30 de setembro de 2009

CRÍTICA DANIELINA Com respostas minhas

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(Sobre meu texto “Nos tempos de Luz)

Ok, já que você pediu pra criticar, vamos lá...

Quase todas as observações que eu tinha feito continuam válidas nesta nova versão, algumas mais do que outras, mas enfim... Ainda tem muita coisa que pra mim não faz muito sentido.

Na verdade esta nova versão me pareceu, pelo menos para mim, bastante assustadora. O clima geral que a Luz descreve se parece com a idéia de paraíso. Com o próprio paraíso de Adão e Eva até. A imagem que me vem à cabeça é daquelas pinturas dos testemunhas de jeová, que mostram um monte de pessoas felizes, comendo cerejas em um campo verdejante, correndo ao lado das gazelas e morando em casas branquinhas com uma caminhonete na garagem (!). Enfim, as pessoas parecem drogadas, sei lá. Todo mundo sempre feliz, todas as pessoas pensando da mesma forma...

A própria solução para os problemas do mundo é bem parecida com a dos extremistas islâmicos. Que na opinião deles, bastava limpar o planeta de todos os infiés que a terra seria um paraíso no dia em que todos acreditassem em Alá. Da mesma forma, tudo se resolveu acabando com todos os Frágeis, e substituindo por pacifistas vegetarianos imortais.

E a falta de contrastes desse mundo também acho bem assustadora. Todas as pessoas pensam exatamente da mesma forma, a única coisa que muda (um pouco) são alguns interesse de cada um. E mesmo assim, não muito. No mundo inteiro não vai existir nenhum fã de boxe, por exemplo. O que para mim é bem estranho, afinal, se ninguém mais pode se machucar, esportes que envolvem combates ficariam muito mais interessantes. As pessoas poderiam até lutar esgrima sem nenhum equipamento de proteção e com espadas de verdade que ninguém teria que se preocupar com ferimentos. Mas já que todo mundo odeia (em um mundo onde não existe ódio) qualquer relação com violência (ainda que ela já não possa mais existir), então isso não pode acontecer.

Ainda, se todas as pessoas se amam de forma igual. Logo, ninguém ama ninguém. Então todo mundo é basicamente indiferente quanto às outras pessoas. Já que ninguém se importa se um amigo de infância simplesmente desapareceu da noite para o dia, porque alguém iria se importar com qualquer outra pessoa? Parece que ninguém está nem aí para ninguém. Já que é impossível odiar alguém, e também é impossível amar alguém mais do que os outros, então todas as pessoas tem o mesmo nível de consideração pelos umas pelas outras. Zero.

Sem contrastes não tem como existir nada. Isso me lembra uma mulher que passou no Fantástico uma vez, que adorava rosa. Ela pintou a casa dela inteira de rosa. O chão, o teto, as paredes, fogão, geladeira, móveis, roupas, utensílios, enfim. Resultado: você olha uma imagem dessas e não enxerga nada, tudo vira uma gigantesca mancha rosa. Pior, se você olhar muito tempo para o rosa, vai acabar vendo verde, que é o complementar, o que acaba com o objetivo principal dela. Ou seja, o fogão rosa que ela adorava tanto, nesse cenário, ficava completamente invisível. A mesma coisa eu vejo nesse mundo dos Livres. É tudo muito uniforme.

E os Livres são livres mesmo? Eles não escolhem quando, se, e como vão nascer, só podem escolher quando vão morrer. De forma pacífica e indolor, mas ainda assim morrer, ainda por cima sabendo que ninguém vai sentir sua falta. Eles não podem voltar no tempo e viver como um Frágil se quiserem. Não podem nem sequer querer isso. Não podem escolher ter um filho. Não podem escolher não ter um filho. Só o que eles podem fazer é ser felizes até enjoar. E depois morrer.

E já que as pessoas e animais morrem, o que acontece com os corpos? Eles ficam lá para sempre onde no mesmo lugar em que cairam?

Outra coisa... Se eles fabricam carros, então quer dizer que existem pessoas que querem ter carros. Mas não querem muito a ponto de ficarem chateadas se não conseguirem (ou será esta uma das causas de mortes voluntárias?). Afinal, um Livre conseguir um carro deve ser algo absurdamente mais difícil do que para nós, já que as fábricas fazem tão poucas unidades.

