29 de janeiro de 2010

CRIME DE ÓDIO

Estava falando de como é bonito o parque do Flamengo e de como é gostoso andar naquelas alamedas sem monotonia, cheias de voltas e cercadas de plantas variadas, obra de primeiríssima de um paisagista talentoso quando uma conhecida disse que não gosta de ir ao parque porque “A frequência não é boa.” Essa frase ficou me martelando na cabeça desde aquele dia.


E o que significa “a frequência não é boa”? É só passear por entre as árvores, as cores e as sombras, vendo as pessoas na praia ou, um pouco mais pra dentro, as pessoas sentadas na grama, lendo, desenhando ou simplesmente curtindo alguns preciosos minutos de paz para ver que são pessoas. É só prestar atenção nas pessoas que cruzam por você sozinhas ou em pequenos grupos conversando animadas ou em silêncio de feriado para ver que são pessoas.


“A frequência não é boa” não significa que o lugar está tomado por bandidos, por traficantes, por batedores de carteira, por pessoas se picando, cheirando, fumando à luz do dia, não, nada disso. Há um ou outro sem-nada dormindo em um ou outro canto sim, sem dúvida, mas qual é o lugar do Rio de Janeiro que não tem essa miséria ostensiva a nos lembrar de como somos egoístas e privilegiados?


Não, não é um antro do crime e não é um albergue a céu aberto o parque e a praia do Flamengo, é um lugar maciçamente freqüentado por PESSOAS. Então por que essa conhecida falou que “a frequência não é boa”? Simples! Porque, na opinião dela, o lugar foi simplesmente invadido por pessoas comuns! Não tem gente carregando bolsa Louis Viton, não tem celebridade a cada passo, não é comum ver senhoras com crianças e suas babás, não é Ipanema, não é Leblon! Essa pessoa que não vai ao parque do Flamengo não o faz porque acha revoltante que o lugar esteja tomado pela ralé, só isso!


Pensando nesse conceito e nessa ralé acabei chegando a mais uma das minhas muitas conclusões tremendamente tristes: a elite não é mais racista! As pessoas não abominam negros, não mais recusam sentar à mesa de um restaurante que sirva também um negro, elas não se recusam sequer a sentar do lado de um negro no avião, no cinema, no teatro. Não, essas pessoas evoluíram e deixaram de ser racistas. Até elegeram um negro para presidente dos Estados Unidos, não elegeram? Nesse passo não demora muito e elegemos nós também um negro para a presidência. Não. É só analisar bem e concluímos que em sua grande maioria, a elite brasileira deixou de ser racista. Que bom, né? Mas... e o significado da expressão “a frequência não é boa”? o que isso tem a ver com racismo e com a elite ter deixado de ser racista?


Tem que agora não se odeia, não se humilha, não se ignora, não se deseja manter distância dos negros simplesmente, agora os brancos estão incluídos nessa aversão, estão todos incluídos; desde que sejam pobres. O porteiro do meu prédio, o pedreiro que reformou a minha mansão, o marceneiro que concertou o meu móvel não deveriam nunca ter a audácia de achar que podem tirar seu dia de folga para trazer a família toda lá da baixada para passar o dia no parque do Flamengo ou nas praias da zona sul. Eles tinham que ficar por lá mesmo, tinham que usar seu dia de folga para tomar uma cerveja no bar da esquina, jogar bola na quadra do Brizolão mais próximo e consertar o telhado da casa “germinada” em que moram. Eles só devem ser aceitos, mais suportados do que aceitos na verdade, em lugar que é de direito da elite na hora do trabalho e enquanto estão trabalhando, fora isso que fiquem longe. E não importa se eles são brancos ou negros, os direitos (ou não-direitos) não iguais!


