21 de junho de 2010

FANTASIA - Parte V

Na manhã seguinte, depois do café da manhã, fechei a conta do hotel e, com a minha maletinha cheia, minha bolsa e meu discman, peguei o trem para voltar ao meu apartamento, dessa vez entraria nele como moradora, oficialmente. Estava muito feliz, muito feliz mesmo. Pesando esses primeiros dias reconheci que não tinha conversado com ninguém a não ser vendedores, garçons, atendentes de loja, gente da portaria e de serviços do hotel, a zeladora do prédio e a mulher simpática que me ajudou no metrô; não fiz amigos e não paquerei ninguém, mas isso não me aborrecia em nada porque tinha certeza de que faria amigos na escola.

18 de junho de 2010

FANTASIA - Parte IV


No dia seguinte me lembrei de experimentar o café da manhã do hotel antes de sair, adorei os doces e o chocolate quente. Voltei à estação do metrô e dessa vez não precisei de ajuda para comprar as passagens, mais ou menos no mesmo horário do dia anterior estava eu, enquanto guardava os fones de ouvido, novamente saindo do buraco do metrô ao lado do castelo da cidade de Saint-German-em-Laye.

FANTASIA - Parte III


Bem perto do hotel tem uma estação de metrô, entrei e tentei aprender como se compra passagens, recebi ajuda de uma francesa morena que, mesmo sem entender bem minha tentativa de falar sua língua, conseguiu, com muito boa vontade, me orientar de forma satisfatória e, pouco antes das dez da manhã eu desligava o discman e descia do trem na cidade, ou bairro, de Saint-German-em-laye.

Saí da estação do metrô bem ao lodo de um castelo lindo, e logo atrás de mim vi uma igreja com a fachada que imita o Parthenon. Atravessei a rua e parei na frente do castelo, ele era um museu de arqueologia, adorei isso! Circulei o castelo vendo-o todo pelo lado de fora e depois dei uma boa caminhada pelos imensos jardins, maravilhosos jardins! que havia ao lado do castelo e de onde, de um ponto extremo, se conseguia ver ao longe a Torre Eifel. Paris estava bem perto.

FANTASIA - Parte II

E assim, de repente, como acender uma luz, eu estava sentada no banco de um avião e tinha uma bolsa marrom clara no colo. Estava vestindo um jeans, uma camiseta amarela, uma jaqueta vermelha e azul e um tênis branco meio gasto. Como adivinharam que eu gosto de cores?

O que me fez lançar um pensamento de censura à voz foi a constatação de que eu estava na classe econômica e não na primeira classe, mas aí pensei que seriam só dez minutos e que de repente para estar na primeira classe poderia ter privado dela uma pessoa que estava vivendo a primeira vida e que viajou durante cinco, seis, sete, oito horas e achei bem justo e razoável estar na classe econômica. Tinha uma revista no banco vazio do meu lado e comecei a folheá-la para esperar os dez minutos antes da aterrissagem. Não senti o mínimo medo porque conclui que não me colocariam em um avião que fosse cair.

FANTASIA - Parte I



A melhor coisa que já me aconteceu na vida foi morrer! Tudo bem que pouco antes teve bastante dor, eu estava doente, meus órgãos não funcionavam mas meu sistema nervoso sim, então sentia dor. E sentia medo, muito medo, um medo constante, pesado e tenso, um pavor quase de gritar. Queria gritar, chorar, implorar como o mais covarde dos condenados a caminho do encontro com o carrasco.

8 de junho de 2010

OS BOLHAS

Eles chegaram quando aqui na minha cidade era uma manhã de sábado e de sol. Vieram em naves imensas e pousaram em todos os lugares, a gente ficou sabendo que chegaram em todos os lugares porque vimos na televisão. Ao contrário do que acontece nos filmes não fizeram suspense, abriram as portas e saíram aparentemente olhando para todos os lados, se movendo rápidos ou lentos e mudando de forma o tempo todo. Pareciam bolsas gelatinosas, eram coloridos e semitransparentes como as gelatinas, pareciam comestíveis, pareciam pacíficos e pareciam não nos ver.

1 de junho de 2010

A PRÓPRIA IMAGEM



Quando nasceu chorou. Era como as outras crianças e se chamava João. Como todos os nenéns chorava, dormia e tomava posse dos seus domínios; o lar de um homem é seu castelo até que ele tenha um filho. Ele, João, o Senhor do Castelo chegou e foi rei, assumiu o trono do colo da mãe com a naturalidade, justa ou não, de toda nobreza.