E se existem carros, deve existir estradas, então deve existir trabalhadores dispostos a passar anos carregando materiais e fazendo trabalhos chatos e repetitivos, ainda que nenhum deles não precise disso. E todos eles devem concordar que esta obra em que trabalham é a melhor opção, ao invés de fazer uma estrada no bairro onde morem, por exemplo. E durante a construção, eles devem avisar todas as árvores para sair do caminho, já que elas não podem ser cortadas (ou podem?). Ou então devem mudar o traçado da estrada, para que não passe sobre nenhuma árvore ou arbusto. E depois de a estrada estar pronta, as plantas vão entender que não devem crescer naquele local, nem mesmo em uma fresta ou rachadura no asfalto.

Se as pessoas já não precisam comer mas fazem isso só por opção, então com as plantas deve acontecer o mesmo (com a diferença que elas não tem opção). Logo, elas já não dependem mais da qualidade do solo, e nada impede portanto que uma árvore cresça no meio do deserto, ou no mar, ou no polo norte, até mesmo no telhado das casas, nas camas das pessoas, etc.

E se a única coisa que as pessoas comem é aquilo que as plantas dão, então elas só comem frutas e folhas caídas. Comer uma alface então está fora de cogitação. Uma batata ou um palmito seria impossível (e o papel, de onde vem?). Alimentos seriam escassos, mas ninguém se importa. Afinal, assim como os carros, se tiver, tudo bem, se não tiver, tanto faz. E as pessoas ainda teriam que competir com os pássaros para ver quem fica com aquela última goiaba que caiu.

Enfim... estas foram algumas coisas que me chamaram a atenção...

MINHA RESPOSTA

Filhão,

Primeiro de tudo, brigadão por ter se dado ao trabalho de ler e de criticar, valeu mesmo!

Vamos então à minha resposta:

Eu achei que tivesse corrigido quase todas as observações que você tinha feito! Você viu que eu dei especial atenção àquele comentário seu sobre o tamanduá?

Assustadora, Big? Puxa vida, eu gostaria tanto de viver num mundo feito aquele! Acho que na imagem do meu mundo, ao contrário daquelas pinturas dos testemunhas de Jeová, teria homens abraçados com homens e mulheres abraçadas com mulheres e teria muita gente com livros na mão (livros, não bíblias), pode não parecer mas acho esses detalhes importantes.

A parte dos bichos junto com as pessoas seria mais ou menos assim, mas as casas talvez não tão parecidas nem tão branquinhas, lembre-se de que a Luz morou em vários lugares e não fala nenhuma vez em casa, era fábrica, galeria, observatório, laboratório, etc.

É, todo mundo está sempre feliz, ou quase sempre, lembra que uma das mães de Luz fica triste quando pensa nos tempos dos Frágeis? E todo mundo poder ser feliz é justamente o objetivo, não vejo tanta vantagem assim em sofrer; eu gosto de ser feliz, você não gosta não?

Todas as pessoas pensam da mesma forma? Acho que não muito, afinal cada qual tem seus desejos e um tipo de curiosidade só seu, isso não bastaria para tornar as pessoas diferentes? Eu acho que sim...

Ah, filhote, os extremistas islâmicos querem matar todo mundo que não pense igual a eles, no meu mundo ninguém mata ninguém. As pessoas morrem no meu mundo da mesma forma que iriam morrer se não acontecesse a mudança, nenhuma diferença do que é agora, há apenas uma substituição de pessoas de um tipo (nós) por pessoas de outro tipo (Como Luz). Quem matou os Frágeis de certa forma fui eu, mas os Frágeis morrem não importa o que eu faça, cuidei apenas de não matar quem nascia.

Não pensam não, meu amor. Todas as pessoas não pensam exatamente da mesma forma, existem aqueles que são mais caseiros, os que gostam de sair, existem os homo e os héteros, existem os que gostam de animais e os que gostam de estrelas... Nós não somos, no fim das contas, os nossos interesses? Se esses interesses mudam, as pessoas mudam. Normalmente quem tem interesse por esportes é mais agitado e mais desinibido do que quem tem interesse por livros; quem gosta de viajar é normalmente mais aberto com as pessoas do que quem não gosta... Enfim, nossa personalidade é tremendamente influenciada por nossos interesses.

