30 de setembro de 2009

CRÍTICA DANIELINA Com respostas minhas

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(Sobre meu texto “Nos tempos de Luz)

Ok, já que você pediu pra criticar, vamos lá...

Quase todas as observações que eu tinha feito continuam válidas nesta nova versão, algumas mais do que outras, mas enfim... Ainda tem muita coisa que pra mim não faz muito sentido.

Na verdade esta nova versão me pareceu, pelo menos para mim, bastante assustadora. O clima geral que a Luz descreve se parece com a idéia de paraíso. Com o próprio paraíso de Adão e Eva até. A imagem que me vem à cabeça é daquelas pinturas dos testemunhas de jeová, que mostram um monte de pessoas felizes, comendo cerejas em um campo verdejante, correndo ao lado das gazelas e morando em casas branquinhas com uma caminhonete na garagem (!). Enfim, as pessoas parecem drogadas, sei lá. Todo mundo sempre feliz, todas as pessoas pensando da mesma forma...

A própria solução para os problemas do mundo é bem parecida com a dos extremistas islâmicos. Que na opinião deles, bastava limpar o planeta de todos os infiés que a terra seria um paraíso no dia em que todos acreditassem em Alá. Da mesma forma, tudo se resolveu acabando com todos os Frágeis, e substituindo por pacifistas vegetarianos imortais.

E a falta de contrastes desse mundo também acho bem assustadora. Todas as pessoas pensam exatamente da mesma forma, a única coisa que muda (um pouco) são alguns interesse de cada um. E mesmo assim, não muito. No mundo inteiro não vai existir nenhum fã de boxe, por exemplo. O que para mim é bem estranho, afinal, se ninguém mais pode se machucar, esportes que envolvem combates ficariam muito mais interessantes. As pessoas poderiam até lutar esgrima sem nenhum equipamento de proteção e com espadas de verdade que ninguém teria que se preocupar com ferimentos. Mas já que todo mundo odeia (em um mundo onde não existe ódio) qualquer relação com violência (ainda que ela já não possa mais existir), então isso não pode acontecer.

Ainda, se todas as pessoas se amam de forma igual. Logo, ninguém ama ninguém. Então todo mundo é basicamente indiferente quanto às outras pessoas. Já que ninguém se importa se um amigo de infância simplesmente desapareceu da noite para o dia, porque alguém iria se importar com qualquer outra pessoa? Parece que ninguém está nem aí para ninguém. Já que é impossível odiar alguém, e também é impossível amar alguém mais do que os outros, então todas as pessoas tem o mesmo nível de consideração pelos umas pelas outras. Zero.

Sem contrastes não tem como existir nada. Isso me lembra uma mulher que passou no Fantástico uma vez, que adorava rosa. Ela pintou a casa dela inteira de rosa. O chão, o teto, as paredes, fogão, geladeira, móveis, roupas, utensílios, enfim. Resultado: você olha uma imagem dessas e não enxerga nada, tudo vira uma gigantesca mancha rosa. Pior, se você olhar muito tempo para o rosa, vai acabar vendo verde, que é o complementar, o que acaba com o objetivo principal dela. Ou seja, o fogão rosa que ela adorava tanto, nesse cenário, ficava completamente invisível. A mesma coisa eu vejo nesse mundo dos Livres. É tudo muito uniforme.

E os Livres são livres mesmo? Eles não escolhem quando, se, e como vão nascer, só podem escolher quando vão morrer. De forma pacífica e indolor, mas ainda assim morrer, ainda por cima sabendo que ninguém vai sentir sua falta. Eles não podem voltar no tempo e viver como um Frágil se quiserem. Não podem nem sequer querer isso. Não podem escolher ter um filho. Não podem escolher não ter um filho. Só o que eles podem fazer é ser felizes até enjoar. E depois morrer.

E já que as pessoas e animais morrem, o que acontece com os corpos? Eles ficam lá para sempre onde no mesmo lugar em que cairam?

Outra coisa... Se eles fabricam carros, então quer dizer que existem pessoas que querem ter carros. Mas não querem muito a ponto de ficarem chateadas se não conseguirem (ou será esta uma das causas de mortes voluntárias?). Afinal, um Livre conseguir um carro deve ser algo absurdamente mais difícil do que para nós, já que as fábricas fazem tão poucas unidades.

E se existem carros, deve existir estradas, então deve existir trabalhadores dispostos a passar anos carregando materiais e fazendo trabalhos chatos e repetitivos, ainda que nenhum deles não precise disso. E todos eles devem concordar que esta obra em que trabalham é a melhor opção, ao invés de fazer uma estrada no bairro onde morem, por exemplo. E durante a construção, eles devem avisar todas as árvores para sair do caminho, já que elas não podem ser cortadas (ou podem?). Ou então devem mudar o traçado da estrada, para que não passe sobre nenhuma árvore ou arbusto. E depois de a estrada estar pronta, as plantas vão entender que não devem crescer naquele local, nem mesmo em uma fresta ou rachadura no asfalto.

Se as pessoas já não precisam comer mas fazem isso só por opção, então com as plantas deve acontecer o mesmo (com a diferença que elas não tem opção). Logo, elas já não dependem mais da qualidade do solo, e nada impede portanto que uma árvore cresça no meio do deserto, ou no mar, ou no polo norte, até mesmo no telhado das casas, nas camas das pessoas, etc.

E se a única coisa que as pessoas comem é aquilo que as plantas dão, então elas só comem frutas e folhas caídas. Comer uma alface então está fora de cogitação. Uma batata ou um palmito seria impossível (e o papel, de onde vem?). Alimentos seriam escassos, mas ninguém se importa. Afinal, assim como os carros, se tiver, tudo bem, se não tiver, tanto faz. E as pessoas ainda teriam que competir com os pássaros para ver quem fica com aquela última goiaba que caiu.

Enfim... estas foram algumas coisas que me chamaram a atenção...

MINHA RESPOSTA

Filhão,

Primeiro de tudo, brigadão por ter se dado ao trabalho de ler e de criticar, valeu mesmo!

Vamos então à minha resposta:

Eu achei que tivesse corrigido quase todas as observações que você tinha feito! Você viu que eu dei especial atenção àquele comentário seu sobre o tamanduá?

Assustadora, Big? Puxa vida, eu gostaria tanto de viver num mundo feito aquele! Acho que na imagem do meu mundo, ao contrário daquelas pinturas dos testemunhas de Jeová, teria homens abraçados com homens e mulheres abraçadas com mulheres e teria muita gente com livros na mão (livros, não bíblias), pode não parecer mas acho esses detalhes importantes.

