26 de novembro de 2009

MAIS ARGUMENTOS CONTRA DEUS

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Graças a um amigo descobri que tenho sempre uma posição tomada, uma opinião construída, antes de escrever um texto e que crio esse texto para refletir sobre minha opinião, ou melhor: eu o escrevo depois de muito pensar no assunto e para que as pessoas que porventura venham a lê-lo possam refletir sobre essa minha opinião. Acho que é por isso que nunca me ofendo quando me ofendem, quando mandam e-mails ou deixam comentários ofensivos nos meus textos: Quando escrevo é porque já refleti muito sobre aquilo, a ponto de ter segurança e de estar pronta a assumir a responsabilidade pelo que digo.

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Estou, é claro, falando principalmente a respeito dos meus textos que criticam e até ofendem as religiões e deus. Esse amigo me disse que não posso negar deus simplesmente afirmando que ele teria que conhecer o mal para julgá-lo. Mas eu não disse que deus teria que saber o que é o mal para JULGAR o mal, pelo menos não me lembro de tê-lo dito em nenhum dos meus textos “nervosinhos”; eu disse que ele teria que saber o que é o mal para (a partir do nada mais absoluto) CRIAR o mal. Acho que deus não pode ser inteiramente bom porque, se assim fosse, ele não saberia ou não teria desejos de que qualquer criatura sua soubesse ou sentisse na pele, o que é o mal; pelo menos não saberia tão bem a ponto de criá-lo a partir do nada. Ou ainda, caso soubesse, sua bondade o impediria de criar esse mal e, mais ainda, de permitir que ele perdurasse tanto tempo. Posso não precisar saber o que é uma coisa para julgá-la, mas tenho que saber, ou pelo menos fazer uma boa idéia do que seja essa coisa para criá-la, e, pior ainda, a gente normalmente cria apenas aquilo que de alguma forma nos agrada.

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E, antes que alguém o use novamente eu aviso: aquele argumento religioso de que deus não criou o mal não me convence: Se ele criou, a partir do nada, tudo o que existe, e se ele tem, como afirmam os crentes, a tal onisciência, então ele obrigatoriamente criou o mal ao criar o homem ou o tal do anjo que se rebelaria contra ele. Aliás, a onisciência que atribuem a ele é comprovação por si mesma de que ele conhece sim o mal, assim como o fato de tê-lo criado e de permitir que esse mal predomine no mundo comprova que, de alguma forma, ele aprecia o mal. É com base nisso que afirmo sempre que o deus bíblico, “talmudiano” e “alcorânico”, se existisse, teria que, obrigatoriamente, ser um sádico.

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Tenho outra mania com a qual muitas pessoas não concordam: julgo muitas coisas como sendo boas ou ruins e as pessoas não costumam aceitar bem esse meu pensamento maniqueísta; mas é que não tenho outro parâmetro para julgar e, por mais que as pessoas me afirmem o contrário, eu não consigo ver os furacões, tornados e outros fenômenos naturais que causam mortes como outra coisa senão coisas ruins. E por quê? Porque não apenas alguns mas muitos seres humanos, e não apenas seres humanos mas muitos animais morrem em decorrência deles. Tudo bem que uma árvore não é boa ou ruim porque ela não tem uma intenção altruísta e generosa no ato da produção dos seus frutos e na possibilidade de sombra de seus ramos; tudo bem que um furacão não é bom ou ruim porque não é levado por nenhum tipo de decisão consciente e ditada pela maldade pura e simples quando destrói; mas um furacão mata gente, mata bicho, destrói cidades, arrasa casas, ninhos e tocas, por isso, no meu olhar simples de ignorante habitante do planeta, eu julgo o furacão como algo ruim e a árvore como algo bom. Não sei fazer de outro jeito, não sei sentir de outro jeito.