Aí é que eu acho maravilhoso: No mundo inteiro não vai existir nenhum fã de boxe! Isso é fantástico! Eu não entendo essa animalidade que as pessoas têm e que as leva a achar bonito e a chamar de esporte uma pessoa dando soco na cara da outra, acho que isso é indecente e tão bárbaro quanto as lutas de gladiadores. Não consigo imaginar um mundo perfeito que possa ter boxe.

Para mim não é estranho que não tenha mais esportes que envolvem combates, afinal, se ninguém mais tem vontade de machucar ninguém, por que esses esportes ficariam interessantes? Se as pessoas lutassem esgrima, por exemplo, como saberiam quem ganhou? O esporte não faria nenhum sentido.

Eu não disse que todo mundo odeia nada, eu disse que qualquer violência deixou de fazer sentido, eu disse que os Livres não entendem a violência, não que a odeiam; e a violência não pode acontecer, mas eles a vêem pela história dos Frágeis, através de filmes e livros.

Mas isso foi uma coisa que eu mudei! As pessoas não se amam de forma igual, elas se consideram e se respeitam de forma igual, amor e diferente, lembra que o Hugo encontrou a Lila e deixou de andar junto com a Luz porque amou Lila como nunca tinha amado Luz? Eles Só não têm mais o egoísmo e os outros sentimentos negativos que muitas vezes estragam o amor e que algumas pessoas ainda chamam de amor. Daí alguém ama alguém sim, logo no começo a Luz fala que dois dos pais dela tinham poucas chances de serem seus pais biológicos porque se amavam e, portanto, não teriam dormido com Jan; ela fala também do outro pai que não teria dormido com Jan porque dormia só com uma mulher e essa mulher não era Jan, conclui-se que era a mulher que ele amava. Então as pessoas não são indiferentes às outras pessoas, elas respeitam e consideram todo mundo, mas amam, ou podem amar, alguma outra pessoa de forma diferente e única. Até mesmo o amor de família é um pouco diferente: Luz conta que tem uma corrente de ouro com treze pingentes lembrando cada um dos seus pais, isso dá a entender que, embora tenha feito parte de muitas outras famílias depois daquela na qual nasceu, ela tem um sentimento por aquelas treze pessoas que é maior do que o que veio a ter por quaisquer outras depois disso.

Não é que ninguém se importe se um amigo de infância simplesmente desapareceu da noite para o dia, é que, como existe a morte voluntária, existe o direito que cada um tem de morrer quando queira, e existe o respeito a esse direito, respeito esse que todo mundo tem. Não me pareceu que ninguém está nem aí para ninguém, afinal, respeitar o direito do outro é uma forma de se importar com o outro, ou não é?

Aí não é verdade: o fato de ser impossível odiar alguém não torna obrigatoriamente impossível amar alguém mais do que os outros, não sei por que teria que ser assim, eu não odeio ninguém e amo você acima de toda e qualquer pessoa; e sim, todas as pessoas tem o mesmo nível de consideração umas pelas outras, mas esse nível não é absolutamente igual a zero, muito pelo contrário, é consideração pra cacete!

Não concordo com essa frase que você colocou aí: “Sem contrastes não tem como existir nada”. Acho que isso é senso comum, é uma daquelas coisas que falam tanto e afirmam tanto que a gente acaba achando que é verdade e esquece de pensar que pode não ser. Veja por exemplo a pintura; muitos artistas fizeram quadros lindos e que são consideradíssimos e caríssimos usando apenas cores suaves, a pintura, a obra de arte, o quadro podem existir sem contraste, por que mais coisas não poderiam? Além disso o mundo que eu inventei não pode mesmo existir, é só uma invenção, a Luz, como ela mesma diz duas vezes, é só uma abstração. Mas que eu posso imaginar um mundo sem alguns contrastes sem muito esforço; ah, isso eu posso sim!

