18 de abril de 2010

MUDANÇA



(Conto inspirado na análise da relação causa-efeito de Hume)

De repente alguém percebeu que havia algo estranho no mundo, uma série de fatos grande demais para ser pura coincidência começou em um determinado dia. Muitas pessoas morreram subitamente e os atestados de óbito registraram infarto fulminante, aneurisma cerebral e coisas do gênero. O que fazia com que aquilo ultrapassasse as fronteiras do que poderia ser aceito como coincidência era o fato de que todas as pessoas atacadas por esse mal súbito e fatal tinham, no momento de suas mortes, acabado de matar alguém.

Os números começaram a aparecer nos jornais três dias depois e no quinto dia já se havia comprovado que matar, de repente e sem que se pudesse saber qual a ligação entre um fato e outro, levava à morte. Pensa-se que assassinos profissionais - profissão não regulamentada e pouco divulgada fora dos meios competentes, mas de cuja existência sabe-se muito bem, principalmente através dos filmes de Hollywood – repentinamente resolveram mudar de profissão. Não houve, é claro, um levantamento oficial do número desses profissionais que conseguiu diversificar seu trabalho antes que o “mal-da-morte” os pegasse mas o fato é que em quinze dias se constatou que quase não havia mais assassinatos no mundo.

Os assassinos profissionais não foram os únicos a desaparecer e nem sequer foi esse ramo de atividade o que causou maior desfalque na sociedade, as forças armadas de todos os países passaram por um período de extremo reboliço. Soldados não poderiam mais matar, nem mesmo em guerras, testou-se inclusive (não me perguntem como) a distância segura para que se matasse alguém e descobriu-se que essa simplesmente não existia, pelo menos não dentro do espaço ocupado pelo ser humano; até mesmo os assassinatos indiretos eram punidos com a morte.

Um piloto que lançasse uma bomba sobre uma cabana de pescadores com um único habitante ou sobre uma vila com dezenas de famílias imediatamente após a explosão do artefato se debruçava sobre os instrumentos tão morto quanto suas vítimas, e o comandante que ordenou a operação se debruçava sobre sua escrivaninha no quartel localizado muitas vezes a centenas de quilômetros dali.

As mortes provocadas por assassinatos indiretos foram, logicamente, as mais difíceis de serem relacionadas às suas respectivas causas, acontecia de um cientista morrer em seu laboratório e de um político morrer em seu gabinete e somente alguns dias depois se descobrir que o cientista criou um novo tipo de veneno ou um remédio com efeito colateral grave e que o político desviou uma verba que teria sido usada para salvar a vida de umas tantas pessoas que acabaram morrendo por conta da ausência dessa ajuda.

Logo se descobriu outros dois detalhes incompreensíveis e inexplicáveis envolvendo as mortes súbitas e os assassinatos: elas, as mortes súbitas, não aconteciam mais com nenhuma pessoa que não tivesse matado alguém e – houve para dizer a verdade, uma certa demora em se constatar esse segundo fato – curiosamente algumas poucas pessoas sobreviveram ao ataque cardíaco e ao aneurisma. Essas pessoas caíram como mortas, foram tratadas a tempo e se recuperaram com poucas sequelas depois de matar alguém, mas, investigando-se o fato, verificou-se que esses casos só aconteceram com pessoas que mataram em legítima defesa ou em defesa de um outro ser humano que sem essa interferência certamente teria morrido.

Em algumas semanas se pôde publicar uma lista bastante exata do tipo de morte ou quase morte que acometia como “castigo dos céus” aquelas pessoas que matavam outras pessoas, a lista era mais ou menos assim: Assassinato premeditado – ataque cardíaco fulminante com segundos de dor intensa; Assassinato por algum tipo de perda de controle emocional momentânea e assassinato por algum tipo de anomalia psíquica séria como psicopatia e similares – aneurisma cerebral aparentemente sem dor; assassinato por legítima defesa – AVC e recuperação com sequelas leves como uma semi paralisia de um lado do corpo, por exemplo; assassinato em defesa de outra pessoa – ataque cardíaco com alguns dias de hospitalização e recuperação total.