Na frente de um espelho pela primeira vez chorou desesperado porque viu a menina que gritava tomada pelo horror da impotência diante dos tapas furiosos que recebia em suas pequeninas mãos. João não sabia que era uma menina aquele ser que lhe pareceu um outro ele que chorava dentro do quadrado diante do qual o colocaram. Sentiu, sem ter palavras para formular sentimentos, que o outro ele tinha motivos para chorar que eram muito diferentes da fome, da cólica, do desconforto da frauda molhada ou do desejo de colo, sentiu também que o alívio não viria após ter começado o choro.

Nada entendeu da imagem exceto o horror que trouxe o sentimento todo novo do medo, pensamento sem palavra, agonia sem definição; por isso gritou, para não ser alvo da mesma agressão, para não sentir a mesma dor imaginada e visível na expressão da menina que gritava sem que de sua boquinha aberta saísse qualquer som.

A dor muda aparecia toda vez que olhava no espelho. Parecia aos adultos ser um bebe sem a natural curiosidade dos bebes que comumente se encantam e brincam com a própria imagem diante do espelho. Ele chorava desesperado e chorava ainda algum tempo depois de ter olhado o que para todos os outros era a sua imagem no espelho e para ele era uma menina que sofria, sempre sofria.

Até que pode falar e explicar, e mesmo depois porque poucos acreditavam nele, não pode dizer a ninguém que não era capaz de se ver no espelho, não sabia a própria imagem porque só podia ver a menina crescendo e sofrendo. Viu seu próprio rosto pela primeira vez a primeira vez que a mãe lhe mostrou uma fotografia de um bebe gorducho que ela afirmou ser ele, não tinha porque duvidar da palavra da mãe e aquele rosto de olhos grandes e meio desfocados era a sua lembrança mais antiga de si mesmo.

Assim que foi apresentado ao papel e aos lápis começou a desenhar a menina que sofria no espelho. Os primeiros desenhos eram indecifráveis mas aos poucos dominou melhor a capacidade de traçar linhas retas e curvas e conseguiu descobrir a maneira de segurar o traço para que não fosse além do ponto determinado por sua mente e pelos seus olhos, então os desenhos começaram a se tornar mais claros e os adultos que o cercavam começaram a se tornar mais preocupados.

Pais e professores não entendiam a razão que o levava sempre a desenhar as mesmas imagens tristes, quase sempre o mesmo quarto pobre e sempre e sempre a mesma menina maltrapilha e chorosa. Com o tempo e a maior clareza dos desenhos a suspeita de uma patologia o conduziu ao consultório da psicóloga que tinha sobre a mesa um pote de vidro transparente cheio de pirulitos coloridos. Começou falando mas logo percebeu que o melhor mesmo era se calar ou, melhor ainda, falar de outras coisas, deixar as razões no ar. Acostumou-se com as consultas, acostumou-se com a psicóloga e acostumou-se com saber que nem tudo poderia ser dito.

Um dia desenhou a menina tentando se levantar de uma cama manchada de sangue, a mulher que entrava no quarto tinha a cara de quem gritava muito alto e furiosamente e a menina tinha a dor nos olhos e no corpo que não se firmava nas pernas por onde o sangue escorria. Outro dia desenhou o homem que sob a luz fraca puxava a coberta e começava a se deitar sobre a menina chorosa, não entendeu bem o que via mas de alguma forma percebeu a ligação entre o sangue na cama e o homem sobre o medo da menina. Muitas vezes desenhou esta cena.

À medida que crescia melhor entendia o que via, melhor desenhava as cenas de mudo horror que agora passava horas contemplando; começou a pintar telas e a procurar pela menina que crescia com ele mas que era sempre menor porque sempre fraca, sempre mal nutrida, sempre dolorida e sempre chorosa. Atentando para a fala dos professores nas aulas de história e de geografia tentava localizar lugar e tempo de casa e quarto onde acontecia a tragédia daquela vida marcada pela dor.

Fez sua primeira exposição, vendeu alguns quadros e esperou inutilmente que alguém reconhecesse o rosto da jovem miúda e desarrumada que quase sempre chorava, muitas vezes sozinha num quarto miserável ou no meio de um campo deserto e seco; muitas outras vezes ela chorava diante de uma mulher furiosa ou de um homem nojentamente, asquerosamente libidinoso que a subjugava e a humilhava sem atentar para sua dor e até mesmo divertindo-se com ela. Para que existia, por que teria nascido, se perguntava ele, uma pessoa que sofria tanto assim? E, principalmente, se perguntava ainda, por que a ele, ignorante e impotente, era dado o castigo eterno de presenciar essa dor sem tréguas?