A parte dos bichos junto com as pessoas seria mais ou menos assim, mas as casas talvez não tão parecidas nem tão branquinhas, lembre-se de que a Luz morou em vários lugares e não fala nenhuma vez em casa, era fábrica, galeria, observatório, laboratório, etc.

É, todo mundo está sempre feliz, ou quase sempre, lembra que uma das mães de Luz fica triste quando pensa nos tempos dos Frágeis? E todo mundo poder ser feliz é justamente o objetivo, não vejo tanta vantagem assim em sofrer; eu gosto de ser feliz, você não gosta não?

Todas as pessoas pensam da mesma forma? Acho que não muito, afinal cada qual tem seus desejos e um tipo de curiosidade só seu, isso não bastaria para tornar as pessoas diferentes? Eu acho que sim...

Ah, filhote, os extremistas islâmicos querem matar todo mundo que não pense igual a eles, no meu mundo ninguém mata ninguém. As pessoas morrem no meu mundo da mesma forma que iriam morrer se não acontecesse a mudança, nenhuma diferença do que é agora, há apenas uma substituição de pessoas de um tipo (nós) por pessoas de outro tipo (Como Luz). Quem matou os Frágeis de certa forma fui eu, mas os Frágeis morrem não importa o que eu faça, cuidei apenas de não matar quem nascia.

Não pensam não, meu amor. Todas as pessoas não pensam exatamente da mesma forma, existem aqueles que são mais caseiros, os que gostam de sair, existem os homo e os héteros, existem os que gostam de animais e os que gostam de estrelas... Nós não somos, no fim das contas, os nossos interesses? Se esses interesses mudam, as pessoas mudam. Normalmente quem tem interesse por esportes é mais agitado e mais desinibido do que quem tem interesse por livros; quem gosta de viajar é normalmente mais aberto com as pessoas do que quem não gosta... Enfim, nossa personalidade é tremendamente influenciada por nossos interesses.

Aí é que eu acho maravilhoso: No mundo inteiro não vai existir nenhum fã de boxe! Isso é fantástico! Eu não entendo essa animalidade que as pessoas têm e que as leva a achar bonito e a chamar de esporte uma pessoa dando soco na cara da outra, acho que isso é indecente e tão bárbaro quanto as lutas de gladiadores. Não consigo imaginar um mundo perfeito que possa ter boxe.

Para mim não é estranho que não tenha mais esportes que envolvem combates, afinal, se ninguém mais tem vontade de machucar ninguém, por que esses esportes ficariam interessantes? Se as pessoas lutassem esgrima, por exemplo, como saberiam quem ganhou? O esporte não faria nenhum sentido.

Eu não disse que todo mundo odeia nada, eu disse que qualquer violência deixou de fazer sentido, eu disse que os Livres não entendem a violência, não que a odeiam; e a violência não pode acontecer, mas eles a vêem pela história dos Frágeis, através de filmes e livros.

Mas isso foi uma coisa que eu mudei! As pessoas não se amam de forma igual, elas se consideram e se respeitam de forma igual, amor e diferente, lembra que o Hugo encontrou a Lila e deixou de andar junto com a Luz porque amou Lila como nunca tinha amado Luz? Eles Só não têm mais o egoísmo e os outros sentimentos negativos que muitas vezes estragam o amor e que algumas pessoas ainda chamam de amor. Daí alguém ama alguém sim, logo no começo a Luz fala que dois dos pais dela tinham poucas chances de serem seus pais biológicos porque se amavam e, portanto, não teriam dormido com Jan; ela fala também do outro pai que não teria dormido com Jan porque dormia só com uma mulher e essa mulher não era Jan, conclui-se que era a mulher que ele amava. Então as pessoas não são indiferentes às outras pessoas, elas respeitam e consideram todo mundo, mas amam, ou podem amar, alguma outra pessoa de forma diferente e única. Até mesmo o amor de família é um pouco diferente: Luz conta que tem uma corrente de ouro com treze pingentes lembrando cada um dos seus pais, isso dá a entender que, embora tenha feito parte de muitas outras famílias depois daquela na qual nasceu, ela tem um sentimento por aquelas treze pessoas que é maior do que o que veio a ter por quaisquer outras depois disso.

Não é que ninguém se importe se um amigo de infância simplesmente desapareceu da noite para o dia, é que, como existe a morte voluntária, existe o direito que cada um tem de morrer quando queira, e existe o respeito a esse direito, respeito esse que todo mundo tem. Não me pareceu que ninguém está nem aí para ninguém, afinal, respeitar o direito do outro é uma forma de se importar com o outro, ou não é?

Aí não é verdade: o fato de ser impossível odiar alguém não torna obrigatoriamente impossível amar alguém mais do que os outros, não sei por que teria que ser assim, eu não odeio ninguém e amo você acima de toda e qualquer pessoa; e sim, todas as pessoas tem o mesmo nível de consideração umas pelas outras, mas esse nível não é absolutamente igual a zero, muito pelo contrário, é consideração pra cacete!

Não concordo com essa frase que você colocou aí: “Sem contrastes não tem como existir nada”. Acho que isso é senso comum, é uma daquelas coisas que falam tanto e afirmam tanto que a gente acaba achando que é verdade e esquece de pensar que pode não ser. Veja por exemplo a pintura; muitos artistas fizeram quadros lindos e que são consideradíssimos e caríssimos usando apenas cores suaves, a pintura, a obra de arte, o quadro podem existir sem contraste, por que mais coisas não poderiam? Além disso o mundo que eu inventei não pode mesmo existir, é só uma invenção, a Luz, como ela mesma diz duas vezes, é só uma abstração. Mas que eu posso imaginar um mundo sem alguns contrastes sem muito esforço; ah, isso eu posso sim!

Seu exemplo da mulher que fez a casa toda cor de rosa me faz pensar que de repente a casa não seria assim tão apagada e as coisas cor de rosa não desapareceriam na mesmice se ela usasse vários tons de cor de rosa ao invés de um só. Não existe um quadro famosíssimo chamado “O menino azul”? o que o autor, Thomas Gainsborough (procurei no Google) fez foi apenas usar tons diferentes de azul, e o quadro ficou pronto. Ta, você pode dizer que o azul escuro e o azul claro são um contraste, mas não são tão contaste assim; você pode dizer também que, no meu mundo, o amor de Luz e Hugo e o amor de Hugo e Lila são um contraste; os dois sentimentos são amor (como as duas cores são azuis) mas um é mais forte do que o outro (como tons). Daí dá pra concluir, em última análise, que no meu mundo tem contraste sim.

