10 de julho de 2009

O HOMEM PLURAL

.

Ele nasceu quieto, nunca chorou e durante toda a sua vida jamais disse uma única palavra. Nunca manifestou qualquer sentimento, nunca respondeu a uma única pergunta, fosse com palavras, com acenos ou com um olhar. Nunca tomou uma decisão ou manifestou um desejo, nunca se viu um gesto de apreço ou de raiva, uma expressão de curiosidade, um brilho de descoberta, uma sombra de ternura. Nada! Ele era uma personificação, ou mais ainda, o superlativo mais completo e mais absoluto da mais completa e absoluta apatia.


Viveu pouco tempo. Os médicos não viam nunca nada de errado nele. Tinha boa saúde, era bem cuidado, tinha uma mãe dedicada que o alimentava a cada três horas e se preocupava com os nutrientes e com os líquidos que ele precisava consumir. Era uma atividade de tempo integral já que ele não manifestava fome ou qualquer outra necessidade. A mãe o levava ao banheiro, colocava-o na cama, vestia nele as roupas e até espantava de seu corpo eventuais moscas ou pernilongos. Ele não tomava nem mesmo a simples atitude de se mover, sua mãe movimentava seu corpo todos os dias com exercícios recomendados pelo fisioterapeuta.


E por que esse homem era tão diferente? Será que não tinha consciência de si mesmo e do mundo que o cercava? Será que não sabia de sentimentos, de sensações e de necessidades? Será que esse homem viveu tanto e não aprendeu uma língua, fosse de sons, fosse de gestos, com que se comunicar? Teria ele algum tipo de retardamento mental que não permitia que aprendesse a mais simples das coisas, como movimentar o próprio corpo? Ou seria a inexistência total de memória que não permitia que se lembrasse nem mesmo de que existia? Era perfeitamente saudável e ficou doente apenas seis vezes nos seus vinte anos de vida. Ninguém ligou as doenças às guerras. Ninguém contou as doenças, nem as guerras.


Na verdade o problema desse homem não era falta; era excesso. Tinha tantas consciências que não podia ser uma consciência; tinha tantas vontades e tantas necessidades que não podia manifestar apenas uma delas; tinha tanto a dizer, e dizia, que não conseguia articular um som ou esboçar um gesto; sentia tantos prazeres e tantas dores que não podia gemer por nenhum deles. Sabia tantas línguas que não conseguia decidir por uma palavra. Sentia tanto, de mal e de bem, que não tinha como conseguir chorar ou sorrir.


Ele nasceu plural. Ele nasceu sendo o mundo. Ele nasceu com a consciência de todas as pessoas, e passou a vida sentindo as dores, os prazeres, os horrores, as crenças, os desejos, os temores, os sentimentos todos de todas as pessoas do planeta e ao mesmo tempo. Ele foi sua mãe a cuidar de um filho todo apatia; enquanto isso foi o médico a não entender aqueles sintomas e o pai a fugir daquela situação desconfortável. Foi também o artista de sucesso que a mãe via na televisão, o criminoso, o repórter e a vítima de cuja notícia a mãe tinha conhecimento pelo telejornal. Foi ao mesmo tempo todos os soldados e civis que mataram e morreram, que torturaram e foram torturados em todas as guerras e todos os conflitos que a mãe via, e que não via, nas notícias dos jornais. Era ao mesmo tempo a adolescente apaixonada, a esposa espancada, o marido cansado, o filho se derramando em energia.


Era aquele que queria a guerra, aquele que desejava a paz, o filósofo que pensava os conflitos e o intérprete que traduzia as tentativas de diálogo. Era o médico de campanha que suturava a ferida sangrenta, o ferido que se esvaia e o poeta que desmaiava à vista de sangue. Era o estuprador libidinoso e a criança inocente e dolorida, a mãe plena de amores, o filho indiferente e o frio parricida. Era o criador, o fabricante, o detonador e a primeira vítima da última bomba criada. Agonizava sob tortura, gozava a dor alheia, sofria as dores do mundo, lutava por melhores tempos, tinha crenças e duvidava. Procurava por respostas, se negava a fazer perguntas, tinha a vida à sua frente, morria sem esperança, dormia e estava acordado, era atleta e comatoso, tinha riquezas incontáveis, passava fome e frio. Era ele e era todo mundo. Morreu de puro cansaço. De tantos movimentos jamais se mexeu.