Seu exemplo da mulher que fez a casa toda cor de rosa me faz pensar que de repente a casa não seria assim tão apagada e as coisas cor de rosa não desapareceriam na mesmice se ela usasse vários tons de cor de rosa ao invés de um só. Não existe um quadro famosíssimo chamado “O menino azul”? o que o autor, Thomas Gainsborough (procurei no Google) fez foi apenas usar tons diferentes de azul, e o quadro ficou pronto. Ta, você pode dizer que o azul escuro e o azul claro são um contraste, mas não são tão contaste assim; você pode dizer também que, no meu mundo, o amor de Luz e Hugo e o amor de Hugo e Lila são um contraste; os dois sentimentos são amor (como as duas cores são azuis) mas um é mais forte do que o outro (como tons). Daí dá pra concluir, em última análise, que no meu mundo tem contraste sim.

Se os Livres são livres mesmo? São mais livres do que nós! Eles não escolhem quando, se, e como vão nascer, nós também não. Eles podem escolher quando vão morrer, nós não (salvo antes da hora). Eles vão morrer se e quando quiserem; na minha opinião isso é uma liberdade e tanto! E não, não morrem sabendo que ninguém vai sentir sua falta, Luz tem ainda a lembrança e o amor pelos pais, muito mais tempo depois de se afastar deles do que é possível acontecer agora com qualquer um de nós. Quem de nós dois vai ter alguém que se lembre da gente e que nos ame daqui a duzentos anos? A mãe de Luz que (talvez) tenha saído da fábrica para morrer tinha alguém que pensava nela com amor (Luz) muito mais do que duzentos anos depois. Eles não podem voltar no tempo, nós também não. Viver como um Frágil? Quem iria querer? Não podem mesmo querer isso, mas a própria natureza deles faz com que a chance de querer seja tanta quanto a chance de você ou eu desejarmos ser uma mosca varejeira. Não podem escolher ter um filho, certo, mas vivem em famílias grandes e quando uma pessoa da família tem um filho todos têm; a chance, portanto, de se poder ser pai ou mãe aumenta embora os nascimentos sejam raros. Podem escolher não ter filhos, basta não fazer parte de nenhuma família e usar camisinha.

Daniel, meu amor, você diz que só o que eles podem fazer é “ser felizes até enjoar e depois morrer” como se isso fosse nada, mas veja quanta coisa Luz fez: ela aprendeu um montão de coisas, leu um montão de livros, foi a um zilhão de lugares inclusive fora da Terra, e ainda não enjoou! Acho que o que existe entre o nascer e o morrer no mundo dela vale muito mais do que o que existe entre o nascer e o morrer no nosso; jura que você não concorda que ler todos os livros que queira, aprender todas as coisas que queira e ir a todos os lugares que queira vale mais do que curtir luta de boxe?

Essa parte de o que acontece com os corpos das pessoas e animais que morrem eu não coloquei por dois motivos: um foi que achei que ficaria mais ou menos entendido que as pessoas iriam para algum lugar onde seus corpos poderiam apodrecer e sumir sem ferir o nariz de ninguém e que os animais mortos poderiam seu usados como material de estudos em lugares como aquele em que Luz ficou quando saiu da fábrica. O outro motivo é que estou pensando em completar esse texto com alguns contos e um deles seria de uma pessoa que resolve morrer, daí essa pessoa deixaria isso explicado. Aliás, pensei em fazer vários contos colocando melhor através de outros personagens as coisas que não ficaram muito claras nesse primeiro texto.

Quanto aos carros sim, existem pessoas que querem ter carros e não, não querem tanto a ponto de ficarem chateadas se não conseguirem, afinal, elas podem esperar, podem comprar um usado (um dos contos de que te falei vou fazer acontecer em uma oficina que recupera carros dos tempos dos Frágeis). Conseguir um carro seria algo difícil sim, mas não tanto já que tem mais do que uma fábrica e não tem tanta gente assim que queira ter carro, afinal, ele não é mais símbolo de status já que ninguém liga para status e não é mais uma necessidade, daí que se você pensar bem, a produção pode nem ser tão pequena assim considerando os possíveis compradores.