João acompanhava e pensava nas mil possibilidades e explicações do por que de ele poder acompanhar a vida feita de dor da menina cujo nome não sabia, cuja voz não tinha som e cujos gemidos tinham a altura do silêncio que mais dói. Por sentir nela e com ela todas as humilhações e sofrimentos e por procurá-la sem nunca encontrar e sem saber se ela não seria mesmo um outro ele que sangrava em outro tempo, em outro universo, em outra vida, João sofria e tinha seus prazeres, quaisquer que fossem, sempre impedidos ou interrompidos por um espelho em cuja imagem a moça sofria.

Por ela não pôde se casar, não pôde ter filhos, mas pintou muitos quadros, fez muitos desenhos, publicou livros com aquarelas comoventes. Alguém que acompanhasse sua obra poderia ver a menina, a mesma menina, que crescia e deixava de ser criança; depois veria a jovem que se tornava uma mulher madura envelhecida precocemente e; chegando às obras mais recentes, poderia perceber uma mulher que, por tanto ver e sentir a seca do tempo e a seca da própria vida, tornou-se uma velha solitária que, em dois tempos diferentes, ficou parada, aliviada, olhando em seco silêncio, a saírem do casebre cor de terra, dois caixões que levavam os corpos daqueles que deixaram em seu corpo e em sua alma toda a dor de nunca ter tido escolha.

Um dia, artista famoso sobre cujos traços e sobre cujo tema recorrente já muitos trabalhos acadêmicos tinham sido feitos, ele foi encontrado morto, de olhos abertos, sentado diante de um espelho grande. Ninguém soube jamais que a sua última visão foi de uma mulher de longo vestido cinzento caída no chão batido de uma cozinha onde num canto estalava mudamente o fogo de um fogão a lenha. Aquele quadro ele não pode pintar, mas a luz balouçante da chama que ardia no fogão, refletida na pele branca e morta da mulher que nunca sorriu, teria sido uma obra de grande valor artístico e comercial, certamente.

A PRÓPRIA IMAGEM



Quando se colocava diante dele um espelho, ficava muito sério e por vezes chorava. Assim que foi apresentado aos lápis, ao papel e à destreza de seus dedos começou a desenhar e seus desenhos sempre causavam estranheza; eram expressivos demais para uma criança, deprimentes e focados demais para um adulto, e só não chegaram a ser absurdos demais para um velho porque morreu cedo. Um quarto vazio diferente de Van Gogh, o mesmo quarto e uma criança esfarrapada que chorava, que era violentada, que sofria e que crescia com ele e com suas dores mudas. Quando lhe perguntavam, a resposta nunca variava e repetia-se como se pudesse ser verdade: “É o que vejo quando olho no espelho”.

LENDO UMA FRASE DE KANT

Duas coisas me enchem a alma de crescente admiração e respeito, quanto mais intensa e freqüentemente o pensamento delas se ocupa: o céu estrelado sobre mim e a lei moral dentro de mim.”

          Kant está, nessa frase, maravilhando-se com duas miragens. Nenhuma das duas coisas existem realmente ou existem sempre como nos aparece no momento, vejamos por que: o céu estrelado que vemos é todo um aglomerado de luz, belíssimo sem dúvida, que chega a nós naquele momento. Algumas dessas luzes viajaram centenas de anos, outras viajaram dezenas e, de fato, é possível que nenhuma delas seja nesse momento o que sua fonte nesse momento é; algumas das luzes que vemos pertencem a estrelas que já se apagaram há séculos, portanto, olhar para o céu é mais do que, como alguém já disse, olhar para o passado; é na verdade olhar para diversos passados ao mesmo tempo e para um presente que nunca existiu.

          O fato é que aquilo que vemos quando olhamos para o céu não é absolutamente aquilo que está lá, e não é nem mesmo, pela diferença de distância dos vários corpos celestes com relação a nós, o que um dia lá esteve; quando vemos duas estrelas lado a lado uma delas pode na verdade ter se apagado antes de a outra surgir; ou seja, as duas estrelas que vemos ao mesmo tempo podem não ter existido ao mesmo tempo; e isso certamente pode ser verdade sobre muitas das estrelas que vemos, não sobre apenas duas. Na verdade então, olhar para o céu é olhar para uma mentira.

          Quando eu era criança minha mãe considerava moralmente aceitável e recomendável que os pais batessem nos filhos, apanhei dela várias vezes por conta disso. A lei moral que minha mãe tinha dentro dela naquela época dizia que se deve bater nos filhos sempre que eles se comportam mal. Quando me batia ela não sentia estar violando sua lei moral, pelo contrário, estava me educando e fazendo a sua parte para que eu me tornasse uma pessoa de bem. No entanto, quando tive meu filho, vários anos depois da última surra, minha mãe havia mudado e achava que não se deve bater nos filhos ou em criança nenhuma que esteja sob nossos cuidados. 

