30 de outubro de 2009

MINHA VIAGEM À ESPANHA (parte três)


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Em um dia que quisemos arriscar ir um pouco mais longe atravessamos a fronteira e fomos até Valença, que fica já em Portugal. Lá existe também uma muralha enorme e muito impressionante. Dizem que é a muralha mais bem conservada da Europa. Foi ótimo caminhar por ela depois de ter comido bacalhau e tomado um gostoso vinho em um típico e agradabilíssimo restaurante português onde o garçom despediu-se da gente se apresentando como “Arlindo, a seu dispor”. E em um outro dia em que não estávamos por algum motivo dispostos a ir muito longe resolvemos fazer uma caminhada pela parte velha de Vigo e vimos muitas ruelas antigas, adegas em casas de pedra onde se serve vinho e sardinhas fritas sobre toalhas de plástico xadrez. Vimos lá uma loja de objetos com motivos tenebrosos como estátuas de caveiras, gárgulas e bruxas, copos com mãos de caveira e camisetas, cinzeiros e chaveiros cheios de monstros e motivos fantasmagóricos. E passamos ainda por uma rua cheia de mesas de pedra onde mulheres e homens serviam pratos de ostras que abriam ali mesmo na frente da gente. Espalhava-se sobre a ostra um bocado de sumo de limão e comia-se assim como saiu do mar. O petisco era muitíssimo apreciado. Havia muita gente devorando as tais ostras mas nós não tivemos coragem de experimentar. Lá, na entrada da rua onde serviam as ostras, estava também um rapaz todo de branco e com o rosto também pintado de branco em pé sobre um pedestal. Ele ficava imóvel e se parecia tanto com uma estátua que a gente demorava alguns segundos para perceber que não era. Então estávamos olhando para o rosto dele para termos certeza de que era uma pessoa e não uma estátua e ele dava uma piscadela para a gente. Aos pés da “estátua” havia uma vasilha onde se jogava moedas que ele agradecia com mais uma piscadela. Difícil não se sentir tentado a deixar-lhe a moeda. Eu me senti, e não tentei resistir à tentação. . Outro passeio muito agradável que fizemos foi ir até o morro de Santa Tecla. É um morro muito alto onde tem uma ruína quase toda reconstruída de um povoado celta da Idade do Bronze, passeia-se por esse povoado e vemos que quem reconstruiu as ruínas teve o cuidado de marcar com uma cerâmica colorida o ponto a partir do qual iniciou-se a reconstrução. Uma dessas casas está como deveria ser na época, com o teto de palha e tudo mais. Além do povoado, subindo o morro um pouco mais encontramos restos de uma vila romana com uma igreja antiga muito bem conservada. Depois de nos maravilharmos com as ruínas entramos em um bar que serve um pão com lingüiça e um chop muito bons. Comemos em uma mesa perto de uma janela de onde tínhamos uma vista linda para o mar e para o rio Minho, que naquele ponto divide a Espanha de Portugal. Víamos de lá de cima a cidadezinha de Caminha, em Portugal e a cidade de La Guardia, na Espanha. Vimos também, e isso mais de uma vez aqui perto, em Baiona, uma ponte romana. Chegamos a passear em cima dela, não é muito grande mas é bem antiga e vale a pena ver. . Quando não é fim de semana e não estou passeando por Vigo ou escrevendo, lendo ou mesmo vendo televisão aqui no apartamento, vou passear na praia. A praia chama-se Samil e fica aqui na frente, do outro lado da rua. É linda. Da rua até a praia tem um espaço muito bem cuidado com coisas para diversão de adultos e crianças. Tem piscinas infantis, ao todo três, uma delas com tubo água e outra com uma ponte de cimento passando por cima como se a piscina fosse um rio; tem bosques cheios de mesinhas para piquenique; quadra de esportes; pista de patinação e pista de skate; bares e restaurante; caramanchão com bancos para descansar e praças com estátuas e bebedouros; postos da Cruz Vermelha e calçada para caminhada. Além de tudo isso a areia é branca e fofa, o mar tremendamente azul e a praia tem recantos lindos e grandes pedras onde as ondas quebram. Para surpreender um caminhante desavisado às vezes passa quase beirando a linha d`água um belo e grande navio e, para completar, quando não há “nieblas”, as ilhas Cies parecem estar ao alcance de nossos braços.