Não demorou muito mais de um mês para que as notícias de assassinatos praticamente desaparecessem dos noticiários de todas as mídias. Mesmo os assassinatos em defesa própria ou em defesa do outro tornaram-se extremamente raros porque, logicamente, havia uma grande falta de assassinos, o que não permitia a muita gente a oportunidade de praticar esses atos de heroísmo.

Voltando às forças armadas, as guerras deixaram de existir até mesmo como possibilidade e essas forças perderam o sentido, mas foram mantidas com desvios bastante específicos de suas funções. Os exércitos agora eram instituições encarregadas, equipadas e treinadas para levar ajuda a todos os que estivessem em situação de necessidade causada por algum tipo de calamidade natural. O papel de todos os exércitos do mundo passou a ser exatamente o papel que, de acordo com as notícias correntes, foi assumido pelo exército brasileiro no caso do terremoto do Haiti no ano 2010. Agora a polícia civil e militar, além de resolver conflitos que envolviam apenas agressões físicas que não mais resultavam em assassinatos, não eram mais tão diferente dos bombeiros.

Mas, como foi dito aí em cima, havia as agressões físicas e elas eram um problema antes e passaram a ser um problema maior durante um curto período de tempo depois. Por que durante um curto período de tempo? Porque começou-se a prestar atenção às doenças que não causavam a morte imediata e começou-se a notar que as outras doenças estavam diretamente associadas às agressões físicas. Não demorou muito para que uma nova lista surgisse, com pequenas variações, em todos os meios de comunicação. Nessa lista constavam coisas como “Um tapa na cara do filho adolescente – resfriado de uma semana”; “Uma cusparada no jogador do time adversário - piriri de três dias”; “Falta de respeito com os pais – anemia profunda com duas semanas de hospitalização”; “Briga com o vizinho – gastrite com intensidade e duração indefinida e aparentemente ligada à duração e intensidade da briga”...

E por aí seguia a lista que começou a transformar as pessoas que se acham civilizadas em pessoas realmente civilizadas e que começou a causar um esvaziamento gradual nos hospitais, que tinham maiores recursos materiais e humanos para cuidar dos partos e das doenças da senilidade; nas delegacias, que eram ambiente de treinamento para psicólogos e psiquiatras que procuravam ajudar pessoas em conflitos variados e nos fóruns que tratavam de documentar transações acordadas entre partes que não mais se definiam como litigantes. Isso acontecia em todas as cidades do mundo.

Não demorou um ano para que se começasse todo um trabalho de adequação a uma nova realidade que em poucas décadas seria o cotidiano normal ao qual todos estariam tão acostumados a ponto de não ninguém entender muito bem o quanto as coisas já tinham sido diferentes e por que, de acordo com o que estudavam nas histórias do passado, a sociedade mais antiga foi, durante tantos séculos, palco de tanta violência e falta de respeito com os direitos de cada um e de todos.

11 de abril de 2010

SOBRE AS PROVAS DA EXISTÊNCIA DE DEUS DE DESCARTES

Descartes dizia aceitar que o mundo tivesse sido criado por deus, dizia aceitar que, se deus existisse, ele seria garantia e suporte de todas as outras verdades. Mas, como saber se deus existe ou não? Como provar a sua existência se apenas podia ter a certeza da existência do cogito? Descartes apresentou em seus escritos três provas da existência de deus. Vamos olhar cada uma delas:

Na primeira, chamada de prova a priori, Descartes procura mostrar que, porque existe em nós a ideia de um ser perfeito e infinito, daí resulta obrigatoriamente que esse ser perfeito tem que existir uma vez que a existência seria ela mesma uma característica constituinte desse ser perfeito, ou, em outras palavras, que a existência seria parte integrante a priori e sine qua non do ser perfeito. Daí que, para Descartes, se eu tenho em mim a ideia do ser perfeito e se a existência é característica constituinte do ser perfeito, característica sem a qual o ser não seria perfeito, então o ser perfeito existe de fato e obrigatoriamente e o ser perfeito é deus, portanto deus existe.