          Em todas as vezes que minha mãe me bateu ela sentiu que estava agindo corretamente e de acordo com a moral que tinha dentro de si, mas, se, nas vezes em que meu filho passou as férias com ela, ela tivesse batido nele, então ela teria certamente sentido que estava agindo contra a moral que existia dentro dela naquele momento. Ou seja, a moral dentro de minha mãe mudou com o tempo e, pensando bem a meu respeito, sei que posso achar exemplos de mudanças do mesmo tipo que ocorreram também em mim e acho que o mesmo pode acontecer com muitas pessoas, se não com todas. 

          Tem gente que adora pescar, faz da pesca um esporte, ensina essa paixão para os filhos e sempre que está cansado, estressado ou aborrecido com as muitas atribulações do dia a dia, se encontra oportunidade para isso, a pessoa pega sua vara de pesca, suas iscas, suas roupas adequadas e vai se divertir e relaxar pescando. Nunca passaria pela cabeça dessa pessoa que pescar é ir contra a moral que está dentro dela, não existe isso; a moral que existe dentro dessa pessoa não a impede e nem mesmo sussurra de maneira alguma contra essa sua atividade que é um esporte, um passa-tempo, uma maneira de relaxar e desestressar. 

          A moral que tenho dentro de mim jamais me permitiria pescar a não ser que eu estivesse em situação limite, prestes a morrer de fome ou a ver alguém morrer de fome e sem outra possibilidade de ação que não fosse essa. Se eu pegasse uma vara e uma isca e jogasse na água para esperar que um peixe agonizante saísse brilhando e se debatendo de dentro d’água a moral que tenho dentro de mim berraria em alto e bom tom que estou cometendo um crime, um assassinato, uma injustiça, um aviltamento, um desrespeito a uma vida. A moral que tenho dentro de mim é diferente da moral que as pessoas que gostam de pescar têm dentro de si, e se pensar bastante tenho certeza de que acharei vários exemplos que provam que a moral que as pessoas têm dentro de si difere de pessoa para pessoa mesmo quando elas são fisicamente e psicologicamente saudáveis e perfeitas.

          Daí que admirar a moral que existe dentro de mim acaba por ser admirar uma mentira tanto quanto admirar o céu estrelado é admirar uma mentira. Essa moral que tenho dentro de mim agora pode não ser a moral ideal, pode não ser a moral correta e eu não tenho como saber disso, é apenas a minha moral e a minha moral desse momento em que estou vivendo agora, não há como saber, em muitos pontos e situações, se é assim que vou sentir necessidade de agir sempre, não dá para saber nem mesmo se é assim que todas as pessoas deveriam agir. Se minha noção de moral, ou a moral que tenho dentro de mim como diz Kant, pode mudar de mim para mim mesma com o tempo e de mim para com as outras pessoas dependendo das situações, então nunca posso ter certeza sobre ela, por que então admirá-la tanto?

          Kant mandou colocar essa frase em seu túmulo, mas é uma frase fraca; ele está na verdade admirado e respeitosamente deslumbrado por duas mentiras... ou por duas miragens.

GUERRA FRATERNAL



A vida é luta. Disso todos sabemos, mas quem vence? Às vezes, nos momentos de maior otimismo, nos sentimos vencedores, outras vezes, quando tudo em nós parece inadequado e ao nosso redor tudo parece insuficiente, sentimos que jamais podemos vencer. Não conhecemos o inimigo, não há inimigo. O inimigo somos nós mesmos, já o dizia Borges.

Mas e quando o inimigo é o outro? Quando esquecemos o primeiro mandamento e o invertemos odiando o próximo como não ousaríamos odiar a nós mesmos? Nesses momentos, como gatos, expomos nossas garras, como cobras envenenamos nossos dentes e nossas línguas, como medusas fixamos nossos olhos e atacamos a nossa imagem ao espelho, estamos nos defendendo. De quê? De quem?

Então a vitória, a derrota é completa. Quanto mais acirrada a luta menor é a chance de haver vitorioso, maiores são os estragos, as ruínas, a poeira de ambos os lados. Poeira que invade os olhos e traz as lágrimas, poeira que invade o corpo e impede a voz, poeira que invade a alma e apaga a luz da razão.