29 de outubro de 2009

MINHA VIAGEM À ESPANHA (parte dois)


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Em um fim de semana fomos a Baiona de carro e passamos a manhã inteira explorando a muralha do conde de Gondomar. Baiona fica bem perto de onde estamos morando, tanto que passamos por lá várias vezes depois disso e até tem um pessoal que trabalha com o Nego e mora lá; para chegar de carro demora no máximo meia hora. É uma cidade à beira mar e tem essa muralha que é enorme e maravilhosamente atraente. Caminhamos toda ela por dentro e depois fizemos o mesmo caminho por fora. Foi muito gostoso explorar aqueles muros de pedra e tentar imaginar como eram e para que serviam. Fora o fato de olharmos sempre o mar abaixo de nós lindamente azul, ou estourando nas pedras ou chegando nas praias em ondas pequenas e agradáveis para as pessoas que parece que conheciam o castelo o suficiente para esquecerem o maravilhamento e virarem as costas para ele para brincar com a água do mar ou então fechar os olhos e deitar na areia para bronzear a pele. Nesse e em outros passeios que fizemos pelas praias daqui, mesmo da praia de Samil que fica na frente do prédio onde moramos, pude confirmar o que o Nego havia me dito antes. Realmente as mulheres daqui, não todas mas muitas delas, jovens e velhas, ficam na praia tomando sol só com a parte de baixo do biquini na maior descontração. Não estão se exibindo e nem ficam passeando pela areia com os seios à mostra. Apenas tiram o sutian quando se deitam para tomar sol e passam horas assim deitadas. Depois vestem-se novamente e saem sem que ninguém venha lhes incomodar e sem que nenhum rapaz venha paquerá-las, por mais jovens e bonitas que sejam.

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Naquele dia em Baiona, depois de tomar algumas “cañas” (shopp, por sinal delicioso) em um agradável bar saímos para explorar a cidade e conseguimos caminhar por ruas antigas e fotografar casas de pedra que devem ter sido vistas pelos romanos. Foi uma viagem no tempo. Por último fomos ver a “Pinta”, a caravela na qual Colombo atravessou o Atlântico e chegou até a América. É claro que é apenas uma reconstrução da caravela original mas impressiona. O que a gente se pergunta é como é que puderam aqueles homens ir tão longe e permanecer tanto tempo dentro de um barco tão pequeno? Não é fácil responder a essa pergunta eu acho.

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Outro fim de semana fomos passar um dia nas Islas Cies. São duas ilhas grudadas uma na outra que ficam aqui perto. Demora meia hora para chegar lá de barco mas quando o tempo está bom dá para vê-las de forma tão nítida que parece ser possível chegar lá a nado. O lugar é lindo. Tem uma praia de nudismo e a gente vê as pessoas nuas de uma forma tão natural que parece absurdo que não se viva dessa forma o tempo todo, que não sejam todas as praias assim. Lá as pessoas ficam como se sentirem bem, seja de roupa, de maiô ou nuas; ninguém se incomoda e ninguém nos incomoda. Eu fiquei a princípio só com a calcinha do biquíni, depois tirei-a e fiquei nua mesmo. Até entrei na água sem roupa. Achei uma delícia a experiência. Depois de ficar na praia e tirar algumas fotos (só da gente mesmo para não invadir a privacidade de ninguém) fomos ao farol. Para chegar lá tivemos que subir por uma estradinha no meio do mato que vai fazendo zig-zag e subindo até chegar ao topo da parte mais alta da ilha onde está o farol. A vista de lá de cima é de tirar o fôlego de tão maravilhosa. O caminho todo a gente vai parando para olhar o mar azul estourando nas pedras lá embaixo e a outra ilha visível ali pertinho. Quando chegamos lá no alto podemos ver o outro lado, que está voltado para o mar aberto e é uma escarpa de montanha onde só chegam as gaivotas. É maravilhosamente mágico ver o mar de lá de cima, e ver as gaivotas voando por todos os lados. Aliás as gaivotas são um caso à parte. Estão em todos os cantos aqui das praias da Galícia, são como são as pombas em alguns lugares no Brasil, tão comuns e presentes que a gente acaba por mal reparar nelas. Mas se em um momento olhamos com aqueles olhos de descoberta que às vezes conseguimos resgatar de nossa infância, ficamos maravilhados com sua brancura, com seu vôo acrobático e com a sua simples onipresença de inocente vida compartilhada.