Existem estradas, mas não é necessário que existam tantas, e as cidades cuidam de suas estradas. Não precisa que existam “trabalhadores dispostos a passar anos carregando materiais e fazendo trabalhos chatos e repetitivos”, basta que a conservação das estradas faça parte daquelas festas de limpeza e conservação da cidade que eu citei no texto. Estradas maiores podem ser conservadas ou não, no caso afirmativo isso pode ser feito também pelos moradores de duas cidades como uma espécie gincana que dispute a rapidez do trabalho ou coisa assim (mais assunto pros meus contos).

Você está sendo cínico, seu safadinho! Não, não é preciso “avisar todas as árvores para sair do caminho”, basta apenas conservar as estradas que já existiam desde o tempo dos Frágeis, não precisa construir mais. As plantas vão continuar preferindo nascer na terra do que no asfalto, afinal, a ligação do vegetal com a terra é toda e muito mais importante do que a nossa; além disso, lembre-se de que uma plantinha que esteja em uma rachadura de asfalto não poderá ser quebrada, arrancada ou danificada de qualquer forma por um carro que passe... Daí que o que você colocou de as plantas nascerem em lugares sem terra, a ligação delas com a terra não permitiria e, embora não sejam danificadas, por exemplo, pelo frio dos pólos, elas preferem lugares de temperaturas mais agradáveis para crescer, enfim, as plantas podem não ter aprendido a se mover, mas no meu mundo elas têm direito a ter preferência por lugares que “acham” mais agradáveis para crescer. Mais assunto pros meus contos.

Sim, as pessoas comem frutas e folhas caídas, mas elas podem, por exemplo, envolver as frutas em telas para evitar que sejam danificadas e colher diretamente na planta as folhas que cairiam em seguida, daí o que basta é conhecer melhor as plantas. Portanto, comer uma alface não está fora de cogitação, basta que o pé de alface esteja dispensando aquela folha e que alguém a pegue antes que ela caia, pessoas podem cuidar de plantas fazendo “colheitas” diárias. O papel pode vir de papel reciclado, de plantas que morreram e eles podem ter uma forma sintética de papel inventada por eles.
Vou escrever os contos, e aproveitar seus comentários para isso....

Te amo muito!

RESPOSTA DANIELINA2

Então, pode ser que eu não seja a pessoa adequada para admirar este mundo novo... e eu acho que é este exatamente o problema dele. Ele exige um tipo especial de pessoas para apreciá-lo, qualquer outro tipo não se encaixaria nele.

Eu não poderia viver neste mundo. Para ir para ele eu teria que deixar de ser eu, e virar outra pessoa. Talvez uma pessoa até melhor, mas de qualquer forma, não seria mais eu. Por isso que acho assustador. E por isso que vejo um paralelo com os extremistas. É como um judeu pensar "Realmente, a Alemanha vai ser um lugar bem melhor se eu estiver morto, sorte dos alemães".

Eu não digo que este mundo seja como o mundo deles, claro. Claro no seu ninguém mata ninguém. O que eu digo é que a solução sugerida por eles é a basicamente mesma que a sua. Pela lógica deles, o mundo perfeito seria construído assim:

1 - Pegar a própria ideologia. (adorar Alá, rezar para Meca, vestir burkas)
2 - Entender que a forma deles de pensar é a correta.
3 - Eliminar todos aqueles que não são como eles. (com homens-bomba, guerra, terrorismo)
4 - Povoar o mundo com pessoas com a mesma ideologia.

Da mesma forma, no seu:
1 - Pegar a própria ideologia. (pacifismo, busca por conhecimento, respeitar os outros, etc)
2 - Entender que a forma deles de pensar é a correta. (esse passo não muda)
3 - Eliminar todos aqueles que não são como eles. (acabando com a reprodução do "inimigo")
4 - Povoar o mundo com pessoas com a mesma ideologia. (este também não muda)

Quer dizer, há algumas diferenças do processo, mas o resultado final é o mesmo. É como, por exemplo, um empresário decidir que não quer mais nenhum negro trabalhando em sua fábrica. Uma solução seria demitir todos, enquanto outra seria apenas não contratar mais nenhum e esperar até que o último fosse embora. Embora uma solução seja mais desagradável do que a outra, as duas são igualmente racistas. Talvez o resultado final (do ponto de vista do empresário) seja ótimo: nenhum negro na sua fábrica. Mas, melhor ainda seria se ele pudesse simplesmente conviver com todo mundo.

