14 de abril de 2012

Resposta a uma carta

Em seu blog, esse rapaz postou uma carta a mim, aqui estou postando a resposta. Esse é o link para a carta dele: http://cartaeverso.blogspot.com.br/2012/04/carta-para-divina.html?spref=fb

Prezado Igor,

Sim, Igor, eu afirmo que deus não existe, porque no mundo acontecem desastres naturais, há miséria e crianças que são torturadas ou estupradas. Digo isso porque os que afirmam a existência de deus, como é o caso da nossa amiga Dequinha, afirmam também, incansavelmente, que deus é todo poderoso e que deus é bom. Então sim, eu digo que um deus, se existisse, não poderia ser bom, já que existem pessoas que sofrem (pessoas inocentes que sofrem). Eu questiono a fé sim, sempre tive o hábito de questionar aquilo que não entendo, mas não, Igor, eu não combato a fé sempre, eu combato a fé, e combato com veemência, quando ela tenta se impor a todos, como é o caso das atuais bancadas religiosas que querem colocar a bíblia à frente da Constituição e impor seus dogmas religosos a todos, inclusive àqueles que, como eu, não partilham de suas crenças. ISSO eu combato! E como esses políticos desonestos têm muito apoio, uma forma de combater essa desonestidade é mostrar às pessoas o quanto a fé é irracional, talvez assim eu ajude a conseguir que aqueles políticos desonestos deixem de ter votos e "fieis" suficientes para ameaçar a laicidade do estado.

Sim, eu digo também que não pois não entendo a visão religiosa que desconsidera o outro, mas não estou falando da opinião do outro, estou falando do sofrimento do outro. Eu não entendo alguém agradecer a deus porque passou no vestibular, ou outra trivialidade qualquer, dizer que conseguiu isso porque deus "operou" na sua vida, porque deus é bom e justo, e esquecer totalmente os milhões de pessoas que sofrem horrores terríveis e às quais deus, se existisse, teria obrigatoriamente ignrado. Eu não entendo como é que pessoas boas conseguem ter seu senso de justiça deturpado desse modo. Se meu filho nasceu perfeito (e foi o caso) devo agradecer a deus essa maravilha e esquecer os milhões de mães que tiveram filhos com sérias deficiências físicas e mentais, que perderam seus filhos e pouco tempo porque nasceram com todo tipo de má formação, que têm filhos que nunca deixarão de depender de alguém e que nunca terão uma vida plena e completa. Devo dizer que deus é bom e justo porque o MEU filho é perfeito e dizer um sonoro "foda-se" para os milhões de mães que não tiveram essa graça? Como eu digo sempre: Não sei apreciar a injustiça nem mesmo quando sou favorecida por ela.

Você diz que para você a meta é aprender a conviver com a dúvida e não querer respostas; não sou assim tão conformada. A minha meta é olhar as coisas, questionar e, na medida do possível, buscar respostas. Desculpe dizer, Igor, mas se todos pensassem como você acho que o ser humano não teria nunca descido das árvores ou saído das cavernas. Aceitar a incoerência sem pensar é enterrar a razão, é até mesmo, em princícipio, se negar a usar algo que, pela sua própria crença, o próprio deus deu a você, ou não foi deus quem te deu a inteligência, a capacidade de questionar, a habilidade de pensar?

Desculpe, eu não entendo "fé na incerteza". Não faço ideia do que isso pode significar. Também não entendi esse deus noqual você não acredita. Você descreveu um cavaleiro medieval idealizado e me pergunta se eu gostaria que existisse um deus assim. Isso não faz o menor sentido pra mim. Por que eu acharia bom um deus que usasse uma espada? Um deus que tivesse inimigos? Não entendi.
Você, pelo que diz, acredita em um deus bem fraquinho, relaciona os males e diz "não acredito que deus possa resolver tudo isso". Não entendo, novamente não entendo. Você acredita em um deus que criou tudo isso mas não pode resolver tudo isso? Como uma criança que brinca com o que não conhece e causa acidentes que não tem capacidade de evitar. Como você diz "um deus limitado". Para que serve um deus assim? Na minha opinião para NADA!