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Como estamos na Galícia e Santiago de Compostela é logo ali, não podemos, mesmo não tendo nenhum motivo religioso a nos mover, deixar de ir ver esse ponto tão importante de peregrinação. A catedral é gigantesca, o lugar é uma junção de coisas descomunais que incluem a quantidade de pessoas e os preços das coisas. Valeu a visita mas não se pode dizer que seja um lugar para pessoas que gostam de sossego e contemplação. Para isso é melhor ir a Lugo, uma cidade que fica, parte dela e não toda, dentro de uma muralha enorme. Andamos por toda a muralha e paramos em um bar onde um rapaz fazia umas batatas fritas com temperos variados que é uma delícia, alguns drinques com nomes estranhos e um ou outro muito bom e que nos contou um pouco sobre a muralha e sobre o quanto ela já foi consertada, remendada e reconstruída. Deu-nos a idéia de que depois de tanta reconstrução, restauração e remendos talvez muito pouco reste ali do que foi a muralha original. Mas mesmo assim não ficamos aborrecidos, a muralha é grande e bela, e as batatinhas estavam ótimas.

28 de outubro de 2009

ABC - FRASES DE BRINCAR DE SÉRIO

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Apenas a penas, a duras penas se pode viver.
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Batalha talha mortalha.
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Cantar comigo, contar comigo, comigo amigo.
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Dever de ver a vida viver.
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Elevar e levar o outro além.
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Franco flanco de alguém fiel.
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Ganância à distância do ser.
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Homem e sempre menino, menina e sempre mulher.
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Imagina a imaginação de imaginar que não imagina.
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Juntos jamais é mais sozinho.
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Largo lugar de largar minha liga.
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Marina do mar de Maria, Marina, é aqui.
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Nunca nada, tudo nada de boiar.
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Ocaso é acaso um caso de amor.
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Presente pressente um futuro de dor.
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Quanto quando me falta querer!
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Realidade reage revivendo o sofrer.
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Sonhar um sonho no sonho que a vida sonha que é.
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Todo triste traz tristeza no todo do sorrir.
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Universo inverso conversado em verso.
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Vida vinda vive vendo dor.
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Zomba zombaria e o sorriso zomba e brilha.

27 de outubro de 2009

MINHA VIAGEM À ESPANHA (parte um)


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Comecei por conhecer, e bater de frente perdendo por nocaut, a língua espanhola que, na minha ingenuidade acreditava não me trazer tão grandes dificuldades, não a mim que já havia lido recentemente um livro inteirinho, mais de um conto e alguns artigos literários escritos em espanhol e não sentira grandes dificuldades de compreender nenhum dos textos que li. Além disso, cheguei a ter aulas com uma professora chilena e não achei difícil entendê-la. Porém, as coisas nem sempre são como imaginamos, geralmente são muito diferentes. Já no avião fiquei meio que atordoada, ouvindo tantas línguas ao mesmo tempo. Enquanto alguém atrás de mim falava inglês, uma voz na minha frente falava italiano, outra pessoa ao meu lado conversava em francês e passou pelo corredor uma alegre dupla falando alguma língua que eu não faço idéia de qual seja. Fiquei como que perdida na torre de babel. É claro que tinha o conforto de ouvir também o português (do qual já estava começando a sentir saudades) de vez em quando mas era já como alguma coisa de vestígio, como uma longa despedida (daí a saudade). Depois vinham as aeromoças, todas falando espanhol. Muito simpáticas e prestativas, perguntando sempre alguma coisa que eu não podia responder porque, apesar de todas as minhas leituras descobri que havia um sério problema de velocidade: elas falavam muito depressa e eu ouvia muito devagar. Queriam que eu decidisse qual o menu do jantar, davam-me a lista de opções e eu só imaginava por alto o que era uma delas porque, no meio de todas as palavras que passavam rapidamente por mim definindo o prato eu conseguia agarrar uma delas pelo rabo. Pedia aquela. Comecei a sentir alguma coisa que se assemelha a medo. O avião saiu de São Paulo e chegou ao aeroporto de Madri e nesse tempo tive que fazer duas opções difíceis e me atrapalhar com coisas tão simples como um pano molhado em água quente que eu passei pelo rosto semi adormecido com a forte impressão de que estava fazendo alguma coisa tremendamente errada. Sei lá, de repente aquele pano era para uma outra coisa qualquer que minha pobre imaginação não alcança!