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E toda explicação geológica sobre as placas tectônicas e a pressão interna do planeta não cabe no meu parâmetro de julgamento quando digo que um terremoto é algo ruim justamente porque estamos falando de deus, lembra? O tal deus que é ONIPOTENTE e que criou tudo a partir do nada mais absoluto. Pois se existe como me afirmam os crentes, então ele criou a terra e deu a ela essa condição geológica que a faria ser, ao mesmo tempo que uma mantenedora, uma destruidora de vidas. Daí acho que dá para perceber a que meu raciocínio leva: Não julgo o furacão ou o terremoto ruins, em si e conscientemente; julgo deus ruim - se ele existisse - por ter criado o furacão e o terremoto ou, mais especificamente, por ter criado a terra e dado a ela a condição e a necessidade de que nela tenha furacões e terremotos.

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O que sinto é que as pessoas todas com quem tenho falado ou escrito a respeito desse assunto esquecem sempre de que a idéia de deus não pode ser confrontada com leis físicas já que ele teria, como criador de TUDO, que ter criado também essas leis. As pessoas colocam as leis da física, da química, da biologia, da natureza enfim, como se elas fossem anteriores à existência de deus; mas se elas forem - e disso as pessoas se esquecem - elas se tornam apenas mais um argumento a favor da minha tese de que deus não tem como existir; afinal, se ele é todo poderoso não pode estar sujeito às leis da natureza e, se ele está sujeito a essas leis então ele não é todo poderoso, portanto não é deus, portanto não existe.

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Sem crer em deus todos os fenômenos se aplicam e se definem como fenômenos pura e simplesmente, sem que caiba a eles qualquer tipo de julgamento do que seja bom e mau, embora eu, como indivíduo, julgue como um mal toda e qualquer catástrofe que ceifa vidas; mas se admitirmos a ideia de deus então posso sim julgar os fenômenos como bons ou ruins e, principalmente, julgar com esse critério o criador de tais fenômenos. Se deus existe e criou o furacão, então ele é mau porque o furacão é algo ruim, algo que destrói vidas no sentido literal e no sentido poético do termo. Isso sem esquecer que o mesmo que estou falando de deus por ter criado o furacão posso dizer desse mesmo deus por ter criado qualquer outro fenômeno natural; e o que estou falando sobre fenômenos naturais posso falar sobre toda e qualquer coisa que faça mal a algum ser vivo, desde um vírus até um ser humano. Existe muita coisa ruim no planeta e, se deus existisse, ele seria responsável por cada uma delas.

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Acho também que o fato de que podemos e temos respaldo lógico para ter todo tipo de ideia sobre deus também quer dizer, e a meu ver comprova, que esse deus não existe, pelo menos não existe como é definido pelos crentes e, principalmente, pelos adeptos das três maiores religiões do mundo. Se ele existisse mesmo e se fosse como o definem, o mundo e as pessoas (suas criações) não seriam nem sequer parecidos com o que são e, mais ainda, não haveria como duvidar de sua existência porque ele a teria deixado clara e inequivocamente expressa desde sempre e através de um veículo confiável e não de livros velhos e plenos de ranço.

11 de novembro de 2009

CORRESPONDÊNCIA

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João não amava Maria; Maria não amava João. Mas tiveram um relacionamento proibido e intenso. Para os padrões de Maria, moça pobre que tomava dois ônibus todos os dias para o trabalho e estudava à noite sonhando terminar o colégio e fazer jornalismo meio que sabendo que não faria porque não teria dinheiro para pagar o que custaria uma faculdade para quem tinha que ajudar no orçamento doméstico de uma família grande, João era rico; era um dos engenheiros da fábrica e morava em uma casa numa rua tranqüila do centro da cidade, com jardim na frente e muito parecida com uma outra onde Maria havia entrado uma única vez na vida há alguns anos apenas como candidata a empregada doméstica. A dona da casa, uma mulher alta e orgulhosa que Maria invejou de imediato, não a aceitou porque era nova demais.

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O primeiro bilhete foi apenas para marcar um encontro, não houve primores literários e João foi conciso e direto como sempre era quando precisava se comunicar por escrito com alguém. Mas nesse encontro Maria levou uma cartinha contendo um poema e João, sem se dar conta, de repente se viu escrevendo cartas de amor intensas e apaixonadas nas quais ele mesmo reconhecia grandes qualidades literárias e que eram destinadas por um João adolescente para uma menina loira de olhos delicados que estudou na sua classe quando ele estava na sexta série.