Se os Livres são livres mesmo? São mais livres do que nós! Eles não escolhem quando, se, e como vão nascer, nós também não. Eles podem escolher quando vão morrer, nós não (salvo antes da hora). Eles vão morrer se e quando quiserem; na minha opinião isso é uma liberdade e tanto! E não, não morrem sabendo que ninguém vai sentir sua falta, Luz tem ainda a lembrança e o amor pelos pais, muito mais tempo depois de se afastar deles do que é possível acontecer agora com qualquer um de nós. Quem de nós dois vai ter alguém que se lembre da gente e que nos ame daqui a duzentos anos? A mãe de Luz que (talvez) tenha saído da fábrica para morrer tinha alguém que pensava nela com amor (Luz) muito mais do que duzentos anos depois. Eles não podem voltar no tempo, nós também não. Viver como um Frágil? Quem iria querer? Não podem mesmo querer isso, mas a própria natureza deles faz com que a chance de querer seja tanta quanto a chance de você ou eu desejarmos ser uma mosca varejeira. Não podem escolher ter um filho, certo, mas vivem em famílias grandes e quando uma pessoa da família tem um filho todos têm; a chance, portanto, de se poder ser pai ou mãe aumenta embora os nascimentos sejam raros. Podem escolher não ter filhos, basta não fazer parte de nenhuma família e usar camisinha.

Daniel, meu amor, você diz que só o que eles podem fazer é “ser felizes até enjoar e depois morrer” como se isso fosse nada, mas veja quanta coisa Luz fez: ela aprendeu um montão de coisas, leu um montão de livros, foi a um zilhão de lugares inclusive fora da Terra, e ainda não enjoou! Acho que o que existe entre o nascer e o morrer no mundo dela vale muito mais do que o que existe entre o nascer e o morrer no nosso; jura que você não concorda que ler todos os livros que queira, aprender todas as coisas que queira e ir a todos os lugares que queira vale mais do que curtir luta de boxe?

Essa parte de o que acontece com os corpos das pessoas e animais que morrem eu não coloquei por dois motivos: um foi que achei que ficaria mais ou menos entendido que as pessoas iriam para algum lugar onde seus corpos poderiam apodrecer e sumir sem ferir o nariz de ninguém e que os animais mortos poderiam seu usados como material de estudos em lugares como aquele em que Luz ficou quando saiu da fábrica. O outro motivo é que estou pensando em completar esse texto com alguns contos e um deles seria de uma pessoa que resolve morrer, daí essa pessoa deixaria isso explicado. Aliás, pensei em fazer vários contos colocando melhor através de outros personagens as coisas que não ficaram muito claras nesse primeiro texto.

Quanto aos carros sim, existem pessoas que querem ter carros e não, não querem tanto a ponto de ficarem chateadas se não conseguirem, afinal, elas podem esperar, podem comprar um usado (um dos contos de que te falei vou fazer acontecer em uma oficina que recupera carros dos tempos dos Frágeis). Conseguir um carro seria algo difícil sim, mas não tanto já que tem mais do que uma fábrica e não tem tanta gente assim que queira ter carro, afinal, ele não é mais símbolo de status já que ninguém liga para status e não é mais uma necessidade, daí que se você pensar bem, a produção pode nem ser tão pequena assim considerando os possíveis compradores.

Existem estradas, mas não é necessário que existam tantas, e as cidades cuidam de suas estradas. Não precisa que existam “trabalhadores dispostos a passar anos carregando materiais e fazendo trabalhos chatos e repetitivos”, basta que a conservação das estradas faça parte daquelas festas de limpeza e conservação da cidade que eu citei no texto. Estradas maiores podem ser conservadas ou não, no caso afirmativo isso pode ser feito também pelos moradores de duas cidades como uma espécie gincana que dispute a rapidez do trabalho ou coisa assim (mais assunto pros meus contos).

Você está sendo cínico, seu safadinho! Não, não é preciso “avisar todas as árvores para sair do caminho”, basta apenas conservar as estradas que já existiam desde o tempo dos Frágeis, não precisa construir mais. As plantas vão continuar preferindo nascer na terra do que no asfalto, afinal, a ligação do vegetal com a terra é toda e muito mais importante do que a nossa; além disso, lembre-se de que uma plantinha que esteja em uma rachadura de asfalto não poderá ser quebrada, arrancada ou danificada de qualquer forma por um carro que passe... Daí que o que você colocou de as plantas nascerem em lugares sem terra, a ligação delas com a terra não permitiria e, embora não sejam danificadas, por exemplo, pelo frio dos pólos, elas preferem lugares de temperaturas mais agradáveis para crescer, enfim, as plantas podem não ter aprendido a se mover, mas no meu mundo elas têm direito a ter preferência por lugares que “acham” mais agradáveis para crescer. Mais assunto pros meus contos.

Sim, as pessoas comem frutas e folhas caídas, mas elas podem, por exemplo, envolver as frutas em telas para evitar que sejam danificadas e colher diretamente na planta as folhas que cairiam em seguida, daí o que basta é conhecer melhor as plantas. Portanto, comer uma alface não está fora de cogitação, basta que o pé de alface esteja dispensando aquela folha e que alguém a pegue antes que ela caia, pessoas podem cuidar de plantas fazendo “colheitas” diárias. O papel pode vir de papel reciclado, de plantas que morreram e eles podem ter uma forma sintética de papel inventada por eles.
Vou escrever os contos, e aproveitar seus comentários para isso....

Te amo muito!

RESPOSTA DANIELINA2

Então, pode ser que eu não seja a pessoa adequada para admirar este mundo novo... e eu acho que é este exatamente o problema dele. Ele exige um tipo especial de pessoas para apreciá-lo, qualquer outro tipo não se encaixaria nele.

Eu não poderia viver neste mundo. Para ir para ele eu teria que deixar de ser eu, e virar outra pessoa. Talvez uma pessoa até melhor, mas de qualquer forma, não seria mais eu. Por isso que acho assustador. E por isso que vejo um paralelo com os extremistas. É como um judeu pensar "Realmente, a Alemanha vai ser um lugar bem melhor se eu estiver morto, sorte dos alemães".

Eu não digo que este mundo seja como o mundo deles, claro. Claro no seu ninguém mata ninguém. O que eu digo é que a solução sugerida por eles é a basicamente mesma que a sua. Pela lógica deles, o mundo perfeito seria construído assim:

1 - Pegar a própria ideologia. (adorar Alá, rezar para Meca, vestir burkas)
2 - Entender que a forma deles de pensar é a correta.
3 - Eliminar todos aqueles que não são como eles. (com homens-bomba, guerra, terrorismo)
4 - Povoar o mundo com pessoas com a mesma ideologia.