Tudo bem, sobrevivi ao primeiro avião. Chegar ao aeroporto acho que é sempre como estar perdido. Sei lá, posso estar tremendamente enganada mas acho que até os viajantes mais experientes devem se sentir perdidos num aeroporto. É o que mais se aproxima para mim da imagem do puro desamparo. Se olhava para as pessoas e via alguém que aparentava uma certa segurança a vontade era de dizer a essa pessoa: “Poxa vida cara, você finge bem!”. Mas provavelmente esse grande ator, ou atriz falasse russo ou romeno, ou qualquer outra língua absurda que não é o português e que eu não entendo. Então guardei minha admiração para mim mesma e continuei caminhando pelo corredor com a minha tremenda cara de desamparo. Até tentei botar no rosto a expressão de segurança invejada mas acho que não fui muito feliz. Enfim, encontrei o Nego e então ficamos os dois perdidos – Ah! Que alívio que é estar perdida mas não estar sozinha!


Finalmente chegou a hora de entrar no avião de novo para o segundo e último vôo. Isso, claro, sem conhecer e sem ver absolutamente nada da cidade de Madri. O avião era bem menor e já não ouvi ninguém falando português. Não o português do Brasil, ouvi apenas o português de Portugal como algo muito pouco familiar perdido no meio de muito espanhol, inglês e francês. Mas felizmente o vôo foi rápido e tive que fazer apenas uma opção. Escolhi uma palavra chamada sumo porque achei que era suco de fruta e qualquer que fosse a fruta devia ser melhor do que aquela outra coisa com um nome ininteligível que me foi oferecida. Tomei o tal sumo e descobri maravilhada que era suco de pêssego. Li na embalagem a palavra estranha que me foi dita junto com a palavra sumo: melocoton. Grande! – pensei - Já sei que melocoton é pêssego. Agora toda vez que quiser beber alguma coisa vou saber pedir: sumo de melocoton. Pelo menos até que aprenda outras palavras e se não esquecer essa que, diga-se de passagem, é um bocado complicada.


Cheguei ao aeroporto de Porto, em Portugal. É bem menor do que o de Madri mas pelo menos tem muita gente que fala e compreende português, embora seja o português de Portugal. Na saída fui barrada por uma policial feminina e ela me levou para uma saleta e começou a revirar minha mala enquanto me fazia perguntas. Quando disse que sou professora ela fechou a mala e me deixou ir embora. Fiquei na dúvida. Não sei até agora se me deixou ir porque soube que sou professora ou se foi porque viu os dois vibradores que estava levando na mala. Acho que não vou saber disso nunca.


Fiquei no aeroporto esperando e o Nego veio me buscar de taxi. O motorista era totalmente louco, correu tanto que parecia ter à sua frente um mundo só de estrada – e sem obstáculos ou perigos. Fiquei quieta enquanto o Nego conversava, em espanholês, com ele. Procurei ver a paisagem mas já era noite e pouco se podia ver. Mesmo assim o motorista, falando espanhol, deu boas dicas de turismo e eu descobri que consigo entender espanhol bem melhor em terra do que no ar. Eis outro mistério que acreditei insolúvel, mais tarde fiquei sabendo que na verdade o motorista falava o espanhol da Galícia, que é mais parecido com o português do que o espanhol de Madri ou de outras partes da Espanha, talvez pela proximidade dos dois países nesse ponto. Chegamos ao hotel, guardamos as malas no quarto e fomos procurar algum lugar para comer. Como já passava das duas horas da madrugada na Espanha, embora para nós que tínhamos acabado de chegar ainda não fosse nem dez horas da noite, não encontramos nada e tivemos que voltar para o quarto e dormir sem jantar. Felizmente tínhamos um pacotinho de amendoim que dividimos meio gulosamente, mais eu do que ele como sempre.


