as pessoas chamam a natureza de perfeita? Só porque tem devoradores e presas coloridos e com carinhas simpáticas e pelos macios as pessoas chamam a natureza de bela? Só porque tem flores perfumadas, frutos saborosos e folhas brilhantemente verdes nos lugares onde animais de todos os tamanhos matam e são mortos as pessoas chamam a natureza de maravilhosa? Como pode? Como é possível? Eu não consigo compreender, não consigo...

Consigo sentir pena, carinho, respeito e até amor por muitos animais (deixo fora a barata); consigo admirar a beleza, a força, a esperteza, a agilidade de muitos animais (deixo fora a galinha); consigo desejar proteger, ajudar, amparar, compreender, conhecer muitos animais (acho que aqui não dá pra deixar nenhum fora); consigo até resistir ao meu próprio instinto, lutar contra meu gosto por picanha e sashimi e deixar definitivamente de comer qualquer animal se puder evitar. Mas não entendo como esse denso mar de sangue e medo em que estamos todos mergulhados pode ser chamado de bonito, maravilhoso, perfeito...

A natureza é feia, extremamente feia. Mal comparando, é como um psicopata assassino serial extremamente simpático, cativante, bem vestido e perfumado (o “Psicopata Americano”, alguém lembra do filme e do livro?). Toda a beleza e o visual agradável não conseguem fazer com que essa pessoa deixe de ser horrível. Assim é a natureza, mas parece que ninguém percebe isso e eu não entendo por quê.

6 de junho de 2009

INCESTO

Eu seduzi meu pai. Ele não foi o cachorro nojento que são os pais que abusam de suas filhas por excesso de álcool e falta de caráter. Foi o homem que amei desde sempre e que me amou para sempre amando a ela em mim. Ele foi a pessoa mais fiel e apaixonada que existiu. Não contei nada a ninguém e nunca contaria não fosse coisa tão antiga, que já não importa mais, e se não fosse a presença constante da dor que sempre esteve comigo desde que soube que viveria sem ele todos os dias de vida que me restavam.

Eles descobriram quando estudaram na mesma turma, aos 16 anos, que tinham muita coisa em comum. Haviam nascido no mesmo dia e na mesma hora no mesmo hospital. O nome da mãe dele era o mesmo nome da mãe dela, o nome do pai dela era o mesmo nome do pai dele. Na primeira meia hora de conversa não conseguiram encontrar muitas diferenças entre eles além dos sobrenomes, continuaram procurando. A procura os tornou amigos e se pesquisaram com a paixão de estarem descobrindo a si mesmos. Tanto se afundaram cada um na personalidade do outro que se apaixonaram e o amor deles era eterno porque cada um amava a si mesmo no outro que amava. Ela engravidou e se casaram. Tinham 18 quando eu vim e ela foi. O pedaço dele que era ela se perdeu e ele quis perder-se também. Segurou-se em mim e sobreviveu. Eu me tornei o pedaço que lhe faltou.

Minha infância foi linda. Tinha todo o seu tempo livre. Poucas vezes soube de alguma namorada, algum caso que ele tivesse nesses anos todos. Sua sinceridade para comigo era total. Não havia segredos, não havia perguntas sem respostas, não havia medo. Quando perguntei de minha mãe ele não disse que ela foi pro céu, não disse que foi fazer uma longa viagem. Disse apenas que morreu. Quando perguntei o que era morrer ele me disse que não sabia muito bem, disse que todas as pessoas e animais um dia deixam de existir, alguns quando já são velhos, outros ainda jovens. Contou-me o que algumas pessoas acreditavam sobre a morte, a opinião de algumas religiões, e quando perguntei em que ele acreditava me disse que não sabia, que gostaria de acreditar em alguma dessas religiões mas não conseguia. Que eu poderia decidir depois, quando fosse maior, em que acreditar. Dizia tudo com tanta sinceridade, com tanta clareza que nada era difícil de compreender. Ele era transparente e seus sentimentos nunca ficavam escondidos para mim. Quando fui à escola ele me levou pela mão e me disse que se eu tivesse alguma dificuldade ele viria me defender. Não precisei ter medo de nada e nunca me senti insegura porque sabia sempre e o tempo todo que podia contar com ele.