Da mesma forma, no seu:
1 - Pegar a própria ideologia. (pacifismo, busca por conhecimento, respeitar os outros, etc)
2 - Entender que a forma deles de pensar é a correta. (esse passo não muda)
3 - Eliminar todos aqueles que não são como eles. (acabando com a reprodução do "inimigo")
4 - Povoar o mundo com pessoas com a mesma ideologia. (este também não muda)

Quer dizer, há algumas diferenças do processo, mas o resultado final é o mesmo. É como, por exemplo, um empresário decidir que não quer mais nenhum negro trabalhando em sua fábrica. Uma solução seria demitir todos, enquanto outra seria apenas não contratar mais nenhum e esperar até que o último fosse embora. Embora uma solução seja mais desagradável do que a outra, as duas são igualmente racistas. Talvez o resultado final (do ponto de vista do empresário) seja ótimo: nenhum negro na sua fábrica. Mas, melhor ainda seria se ele pudesse simplesmente conviver com todo mundo.

Eu não conhecia este quadro do menino azul, acabei de ver. E ele ilustra exatamente a necessidade de contrastes que eu estava falando. O menino pode muito bem ser azul, ou pelo menos parece desta forma. Mas olhando melhor para o quadro, dá para perceber várias necessidades de contraste. Só algumas básicas: O menino está sobre um fundo amarelado, cor do lado complementar do azul, que o artista usou exatamente para ressaltar a cor que ele queria mostrar. No próprio azul da roupa dele, existem não só vários tons de azul (e não poucos, como você falou), mas existem ali tons de amarelo, bege, verde e marrom. E isso só na parte azul da roupa mesmo, não nos detalhes, e certamente, se olhar o quadro original de perto, a gente vai encontrar muitas outras cores de tinta ainda mais diferentes entre as pinceladas. São coisas que a gente não percebe de cara, mas estão lá e fazem com que a gente consiga entender que o menino é azul.

Eu abri aqui o quadro para fazer umas experiências, e estou te mandando o resultado. Olha só a paleta de cores embaixo, são apenas 32 cores extraídas automaticamente do quadro todo. Observe que dentre as 32 cores, menos de 10 (pode contar) são de fato tons de azul. Todo o resto está lá justamente para que estas 10 tenham algum efeito. O artista sabia disso, e usou este contraste para chegar ao resultado que queria. Montei também uma imagem com o mesmo quadro, aplicando apenas dois tons de azul (extraídos da roupa do menino). Veja como o quadro fica sem graça agora e praticamente desaparece. Isso é o que acontece quando se tira o contraste das coisas. A gente perde algo que nem sabia que existia.

E embora as pessoas possam ter interesses diferentes, estes interesses não podem entrar em conflito com aquilo que você considera ruim. É como dizer que as pessoas podem pensar o que quiserem, contanto que aceitem Jesus como seu senhor e salvador. Ou que pode pensar o que quiser, desde que não discorde do governo, e por aí vai. Isso acaba com a própria liberdade dos Livres, no momento em que eles tem menos opções de pensamento do que os frágeis (e eles tem), eles não são mais livres, e sim mais presos. Em uma cela mais confortável, talvez, mas ainda assim, presos. Se a personalidade das pessoas é definida pelos seus interesses, logo o leque de possibilidades disponíveis para um Livre é menor do que o nosso, logo as diferenças entre as personalidades das pessoas também é menor. Por isso eu digo que todos pensam da mesma forma.

É por isso que me assusta essa felicidade constante de todo mundo. Ninguém gosta de sofrimento, mas toda sensação que temos tem que ser comparada com outra para se determinar se é boa ou ruim (contraste). É por isso que pessoas multimilionárias não são mais felizes do que pessoas normais, pelo contrário. Porque muitas delas nunca nem sequer passaram por qualquer situação desagradável, e aí tudo perde a graça. Caviar pode se muito bom, mas depois de comer todo dia, deixa de ser.

Sobre os esportes, é perfeitamente possível de se praticar esgrima no seu mundo. Com as mesmas regras atuais (onde ninguém se machuca): toques no corpo valem, por exemplo, 3 pontos, nos braços 1 ponto, na máscara 2 pontos, e por aí vai. A diferença é que ninguém precisaria usar roupas de proteção. Da mesma forma, se fosse boxe: atribuem-se pontos para golpes no tronco, no rosto, etc (também da mesma forma que se faz hoje). A única diferença é que ninguém se machucaria com os golpes. Qual é a diferença real entre contar o toque da mão de um competidor no corpo do outro, e contar o toque de uma bola em uma determinada área do campo do time adversário? E se realmente existir uma diferença, nesse mundo novo as pessoas poderiam jogar futebol americano, ou rugby? Ambos esportes violentos, embora de uma forma mais indireta. E xadrez? O jogo todo representa uma guerra, com soldados, cavaleiros e etc. Será que os Livres não poderiam enxergar isso como violência e não se interessar por este jogo também? Tiro ao alvo? Arco e flecha? Batalha naval? War? Magic? RPG? Detetive? Stratego? Videogame então, nem pensar, já que praticamente todos os jogos envolvem algum tipo de violência ou combate.

E eu não gostaria de viver em um mundo onde eu tivesse que ficar plantado esperando que uma folha de alface caísse sozinha da planta, para depois guardar esta folha em um tupperware, ir para outro pé de alface, esperar a próxima folha cair, para que depois de alguns meses (se as folhas não apodrecerem) eu pudesse fazer uma salada. Em uma situação destas é bom que as pessoas vivam para sempre, porque se não fosse assim, ninguém teria a chance de comer uma saladinha. Este pode até ser um objetivo de vida. Talvez uma carreira até mais lucrativa, mas não menos trabalhosa, do que fazer carros.

Isso é claro, se a alface não se incomodar de nascer em algum lugar onde eu possa ficar lá observando. Afinal, de acordo com a sua explicação, a planta pode preferir crescer em algum outro lugar, talvez onde ninguém fique lá parado esperando pela próxima folha. Se as pessoas podem se incomodar com a presença dos animais nas suas casas, porque as plantas não poderiam fazer o mesmo?

E se as plantas escolhem onde nascem, como ficam as estradas de terra? Se alguém quiser pegar um jipe 4x4 e passear por uma trilha, não vai poder? Ou as plantas entendem que aquilo é uma estrada, mesmo sem pavimentação? E futebol? A grama vai querer nascer ali no campo para ser pisada?

Enfim... já estou enchendo o saco, né? Que moleque chato... só reclama...

MINHA RESPOSTA 2

Meu lindo e maravilhoso filho,

Você não é, nunca foi e nunca será um moleque chato... e eu não sou suspeita para falar isso...

O fato é que você está lendo e comentando meu texto e isso é ótimo para mim, ajuda muitíssimo pensar num assunto e ter acesso a outras opiniões, faz a gente REpensar, aprofundar, encontrar soluções para problemas que não teria visto sem a ajuda do outro. Você está sendo esse outro e eu fico muito grata por isso.