Dia seguinte fiquei sozinha no hotel porque ele já foi trabalhar e fui tomar café. Consegui afirmar que queria sim o croassant que o rapaz me ofereceu e consegui fazê-lo entender que não queria café, apenas leite. Mas não consegui pedir o suco de laranja que vi em algumas mesas e que desejei tanto, só sabia pedir sumo de melocoton. Sai do hotel e passei no mercado, lá peguei o suco de laranja que não soube pedir no hotel e mais algumas coisinhas, me atrapalhei um pouco com o dinheiro na hora de pagar e fui passear na praia. Andei bastante, sorri para o sol e pensei no absurdo que é estar passeando em uma praia da Espanha em um dia que deveria estar na sala dando aulas. Vi a praia, vi gente e ouvi muito espanhol que não entendi. Fiquei maravilhada com as crianças peladinhas que brincam na praia e dizem “mira mama!” como na piada. Voltei para a quarto e li ou escrevi até o Nego chegar. Depois fomos jantar. Assim passei dois ou três dias até que ele me apresentou a Carmem e nos mudamos para o apartamento.


A Carmem é a corretora. Uma mulher super agitada que fala um espanhol que eu tento entender. Ela é legal e a gente se deu bem, consegui falar, meio tatibitati, algumas palavras com ela. Da primeira vez que fomos ao apartamento conhecemos a Auri, é a proprietária, uma espanhola alta, loira e agradável que faz muita questão de ser útil e me levou no dia seguinte de carro ao supermercado para fazer uma despesa. Como eu ainda não tinha visto nada de Vigo além das fotos que o Nego levou para o Brasil, ela aproveitou para dar uma volta pelo centro de Vigo para que eu conhecesse um pouco a cidade. Como ela, é claro, fala espanhol o tempo todo, eu fui aprendendo a ouvir mais do que falar e a tentar soltar também um pouco do meu miserável “castelianês”. A gente até que conseguiu conversar legal. Desta e de outras vezes que nos encontramos depois. Tudo deu certo e eu fiquei feliz da vida.


O apartamento é muito lindo. Tem dois dormitórios, um deles é suíte, dois banheiros com banheira, uma cozinha que é separada da sala por um balcão como o de bar, com banquetas e tudo. A sala tem alguns quadros na parede e uma janela com uma vista tão maravilhosa que a gente tem pouco tempo para reparar nos quadros. Todo o apartamento é pintado de uma cor clarinha tendendo pro rosado, com portas de madeira clara e janelas brancas. Tem uma varanda com cadeiras de vime e mesa também de vime com tampo de vidro. O fogão é de vidrocerâmica, uma placa de vidro preta com o lugar das bocas desenhado em esmalte branco onde a gente coloca as panelas, que são todas de aço inox com tampas de vidro. Todas as torneiras da casa têm água quente e em cada cômodo tem uma coisa estranha de metal como umas placas sanfonadas por onde saem alguns canos, são os aquecedores, por causa deles é que se diz que o apartamento tem calefação. Isso vai me servir muito quando chegar o inverno é claro, porém agora é apenas um estranho enfeite pelas paredes.


Depois de instalados no apartamento começamos a nossa rotina. Nos dias de semana eu fico em casa e o Nego vai trabalhar. Geralmente eu saio. Logo aprendo a tomar o ônibus, que descobri que passa de hora em hora, e ir para o centro da cidade. Assim acabei conhecendo bem o centro e sabendo onde tem cada coisa que eu preciso. Sei onde tem uma livraria, uma farmácia, uma loja que vende coisas baratas e um supermercado. Aprendi até o nome de algumas ruas e comecei a descobrir coisas por conta própria me enfiando por ruas desconhecidas e aprendendo a explorar os cantos mais interessantes da cidade. Pouco a pouco conheci Vigo quase tão bem como conheço Santo André. Lá já não me perco. Nos finais de semana a gente sai para conhecer lugares diferentes que ficam mais ou menos perto de Vigo, ou até mesmo para conhecer a própria Vigo.