É inacreditável que haja, mas há um número grande de pessoas como essa conhecida, e no Brasil inteiro não apenas no Rio de Janeiro. São pessoinhas escrotas que se acham tão superiores às outras que se sentem proprietárias legais e de fato de lugares públicos! A praia de Copacabana já nem tem interesse mais para elas porque a Cardeal Arco Verde, a Siqueira Campos, a Cantagalo e os pontos de ônibus da Barata Ribeiro despejam multidões de pobres que vão se esparramar pela praia e desfilam pelas ruas vestidas com saídas de praia baratas e biquínis puídos atrás. A essas pessoas não deveria ser permitido que freqüentassem os lugares mais bonitos do Rio e as praias da Zona Sul, mas elas vem e por causa delas Flamengo e Copacabana deixaram de ser boa referência, agora é melhor Ipanema e Leblon, se bem que com a inauguração da nova estação de metrô não demora muito e eles tomam Ipanema também. Será que esses atrevidos pensam que a praia é pública e que qualquer um tem direito de frequentá-la?


Eu, ignorante e tão dolorida das misérias sem limites do coração e da mente humana, ouço frases como essa do comentário da conhecida jovem, rica, saudável e linda como uma Drosera Intermedia e fico me perguntando o que pode ter feito com que essas pessoas cheias de si e, consequentemente e igualmente, cheias de merda pensem que o mundo foi feito para elas e que elas tem o direito de reservar lugares públicos - os melhores e mais bonitos é claro - apenas para si. Fico pensando o que tem em suas cabeças ocas que faz com que seus cérebros virgens pensem que são melhores e que tem direitos exclusivos. Fico pensando e vou sentindo nojo, sentindo nojo, sentindo nojo... e esse nojo me faz ter vontade de vomitar na cara delas!

21 de janeiro de 2010

O ATEU NO MUNDO DA FÉ - EPÍLOGO

Humildes propostas de um mundo melhor



Talvez se o mundo desse mais importância à filosofia do que à teologia, se os homens ensinassem mais a ética do que os preceitos religiosos a seus filhos, se todos lessem mais a vida e os pensamentos dos grandes homens do que a bíblia, se mostrassem mais preocupação com a salvação do corpo e da dignidade do seu igual do que com a salvação da própria alma, se olhassem mais para os lados do que para dentro de seu próprio egoísmo; talvez se fizessem isso o mundo poderia ser melhor.


Muitos religiosos rezam em silêncio, oram aos gritos e pedem, imploram e rogam que as leis da natureza sejam quebradas ou alteradas em nome unicamente da sua pessoa; e quando por alguma razão tem a impressão de que isso aconteceu eles tomam o fato como prova da existência e da bondade desse mesmo deus que, se tivesse feito o “milagre” por eles, teria obrigatoriamente, ao mesmo tempo, negado esse milagre a milhões de outras pessoas que também creram, pediram e estavam prontas a agradecer e até que, pelo que são e pelo que tem, podem ter merecido mais.


Talvez se as pessoas deixassem de ver, egoisticamente, como milagres as coincidências e acasos que acabam sendo ou proporcionando os privilégios que acreditam ter recebido de deus; se vissem esses mesmos privilégios como injustiça porque conseguiram pensar o óbvio: “O que não é para todos não pode ser justo mesmo que eu seja um dos beneficiados.”; talvez se pensassem e se sentissem assim essas pessoas pudessem ver esse deus como um ser injusto e portanto inverossímil, e poderiam usar o próprio sentido de ética para recusar muitas das posturas preconceituosas, elitistas e até criminosas que são levadas a tomar em nome desse deus que os leva a usar a bíblia para afirmar que amam ao próximo ao mesmo tempo que a usam para encontrar justificativas para o preconceito, o ódio, o desprezo, o ato de humilhar.


Tudo isso só se pode dizer com um “talvez” anteposto porque possivelmente a própria natureza humana não permita que o homem, como raça, seja bom e viva em paz. Talvez Platão esteja certo e o homem precise mesmo da religião para controlá-lo como indivíduo, mesmo com o risco de instigá-lo a se tornar o genocida, o assassino impiedoso, o senhor da ganância e o escravo do poder que mostrou ser tantas vezes na história.