Eu não conhecia este quadro do menino azul, acabei de ver. E ele ilustra exatamente a necessidade de contrastes que eu estava falando. O menino pode muito bem ser azul, ou pelo menos parece desta forma. Mas olhando melhor para o quadro, dá para perceber várias necessidades de contraste. Só algumas básicas: O menino está sobre um fundo amarelado, cor do lado complementar do azul, que o artista usou exatamente para ressaltar a cor que ele queria mostrar. No próprio azul da roupa dele, existem não só vários tons de azul (e não poucos, como você falou), mas existem ali tons de amarelo, bege, verde e marrom. E isso só na parte azul da roupa mesmo, não nos detalhes, e certamente, se olhar o quadro original de perto, a gente vai encontrar muitas outras cores de tinta ainda mais diferentes entre as pinceladas. São coisas que a gente não percebe de cara, mas estão lá e fazem com que a gente consiga entender que o menino é azul.

Eu abri aqui o quadro para fazer umas experiências, e estou te mandando o resultado. Olha só a paleta de cores embaixo, são apenas 32 cores extraídas automaticamente do quadro todo. Observe que dentre as 32 cores, menos de 10 (pode contar) são de fato tons de azul. Todo o resto está lá justamente para que estas 10 tenham algum efeito. O artista sabia disso, e usou este contraste para chegar ao resultado que queria. Montei também uma imagem com o mesmo quadro, aplicando apenas dois tons de azul (extraídos da roupa do menino). Veja como o quadro fica sem graça agora e praticamente desaparece. Isso é o que acontece quando se tira o contraste das coisas. A gente perde algo que nem sabia que existia.

E embora as pessoas possam ter interesses diferentes, estes interesses não podem entrar em conflito com aquilo que você considera ruim. É como dizer que as pessoas podem pensar o que quiserem, contanto que aceitem Jesus como seu senhor e salvador. Ou que pode pensar o que quiser, desde que não discorde do governo, e por aí vai. Isso acaba com a própria liberdade dos Livres, no momento em que eles tem menos opções de pensamento do que os frágeis (e eles tem), eles não são mais livres, e sim mais presos. Em uma cela mais confortável, talvez, mas ainda assim, presos. Se a personalidade das pessoas é definida pelos seus interesses, logo o leque de possibilidades disponíveis para um Livre é menor do que o nosso, logo as diferenças entre as personalidades das pessoas também é menor. Por isso eu digo que todos pensam da mesma forma.

É por isso que me assusta essa felicidade constante de todo mundo. Ninguém gosta de sofrimento, mas toda sensação que temos tem que ser comparada com outra para se determinar se é boa ou ruim (contraste). É por isso que pessoas multimilionárias não são mais felizes do que pessoas normais, pelo contrário. Porque muitas delas nunca nem sequer passaram por qualquer situação desagradável, e aí tudo perde a graça. Caviar pode se muito bom, mas depois de comer todo dia, deixa de ser.

Sobre os esportes, é perfeitamente possível de se praticar esgrima no seu mundo. Com as mesmas regras atuais (onde ninguém se machuca): toques no corpo valem, por exemplo, 3 pontos, nos braços 1 ponto, na máscara 2 pontos, e por aí vai. A diferença é que ninguém precisaria usar roupas de proteção. Da mesma forma, se fosse boxe: atribuem-se pontos para golpes no tronco, no rosto, etc (também da mesma forma que se faz hoje). A única diferença é que ninguém se machucaria com os golpes. Qual é a diferença real entre contar o toque da mão de um competidor no corpo do outro, e contar o toque de uma bola em uma determinada área do campo do time adversário? E se realmente existir uma diferença, nesse mundo novo as pessoas poderiam jogar futebol americano, ou rugby? Ambos esportes violentos, embora de uma forma mais indireta. E xadrez? O jogo todo representa uma guerra, com soldados, cavaleiros e etc. Será que os Livres não poderiam enxergar isso como violência e não se interessar por este jogo também? Tiro ao alvo? Arco e flecha? Batalha naval? War? Magic? RPG? Detetive? Stratego? Videogame então, nem pensar, já que praticamente todos os jogos envolvem algum tipo de violência ou combate.