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Maria escrevia porque era romântica como quase toda jovem é, porque gostava de escrever e via em si, através do reconhecimento dos professores de português que tivera e das amigas que gostavam de ouvir seus poemas, um talento quem sabe promissor. E ela escrevia para um amor que nunca teve, para seu príncipe encantado que a levaria pela mão, sobrevoando o mundo e suas mazelas, em direção a uma vida feliz e de sonho onde caberiam juntos e sem se chocarem, os filhos lindos e perfeitos, a carreira de escritora famosa em constante noite de autógrafo e a casa parecida com a de João onde ela seria aquela senhora alta e orgulhosa.

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Os bilhetes eram trocados dentro de envelopes de trabalho, eram deixados sobre a mesa junto com um comunicado interno falso, eram colocados discretamente na mão um do outro em um esbarrão na hora do almoço e chegavam via algum mensageiro discreto. Sempre davam um jeito de trocarem as cartas, que de bilhetes logo não mais se tratavam, e, para dar certa credibilidade de retidão, João inventou que Maria era neta de uma empregada que tivera durante muitos anos e a quem devia todo respeito. Se as pessoas acreditavam nas mentiras, se os viam juntos, se sabiam dos encontros e das tardes passadas nos motéis nunca tentaram averiguar e como ninguém nunca disse nada sobre saber ou não saber do caso, acreditaram, ou se acomodaram no conforto de fingir acreditar, que ninguém sabia; e esse arranjo não verbal, e essa comodidade durou para sempre um ano inteirinho.

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Uma semana depois de terem comemorado com champanhe no quarto de motel o primeiro ano de troca de cartas e fluídos, João foi transferido para a filial de outro estado e o romance acabou. Ainda trocaram algumas poucas cartas, ela para seu amor de sonho, ele para a menina loira da sexta série; mas um dia ela conheceu um rapaz que a quis como namorada e escreveu a João uma última carta supostamente chorosa de supostamente eternas despedidas e supostamente eternas saudades.

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João nunca guardou uma carta, que a esposa não as encontrasse; rasgava todas assim que terminava de ler, ou reler reconhecendo o progresso dos dons literários de Maria e, no destinatário, o príncipe encantado que não era ele. Maria guardou todas as cartas durante muitos anos em um baú de madeira envernizada colocado no fundo do guarda-roupa; o baú, que ela ganhou de João logo no começo do romance porque disse a ele que tinha medo de que alguém lesse suas cartas, tinha um cadeadinho cuja chave ela escondia no fundo da gaveta de calcinhas.

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Guardou o baú no fundo do guarda-roupa e a chave na gaveta de calcinhas, primeiro por uma precaução infantil, já que o frágil cadeado não foi quebrado e o bauzinho não foi roubado por puro desinteresse que todos na casa tinham pelos seus segredos; depois continuou guardando por hábito até o dia em que, depois da terceira mudança de casa, estava de mau humor e foi remexer suas roupas; encontrou o baú e concluiu que já era hora de dar fim ao passado de uma adolescente que ela não podia mais reconhecer na senhora de meia idade em que se transformara e cujo filho mais velho era, naquele momento, mais velho do que ela fora quando, no arrebatamento dos sonhos, escrevia aquelas cartas.

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Rasgou uma por uma sem relê-las antes de jogar no lixo os pedaços de papel amarelado, separou as roupas que doaria para a Campanha do Agasalho e fechou o guarda-roupa não como quem fecha uma etapa de sua vida porque essa já tinha sido fechada há muitos anos, mas como alguém que simplesmente fecha o guarda-roupa antes de voltar para a cozinha que já estava na hora de preparar o jantar.

