22 de setembro de 2012

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No céu claro, poucas nuvens e um dia quase em ocaso, um ponto de luz surge quase invisível, vai aumentando até se tornar uma pequena estrela, ou algo como tal. Com poucas pessoas habituadas a olhar para o céu à procura de estelas e menos pessoas ainda a fazer isso numa hora que, se bem que próxima da noite, ainda é chamada dia, o fato é que ninguém parece ter visto a pequena estrela surgir. Mas ela “caminhou” pelo céu em linha mais ou menos reta e desapareceu por trás de um pequeno bosque rústico e ressequido que se via entre a pedra chamada Pequeno Monte e o mar com seu porto agitado e suas construções mal erguidas e mal equilibradas.

Passado pouco mais do que o tempo que o menino demorou para encontrar a concha raiada mais bonita na pequena faixa de areia entre o muro e a água, saiu da mata como quem volta de ir atender às necessidades do corpo um homem alto, magro e de aparência tão comum que conseguiu passar mais despercebido do que a estrela que ninguém viu. Mais sim, porque a estrela, se alguém tivesse olhado para o céu naquele momento, teria possivelmente chamado a atenção pelo menos a ponto de fazer com que o observador a acompanhasse com os olhos até que ela se escondesse atrás da mata, e o homem que de lá saiu não foi olhado com mais atenção do que qualquer outra parte costumeira da paisagem e ainda assim só por quem estava com o rosto voltado para aquele lado no momento em que ele saiu da mata. Ninguém olhou duas vezes, ninguém registrou sua aparição no consciente, ninguém acompanhou seus passos com os olhos e, mais ainda, ninguém associou sua aparição à aparente queda da estrela que não viram.

 O homem sentou-se sobre os destroços do que antes havia sido um pequeno barco e agora era um esqueleto emborcado de madeira apodrecida e, com o rosto comum e ignorado voltado para o Grande Sol e, voltada para o Pequeno Sol, as costas de um casaco que talvez tivesse sido verde um dia, provavelmente antes do nascimento do homem de idade indefinida que o vestia, ficou olhando para o mar que perdia seu tom verde intenso e tornava-se cada vez mais chumbo à medida que o dia se despedia e o Pequeno Sol, com sua luz fraca e distante substituía o Grande Sol que se despedia brilhando vermelho e forte no horizonte de água.

Pessoas falavam alto enquanto arrastavam barcos que vinham ou iam até os cinco navios ancorados antes da linha do horizonte. Crianças sorriam, corriam e gritavam molhando os pés nas ondas ou cavando pegadas disformes na areia. Homens silenciosos seguravam varas de pesca ou cosiam redes. E, enquanto essa vida acontecia, o homem quase invisível, sem voltar o rosto e com os olhos ainda fixos no horizonte onde o vermelho do Grande Sol se tornava cada vez mais rosado, olhava, ouvia, invadia sem ser notado a mente de todas as pessoas e aprendia sua língua, seus medos e suas vidas. Sem se fazer notar o homem quase invisível aprendia a história de cada pessoa e apreendia de cada mente o que cada corpo sabia.

Quando o homem velho que tinha uma dor permanente no lado direito das costas se levantou num surdo gemido depois de dar o último ponto na rede que cosia, o homem quase invisível sabia como era uma dor que não desaparecia nunca e sabia como costurar uma rede. Quando o menino que queria ser curandeiro atendeu ao chamado do irmão menor que a mãe mandou buscá-lo e saiu correndo equilibrado na mureta que chegava até um caminho estreito quase invisível daquele ponto da praia, o homem quase invisível sabia como chegar até a casa humilde e em que ponto da mesa de madeira de convés se sentar para comer o peixe e o pão que a mãe preparara com olhos tristes pelas lágrimas que tentava esconder do marido doente que se consumia no quarto pequeno e escuro de onde não podia sair enquanto o filho não aprendesse o suficiente para curá-lo.

Mais tarde, quando já não havia vestígio do Grande Sol no horizonte e o Pequeno Sol já estava alto o suficiente para banhar toda a paisagem no chumbo de sua luz, o porto ficou deserto de crianças e pescadores. Então começaram a chegar as prostitutas e os marinheiros bêbados, e o homem quase invisível aprendeu novas e obscenas palavras na língua rude que aprendera ao chegar, e aprendeu as línguas diferentes nas quais pensavam três grupos de marinheiros que tinham histórias diferentes, outros medos, outras lembranças e vidas que não começaram nesse porto. Com os marinheiros o homem quase invisível aprendeu o que é saudade e como se fazer forte para que ninguém visse em seus olhos ou ouvisse em sua voz o medo que todos tinham.

Quando já amanhecera há muitas horas, quando os marinheiros e as prostitutas tinham desparecido em seus navios e seus cubículos cheirando a perfume barato, quando crianças voltaram a brincar e depois correram para casa em busca do almoço, quando as conversas dos velhos se encheram de silêncios e o calor os expulsou do cais, o homem quase invisível se levantou e sem ser notado, como quem sai para resolver as urgências do corpo, saiu caminhando por onde viera na tarde anterior e entrou na mata. Ninguém sentiu sua falta, ninguém se lembrou de que ele estivera sentado, imóvel, por tantas horas nesse escombro de barco emborcado e, mais ainda, ninguém sequer se perguntaria como conseguira ficar imóvel durante tantas horas.

Depois do tempo que uma mulher se demorou para atravessar, procurando pela minguada sombra das construções mal erguidas e mal equilibradas, desde a viela quase invisível por onde o menino que queria ser curandeiro e seu irmão desaparecera até a porta semiaberta da última casa antes da curta rua que saia no matagal por onde o homem quase invisível desaparecera, surgiu uma pequena estrela que ninguém viu porque nessa hora o Grande Sol vai tão alto e queima tão vermelho que ninguém sente desejos de olhar para cima.

A pequena estrela subiu numa linha mais ou menos reta e desapareceu depois de diminuir ainda mais seu tamanho que já não era grande. Como ninguém a viu e ninguém se lembrava do homem que estivera sentado sobre o esqueleto morto de um barco olhando o horizonte ninguém associou o desaparecimento do homem ao aparecimento da estrela e associaram menos ainda - se é que é possível ser menos do que nada - o desaparecimento da estrela com o fato de o homem que entrou no mato como quem ia apenas aliviar o corpo não ter voltado. O esqueleto daquilo que um dia fora um barco continuou abandonado até que o Grande Sol se aproximou da linha do horizonte, as crianças voltaram a brincar na praia e duas meninas usaram as madeiras apodrecidas para secar sobre elas as conchas mais bonitas que tinham encontrado na areia.