Somos um todo humanidade e qualquer luta, qualquer disputa, qualquer guerra fazemos contra nós mesmos. Se derrubarmos um igual derrubamos a nós mesmos, nos vemos caídos e porque estamos caídos não podemos estender a mão para nós mesmos. Porque estamos caídos não podemos sentir o gosto da vitória. A humilhação. Pior do que estar no chão estendendo a mão por ajuda é estar olhando a si mesmo nessa posição. A vertical torna-se horizontalmente desconfortável e como no vácuo, vácuo da razão, não há em cima, não há embaixo.

A DOR DO OUTRO

          Sinto no peito uma agonia que me impede de viver. A sensação é a mesma do medo, um medo grande, um medo-pavor de um perigo mais que de vida, irrevogável e iminente, apavorante e descomunal. Conferir premindo o peito se bate ainda o coração que parece estar parado, conferir premindo o peito se está ainda lá o próprio peito ou se abriu em seu lugar esse buraco-abismo imenso que sinto me sufocar. É como estar em suspenso no segundo antes do fim de tudo, no segundo antes de pensar que o fim de tudo pode ser alívio, é uma dor localizada bem no centro de mim e que criou raízes que crescem e se espalham finas como os muito finos e sinuosos vasos sanguíneos que se pode ver no branco dos olhos de muito perto olhados, são ramificações quase invisíveis de dor, de vazio e de pavor que se espalham fora e se alongam rapidamente envolvendo tudo que não sou eu mas que é parte de mim.

          Como ervas daninhas que crescem descontroladas essas veias de dor se envolvem em tudo que vejo, em tudo o que se move a meu redor e mesmo nas minhas lembranças e em meus pensamentos. Pessoas que falam comigo não são visíveis se não através da fina teia que se adensa, a imagem do repórter de voz forte e harmoniosa sai do aparelho de televisão quase palpável envolvida nas finíssimas linhas avermelhadas do meu medo-dor e se olho pela janela vejo as casas e os prédios e as lojas e os carros como seres moventes ou estáticos cada vez mais cercados por esse algodão carmim que não se quebra com o movimento e que não se abala com o barulho que faz o meu chão tremer. Todas as minhas lembranças e todas as minhas expectativas de futuro alegre ou triste estão embaçadas de vermelho e tremem no crescer e no adensar-se do meu medo e da minha dor.

          Penso em um ataque cardíaco e esse pensamento, também embrulhado no algodão vermelho-medo não chega ao consciente porque o consciente está todo tomado pela teia, pelo crescer do vazio, pelo som da voz do repórter que me entra pelos poros, pelos olhos, pelas narinas com pouco espaço para o ar. O que o repórter diz é de uma criança violentada e morta e seu dizer cria uma cadeia interminável de crianças violentadas e mortas que se enfileiram em mim e em meio a toda a desesperança e ao terrível olhar que não se lança à vida nunca. Não lamento pela criança só ela sozinha e desgraçada, lamento por todos os que vivem e que viveram, lamento pela vida ela mesma que por vontade ou por acaso se formou tão deformada e que de bela é chamada sem o ser. O buraco que se forma no meu peito se torna um túmulo aberto por onde caem crianças mortas e violentadas em sequência interminável, o buraco é imenso, não tem fundo e nele vão caindo ante meus olhos interiores todas as crianças que um dia viveram e sofreram a violência de um mundo que não pediram para habitar. Junto com elas caem também adultos sem olhos ou sem olhar porque são as vítimas do passado e do presente de todo tipo de guerra, de todo tipo de ódio, de todo tipo de amor.

          Nesse buraco de morte, vazio imenso no meio do meu peito instalado, vão caindo pessoas de todas as cores, de todos os tamanhos, de todas as idades, mortas de todas as formas por todas as forças do homem, dos animais e da natureza amoral, a última a cair serei eu. Arrastados por essas micro-veias que formam uma teia que carrega todas as dores para dentro de mim vamos em fila, todos nós, sombras-zumbis que nasceram e que nascerão em todos os tempos do passado, do presente e do futuro. Nunca tivemos o direito de escolher restar no nada para não doer. São todas as dores de todos os seres vivos que já passaram pelo mundo alguma vez, todas as dores que alguém alguma vez sofreu, em vários fios cor de sangue fresco e corrente; cada dor de cada ser vivo que um dia habitou esse planeta vai se juntar em uma única massa sólida, pesada e vermelha, formada pela teia carmim que envolveu o mundo, que envolveu meu ser-corpo-mente e se adensou. Esse compacto de dor e medo se aproxima violentamente como uma mão fechada e me atinge de repente num soco muito forte dado pela voz harmoniosa que sai da televisão.