O MELHOR SEXO

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Os rapazes eram todos gays, as moças eram todas lésbicas, ela era a única exceção. Todos a tratavam como a “simpatizante” e ela era parte do grupo. Quando uma das meninas brigava com a namorada, vinha desabafar com ela, quando um dos rapazes tinha problemas com o namorado era na voz amiga dela que encontrava consolo e apoio, se chegava alguma menina nova no grupo e olhava para ela com interesse, alguém já avisava: “Ela é hétero.”
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E no grupo tinha gente que fazia poesias, tinha gente que tocava violão e tinha o Luís, que tocava flauta e o Amaro que tocava violino e tinha olhos fundos e ar romântico como um artista do século XIX. Era uma turma unida, alegre e que sempre estava fazendo festas por qualquer motivo que surgisse e fazendo ponto nos bares que os aceitavam e onde viravam a noite jogando sinuca e tomando cerveja. Riam muito, cantavam muito e liam os poemas uns para os outros, ela sempre lia os seus e os mais lindos eram os que havia escrito para a filha que um dia teria. Eram jovens.
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Um dia combinaram um passeio, passariam o feriado na praia, os pais da Luciana tinham um apartamento e todos acampariam lá porque deram sorte de, naquele feriado não ter ninguém da família decidido a passar esses dias naquela praia, e Luciana enfatizava aos gritos: Vamos aproveitar gente que isso é muito raro, a minha família é grande. Combinaram tudo, dormiriam na casa da Márcia e de madrugadinha sairiam com a mochilas nas costas e pegariam o primeiro trem que, naquela época ainda descia a serra.
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Encontraram-se no bar, tomaram algumas cervejas e jogaram algumas partidas de sinuca, comeram sanduíches e muitas batatas fritas e depois foram para a casa da Márcia. Quando chegaram a sala estava arrumada com um sofá cama aberto e alguns colchões no chão, tinha travesseiro e lençol pra todo mundo e o grupo se dividiu porque parte foi dormir no quarto da Márcia onde também tinham sido tomadas as devidas providências para caber mais gente.
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No sofá cama cabiam três pessoas e ela ficou na ponta de fora, brincou que se caísse esmagaria a cabeça do André e da Sônia que estavam no colchão mais próximo do sofá. Numa outra ponta da sala tinha mais um colchão e os sete habitantes temporários daquele dormitório improvisado brincaram e conversaram muito antes que a mãe da Márcia reclamasse do barulho e o silêncio se fizesse sentir. Do lado dela estava a Nena, a mais masculinizada da turma e também a mais simpática, ela já tinha pensado um monte de vezes que se um dia sentisse vontade de transar com uma mulher não seria ruim que essa mulher fosse a Nena, mas isso era só brincadeira porque nunca sentiu vontade de transar com meninas, gostava mesmo de homens.
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Enfim, sem estar preocupada e tendo Nena como uma de suas melhores amigas no grupo, ela já se preparava para dormir quando sentiu a mão da outra menina procurando a sua, virou-se e fez de conta que a via, sorriu baixinho e disse um oi sussurrado antes que fosse beijada por aqueles lábios tão suaves e sentisse o corpo da amiga encostando-se muito ao seu. Não sentiu asco, aversão ou qualquer outro sentimento negativo, pode retribuir o beijo com todo carinho que a amiga estava colocando nos carinhos que fazia em seus cabelos. Deixou-se beijar, deixou-se acariciar e quando sentiu que, sem que nenhuma das duas tirasse a calcinha, Nena encostava seu sexo no dela e esfregava-se suavemente não ficou excitada, mas permitiu porque sentia-se bem em deixar-se quieta se isso proporcionava prazer para a colega. Quando Nena terminou conversaram um pouco abraçadas e Nena perguntou a ela se havia gostado, antes de responder ela abraçou-a mais forte e deu-lhe um beijo carinhoso para que ela não ficasse ofendida ou magoada.
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- Não odiei porque gosto muito de você, mas não fiquei excitada e não aconteceu nada para mim além de muito carinho, acho que é porque, para sexo não tem jeito: eu gosto mesmo é de homem.
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Elas ainda se deram um beijo e ficaram quietas, mas daí a pouco Sônia tocou seu braço e pediu, aos sussurros pra trocarem de lugar. Aceitou e foi para o colchão ao lado de André que parecia adormecido, mas não estava. Logo depois sentiu a mão de André passeando suave pelo seu corpo, ficou muito quieta e deixou que ele explorasse seus seios por vários minutos, depois as mãos desceram e tiraram sua calcinha enquanto passeavam devagar por suas pernas e uma delas se deixava demorar em seu sexo como se estivesse tentando decorar suas formas, sentir cada pelo e cada dobra, ver com o tato algo que desconhecia. Aquela bolinação excitou-a e a mão continuava, molhada e quente, explorando-a, e continuou ainda um pouco mais depois que ela, em silêncio, teve o primeiro orgasmo.
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Depois ele simplesmente colocou-se entre suas pernas e penetrou-a, não pediu carinho, não pediu que ela sentisse com a mão ou com a boca, seu tamanho, sua forma, seu intumescimento. Penetrou-a e ficou se movimentando com desconhecida suavidade num vai e vem cadenciado e sem pressa, e ela teve um segundo orgasmo sem que ele aumentasse ou diminuísse a pressão, sem que aumentasse ou diminuísse seu ritmo lento; e ela, assim, foi tendo o terceiro, o quarto, o quinto orgasmo, e tendo outros e perdendo a conta a ponto de se tornar cansada do prazer que sentia; e quando estava prestes a quebrar o silêncio daquela dança sem música pedindo-lhe que parasse porque já não agüentava mais, ele acelerou levemente em dois únicos movimentos e suspirou mais fundo antes de mergulhar a cabeça nos cabelos dela. ´
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Daí a poucos minutos ele saiu de dentro dela e ficou quieto estendido do seu lado e segurando sua mão, ela precisou segurar-se para que o riso não saísse alto como uma gargalhada e não acordasse ou perturbasse as outras pessoas da casa. Em um riso abafado e divertido ela pensou: “Nossa, será que alguém vai acreditar quando eu disser que o melhor sexo da minha vida foi o que tive com um gay?”