Bem, vamos lá então: A primeira palavra que me ocorre agora é um grandíssimo “sim” e um maior ainda “respeitando-se as proporções”. Do jeito que você analisa, a minha idéia de um mundo perfeito acaba tendo mesmo um paralelo com extremistas islâmicos ou com qualquer outra visão extremista, preconceituosa e elitista que se possa pensar. A diferença, e me permita afirmar que é uma diferença imensa, é que no meu mundo perfeito nem sequer ocorreu a alguém a solução de eliminar o outro pelo assassinato puro e simples, ou de subjugar o outro via escravidão ou lavagem cerebral; pode parecer pouco, mas acho que isso faz toda a diferença. Não ocorre a mim em nenhum momento que esse mundo seja possível, tanto que para criá-lo eu coloquei um deus que não existe; e esse deus também não é fã de destruição, ao contrário do deus que o pessoal louva nas igrejas. Além disso os Livres tiveram quase que como primeiro instinto, a vontade e a ação de tornar a vida dos Frágeis melhor, lembre-se de que coloquei que, graças aos Livres, nenhum Frágil morreu de fome, isso é muitíssimo mais do que se pode dizer de nós sobre nós mesmos.

Você já sentiu vergonha de ser gente? Eu sinto isso com muita freqüência e, sem querer ser demagoga, afirmo com toda a certeza que o ser humano é um bicho extremamente nojento e desprezível. Nós somos, meu lindo, uma raça terrivelmente nociva. Não há adjetivo negativo que se possa dar ao ser humano com o qual eu não concorde. Sei que não estou sendo nem um pouco original nessa minha afirmação, mas talvez essa mesma falta de originalidade seja prova de que tenho razão, daí que, embora ame muitas pessoas, embora possa fazer uma boa lista de pessoas que considero maravilhosas, embora tenha uma paixão desmedida por você e embora ache que seu pai é um dos seres humanos mais bonitos (estou falando de beleza interior) que já conheci na vida, eu abriria mão sem pestanejar do “privilégio” de existir para que a raça humana não existisse também. E juro que não estou exagerando! Claro que não posso falar por você ou por qualquer uma das pessoas que amo, mas posso imaginar algo melhor do que esse mundo e posso imaginar uma vida melhor do que essa; é o que estou fazendo: apenas e tão somente imaginando...

Contrariamente a um Hitler, a um extremista islâmico, a um branco extremamente racista, não quero eliminar ninguém e não vejo essa idéia com outro sentimento que não seja asco. As pessoas que tentaram imaginar um mundo perfeito, pelo menos aquelas de cuja existência e idéias eu soube (Platão com a sua República é o primeiro que me ocorre e Hitler com o seu holocausto é o mais terrível que me ocorre), sempre o imaginaram partindo do ser humano da maneira que ele é como matéria prima; sempre selecionaram um grupo de seres humanos que consideravam superior aos demais (invariavelmente o grupo ao qual eles mesmos pertenciam) e colocaram esse grupo como dominante, governante, mentor, executor desse mundo perfeito. O resultado é que todos eles (novamente insisto nisso: dos que sei) imaginaram mundos impossíveis que acreditavam possível, terríveis que achavam aprazíveis, feios que acreditavam belos. E, infelizmente, alguns tomaram atitudes no sentido de tornar realidade suas idéias.

Enfim, filhão, o que quero dizer é que essa minha idéia de um mundo perfeito não passa, em última análise, de uma brincadeira que responde ao desafio de um amigo crente que acha que deus é todo maravilha, todo bondade e todo poder, que a natureza é perfeita e que o mundo seria ótimo se não fosse pela nossa falta de fé em deus. E o que eu quis dizer com isso no final das contas? Quis dizer que se eu que sou uma amebinha desprezível se comparada ao deus que eles tanto veneram posso imaginar um mundo melhor do que esse, pelo menos sem morte, assassinato e destruição, então o deus que eles superlotam de adjetivos com os quais eu não concordo, se fosse essa maravilha toda que dizem, poderia fazer melhor. Eu quis mostrar que o ser humano, embora seja esse horror todo que eu disse acima, não é o único responsável pelos males do mundo, ele é só parte desses males, e que um deus que fosse bom mesmo não criaria um mundo onde seres vivem de matar.

Acho que um deus que fosse bom de verdade e poderoso de verdade conseguiria criar um mundo perfeito de verdade, um no qual você não conseguiria encontrar defeitos como encontrou no meu. Afinal, se não sou perfeita, o lógico é que não consigo criar ou imaginar a pura perfeição, mas se deus existisse e fosse, ele poderia. Parece bastante óbvio tudo isso para nós que não somos crentes mas para os que vão às igrejas e consideram a bíblia um livro sagrado, e também para os que vão à sinagoga ou à mesquita e consideram sagrado o talmud ou o alcorão, enfim, para todos os que crêem em um deus, qualquer que seja, penso que isso nunca ocorreu.

Voltando ao que disse no começo, fico muitíssimo grata a você pelas críticas e observações, vou usar seus comentários, como já disse antes, para escrever contos que tentem responder suas perguntas, explicar detalhes que te chamaram a atenção e tornar o meu “mundo perfeito” mais perto de merecer esse nome.

Ah, quanto ao quadro do Menino azul, não chegou a mim o que você disse que fez, será que você esqueceu de anexar? Eu faço isso com freqüência... Mas foi uma temeridade da minha parte usar logo uma pintura como exemplo, eu nem sei ver pintura enquanto que você está em casa nesse departamento... daí que tudo que você disse sobre esse lance de cores logicamente é correto, não tenho como duvidar de nada. Fiquei fascinada com o que você falou das tantas cores que estão lá só para que a gente veja melhor o azul ! Isso é tão lindo que chega a ser fantástico no sentido de parecer surreal, inexistente, imaginado, mágico... sei lá, de mentira! Manda o que você fez, eu adorei mesmo suas explicações, e tem tudo a ver com filosofia também... é tão fabuloso que quero ler melhor vendo a figura para entender mesmo e poder falar sobre o assunto e até fazer paralelos com outras coisas que a gente vê, ouve ou lê.

Eu te amo!

Beijão!

29 de setembro de 2009

MORTE VOLUNTÁRIA

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Primeiro eu gostei de música. Uma das minhas três mães tinha um violão, uma flauta e uma guitarra, tocava muito bem os três instrumentos e começou a me apresentar sua música logo que nasci, aprendi a ler partituras ao mesmo tempo em que aprendia a ler e escrever a língua que falávamos e assim que consegui segurar a flauta e que meus dedos conseguiram alcançar todos os furos comecei a assoprar nela as melodias que ouvia no berço; quando meu tamanho permitiu segurar e dedilhar violão e guitarra, eu, minha mãe Luzia e meu pai Pedro formamos o trio que se revezava nos instrumentos e que todas as tardes enchia a igreja onde morávamos de música. Nos dias de festa montávamos um palco na praça e toda a cidade, depois dos trabalhos da Limpeza, vinha ouvir nossa música, dançar e brincar embalada no nosso som. Minha primeira casa foi a antiga Igreja Matriz da cidade, minhas três mães, meus três pais e a música me mostraram o mundo e me ajudaram a crescer.