E eu não gostaria de viver em um mundo onde eu tivesse que ficar plantado esperando que uma folha de alface caísse sozinha da planta, para depois guardar esta folha em um tupperware, ir para outro pé de alface, esperar a próxima folha cair, para que depois de alguns meses (se as folhas não apodrecerem) eu pudesse fazer uma salada. Em uma situação destas é bom que as pessoas vivam para sempre, porque se não fosse assim, ninguém teria a chance de comer uma saladinha. Este pode até ser um objetivo de vida. Talvez uma carreira até mais lucrativa, mas não menos trabalhosa, do que fazer carros.

Isso é claro, se a alface não se incomodar de nascer em algum lugar onde eu possa ficar lá observando. Afinal, de acordo com a sua explicação, a planta pode preferir crescer em algum outro lugar, talvez onde ninguém fique lá parado esperando pela próxima folha. Se as pessoas podem se incomodar com a presença dos animais nas suas casas, porque as plantas não poderiam fazer o mesmo?

E se as plantas escolhem onde nascem, como ficam as estradas de terra? Se alguém quiser pegar um jipe 4x4 e passear por uma trilha, não vai poder? Ou as plantas entendem que aquilo é uma estrada, mesmo sem pavimentação? E futebol? A grama vai querer nascer ali no campo para ser pisada?

Enfim... já estou enchendo o saco, né? Que moleque chato... só reclama...

MINHA RESPOSTA 2

Meu lindo e maravilhoso filho,

Você não é, nunca foi e nunca será um moleque chato... e eu não sou suspeita para falar isso...

O fato é que você está lendo e comentando meu texto e isso é ótimo para mim, ajuda muitíssimo pensar num assunto e ter acesso a outras opiniões, faz a gente REpensar, aprofundar, encontrar soluções para problemas que não teria visto sem a ajuda do outro. Você está sendo esse outro e eu fico muito grata por isso.

Bem, vamos lá então: A primeira palavra que me ocorre agora é um grandíssimo “sim” e um maior ainda “respeitando-se as proporções”. Do jeito que você analisa, a minha idéia de um mundo perfeito acaba tendo mesmo um paralelo com extremistas islâmicos ou com qualquer outra visão extremista, preconceituosa e elitista que se possa pensar. A diferença, e me permita afirmar que é uma diferença imensa, é que no meu mundo perfeito nem sequer ocorreu a alguém a solução de eliminar o outro pelo assassinato puro e simples, ou de subjugar o outro via escravidão ou lavagem cerebral; pode parecer pouco, mas acho que isso faz toda a diferença. Não ocorre a mim em nenhum momento que esse mundo seja possível, tanto que para criá-lo eu coloquei um deus que não existe; e esse deus também não é fã de destruição, ao contrário do deus que o pessoal louva nas igrejas. Além disso os Livres tiveram quase que como primeiro instinto, a vontade e a ação de tornar a vida dos Frágeis melhor, lembre-se de que coloquei que, graças aos Livres, nenhum Frágil morreu de fome, isso é muitíssimo mais do que se pode dizer de nós sobre nós mesmos.

Você já sentiu vergonha de ser gente? Eu sinto isso com muita freqüência e, sem querer ser demagoga, afirmo com toda a certeza que o ser humano é um bicho extremamente nojento e desprezível. Nós somos, meu lindo, uma raça terrivelmente nociva. Não há adjetivo negativo que se possa dar ao ser humano com o qual eu não concorde. Sei que não estou sendo nem um pouco original nessa minha afirmação, mas talvez essa mesma falta de originalidade seja prova de que tenho razão, daí que, embora ame muitas pessoas, embora possa fazer uma boa lista de pessoas que considero maravilhosas, embora tenha uma paixão desmedida por você e embora ache que seu pai é um dos seres humanos mais bonitos (estou falando de beleza interior) que já conheci na vida, eu abriria mão sem pestanejar do “privilégio” de existir para que a raça humana não existisse também. E juro que não estou exagerando! Claro que não posso falar por você ou por qualquer uma das pessoas que amo, mas posso imaginar algo melhor do que esse mundo e posso imaginar uma vida melhor do que essa; é o que estou fazendo: apenas e tão somente imaginando...