10 de novembro de 2009

INCOMPATIBILIDADE

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E ela se perguntava todo dia, e mais ainda logo depois que se separava dele na volta de um dos encontros que tinham e no qual ele a levava a um motel onde ela o via pelado, com sua barriga grande, suas rugas denunciadoras, suas costas peludas e seu pinto pequeno: O que é que eu estou fazendo com esse cara? E qual era a resposta? Nenhuma, não havia resposta e não havia como compreender isso. Ela era alta, medianamente bonita, jovem, esguia e muito simpática, era inteligente, curiosa, capaz de atrair rapazes jovens, bonitos e sexualmente atraentes e, no entanto e apesar de todos os inconvenientes, estava saindo com esse senhor totalmente desinteressante e em quem não conseguia ver nada de exatamente atraente.

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Tudo bem que ele era divertido, mas ela conhecia pelo menos três caras tão divertidos quanto; ele era inteligente, mas ela conhecia pelo menos dois tão ou mais inteligentes ainda; ele tinha uma situação financeira razoável, mas ela não se importava nem um pouco com isso porque ela própria tinha situação e independência financeira bem acima da média das moças da sua idade; ele tinha bom gosto, mas homens de bom gosto não são coisas tão raras de se encontrar se é isso que você está procurando. Quem nessa história toda estava se saindo uma pessoa de péssimo gosto era ela e ela só. Chegava a sentir raiva de si mesma quando tentava descobrir porque continuava a sair com ele e não conseguia nenhuma resposta, nenhuma razão que justificasse essa escolha. Aliás, ela não percebia nisso nenhuma escolha, nunca “escolheu” sair com ele, simplesmente saiu. E além e acima de todos os inconvenientes, o desgraçado do homem era casado! Dá pra encontrar coisa pior?

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E ela se respondia: Não! E se respondia novamente e se respondia sempre: Não! No entanto era só ele ligar e ela se vestia, se perfumava e saía para encontrar-se com ele e voltar algumas horas depois xingando a pessoa que era e brigando sem tréguas consigo mesma. E isso já levava meses! Algumas poucas pessoas já estavam sabendo e era visível que, mesmo não dizendo nada, pensavam exatamente como ela, a diferença é que as pessoas pensavam também que estivesse cega e apaixonada, que estivesse iludida e esperando que ele deixasse a esposa para ficar com ela. Nossa! A hipótese de essa idéia passar pela cabeça dele a apavorava! E se ele de repente se dissesse apaixonado, ameaçasse divorciar-se e pedisse a ela que fosse viver com ele? Que pavor! Se acontecer isso eu me mato!