Depois eu gostei de motos. Fui morar em uma fábrica e testava as motos assim que terminávamos de fabricá-las. No dia anual de venda, a família cuidava da recepção dos convidados e das vendas e eu ficava com a animação musical. No final do dia sempre tinha baile. Quando saí do meu segundo lar, foi montado em uma moto vermelha e levando meu violão muito bem preso na garupa que me despedi das pessoas para começar uma longa viagem pelo mundo. Enquanto rodava eu me perguntei algumas vezes como os Frágeis faziam isso: Eles tinham mais estradas, certo, mas não podiam passar através das coisas, se saíam da estrada por um problema qualquer acabavam batendo nas árvores e nos muros e em geral se feriam, e até morriam. Temos apenas as poucas ruas que conseguimos preservar e que estão em sua maioria dentro das cidades habitadas; conheci poucas estradas que ligavam duas cidades, sempre admirei a vontade e o esforço das duas cidades que, não importa o lugar do mundo onde estivessem, faziam sempre a Festa do Encontro: saíam, trabalhando na limpeza e reparação da estrada, ao mesmo tempo, os habitantes das duas cidades, no meio do caminho se encontravam e faziam a festa. Todas as vezes que encontrei cidades assim fiquei um tempo em uma delas para ajudar na reparação e animar a Festa do Encontro com a minha música. Em várias delas procurei famílias de músicos e fiquei alguns anos.

Viajei por todos os lugares que quis durante muitos anos, quando sentia saudade da comida que tinha à farta com minha primeira família, eu procurava uma família de plantação e ficava por uns tempos ajudando a colher todos os dias as folhas da couve, da chicória ou da alface, os frutos ou as sementes da plantação que existia desde os tempos dos frágeis. Aprendi com minha primeira família a sentir quando o fruto ou a folha vai se soltar, quando o trigo pode ser colhido, quando a raiz pode ser arrancada e aprendi a fazer muitos pratos doces e salgados e muitas bebidas, esse conhecimento me foi útil várias vezes quando por acaso eu encontrava uma ou algumas árvores ou arbustos pelo caminho, se queria e o vegetal estava pronto, colhia o fruto ou a folha e me deliciava à luz do luar ou às primeiras luzes do sol ainda não visível, às vezes com o fundo musical da água de uma corrente ou de uma cachoeira. Eu era feliz nesses tempos e pensava não sentir falta de nada até que, em uma família de plantação, conheci Camila e passamos a viajar juntos. Depois de alguns anos conhecemos Luíz, Ruan e Jane, cada um com sua moto e sua música: Jane tocava gaita, Ruan tocava violão e Luíz, o excêntrico, tocava violino. Formamos uma família de estrada, uma banda de animadores de festas e o mundo era todinho nosso.

Luíz foi o primeiro a deixar o grupo, ficou em um teatro com uma família de atores, depois passavam os anos e o grupo diminuía como era natural que acontecesse. Camila foi a última; me chamou para ficar com uma família de uma galeria, ficamos alguns anos e aprendi a pintar, nunca consegui ser muito bom mas gostava de tentar reproduzir nas telas as paisagens que via, quando essas paisagens me chamaram com força decidi voltar para a estrada, Camila preferiu ficar e voltei a viajar sozinho carregando agora, além do violão, as tintas e pincéis que tornaram meus passeios ainda mais agradáveis. Nas cidades em que parava eu vendia meus quadros, ou dava de presente para alguém que conhecia e de quem gostava com mais força. Tive companhia algumas vezes, voltei a ficar sozinho outras e muitos anos foram passando até que chegou o dia em que me descobri cansado. Na última cidade antes do deserto conheci um rapaz que ainda está com sua primeira família, ele me contou que quer viajar muito, juntar muitas lembranças e depois entrar em uma família de editores, aprender a fazer o papel e imprimir suas lembranças de viagem. Dei a ele minha moto e meu violão, ele não sabe tocar mas incluiu essa aprendizagem em seus planos. Passei algumas noites em uma galeria com uma moça que pinta cenas do mundo dos Frágeis, os quadros dela são um tanto chocantes e tristes, mas ela capta o último item da caixa de Pandora e coloca nos olhos das pessoas que retrata, por isso gostei dos quadros e dei a ela minhas tintas e meus pincéis.

Saí da cidade no meio da Festa da Limpeza e vim para o deserto me despedir da Lua. Agora estou pronto para terminar minha viagem.

8 de setembro de 2009

NO ALTO DA COLINA

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Abro os olhos e penso: Será que é hoje? Acho que toda a minha vida me fiz essa mesma pergunta quase todos os dias ao acordar. Mas não saberei se é hoje, ou não antes de subir a colina, coloco a roupa, olho para o rosto adormecido da minha “esposa” com o olhar de despedida de todas as manhãs dos últimos três anos, desço as escadas, calço o tênis e saio para a rua, para o que todos pensam ser a minha “corrida matinal”. Subo a colina correndo, às vezes depressa, às vezes devagar, porque dependendo do que penso, do que sinto e do que lembro desejo ver mais rápido o que há, e se há, lá em cima ou tenho mais e mais medo de ver o horizonte.

Lá no alto me debruço sobre a escarpa e olho ansioso com o olhar de todo dia aquele vale que se descortina e as nuvens esfiapadas que se estendem esparsas abaixo de mim. Lá no fim, onde o verde encontra o azul, não vejo a poeira disforme avançando seu marrom, sei então que terei mais um dia, pelo menos mais um dia. Solto com força o ar que ficou preso nos pulmões, respiro novamente com alívio e me levanto virando o corpo para ver a pequena cidade de onde vim e que se descortina logo abaixo. Volto correndo sem pressa, entro em casa com o coração leve e vejo que Lia já se levantou. Começo a preparar o café enquanto ouço o barulho do chuveiro lá em cima.

Há três anos desci a colina para entrar pela primeira vez nessa cidade bucólica, muito branca e pacata como se fosse tirada de uma propaganda de eletrodomésticos dos anos sessenta. Encontrei Lia, encontrei a casa e encontrei Hugo, gorducho e sorridente em seu berço cercado de brinquedos. Lia é minha esposa, Hugo é meu filho e agora já sabe andar sozinho, dorme em uma cama e me chama de papá. Dessa vez a vida que me foi dada é muito boa. Isso me faz sentir mais assustado todos os dias porque sei que vai acabar e sinto que a próxima será muito diferente, quase que com certeza ruim.