6 de julho de 2009

A VELHICE CONTRARIANDO A FILOSOFIA

.
Lendo uma matéria em uma revista de filosofia (Ciência e vida – Filosofia – Ano – n° 10 – editora escala) deparei-me com um discurso tão meu conhecido e tantas vezes ouvido ou lido por mim que resolvi comentar mais uma vez já que estamos falando de filosofia e discordar radicalmente de filósofos reconhecidos é sempre uma temeridade excitante. A autora do artigo (Talita Cícero) é jornalista, mas cita vários filósofos em sua matéria que tem como objetivo, como praticamente tudo que leio sobre o assunto, convencer as pessoas velhas de que a velhice é maravilhosa e a gente deve sempre estar feliz com ela e por ela. Discordo enfaticamente!

Citando a filósofa Edi Mail Bohrer, Talita concorda que: “Não existe outra forma de encarar a velhice se não aceitando-a e vivendo-a.” Mais adiante uma citação de Sêneca: “Assim como tudo o que é natural, a velhice também é boa, e não revela decadência.” (filósofos também mentem, e muito!). Depois outra citação da mesma Edi Mail Bohrer: “Todos nós vamos envelhecer e morrer. Precisamos aceitar a nossa finitude terrena.” Com essas citações fiquei enjoada (novamente!) da palavra “aceitar”. Aceitar é pura passividade, aceitar é não pensar, não questionar, não lutar, não agir, não fazer NADA! Aceitar é estar morto! Eu não aceito! E começo não aceitando essa idéia de que só se pode ser feliz aceitando.

Primeiro temos que aceitar a dependência, as imposições, os castigos, as ordens nem sempre realmente sensatas dos pais; depois temos que aceitar a palavra dos professores mesmo quando eles próprios não sabem o que e do que estão falando, e a palavra de seres humanos como nós que se acham melhores porque se colocaram na posição de representantes e intérpretes da palavra de um deus que, coincidentemente, sempre concorda com eles; daí temos que aceitar ordens dos chefes, imposições do mercado, sobrecarga de trabalho e preocupação, obrigações sociais, impostos absurdos que desaparecem nos bolsos dos ladrões que governam nosso país; e, por fim, temos que aceitar a velhice e a morte. Bela maneira de não viver!

Temos que viver na dependência dos nossos pais enquanto não podemos suprir nós mesmos as nossas necessidades básicas, mas nosso objetivo, e o que nossos próprios pais esperam de nós, é que não aceitemos essa dependência a não ser como temporária. Saímos dela assim que conseguimos ganhar nosso próprio sustento. Temos ainda que aceitar, de nossos pais e dos adultos que nos rodeiam e são responsáveis por nós, imposições que são colocadas com o intuito de nos proteger e nos fazer crescer a ponto de nos tornarmos independentes dessas imposições, quando teremos condições de agir por nós mesmos e escolher com consciência nossos caminhos. Temos também que aceitar castigos impostos pelos nossos pais, desde que condizentes no tempo e no espaço, com os fatos que os geraram, quando cometemos um erro e podemos ver claramente que o fizemos. Para isso é obrigação dos pais ensinarem, ampararem e orientarem seus filhos, mas, infelizmente, todos sabemos que tem uma quantidade assustadoramente grande de pais que não fazem nada disso e só castigam e dão ordens (às vezes até espancam) para mostrar poder ou para obter paz e tranqüilidade livrando-se da responsabilidade que assumiram (ou deveriam ter assumido) quando tiveram filhos.