O argumento é bem convincente sem dúvida, só que quando analiso a MINHA ideia de ser perfeito descubro que ela é diferente da ideia de ser perfeito da maioria das outras pessoas, e se começo a investigar a ideia de perfeição que as pessoas à minha volta tem, descubro que, como acreditava Hume a respeito de todas as ideias, a da perfeição também é única e pessoal, ou seja, parece que cada pessoa tem uma ideia de perfeição diferente, muito ou pouco, das demais pessoas. Disso posso concluir que a ideia de perfeição que tenho não é confiável a ponto de ser nomeada como A IDEIA DE PERFEIÇÃO única possível, então não posso confiar que minha ideia de perfeição seja mesmo a ideia de perfeição e não apenas e simplesmente a ideia de algo que EU acredito ser a perfeição. Com base nesse fato ou se aceitaria que existem bilhões de seres perfeitos, um para cada ideia de perfeição que cada habitante do planeta tem - o que acabaria com a unicidade que é outra característica constituinte de deus de acordo com os que defendem sua existência - ou a ideia da existência de deus provada dessa forma enfraquece consideravelmente.

Na segunda prova, chamada de prova a posteriori , Descartes conclui que Deus existe pelo fato de a sua ideia existir em nós, e diz que porque possuímos a ideia de Deus como ser perfeito seremos levados a concluir que esse ser realmente existe, afinal, diz ele, não poderíamos ter em nós a ideia de perfeição sendo nós os seres imperfeitos que somos. Ele não aceita a possibilidade de que o menos perfeito (nós) possa ser causa do mais perfeito (a idéia de deus). Descartes conclui então que deve existir um ser perfeito que é a causa dessa nossa ideia de perfeição. E esse ser perfeito só pode ser deus.

Pois bem, com base no que eu disse anteriormente, não é confiável que nós tenhamos realmente a ideia de perfeição uma vez que essa ideia varia tanto de pessoa para pessoa, em função disso posso concluir que essa segunda prova só poderia ter possibilidade de validade no caso de a primeira prova ter sido aceita. Como já afirmei que não aceito a primeira prova e expliquei o porquê dessa minha não aceitação, a segunda prova fica, então, sem efeito porque eu mesma - ser imperfeito - posso ter colocado em mim a MINHA ideia de perfeição que pode não ser na verdade uma ideia de perfeição condizente com algo que realmente fosse perfeito. Minha ideia de perfeição, como procurei demonstrar acima, não é confiável, portanto não tem condições de provar nenhuma perfeição e, portanto, não tem como provar também a existência de qualquer tipo de perfeição.

A terceira prova, chamada também de prova a posteriori, é onde Descartes tenta demonstrar a existência de Deus a partir do fato de que não podemos nos conservar, ou manter a vida e a existência de nós mesmos. Diz ele que se nós não podemos garantir a nossa própria existência, e no entanto existimos (pelo menos como cogito), é certo que alguém nos terá garantido essa existência e esse alguém só pode ser deus.

Mas se só reconheço minha existência como res cogito, ou seja, como coisa pensante, então não posso reconhecer como existente meu dedão do pé, minhas mãos, meu coração ou meu corpo como um todo. Além disso se só posso me reconhecer como res cogito imagino que eu não tenha como saber o que é que constitui esse res cogito que sou, qual é a matéria, qual é a substância que constitui o res cogito? Não posso determinar isso, então, consequentemente, não posso mesmo na verdade confirmar como realidade a existência do res cogito e muito menos a existência de algo que o tenha provocado.