O ATEU NO MUNDO DA FÉ - XXVII

O ateu, a gratidão e a felicidade


Outra coisa que me incomoda muito é que toda vez que aceito conversar sobre deus com alguém, mais hora menos hora, se a pessoa não desiste simplesmente, ela corta o assunto me acusando de infeliz. Sempre vem uma frase mais ou menos assim: “Eu sou feliz e creio em deus, se você é infeliz e não acredita o problema é seu.” E isso depois de eu ter afirmado que quando falo sobre a vida e os horrores da vida estou falando no geral. Que parte de “no geral” essas pessoas não entendem? Acho que vou ter que começar todos os meus textos com o seguinte aviso: “Sou atéia mas não sou infeliz, acho a vida horrível mas a minha vida é ótima!” Será que assim vão parar de me julgar uma velha infeliz e frustrada só porque não passo a vida olhando para o meu próprio umbigo?


Embora eu compreenda que em geral nem é culpa dessas pessoas, embora eu compreenda que elas estão apenas aceitando como fatos e verdades tudo o que dizem seus líderes religiosos, embora eu compreenda que por acreditar nesses líderes elas não param para pensar mesmo e a fundo nessas questões, chega a ser revoltante ver que muitas pessoas acreditam em deus porque são felizes e esquecem que milhões de pessoas não são e que se deus existisse a responsabilidade por cada um desses infelizes seria também dele.


Agradecem a deus porque tem bens materiais, saúde, família, amor e esquecem que milhões de outras pessoas não tem nada disso. Por que será que tantos tendem a tirar a conclusão de que tudo é maravilhoso só porque tem coisas boas no seu pequeno mundinho? Será tão difícil assim olhar para fora da sua concha?


Tenho que afirmar novamente: Atenção gente, atenção todo mundo, que fique bem claro e que todos saibam. EU SOU FELIZ! Tenho onde morar, tenho amigos, tenho amor, tenho um filho do qual me orgulho, tenho tudo que qualquer pessoa feliz pode ter e que qualquer pessoa pode querer para ser feliz. Falando novamente: Eu sou muito feliz! EU.


Mas acontece que tenho senso de ética, tenho senso de moral, tenho senso de justiça. Não que muitos deistas não tenham também senso de ética, moral e justiça, muitas vezes até maiores e mais apurados do que o meu, mas é que muitos desses deistas não conseguem pensar da forma que eu penso porque tenho a mente livre da fé e eles não. A fé muitas vezes faz com que a ética, a justiça e a moral fiquem em segundo lugar até mesmo sem que a pessoa perceba, principalmente na hora de avaliar algumas coisas e situações que envolvem deus mais diretamente.


Daí que eu não posso, não sei e não consigo levantar louvores a deus se existir um deus que me deu tudo que tenho sem ter dado a mesma coisa para o resto do mundo. Não sou melhor do que o coitado que morre de câncer depois de muito sofrer e muito rezar, por que mereço ter saúde e ele não? Por que tenho que agradecer a deus se ele foi injusto? O fato de a injustiça desse deus ter me favorecido, afinal não morri de câncer e o outro morreu, torna menos injusto o que aconteceu?


Como já disse antes, acho que as pessoas que usam o exemplo da cura das suas mazelas como prova da existência de deus estão sendo muito egoístas, egoístas e desonestas. Elas nem sequer se dão conta do quanto estão sendo desonestas, mas estão! Elas nem percebem que estão o tempo todo apenas olhando para o próprio umbigo, mas é o que estão fazendo. Tenho muita pena dessas pessoas! Elas, muitas delas, são boas, são generosa, são maravilhosas em vários aspectos da vida, mas nesse particular não são, e nem percebem o quanto são más!