Você diz que esse deus se autolimitou, que não somos fantoches de deus, reconheço aqui o argumento do livre-arbítrio. Mas Igor, esse argumento é TÃO fraco! Então um deus ONIPOTENTE não podeia ter criado um planeta sem desastres naturais e seres que tivessem tanto asco de matar e torturar quanto temos de comer bosta? E, sendo ONIPOTENTE não poderia permitir que fôssemos livres sem ter que sofrer e infringir torturas aos nossos semelhantes e aos outros seres que dividem conosco esse planeta? Pelo que eu vejo essa noção de onipotência é muito limitada nas pessoas religiosas, e a ideia de livre-arbítrio é uma desculpa muito da esfarrapada para justificar algo que simplesmente não faz sentido.
Você me pergunta que faço para reparar o mundo. Desculpe mais uma vez, Igor, mas isso não é argumento. Eu não criei esse mundo como ele é, eu não sou onipotente. Eu não tenho, nem eu nem niguém, poder para reparar o mundo. Eu poderia não fazer absolutamente NADA de bom para nenhum ser humano da face da terra e ainda assim isso não justificaria deus. Eu poderia inclusive ser má e ao invés de fazer o bem, trabalhar arduamente para que tudo o que há de ruim fosse ainda pior. Não importa! Ainda assim esse mundo, a maldade que existe nesse mundo (no caso até a que existiria em mim e a que eu praticaria) continuaria servindo como arguento para afirmar que deus não existe e que, se existisse, seria mau e injusto.
Você, como muitos crentes, faz a velha afirmação (ou sugestão) de que "talvez seja o momento de pararmos de culpar a deus pelos nossos erros, pela nossa falta de amor com os outros". Então eu devo começar a expiar pelo meu erro de ter criado os virus e bactérias que causam doenças e mortes? Devo me redimir por ter inventado os terremotos, as enchentes, as secas, os tsunamis? Devo pagar pelo crime de fazer com que a vida no paneta só exista à custa de outra vida? Devo me culpar por ter criado a cadeia alimentar? Devo pedir perdão por possibilitar a existência de mentes deturpadas e doentes capazes de matar, torturar, estuprar, gozar com a dor e o sofrimento do outro? De acordo com você esses são os nossos erros, o que você sugere que a gente faça para corrigi-los?

Você diz que "Não é irreconciliável que eu agradeça a deus pela minha família, e ao mesmo tempo me preocupe com o bem-estar de uma outra família que está sofrendo. Não é impossível que eu agradeça a deus por ter dois braços e duas pernas e possa caminhar, e ao mesmo tempo lute por um mundo com acessibilidade para todos." Eu respondo: Não, não é irreconcilável, é apenas ilógico e, desculpe dizer, soa muito egoista, pelo menos pra mim. Não acho que alguém precisa agradecer a deus pelo que tem para ajudar aqueles que não têm. Pelo contrário, se pensar que o que tenho não me foi dado por nenhum deus injusto, que escolheu a mim para presentear e deixou que alguém muito mais merecedor de presente do que eu ficasse sem nada, fica mais fácil não me achar um "escolhido" e alguém com um direito que não pode ser de todo mundo. Então, sem essa prepotência, posso olhar para o outro como igual, até como superior porque merece mais do que eu, e posso ajudá-lo não para me sentir merecedora de um paraíso pós morte, mas apenas porque é o certo a se fazer.

Não, Igor, eu não quero uma resposta para o sofrimento, para a morte, para as catástrofes naturais, para por que o homem morre. Eu acho que VOCÊ deveria querer! Acho que, se eu acreditasse que deus existe, então sim, eu ia querer uma resposta. Mas, para mim, deus não existe, então já tenho a minha resposta. As perguntas que faço, da forma que as faço, só são viáveis para quem acredita que deus existe. Na ausência de deus, acabam-se as perguntas feitas dessa forma; na ausência de deus, podemos nos voltar para as perguntas deforma científica, e podemos procurar as respostas para elas e a solução para os problemas, olhando para as coisas, pesquisando, testando, experimentando, fazendo ciência.

Você diz que aprende todos os dias a conviver com a incerteza, mas será mesmo que você não busca respostas para suas dúvidas? O que vejo e percebo normalmente é que as pessoas procuram respostas para as dúvidas que têm APENAS se e quando essas dúvidas não tocam na religião, se tocarem então elas param, recusam-se a pensar, fecham teimosamente a mente e "jogam toda a razão pra debaixo do tapete". É por isso que nunca partilho da opinião de muitos ateus radicais de que os crentes são burros, isso não é verdade, de forma nenhuma, pessoas são burras ou não independente de ser crentes ou ateias; muitos crentes são extremamente inteligentes, apenas se recusam a usar para com a religião a mesma intelgência e os mesmos critérios racionais que usam para outros aspectos da vida.

Bem, para terminar, eu não tenho fé, mas acredito que, se os crentes não se deixarem levar pelos "abanadores de bíblia" fundamentalistas, talvez, a gente possa sim construir um mundo mais ético, mais justo, mais tolerante, e sim, melhor de se viver.

Um abraço,

Divina