Eles descem e eu assumo minha expressão natural, Lia passa Hugo para meus braços, ganho um beijo de bom dia ainda com cheiro de sono de uma criança adorável que breve não mais verei. Ganho um beijo pleno de promessas de uma noite que virá rápido e que talvez seja a última. Falamos, rimos, comemos e quando saio Lia fica na porta com Hugo nos braços me acenando bom dia.

Chego rápido no escritório, passo o dia entre papéis, reuniões, conversas entremeadas de risos e planos para o próximo fim de semana que não sei se terei. Almoço com um grupo muito animado e por alguns momentos chego a esquecer que tudo isso está aqui só de passagem. Nesses momentos meu sorriso é de verdade e meu peito está leve. Mas são momentos, logo lembro que há três anos não sabia o nome de nenhuma dessas pessoas à volta da mesa, de nenhuma mesmo, nem o meu. Vejo o rosto redondo do Marcão e lembro que foi ele quem me encontrou andando à toa pela cidade, me cumprimentou e perguntou se eu estava indo pra casa, afirmei que sim e convidei-o para um drink, insisti e quando aceitou sorri aliviado, acompanhei-o sem que ele se desse conta de que estava me guiando para minha casa, que eu não sabia qual era. Perguntou se Lia estava bem, eu disse que sim e segurei com força o nome na mente, perguntou se Hugo já tinha falado a primeira palavra, segurei na mente esse outro nome e respondi que não tinha certeza, disse, inventando, que ouvi algo que parecia “papai”, mas não podia jurar que fosse, ele riu, disse que talvez fosse o desejo de que a primeira palavra do meu filho fosse papai, um desejo natural, soube que Hugo era meu filho, imaginei que Lia seria minha esposa e sorri confirmando. Chegamos à casa branca de janelas azuis, como que saída de um conto romântico. Parei na porta, indeciso, não sabia se tinha a chave, lembrei de procurar no bolso quase antes que Marcão notasse meu impasse, lá estava a chave, abri a porta e gritei: Lia, minha linda, trouxe alguém para tomar um drink! Pensei no mesmo momento em que gritava: Tomara que chamá-la de “minha linda” não seja algo muito estranho...

No final do expediente me despeço de todos olhando-os com o meu olhar de "nunca mais” de todos os dias desses últimos três anos. Olho, também me despedindo para sempre, como todos os dias, para o escritório vazio: minha mesa, minha cadeira, meu telefone, minha carreira... Saio para a rua e caminho olhando, e me despedindo para sempre, as casas ensolaradas ao entardecer, os quintais aprazíveis, as crianças e seus skates, suas bicicletas, suas bolas, suas vidas, para mim, sem futuro porque podem todas desaparecer amanhã. Entro em casa com a noite, vivo as horas perfeitas que vislumbrei no beijo matinal de Lia e, como sempre demoro a dormir. Será essa a última noite? Três anos de felicidade tensa serão substituídos pelo quê? Sinto medo. Lembro de quando fui o filho do ferreiro, do dia em que ele me marcou com o ferro quente, meu rosto ainda consegue sentir a queimadura embora seja outro rosto e embora não haja nenhuma marca ali. Lembro de quando fui a esposa do policial perfeito e da tensão constante em que ele me mantinha. Lembro de todas as vidas ruins e desejo que a próxima, se for para ser mais uma daquelas difíceis e torturantes, dure somente três dias, como foi quando fui o ladrão perseguido cujo produto do roubo tinha escondido mas não sabia onde. Se continuasse sendo o ladrão mais tempo do que aqueles três dias certamente teria sido morto pelo meu parceiro, como era mesmo o nome dele? Não me lembro, não me lembro também de como era o meu. Sonhei novamente com a parede de pastilhas e acordei com o barulho do sol batendo na janela. Será que é hoje?

Levanto-me, desço as escadas e saio de casa com a alma pesada, como todas as manhãs, todas as manhãs que poderiam ter sido a última nesses três anos, será hoje? Corro rápido, ansioso, corro devagar, com medo, corro tenso, corro pesaroso, corro com todos os sentimentos que me levam todo dia ao alto da colina. Deito-me sobre a relva e olho para o vale abaixo da escarpa, vejo mais fiapos de nuvens sobre o fio d’água que corta o vale e levo meu olhar ao horizonte. Meu coração dispara e quer sair pela boca, debruço a cabeça sobre o braço dobrado e choro. Nunca mais verei Lia, nunca mais verei Hugo, nunca mais a cidadezinha de comercial de eletrodomésticos, nunca mais a casa branca de janelas azuis. A disformidade marrom escura vem se desenrolando no horizonte e vem rápida, levanto a cabeça, enxugo os olhos na manga e olho de novo. Ela já engole um pedaço do rio. Fico olhando a poeira crescer, tomar o verde do vale aos poucos, aos poucos desaparecer o rio, aos poucos subindo a escarpa e cubro a cabeça, me encolho muito e choro ouvindo o vento zunir. Ele leva para longe Lia, Hugo e a casinha branca, leva para longe aquele que fui nesses três anos. Chorando ouço o vento parar e sinto o sol voltar à minha pele. Levanto a cabeça devagar. Tenho medo!