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Mas não fazia nada a não ser pensar, perguntar, ofender a si própria e continuar a sair com ele para uma sessão de sexo morno em motéis tão mornos quanto; ah! Como se odiava! E ele não percebia nada, e quem os via juntos não percebia nada porque quando estava do lado dele ela parecia feliz, quando o beijava, beijava com fome, quando o olhava, olhava com olhos de amor, quando falava com ele falava como quem fala a alguém especial. Todo o seu comportamento, do momento em que o encontrava ao momento em que se despedia dele com um beijo intenso, era o comportamento inconfundível de uma mulher apaixonada, a raiva só vinha quando estava sozinha. Nada fazia sentido.

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Era domingo e aos domingos eles não se viam porque domingo era o dia que ele passava com a esposa e os dois filhos, era o dia do almoço em família, do churrasco na casa do cunhado, de levar as crianças ao zoológico. Nesse dia nunca se viam e ela gostava mais dos domingos porque era o dia em que agia e se sentia quase como uma pessoa normal. Visitava amigos, almoçava com os pais, via televisão na sala, ia ao cinema, só o que não conseguia fazer era sair com outros homens, mas procurava não pensar nisso e esforçava-se mais do que qualquer outro dia da semana para não pensar nele. Estava na sala com o pai, a mãe, a irmã mais velha e o cunhado que ainda deveria estar cheirando a peixe porque passou a manhã toda na cozinha preparando o delicioso pintado na manteiga com batatas coradas que almoçaram e, de repente, sem pensar e sem dizer nada, nem para si mesma, levantou-se do sofá e foi ao quarto se vestir, se perfumar e saiu dando tchau e dizendo que estava indo na casa da Camila.

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Não ia à casa da Camila, a Camila nem sequer estava em casa e ela não tinha feito nenhum plano de sair naquele dia, o que fez foi pegar o carro e dirigir com toda cautela e segurança durante quase uma hora para chegar a uma praça da cidade vizinha onde nunca tinha parado antes. Estacionou, saiu do carro e dirigiu-se com toda a segurança para o centro da praça onde ele a esperava. Nunca tinham marcado encontro nessa praça, nunca tinham sequer falado a respeito dessa praça que ela conhecia só de passar por ela sempre que ia de uma cidade a outra. Se perguntassem o que pensara e o que sentira que a fizera estar ali naquele momento, não saberia dizer, apenas tinha vindo e não foi surpresa que ele a estivesse esperando, pelo contrário, foi por isso que veio e ele sabia. Não tinham falado nada, não tinham marcado nada, mas sem que ela soubesse como ou por que, ele viera encontrá-la na praça e ela estava lá.

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Beijaram-se, foram até o carro dele, ele contou que a esposa resolvera ir apenas com as crianças até a casa da irmã dela que estava adoentada, então ele tinha a tarde livre e resolveu que eles deveriam se encontrar, pensou na praça e foi até lá chamando-a mentalmente. Foi só esperar um pouco e ela chegou. Falaram do assunto entre risos, com bom humor e sem estranheza, como se o que aconteceu não fosse algo incomum, como se não fosse mais digno de nota do que se o encontro tivesse sido combinado com antecedência de dois ou três dias. Foram a um motel e algumas horas depois ela entrava em seu quarto batendo a porta com expressão aborrecida e se perguntando: O que é que eu estou fazendo com esse cara?