Antes que alguém me acuse de mais essa, deixa esclarecer: Não, não sou boa, não me acho um poço de bondade, não me acho acima de qualquer crítica. Sei que sou má, sei que muitas vezes faço coisas erradas, piso na bola, faço julgamentos injustos, tomo decisões precipitadas e até (isso eu juro que é sempre sem querer) ofendo ou magoo as pessoas. Mas pelo menos eu sou má com conhecimento de causa. Sei que sou má, por isso estou sempre tentando melhorar, as pessoas que são más e não sabem disso não tem como tentar melhorar.


Quando afirmo que não acredito no deus delas, muitas pessoas cortam relações comigo, me chamam de infeliz e frustrada. Algumas ainda me ameaçam com o inferno eterno ou preveem que um dia algo de bom acontecerá em minha vida e aí então vou creditar no deus delas. Mas se algo bom acontece para mim ao mesmo tempo que “algos ruins” acontece para milhões de pessoas, não vou passar a acreditar em deus, pelo contrário, aí é que duvido mais; e se acreditasse ficaria com raiva dele e não agradecida.


Por que eu e não todo mundo? Por mais que eu afirme para os deístas que o deus deles, se existisse, seria ruim e injusto demais para que eu ao menos o respeitasse, não adianta, alguns deles repetem o jargão da minha suposta infelicidade e muitas vezes terminam com a afirmação oca e sem sentido de que Jesus me ama. Chego a ter dúvidas sobre o nível de alfabetização de algumas dessas pessoas.


Eu digo: Se deus me deu, por exemplo, uma casa mas tem milhões de pessoas sem casa, então não vou agradecer a ele pela minha casa, na hipótese de que ele exista, vou chamá-lo de injusto e cruel por ter dado uma casa a mim e não a outros milhões de pessoas que mereciam mais do que eu ter uma casa.


Eles dizem: Mas se tem tanta gente sem casa não é culpa de deus, é culpa do homem e da ganância que não permite uma justa distribuição de renda. Aí respondo: Mas peraí, se tenho uma casa e isso é prova da bondade de deus que deu essa casa para mim, e se o fato de outro não ter uma casa é culpa da ganância dos homens tem alguma coisa errada nessa equação. Dois mais dois está dando cinco.


Se deus pode dar uma casa para minzinha, que não fiz nada por merecer, por que não pode fazer a mesma coisa para outras pessoas que até fizeram por merecer? Se a ganância dos homens não impediu deus de me dar uma casa, por que essa mesma ganância o impede de dar uma casa às outras pessoas? E isso vale para tudo, da casa à cura da doença incurável.


Nesse ponto param de me responder, ou mandam uma mensagem me acusando de infeliz e informando que eles são felizes e por isso creem e agradecem a deus, às vezes até me ofendem dizendo que estou sendo mal educada! Não entendo onde é que deus esconde o senso de justiça de algumas das pessoas que creem nele, e não entendo também como é que ele tira delas a capacidade de compreensão de um raciocínio lógico tão simples. Como sei que não vou entender isso nunca, nunquinha, jamais. Vou apenas reiterar aqui e novamente minha afirmação: EU NÃO SOU INFELIZ, sou apenas atéia!

O ATEU NO MUNDO DA FÉ - XXVI

A religião na escola


Se me revolto com isso, quero crer que tenho motivos mais do que justificados. Ao longo dos anos tenho visto uma crescente intolerância que me preocupa sinceramente. A razão da minha revolta é a percepção de que as pessoas se recusam a pensar e, o que é muito pior, ensinam as crianças a não pensarem. Vejo em sala de aula, aluninhos de quinta série, ofendendo colegas por causa da religião ou com argumentos ditados pela religião com palavras e frases que não são deles, que ouviram em casa dos pais e na igreja do padre ou do pastor. Algumas dessas crianças me olham como se eu fosse um extraterrestre quando digo que não tenho religião (e olha que eu nunca disse em sala que sou atéia!).