23 de outubro de 2009

DEPOIS DA EXPLOSÃO DO PLANETA AZUL

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De repente, numa tarde em São Paulo, numa madrugada em Tókio, num dia em que a terra toda vivia sua vida com pessoas e bichos e plantas espalhados por todos os lados. Num dia comum em que amores e guerras começavam e terminavam nos sentidos mais reais e mais subjetivos; em que aviões e carros e ônibus e caminhões circulavam pelas estradas e vias de todos os países pobres e ricos dos continentes e ilhas, num dia em que animais e plantas estranhos e não estranhos viviam suas vidas de caça e caçadores, de pesca e pescadores sob as águas mais ou menos profundas de mares rios e lagos. Num dia de repente, sem aviso sem previsões, de repente sem uma única premonição, uma única sensação estranha de gente ou de bicho, sem que Jesus voltasse à Terra e sem que cornetas anunciassem o Armagedom. A Terra simplesmente explodiu.

Todos souberam da explosão, viram no espaço a bola de fogo que descontinuou os arranjos atômicos e desfez qualquer possibilidade de corpo vivo. Todos se viram, sem que pudessem nunca explicar como e com que propósito, todos se viram desaparecer no big bang da vida a base de carbono lotada e acomodada no mísero planeta azul. Foi rápido de uma rapidez tão grande de fazer segundo parecer ano. Não houve tempo para dor.

No mesmo instante, no mesmo microssegundo em que se viam fundir na muda explosão as vidas surgiram em outro lugar e as pessoas começaram a se perguntar o que teria acontecido enquanto olhavam para os animais e as plantas que estavam, simplesmente estavam, sem perguntar. Animais diversos andavam sem espanto numa mistura inusitada de presa que não fugia e predador que não perseguia, mas as pessoas, essas instáveis criaturas sem segurança, sem unidade, sem certeza e sem amor ao que é fixo não conseguiam se segurar e todos mudavam de forma sem parar em nenhuma e sem entender por que o faziam. Eram sombras mutáveis que tão rápido se transformavam em outra e outra e mais outra forma que não havia como fixar num olhar forma nenhuma.

Até que alguém se olhou em um espelho d’água e qual Narciso se descobriu. E essa pessoa ficou se olhando e foi escolhendo a forma do rosto, a cor dos olhos, a textura dos cabelos, a altura e o delgado da silhueta. Quando parou e fixou forma era uma mulher ruiva e simpática; quase ao mesmo tempo outra mulher, negra e forte fazia o mesmo, e também o menino moreno de olhos vivos e um rapaz loiro e alto, e uma menina de cabelos muito longos... cada um em lugar distante e diferente conseguiu, olhando um espelho d’água, parar suas formas e se fixar.

Essas primeiras pessoas começaram a falar com as outras que estavam por perto, ensinaram como escolher uma forma e algum tempo depois, cada um ensinando aos outros, vários grupos se formaram com pessoas que tiveram suas formas definidas, escolhidas, e as transformações rápidas foram parando até que todo mundo em todos os grupos eram pessoas estáveis em suas formas como o eram os animais e as plantas.

Eles conferiram e se conferiram, conversaram, trocaram impressões e lembranças e começaram a concluir coisas e a discutir essas conclusões com concordâncias e discordâncias, com conjecturas e hipóteses levantadas que foram aos poucos sendo comprovadas ou não. Descobriram cada um deles que a lembrança da explosão da Terra era comum a todos, era a mesma e acontecera para todos da mesma forma. Então, cada um dos muitos grupos concluiu, por falta de maiores dados, que a Terra explodiu e eles, sem seus corpos originais foram mandados para outro lugar - esse em que estavam - e receberam outros corpos aos quais puderam dar uma forma definitiva, descobriram que a forma com a qual cada um se estabilizou em geral não era exatamente a mesma de seus corpos originais supostamente explodidos junto com o planeta.

Todos os que eram velhos antes da explosão, se definiram com aparência jovem, os que eram jovens se definiram como jovens mesmo mas às vezes com “alguns anos” a mais; mas todos, jovens e velhos, sem nenhuma exceção, se fizeram com a aparência que desejavam ter e não com a que tinham, mesmo aqueles cuja aparência gerava inveja na grande maioria das pessoas, encontraram algo que mudar em si, o resultado disso foi que o lugar, que, a princípio e até que se provasse o contrário, se o fizessem, foi chamado de Planeta, ficou povoado por pessoas belas, jovens e saudáveis que logo perceberam que estavam convivendo sem receio com animais que seriam terrivelmente perigosos na Terra antes da explosão.