Não consigo evitar de pensar que há uma forte dose de ironia nas provas da existência de deus de Descartes da mesma forma que sinto uma forte ironia na sua frase: “O bom senso é o que há de mais bem distribuído no mundo, pois cada um pensa estar bem provido dele.” Nessa frase fica claro que ele está afirmando a prepotência humana de se achar suficientemente provido de bom senso quando logicamente não está, e para comprovar isso basta que olhemos a nosso redor.

Parece-me que, impedido que foi de negar deus, pela época, pela conjuntura em que viveu e até mesmo pela sua própria criação, Descartes encontrou essas explicações claramente falsas para ele, mas, ao mesmo tempo, providas de raciocínio facilmente aceitável pelas instituições religiosas e, principalmente, pelo senso comum. Acho que ele pode bem ter articulado essas “provas” com o fim de salvaguardar sua integridade física e não correr o risco que correu seu contemporâneo Galileu Galilei cuja trajetória Descartes acompanhou e cujo desfecho sabe-se que influenciou grandemente seu comportamento e não tem por que não acreditar que deve ter influenciado também seu pensamento; ou ao menos a forma de expô-lo.

Enfim, para mim e na minha visão, as provas da existência de deus de Descartes carecem de fundamento lógico quando aplicamos a elas, inclusive, as conclusões de Descartes. E se aplico minhas conclusões mesmas chego à prova de que minha própria existência, caso eu me aceite como ser existente com base no Cogito Ergo Sum de Descartes, pode ser usada como prova da não existência de deus.

Minha prova seria, portanto, essa: Tenho em mim uma idéia de ser perfeito e a minha idéia de ser perfeito seria um ser que por ser perfeito não criaria nada que fosse imperfeito. Se aceitar a existência de deus terei que aceitar que fui criada por ele, mas eu sou imperfeita e o ser perfeito do qual tenho a idéia não criaria nada imperfeito, portanto não criaria a mim. Daí que minha existência mesma é prova de que o ser perfeito não existe e, se o ser perfeito é deus, então minha existência é prova de que deus não existe.

1 de abril de 2010

A NATUREZA É CRUEL



Eu sou revoltadinha e indignada, sou briguenta e um tanto intransigente. Acho que a natureza é cruel, crudelíssima; embora concorde que ela o é sem ter nenhum tipo de consciência, moral ou qualquer coisa que possa sugerir uma intencionalidade.


Penso de forma muito parecida com respeito à vida: Acho a vida ruim, terrível, má, nojenta e quase todos os adjetivos negativos que se consiga lembrar embora também reconheça que a vida não é uma entidade e, portanto, não é todo esse horror com qualquer coisa que se possa associar a um propósito ou intenção.


Também a velhice; é uma merda, um horror, um castigo pior do que o inferno bíblico porque é real e pior do que doença porque não tem cura, embora, da mesma forma que da natureza e da vida, não se possa dizer da velhice que haja nela qualquer tipo de intencionalidade...


Enfim, para dizer que algo é ruim ou bom, cruel ou benéfico, não é preciso que essa coisa tenha intencionalidade. E, com essa opinião e esse sentido em mente, posso afirmar que a natureza é sim cruel, crudelíssima!


É tão cruel que, cuidemos dela ou não, mais cedo ou mais tarde, ela nos eliminará.

E dizem que o homem foi feito à imagem de deus, que deus é a natureza e que nós somos parte da natureza.

Agora pense em todas as catástrofes que ocorrem em todos s tempos e em todos os lugares do mundo, as que são causadas pela natureza e as que são causadas pelo homem, que é parte da natureza, bota tudo na mesma panela e o que dá é uma sopa fedorenta:

O homem (criação defeituosa de um deus sádico), a natureza (plena de vida que só é vida à custa do extermínio de outras vidas) e esse deus pavoroso que, segundo os que nele creem, criou e botou pra funcionar esse circo de horrores.

Me repugna o fedor e a aparência dessa sopa, e me repugna mais ainda saber que estou inserida nela como um dos seus ingredientes!