Quando trabalho com o tema preconceito eles são rápidos em citar a bíblia para afirmar que “Se encontro um “viado” na rua eu caceto mesmo!”, “Pode descer a lenha sim, professora, deus não gosta dessa gente, tá na bíblia!”. É só permitir uma conversa a respeito da homossexualidade que qualquer professor vai ouvir frases desse tipo, pronunciadas por alunos desde as primeiras séries do ensino fundamental até já adultos nas aulas de suplência. E o mais terrivelmente assustador é que se levantar o problema na sala dos professores, vai ouvir frases semelhantes dos próprios colegas. A grande maioria dos trabalhos abordando preconceito desenvolvidos nas escolas exclui qualquer menção à homossexualidade.


Textos do tipo dessa mensagenzinha idiota que citei no capítulo anterior costumam ser usados nas escolas por professores, principalmente de ensino religioso, e pela direção e coordenação. Eu mesma o vi pela primeira vez em uma reunião de professores. As pessoas não pensam. Não entendo por que pessoas cultas, inteligentes e boas se recusam a pensar quando o assunto é religião. Em nome de um “amor a deus”, de uma adesão irrestrita ao que afirmam ser a “verdade”, as pessoas esquecem o simples e básico sentimento de respeito ao próximo; e nem sequer se dão conta disso!


É comum, quase obrigatório, afirmar que não podemos falar mal de religião, que não se pode criticar qualquer crença ou manifestação religiosa. Não podemos nem sequer reivindicar o direito básico de ter um estado realmente laico como está definido na Constituição. Qualquer tentativa de mostrar que escola pública é um órgão público, nem mesmo pela redundância é levada a sério. Lá se faz orações no pátio com os alunos, se abriga missas e cultos evangélicos a propósito de qualquer coisa, se abarrota os quadros de avisos com imagens de santos, Jesus e coisas do tipo acompanhadas de orações e trechos bíblicos. E temos que achar tudo muito lindo, muito educativo e muito bom!


E os professores de ensino religioso comemoram o “dia da bíblia” mas nem sabem se existe um “dia do alcorão”, comemoram com orações o dia da páscoa ensinando aos alunos seu valor religioso e até desprezando o apego ao chocolate como sendo um pecado contra o “verdadeiro sentido da data” mas não falam nada sobre o dia de jogar rosas no mar em homenagem a Yemanjá. Aliás, muitos desses professores nem citam o candomblé como religião; ou ignoram totalmente, como se não existisse, ou falam que é “coisa do capeta”. Mas, apesar disso, tente alguém dizer que não aprova a existência dessa disciplina! No mínimo será acusado de estar tentando tirar o trabalho dos colegas.


Droga, eu tenho amigas que dão aula de ensino religioso, amigas que sei serem pessoas maravilhosas, amigas que considero muito e de quem gosto muito, não quero ofendê-las, não quero magoá-las, não quero fazer com que pensem que tenho algo contra elas. Mas será possível que não posso mesmo dizer que aulas de ensino religioso são um retrocesso histórico e deveriam ser ilegais por serem basicamente inconstitucionais e fundamentalmente antiéticas?


Fico brava! Fico irritada! Me sinto agredida! E não quero, não posso, não consigo deixar de gritar que odeio tudo isso: e o faço! Amo do mais profundo da minha alma os meus amigos, sei que muitos deles tem suas religiões, sei também que há muitos amigos meus que, mesmo sem serem religiosos, não partilham da minha raiva, e assim mesmo eu falo! Só queria que meus amigos, religiosos ou não, entendessem que os amo e que não quero ofendê-los; apenas não consigo ficar indiferente e calada.

O ATEU NO MUNDO DA FÉ - XXV

Os religiosos que incomodam


E por que comecei a pensar em deus e em religião? Muitos me criticam e me ofendem porque acham que eu não deveria ficar escrevendo essas coisas. Perguntam por que não me calo, por que gosto tanto de criticar deus quando simplesmente pensar em deus de forma a questionar seus “desígnios” é algo que deveria ser inaceitável para qualquer ser humano.