Eram grupos relativamente pequenos que estavam milagrosa e estranhamente instalados em um lugar muito parecido com o paraíso, ou com o que se definiria religiosamente como paraíso. Havia uma natureza exuberante de beleza e totalmente nula de perigos, ninguém se lembrou de comida em nenhum dos grupos até que alguém dizia em voz alta que eles não sentiam fome e não tinham nenhuma necessidade de comer ou beber, então começavam a ver que os animais que os acompanhavam também não comiam. Viram que não anoitecia e notaram que no céu havia três sois, notaram que passaram muitas horas conversando e se conhecendo e que ninguém se cansou ou sentiu sono, ou dormiu.

Passaram muito tempo conversando, falando de quem eram, da vida que tiveram, de tudo o que fizeram e do que faziam até o momento da explosão. E nessas conversas longas foram notando que não mentiam e que escutavam o outro e se interessavam pelo que o outro era e pelo que o outro dizia e sentia. Estranharam a si mesmos e não reconheceram em si a raça humana a que pertenceram. Mas não faltava neles a personalidade, a consciência, os gostos e as lembranças que faziam deles o que eram, embora nenhum deles conseguisse mais encontrar em si qualquer vestígio de egoísmo, e todos viram que seus defeitos mais patológicos se esvaneceram com os gazes do planeta que explodiu. Alguém dizia que era ladrão e assassino e que tinha como principal característica um ódio incontrolado pela humanidade e todos ouviam sabendo que era verdade e que agora todo o ódio era só lembrança que nem alegrava nem causava dor. Pensaram seriamente que estivessem em um paraíso religioso mas o fato de ladrões e assassinos estarem ali meio que impossibilitava a certeza desse fato.

Alguns encontraram pessoas com quem viviam e eles se olhavam e se amavam mais do que antes mas sem que nenhum tivesse a aparência com que se despediram sem se despedir no momento da explosão. Pessoas que se odiavam também se encontraram somente para perceber que o ódio se esvaiu totalmente e que podiam, sem constrangimento, conviver, conversar, ser amigos e até se amar. Muitos concluíram que embora não fosse exatamente como o paraíso prometido aos poucos bem-aventurados que na Terra tivessem renunciado à vida, esse lugar se parecia com ele de certa forma, embora de uma forma mais profunda fosse totalmente diferente.

Ninguém procurou ou pensou ter encontrado um deus nesse lugar, ninguém se lembrou de deus como algo a ser adorado, ele era apenas uma idéia, uma característica de personalidade que tinham perdido junto com o egoísmo, na explosão.

Depois de conversarem e continuando sempre a conversar, as pessoas de cada grupo começaram a procurar coisas para fazer, e começaram aos poucos a fabricar brinquedos e objetos de arte, a escolher um lugar para fazer algo que se assemelhasse a uma casa e a reservar um pedaço desse mundo para que fosse seu mundo e começaram a enfeitar seu mundo e a dar nome às coisas que viam e aos lugares que habitavam. E um dia se lembraram de que estavam todos nus e começaram a fazer roupas e colares e braceletes para se enfeitarem. Esqueceram que existia medo, vergonha, inimizade, morte. Esqueceram que os animais não podiam viver junto com eles e nunca nenhum foi expulso. Esqueceram que as árvores podiam ser derrubadas e não construíam coisas de madeira porque não lhes ocorria tirar e fatiar a carne do vegetal.

Fizeram vidros e espelhos e trabalharam metais. Aos poucos, muitos aos poucos foram criando coisas e estudando o lugar e foram tendo filhos, não muitos filhos a ponto de lembrarem os coelhos da Terra, não poucos filhos a ponto de temerem o próprio desaparecimento, e viram que os animais também tinham filhos e os filhos dos animais e os filhos dos humanos brincaram juntos. Um dia alguém morreu e souberam que se morria, outros morreram e nunca se sabia quanto tempo alguém podia viver. Mas crianças não morriam, filhotes não morriam e doenças só existiam na lembrança de antes; muitos não viram pessoas de outros grupos antes que algumas chegassem até onde estavam porque em cada grupo alguns não escolhiam lares e não construíam casas mas saíam para explorar e andavam muito até encontrar outro grupo onde ficavam um tempo antes de continuar. Nunca um grupo chegou até outro grupo com tocaia e invasão e vontade de tomar posse e saquear, nunca um grupo temeu outro grupo, nunca um grupo nômade foi mal recebido e de cada grupo alguns saíam para acompanhar grupos que passavam e grupos deixavam muitas vezes membros que de repente decidiam ficar.