Contrariamente a um Hitler, a um extremista islâmico, a um branco extremamente racista, não quero eliminar ninguém e não vejo essa idéia com outro sentimento que não seja asco. As pessoas que tentaram imaginar um mundo perfeito, pelo menos aquelas de cuja existência e idéias eu soube (Platão com a sua República é o primeiro que me ocorre e Hitler com o seu holocausto é o mais terrível que me ocorre), sempre o imaginaram partindo do ser humano da maneira que ele é como matéria prima; sempre selecionaram um grupo de seres humanos que consideravam superior aos demais (invariavelmente o grupo ao qual eles mesmos pertenciam) e colocaram esse grupo como dominante, governante, mentor, executor desse mundo perfeito. O resultado é que todos eles (novamente insisto nisso: dos que sei) imaginaram mundos impossíveis que acreditavam possível, terríveis que achavam aprazíveis, feios que acreditavam belos. E, infelizmente, alguns tomaram atitudes no sentido de tornar realidade suas idéias.

Enfim, filhão, o que quero dizer é que essa minha idéia de um mundo perfeito não passa, em última análise, de uma brincadeira que responde ao desafio de um amigo crente que acha que deus é todo maravilha, todo bondade e todo poder, que a natureza é perfeita e que o mundo seria ótimo se não fosse pela nossa falta de fé em deus. E o que eu quis dizer com isso no final das contas? Quis dizer que se eu que sou uma amebinha desprezível se comparada ao deus que eles tanto veneram posso imaginar um mundo melhor do que esse, pelo menos sem morte, assassinato e destruição, então o deus que eles superlotam de adjetivos com os quais eu não concordo, se fosse essa maravilha toda que dizem, poderia fazer melhor. Eu quis mostrar que o ser humano, embora seja esse horror todo que eu disse acima, não é o único responsável pelos males do mundo, ele é só parte desses males, e que um deus que fosse bom mesmo não criaria um mundo onde seres vivem de matar.

Acho que um deus que fosse bom de verdade e poderoso de verdade conseguiria criar um mundo perfeito de verdade, um no qual você não conseguiria encontrar defeitos como encontrou no meu. Afinal, se não sou perfeita, o lógico é que não consigo criar ou imaginar a pura perfeição, mas se deus existisse e fosse, ele poderia. Parece bastante óbvio tudo isso para nós que não somos crentes mas para os que vão às igrejas e consideram a bíblia um livro sagrado, e também para os que vão à sinagoga ou à mesquita e consideram sagrado o talmud ou o alcorão, enfim, para todos os que crêem em um deus, qualquer que seja, penso que isso nunca ocorreu.

Voltando ao que disse no começo, fico muitíssimo grata a você pelas críticas e observações, vou usar seus comentários, como já disse antes, para escrever contos que tentem responder suas perguntas, explicar detalhes que te chamaram a atenção e tornar o meu “mundo perfeito” mais perto de merecer esse nome.

Ah, quanto ao quadro do Menino azul, não chegou a mim o que você disse que fez, será que você esqueceu de anexar? Eu faço isso com freqüência... Mas foi uma temeridade da minha parte usar logo uma pintura como exemplo, eu nem sei ver pintura enquanto que você está em casa nesse departamento... daí que tudo que você disse sobre esse lance de cores logicamente é correto, não tenho como duvidar de nada. Fiquei fascinada com o que você falou das tantas cores que estão lá só para que a gente veja melhor o azul ! Isso é tão lindo que chega a ser fantástico no sentido de parecer surreal, inexistente, imaginado, mágico... sei lá, de mentira! Manda o que você fez, eu adorei mesmo suas explicações, e tem tudo a ver com filosofia também... é tão fabuloso que quero ler melhor vendo a figura para entender mesmo e poder falar sobre o assunto e até fazer paralelos com outras coisas que a gente vê, ouve ou lê.

Eu te amo!

Beijão!