Eu respondo que sou atéia graças a deus, ou graças ao tanto que tentaram me enfiar deus goela abaixo. Tantos religiosos vem tentar me converter de todas as maneiras que não tenho outra saída se não pensar no assunto! Conheço muitos religiosos que não são assim, que não ficam incomodando ninguém com suas crenças e opiniões, são muitas pessoas decentes e éticas o suficiente para serem amigas e aceitarem as outras pessoas sem querer impor a elas seu deus e sua fé.


Mas tem também os religiosos incômodos, e esses incomodam até mesmo aqueles religiosos tolerantes e amigos que citei lá em cima. Eles vem à nossa casa no domingo de manhã, de repente o único dia que temos para dormir um pouquinho mais, coisa que não conseguimos por causa deles que invadem nossa rua em bandos portando as revistinhas que eles parece que decoraram antes e querem recitá-las todinhas para na porta de cada casa!


Eles enchem a nossa caixa postal com os e-mails coloridos e cheios de musiquinhas que, em pps, querem nos convencer definitivamente de que a religião deles é solução para todos os problemas, nossos e do mundo. Eles invadem a nossa página do orkut com recadinhos cheios de brilho que afirmam que “Jesus te ama”.


Acho tremendamente estranho e inexplicável isso de que eles não se contentam em acreditar que deus existe, também, pelo que afirmam, sabem tudo sobre os sentimentos, pensamentos e vontades tanto de deus quanto dos outros seres mitológicos em que acreditam sejam esses santos, Jesus ou o diabo. Basta ver o quanto eles dizem que “Deus não quer que...”, “Deus se agrada de pessoas que...”, “Deus fica triste quando...”, “O diabo quer que...” e frases do tipo para concluir que eles se sentem conhecedores do âmago do espírito de deus. Mas caso alguém os acuse disso negarão veementemente e explicarão tudinho de uma forma que não me permitirá entender.


Eles não são tolerantes, éticos e amigos como muitos dos meus amigos religiosos, parece que estão sempre mais preocupados em falar do que em ouvir e não suportam qualquer argumento contrário. É claro que não estou falando de todos os religiosos nem dessa ou daquela religião, mas muitos deles enchem nossos ouvidos todos os dias com os carros de som a todo volume anunciando a "prece do descarrego" que parece mais fantástica e saborosa do que as pamonhas de Piracicaba, e nos cercam na rua para entregar o jornal da igreja deles, os papeizinhos de propaganda da fé deles e até mesmo o "santinho" do candidato deles para as próximas eleições. Nem os religiosos tolerantes suportam esses religiosos incômodos.


Se você mora em apartamento eles dão um jeito de enfiar papeizinhos debaixo da sua porta e alguns mais atrevidos conseguem convencer os porteiros de que estão trabalhando por uma boa causa e, portanto, tem o direito de até mesmo bater na sua porta para convidá-lo para o culto, reza, novena.


E você não pode passar na frente da igreja deles em determinadas horas porque eles estão berrando com tal força e em tal altura que deveriam pagar multa por “barulho ensurdecedor que prejudica a saúde auditiva das pessoas”. Uma das recomendações para quem vai comprar ou alugar casa é “Fuja das proximidades de certas igrejas”, ou seja, eles conseguem até mesmo desvalorizar os imóveis! E conseguem, numa jogada que chega a parecer desonesta, a adesão dos nossos parentes mais ingênuos, como pais e tios idosos, e mandam que esses parentes usem de chantagem emocional para nos convencer a fazer parte do grupo que terá direito ao paraíso eterno, paraíso esse que em se acreditando na explicação deles tem muito pouco de paraíso; está mais para Tédio Eterno.