Deixava sempre livros pela casa, livros coloridos e ilustrados onde eu podia ver tudo que era vida, natureza, história. Deixava livros de ciências para que eu começasse logo a aprender como era o corpo humano. Nunca me proibia de mexer em alguma coisa. Tudo na casa era meu e nada me era vedado. Fez com que o que era difícil se tornasse fácil, não me assustava a matemática nem a gramática. Não me assustavam as provas nem as crianças maiores do que eu. Ele me punha no colo e me dizia como tudo era lindo e como saber fazia bem, me beijava a testa e me dizia que me amava e que por isso me protegeria sempre. Nunca me falou de bicho papão e quando perguntei o que era me disse que era uma invenção de algumas pessoas que gostavam de assustar crianças. No natal me dava presentes e me ensinou que Papai Noel é alguma coisa que deveria existir. No dia da minha primeira menstruação fez um chá para sarar minha cólica e disse que o que estava acontecendo comigo era a única coisa no mundo que ele conseguia chamar de milagre.

Não sei como começou, não consigo definir a data, sei que quando comecei a entender o que era sexo e comecei a desejar estar com um homem, o homem era ele. Passei a espioná-lo e via sua nudez com deslumbramento. Desejava toca-lo e ser tocada par ele. Sentia ciúmes de toda mulher que o olhasse, procurava sempre dizer que o amava, abraçá-lo e beijá-lo.

Fui insidiosa, sedutora de tal forma que cheguei a apavorá-lo, mas eu o amava e precisava estar com ele. Procurei conversar assuntos mais sérios. Estudei. Falei com ele sobre literatura, filosofia, física e biologia; falei sobre história, religião, ciência; fui divertida, inteligente, agradável. Aprendi a jogar xadrez, tênis e vôlei de praia para ser parceira dele em todos os momentos. Ele só sentia falta de outra mulher quando pensava em sexo. Eu providenciei para que nesses momentos ele também começasse a pensar em mim.

Um dia nos beijamos, foi o primeiro beijo de homem e mulher. Eu o provoquei, é claro. Estávamos em férias em um hotel fazenda e ele foi ao meu quarto deixar minha mala, convidei-o para ir à piscina, provoquei uma competição de nado, mostrei os dois biquínis que trouxera e pedi sua opinião sobre qual deles seria mais confortável para que eu o derrotasse, ele brincou que nem com pés de pato eu ganharia dele, eu disse sim, ele disse não, eu chequei mais perto e o beijei. Ele correspondeu e depois saiu correndo do quarto dizendo “Meu Deus o que foi que eu fiz?”

Eu me vesti, coloquei uma saída de praia e bati na porta do quarto dele perguntando se já estava pronto para ser derrotado. Ele demorou um pouco mas saiu e fomos nadar como se não tivesse acontecido nada. Na hora do jantar eu entrei no assunto para dizer que o beijo tinha sido por culpa unicamente minha e que eu o fizera porque o amava. Ele tentou rebater meus argumentos, tentou mesmo! Tentou até fugir de mim, chegou a afirmar que talvez fosse bom que a gente se afastasse, depois propôs que eu fosse estudar em outra cidade, ele alugaria um apartamento pequeno para mim e a gente se veria nos finais de semana, eu teria tempo para pensar melhor e descobriria, convivendo com rapazes da minha idade, que estava cometendo um erro, que aquilo tudo era loucura. Afirmou que me amava muito, muitíssimo mesmo, mais até do que ele poderia por em palavras, mas não poderia nunca me amar daquela forma, estava errado, não podia acontecer nunca, seria um crime. Enfim, ele se justificou, explicou, usou todos os argumentos que a lei e a ética defendem e eu continuei afirmando que meu caso era diferente. Fui pra faculdade em outra cidade, tive um apartamento pequeno e agradável e via-o todo fim de semana.