Olho para mim, uso um vestido florido, sou uma mulher. Levo a mão à cabeça e sinto longos os cabelos, seguro um punhado, trago para frente dos olhos e vejo a cor, castanho claro. Coloco-me em pé e percebo que sou pequena, busco o espelho que passei a levar no bolso e que, ao contrário de tudo o mais, nunca desaparece, olho meu rosto no espelho, sou uma criança! Uma menina sardenta, com olhos tristes e um pouco de beleza. Saio andando devagar. Quem sabe tenho uma família, pais que me amam, irmãos alegres, um quarto só meu e amigos na escola, talvez essa não seja uma daquelas vezes difíceis, talvez seja bom e dure bastante, talvez até eu crescer. Estou vendo a cidade lá embaixo e não é branca como a anterior, é mais cinzenta, tem alguns prédios de quatro e cinco andares e parece um pouco maior. Chego à rua, quanto tempo caminharei dessa vez até encontrar alguém que me conheça e me diga quem sou eu e onde moro? Viro esquinas, entro em uma livraria, ando mais alguns quarteirões, passo na frente de uma escola, viro outra esquina, tenho a impressão de que um menino ruivo acenou, mas não tenho certeza, ele não falou comigo, viro outra esquina, paro na frente de uma loja, olho a vitrine e vejo os anéis, os colares e as pulseiras, não sei se são caros, não vejo o preço, não conheço jóias, passo na frente de uma farmácia e ouço um nome, viro o rosto e vejo uma menina acenando para mim, vou até ela sem jeito e falo “oi”, ela responde, pede pra eu esperar, pega o troco e saímos juntas da farmácia. Para onde você está indo? Para casa, vamos comigo? Só se você me emprestar seu caderno de geografia, e não posso demorar que tenho que levar os remédios da vó. Tá, vamos lá. E ela vai andando e me guiando sem saber, viramos outra esquina e chegamos a um dos prédios, tem cinco andares e um portão aberto, entramos e subimos dois lances de escada, ela para na frente de uma porta e eu seguro a maçaneta e abro o trinco. Estou em uma sala pequena e tem uma mulher de meia idade vendo televisão, ela grita que a comida já esfriou, que eu demorei demais, que só sei sumir pra rua e que ela não sabe mais o que fazer. Todo esse sermão tem uma utilidade prática, descubro o meu nome, descubro que ela é minha mãe, porque a outra menina comenta que minha mãe está sempre brava, e descubro que não sou muito amada e aparentemente não tenho irmãos, não vejo mais ninguém na casa e sigo a menina que parece conhecer a casa e saber direitinho o caminho do meu quarto. Entramos e encontro uma mochila amarela jogada em cima de uma cama estreita, abro a mochila, encontro um caderno com uma etiqueta com a palavra “geografia” em letras vermelhas e enfeitadas. Entrego o caderno para a menina e ela ordena mais do que pede que a gente vá até a cozinha para ver o meu almoço. Ela me guia novamente e encontro um prato no fogão, coberto com uma tampa de panela, pego o prato, levo até a mesa e tiro a tampa, dentro tem arroz e um pedaço de frango, pergunto se ela quer, olha o prato com ar de desprezo e agradece, fico parada sem me decidir sobre qual gaveta abrir para pegar um garfo. Seria a primeira da pia ou a primeira daquele armário azul? Antes que eu tome uma atitude a menina abre a gaveta do armário, tira de lá um garfo e uma faca e me entrega enquanto fala sem parar a respeito da professora de ciências brigando com o Gilberto porque ele não leu o capítulo do livro, percebo pelo jeito que ela fala que aquela cena foi engraçada e foi presenciada por mim, então só confirmo o que ela diz e dou risada como se estivesse lembrando da cena. Começo a comer a comida fria e descubro que estava com fome, a menina diz que tem que ir e diz tchau, eu falo, mais alto do que o normal para não ter que dizer o nome dela, que não sei, passa aqui amanhã pra ir pra escola comigo? Claro, mas não se atrase, sete e quinze chamo uma vez, se você não responder vou embora sozinha. Pode deixar, já estarei pronta, até amanhã. Ela sai e termino de comer enquanto decido. Amanhã, na escola, descubro o nome dela. Aliás, acho que vou ter que descobrir o nome de muita gente. Vi pelo meu caderno que estou na quarta série.

Quando termino de almoçar fico indecisa sobre se deixo o prato na mesa como está ou se lavo e guardo, não quero fazer nada que pareça fora do normal, depois de pensar um pouquinho concluo que aquela mãe que não se mexeu do sofá esse tempo todo não deve ser uma mãe que venha lavar a louça depois do almoço da filha que se atrasou para chegar em casa sabe-se lá de onde. Lavo a louça, enxugo e guardo, abro a porta do armário errada para guardar o prato, mas na segunda tentativa consigo acertar. Volto para o quarto e passo o resto do dia mexendo em todas as coisas para ver se consigo me encontrar em alguma delas. Vejo uma menina organizada, e com péssimas notas, por que será? os cadernos são impecáveis, a expressão que vejo no espelho é de uma criança inteligente, encontro boletins antigos em uma gaveta e vejo que as notas eram melhores. Tem alguma coisa errada “comigo”. Minha “mãe” não entra no quarto, encontro alguns gibis e começo a lê-los. Espero.

Ele chega pouco antes das sete e vem até o quarto me dar um beijo. Tento não parecer muito fria nem muito entusiasmada, “mamãe” está junto e conta que me atrasei para o almoço como sempre, digo que fiquei conversando com uma colega, ele pede que eu seja mais compreensiva com a minha madrasta e descubro, com um certo alívio, que “mamãe” não é minha mãe. Vamos todos para a sala e ficamos vendo televisão e conversando enquanto a madrasta faz o jantar, não sem antes cobrar minha ajuda com os tomates e as batatas, ajudo de forma um pouco atrapalhada porque ainda não tomei posse direito do meu novo corpo e essas mãos tão pequenas são um pouco estranhas pra mim, mas parece que ninguém repara muito. Jantamos os três conversando, ou melhor, o “papai” conversando, a madrasta respondendo com monossílabos e eu ouvindo muito e falando o mínimo possível. Vemos televisão e a madrasta diz que está com sono e sai da sala, eu espero só até o próximo comercial, digo boa noite, que tenho que acordar cedo e vou também para o meu quarto, descubro como colocar para despertar o relógio que tenho na cômoda, pego os gibis e começo a lê-los.

Quando já estou começando a sentir sono e a me perguntar se essa será minha última, além de primeira noite na cidade dos prédios baixos, vejo a porta se abrir e “papai” entra no quarto. Ele diz que ela tomou os remédios e agora está dormindo como uma pedra, diz que veio dar boa noite, senta-se na cama e me beija dizendo que sentiu muita saudade, meu coração dispara quando sinto que ele pega minha mão pequena e leva até um pedaço de carne semi ereto e asqueroso, ele diz coisas que não ouço porque minhas orelhas fervem e minha cabeça dói. Quero gritar, chorar, sair correndo e quero de volta aquele corpo que tive até a manhã desse mesmo dia para dar muitos socos na cara desse ordinário cafajeste que me avisa com respiração entrecortada que não devo contar nada pra ninguém do que ele está me ensinando, que não devo contar nada para ninguém nunca porque se eu o fizer será muito ruim para nós todos, mas principalmente para mim que terei que viver o resto da minha vida em orfanatos onde muitos homens farão coisas muito ruins comigo e farão porque não são como o papai que só quer um carinho inocente e que não vai me machucar, que saberá esperar até eu ficar um pouquinho maior para me ensinar outras coisas e pra me mostrar o que devem fazer as mocinhas comportadas que amam seus pais. Ele suja minha mão e quase vomito, ele pega uma toalha de mão e enxuga tudo, me dá um beijo na testa e sai do quarto com a respiração ainda ofegante. Eu desejo matá-lo. Quanto tempo vai demorar para que eu possa ver a poeira subindo novamente no horizonte, de lá do alto da colina?