Eles estão presentes em todos os lugares que freqüento e é comum me obrigarem ou me constrangerem a participar, ao menos com minha presença, das cerimônias que só interessam a eles mas que não se sentem vexados por impô-las porque foram ensinados pelos padres e pastores a falar de deus em todos os lugares e momentos independente de quantas pessoas vão constranger e incomodar com isso. Quando alguém reclama eles vem com o argumento tosco de que são maioria e a “palavra de deus não faz mal a ninguém”, não percebem que estão decidindo por todos o que cabe a cada um decidir por si mesmo.


Sempre recebo, como todo mundo, vindos de todos os lados, recados, mensagens, avisos e até ameaças pretensamente chegados diretamente de deus. Alguns deles chegam até a vir assinados. Recebo direta e indiretamente em todas as formas, por todas as vias de comunicação e praticamente em tempo integral, lembranças de religiosidade. A diferença, e assumo a culpa por isso, é que, em meu caso, muitas delas me irritam, me aborrecem, me revoltam, acionam em alto e bom som o meu alarme “antiestupidez”. Daí eu fico brava e respondo dirigindo minha ira a quem teve a infeliz idéia de criar mensagens estúpidas.


A minha falha, muito séria eu admito, é que em geral quem manda para mim essas mensagens não é a pessoa que as criou. Mas é esse remetente, junto com todas as outras pessoas da minha lista de endereços, que recebe a resposta. Então os amigos, pessoas de quem gosto muitíssimo, ficam muitas vezes magoados, ofendidos até, e não era minha intenção ofender nenhum amigo; era minha intenção sim provocar o máximo de pessoas para que pensem melhor nas mensagens em questão, para que percebam a estupidez camuflada de “milagre divino” contida nelas e enviem minha resposta pelo caminho de volta até que ela chegue à pessoa que criou a mensagem para que, quem sabe, essa pessoa pense melhor antes de escrever e publicar besteiras.


Exemplos são fartos, como aquela historinha do menino que, numa salinha de maternal ou pré-escola, faz xixi na roupa em plena aula. Depois de pedir a deus que o salvasse ele é salvo, não por deus mas por uma coleguinha de classe, uma menina que teve a sensibilidade de perceber o que acontecia e a inteligência de, fingindo derramar água sobre ele sem querer, livrar o menino do vexame, e ela explica depois que fez isso porque já passou por essa situação uma vez e sabe o quanto é desagradável. Acontece que o gesto nobre da garota é recompensado com desprezo e ofensas vindos dos outros alunos que a acusam e a afastam por ter sido “desastrosa”. O menino salvo não faz nada para ajudá-la, não mostra a nobreza dela.


A pessoa criou a mensagem colocando lindas fotos, musiquinha adequada e palavras de fé alertando-nos para a “bondade” do deus que atendeu a oração do menino e livrou-o do sofrimento, mas essa pessoa parece não ter pensado um segundo sequer na garotinha que passou por situação constrangedora DUAS VEZES, mesmo tendo ela, embora tão pequena, mostrado o melhor caráter que se pode esperar de um ser humano. Será que esse ser religioso ao ponto de cegueira não se deu ao trabalho de sequer considerar a menina só porque não diz na história que ela tenha rezado em algum momento?


É esse tipo de cegueira irracional que leva pessoas boas a cometerem crimes, agirem com injustiça, desprezarem os valores éticos. Foi esse tipo de mentalidade estreita que mostrou ter o tal “bispo excomungador”; que o papa visivelmente está mostrando ter quando abomina os homossexuais, condena o uso de preservativos e MENTE afirmando que camisinha não evita AIDS; é o que os líderes religiosos que respondem a processos mostram ter quando continuam pedindo dinheiro aos fiéis, e é o que os próprios fiéis mostram, até sem o notar quando, em lugar de ajudar uma criança a sair da rua, aprovam a pena de morte e ajudam a engordar a fortuna desses líderes ladrões.