Todas as vezes que a gente se via ele me perguntava sobre namorados, todas as vezes eu respondia que o único homem do mundo que me interessava era ele. Uma noite falamos muito e bebemos bastante no restaurante próximo do meu apartamento, eu o convenci a subir para pegar uma conta que precisava ser paga e me aproveitei da fragilidade dele. Ele tinha acabado de terminar um romance, estava sensível e vulnerável, eu me aproveitei e acabamos fazendo sexo. Ah, como foi mágico! O beijo já tinha sido algo fantástico, o sexo foi o superlativo dele. Desde aquele dia, todo fim de semana ele dormia comigo. Foi tão bom quando ele finalmente se entregou! Ficávamos na minha casa, ficávamos na casa dele, nas férias viajávamos. Tudo era perfeito! Se ele dizia alguma coisa que denotasse seus sentimentos de culpa eu o dissuadia afirmando novamente e novamente, de forma sincera e convincente que ele jamais me seduzira, que ele jamais cometera crime nenhum, tudo foi iniciativa minha e o que estávamos vivendo era tudo que eu queria na vida. Ele então se deixava amar e retribuía meu amor como um amante, um namorado, um amigo.

Nosso único problema era não permitir que ninguém descobrisse, então inventei um namorado, ele inventou uma namorada e sempre usávamos esses dois personagens fictícios em nossas conversas com estranhos.

Fui feliz. Fomos felizes. Tão felizes que duvido muito se alguém no mundo foi sequer um dia tão feliz quanto fui por anos. Mas ele ficou doente, um tumor na cabeça o tirou de mim rápida e dolorosamente e, quando ele morreu, meu único consolo foi poder chorar e chorar muito sem ter que esconder de ninguém a minha tristeza. Para o mundo eu era uma filha sofrendo a perda de um pai, para mim mesma era muito, muito mais do que um pai que estava perdendo, era toda a minha possibilidade de ser feliz que se ia para sempre.

Eu estava certa. Muitas vezes mais chorei. Nunca mais fui feliz mas nunca me arrependi. Se tivesse resistido aos meus sentimentos, se não o tivesse convencido a aceitar os dele, se o não tivesse transformado no meu amor, certamente não teria hoje meu único bem: a lembrança da felicidade que tive...

3 de junho de 2009

HOJE VOLTEI PRA CASA FURIOSA!

Tá lá, na banca de jornal, na capa de um daqueles jornaizinhos meia-boca, com foto da mulher e letras garrafais: "Fulana diz que foi salva pela santa não sei o quê".

A manchete é mais ou menos assim e explica que a tal mulher ia pegar o voo da Air Frace que desapareceu, mas teve sua passagem adiada. E ela afirma que foi salva pela tal santa. Tá feliz e agradecida!

Ah, gente, que me perdoem os que não concordam, não quero ofender ninguém, mas uma pessoa tem que ser muito mesquinha, muito baixa, muito burra e muito imbecil para ficar feliz e agradecer a deus ou santo depois de uma tragédia como essa!

Isso me faz sentir muita raiva. Vontade de chacoalhar essa imbecil e gritar: Você não enxerga, sua anta, que está agradecendo a um santo pela morte de muita gente?

Mesmo uma pessoa simples, do povo, semi analfabeta e seja lá mais o que for, será que tem mesmo direito de dizer um disparate desses? Será que pode mesmo ser justificada pela sua "inocência" e simplicidade? Juro que nesses momentos acredito que não. Eu acho que essa besta deveria ser processada pelos familiares das vítimas!

Sei que vão me dizer que é provável que a dona esteja feliz pela vida dela, não feliz pela tragédia que se abateu sobre os outros, mas pra mim não justifica. Sempre que acontece algo parecido, aparecem pessoas com depoimentos semelhantes, foi assim no caso da Tzunami, foi assim em praticamente todas as tragédias grandes e pequenas que vi pela televisão ou pelo jornal, sempre tem um idiota feliz agradecendo a um deus ou um santo seletivo porque ele (só ele!) teve o privilégio de escapar, por pouco.


E aí é que está a razão do meu emputecimento:

Quem tem alguma fé e credita essas coisas a um deus, santo, xamã ou o diabo que o parta é uma besta que não sabe usar o cérebro nem pra somar o um mais um dessas equações trágicas.

Não acho que mereçam compreensão, acho que essas pessoas merecem um chacoalhão pra ver se pegam no tranco e deixam de ser imbecis.

Desculpe se exagerei, tô muito brava mesmo!