Temos sim que aceitar a palavra dos professores que nos mostram caminhos para que possamos ir além deles e que estão na frente da sala de aula para ensinar a conhecer e não impor conhecimentos que eles próprios não possuem e se arvoram de ter. Devemos ouvir as palavras de seres humanos como nós e pensar sobre elas decidindo se vamos ou não segui-las, para isso temos que usar nossa inteligência e nossa liberdade de questionar e descobrir por nós mesmos, e nunca, nunca mesmo, ficar repetindo essas palavras sem compreendê-las, sem pensar sobre elas, sem usar nosso cérebro e nossa razão.

Novamente, temos que aceitar uma série de imposições sociais porque é em sociedade que vivemos e muitas dessas imposições visam o bem comum; Algumas delas temos que aceitar porque estamos fazendo uma troca e dando, por exemplo, nossa força de trabalho e nossa observância das regras em troca do que necessitamos para sobreviver. Mas essa aceitação não deve ser passiva e ignorante, ao contrário, deve ser ativa e esclarecida a ponto de nos permitir lutar - mudar de emprego, entrar para um sindicato, votar em outro candidato, comprar outros produtos - e gerar mudanças quando não concordamos com a situação em que vivemos. Se não fosse a não-aceitação social, ainda estaríamos nas cavernas ou nas árvores, comendo carne crua!

Finalmente, sobre a velhice, temos sim que saber que ela é o nosso destino natural, que a morte é o nosso fim irrevogável e que não temos poder para mudar nenhuma das duas situações; não reconhecer isso é inocência patológica. Mas daí a aceitar passivamente só porque é natural e (pior ainda) achar bom! Ah, daí vai uma grande distância! Se todo mundo aceitasse a velhice como querem essas matérias de auto-ajuda disfarçadas em filosofia, não teríamos saído de uma expectativa de vida de menos de 30 para uma de mais de 60 anos! Não teríamos os inumeráveis avanços da medicina e da cosmética que fazem com que uma pessoa de quarenta e uma de sessenta em muitos casos não sejam tão diferentes assim no que diz respeito à aparência e à qualidade de vida; e não porque a pessoa de quarenta aparenta mais idade mas porque a de 60 aparenta menos.

Não aceitar a velhice não é, obrigatoriamente, sinônimo de infelicidade. Os estudiosos do assunto ligados à medicina e à filosofia estão precisando rever urgentemente seus conceitos! Não aceitar a velhice pode significar simplesmente não aceitar botar no coração o mesmo inverno que a natureza nos coloca nos cabelos. Pode significar saber que a decrepitude está próxima mas estar sempre disposto a adiá-la para amanhã. Não aceitar a velhice pode significar falar sobre o que se sente, desabafando a alma e aliviando o espírito (falar a verdade e não invenções mentirosas de cursinhos de auto-ajuda!). Não aceitar a velhice pode ser cobrar com veemência (e participar inclusive) mais descobertas, mais avanços, mais qualidade, mais conhecimento, mais respeito, mais compreensão.

Aceitar é ser cordeiro indo pro abate sem um balido. Não aceitar é sair da vida molecamente, olhando pra morte e mostrando o dedo médio!

4 de julho de 2009

A VIDA É LINDA?


Muitas lágrimas formam nossos rios

Muitas pedras formam nossas dores

No suor o sal e o castigo

Nos músculos as cordas tensas do pavor

A vida é linda!

A vida é linda?

Com o que comparar?

No ar moléculas de sangue

Matar é o verbo

Melhor de conjugar

BÍBLIA - DEUS


Bela e feia coleção de historinhas
Ilusão de espíritos carentes de enganos
Busca por discursos prontos e fáceis
Luz de um egoísmo extremo e ignorado
Irmãos na irracionalidade analfabeta
Amor ao ódio disfarçado em não-pensar

Depois dos horrores que se pode ver
Enganar-se esquecendo a razão
Um ser abominável visto como bom
Só mesmo querendo se pode enganar!