9 de novembro de 2009



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Foram sete meses morando em Vigo e usando quase que todos os finais de semana e todos os feriados para passear por Espanha e Portugal. Muitas vezes pegamos as conservadas e muito bem iluminadas rodovias que nos levam às várias cidades de Portugal e da Espanha; estivemos em Conimbriga, uma cidade romana próxima de Coimbra; estivemos em Santa Maria da Feira, uma cidade que tem um castelo lindo que não pudemos ver por dentro porque estava em reforma e só reabriria quando já estivéssemos de volta no Brasil e que tinha também uma feira, para fazer jus ao nome que tinha; estivemos em duas cidades com o mesmo nome, Montemor o Velho e Montemor o Novo, em Montemor o Velho tem um castelo com muralhas maravilhosas e quando a gente desceu para a cidade para o almoço encontramos um restaurante super gostoso que tinha um prato chamado arroz com feijão que não tem muito a ver com o nosso arroz com feijão porque os dois estão juntos formando uma espécie de sopa muito gostosa, em Montemor o novo só tinha mesmo ruínas do castelo, mas como gostamos de ver ruínas, não sentimos ter perdido a viagem, pelo contrário. As duas cidades valeram o passeio.
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Estivemos em uma cidade linda e toda murada, com casas pintadas de branco e um castelo muito lindo que era um hotel, essa cidade se chama Óbidos e lá dormimos em uma das casas brancas onde alguém morava e que, talvez por estar viajando deixou as chaves com o dono de um bar que alugou o quarto para nós; estivemos em outra cidade linda e gostosa de visitar chamada Leiria, onde tem um castelo lindo no alto e uma praça com uma fonte esguichando sobre uma estátua de Adão e Lilith e uma estátua de Camões em outra praça diante da qual tirei uma fotografia; fomos também à cidade de Tomar, linda com seu castelo templário por cujos pátios passeamos com vagar e fomos a uma outra cidade chamada Pombal onde havia um castelo e onde comemos um jantar delicioso e diferente no qual a carne vinha em um espeto dependurado sobre o prato, preso por um gancho; numa dessas muitas viagens de fim de semana passamos pelo mosteiro de Alcobaça onde vimos os túmulos de Inês de Castro e de D. Pedro I (não o D. Pedro I do Brasil, este lá é D. Pedro IV), um de cada lado do altar.
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Nos tornamos o que denominamos de “caçadores de castelos”: fomos uma vez para os lados de Leão e Castela e passamos todo o fim de semana indo de um castelo a outro dos que víamos pelo guia, um dos mais bonitos foi o Castelo do Coca, todo construído com tijolos avermelhados de mais de um tom e cujas diferentes tonalidades formam faixas como se ele fosse pintado. O castelo é lindo, bem grande e a gente pode vê-lo todinho por dentro e por fora e, inclusive subir no alto dele. Foi um dos castelos espanhois de que mais gostei.
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Outra cidade que visitamos e que vale muito a visita é O Porto, antiga capital de Portugal. A cidade é muito linda, tem uma ponte altíssima, ruas gostosas de passear, uma praça enorme, mais de uma igreja azulejada, todo um lado do rio pra se provar os famosos vinhos do Porto e um castelinho pequeno e muito charmoso chamado Castelo do Queijo onde funciona um museu do exército. . Nos deixamos ficar muitos fins de semana em Vigo e fomos almoçar ou jantar mais de uma vez em Baiona ou na Playa América, onde está o hotel em que ficamos nos primeiros dias que passei na Espanha. Quando estávamos chegando ao dia de nossa despedida voltei a Santiago de Compostela, comprei as cruzes para trazer para meu filho e passei muitos dias andando pelas ruas da cidade, caminhando por ruas já muitas vezes caminhadas, olhando-as todas com meus olhares de despedida. Fui novamente e novamente às cafeterias onde tinha encontrado os melhores “platos combinados” e aos restaurantes chineses que são gostosos, aconchegantes e razoavelmente baratos. Voltei mais vezes aos arredores do porto de Vigo, caminhei pelas ruas do “casco Velho”, mas continuei até o fim sem coragem para comer, com uma boa espirrada de limão, os tais mariscos crus recém-pescados.
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E quando chegou o dia nos despedimos das pessoas que conhecemos lá, pegamos o avião e voltamos para o Brasil com a certeza de que tínhamos passado os melhores meses das nossas vidas. Que me perdoem os muito patriotas, mas nesse tempo todo não senti saudades do Brasil e não senti nenhuma vontade irresistível de comer arroz e feijão, acho que sou desapegada e embora ache o Brasil lindo, como já disse antes, acho lindos os outros países também. E achei Espanha e Portugal maravilhosos!