De andar e de encontrar os que andavam concluíram que estavam em um planeta muitas vezes maior que a terra e que nunca terminariam de povoar. De inventar e criar, muito tempo depois, descobriram que não eram mais seres à base de carbono, enxergaram as partículas e elas eram outras, tiveram que dar outros nomes e procurar outras características, construções, associações e regularidades porque a tabela periódica de mendeleyev e muitas das leis científicas comprovadamente invariáveis não existiam na química e na microfísica desse lugar.

Tinham muito que fazer, muitíssimo o que aprender e o que explorar, muito o que criar e muito o que produzir para tirar da memória e guardar a memória para transmitir a todos os que viriam as lembranças sem paixões de um tempo em que viviam em outro lugar e eram outra coisa. Como grupo, como raça, como seres humanos não mais carbono tinham ainda muito, muito muito que viver.

22 de outubro de 2009

UMA ESTRELA VERDE

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Era um dia feliz de ônibus cheio de amigos, de brincadeiras e cantigas de incomodar o motorista.


Motorista, motorista

Olha o poste, olha o poste

Não é de borracha, não é de borracha

Vai bater! Vai bater!


Ah, que lugar lindo, que dia, que sol! Tão bom estar acompanhada, rodeada, cercada de tanta gente ela que sempre foi mais amiga da solidão. E o dia passa devagar e belo com risos e parada pro lanche frio trazido brilhante brilhantemente embrulhado no papel alumínio.


- Quer um pedaço do meu?

- Do que é?

- De rosbife.

- O meu é de presunto e queijo, vamos trocar?


Refrigerante quente, água gelada da nascente e a professora que ensina a cuidar da natureza como santos protetores que tudo sabem, vindos de Assis...


Não se tira nada... a não ser fotografias!

Não se deixa nada... a não ser pegadas!

Não se leva nada... a não ser lembranças!


E a caminhada barulhenta para ver a cachoeira tão gelada; debaixo dela um poço bom de mergulhar.


Dia perfeito mas quem está acostumado à solidão a busca e a encontra... virando uma trilha passando algumas árvores deixando o burburinho se afastar sentando em uma pedra e lá está ela olhando-bebendo toda a paisagem mais bonita envolta em solidão. Fica olhando em volta olhando o céu um quase círculo formado por copas de árvores. E ela vê a estrela verde.


Inacreditável uma estrela verde mas é! É no alto de um morro um coqueiro com suas palmas em forma de estrela com o céu ao fundo. Uma grande e linda estrela verde!


Ela se comove olhando a estrela e nem o vê chegar. Mas ele chega senta a seu lado passa o braço por seus ombros e a puxa para si. Ela se debruça no peito do amigo e pergunta tão sem pensar! Viu a estrela verde? Levanta o rosto recebe o beijo intenso beijo que retribui...


Não faz sentido mal se conversam nem são da mesma turma e de repente estão se beijando e se tocando sob a estrela verde que o vento suave move. O toque é longo a respiração fica mais forte os beijos mais famintos e o chão os recebe. Mesmo de olhos fechados toda sentido sem nada pensar ela pode ver a estrela verde e reprimir o grito que os colegas barulhando na cascata não devem ouvir.


Quando a magia acaba não acaba de tudo. Eles se vestem e se abraçam em silêncio ainda olhando a estrela verde. Depois alguém chama e o grito assusta, ela pula se desvencilhando do corpo o corpo de abraço ainda quente. Sai sorrindo do esconderijo mas pisa em falso e torce o pé.


Na volta ao ônibus vai sorrindo flutuando carregada por ele, braços à volta do pescoço que há pouco sem pensar sem planejar tocada pela estrela tanto abraçou. Ele brinca com os colegas perguntando quem quer carregar essa menina desastrada que não consegue pisar direito e torce o pé. E todos riem e eles riem sem nada dizer, e sem esquecer a estrela verde...