24 de dezembro de 2013

RESPOSTA AO TEXTO SOBRE A PARADA GAY, DE DOM ODILO SCHERER

O senhor Dom Odílio reclama das “provocações e ofensas ostensivas à comunidade católica e cristã” que, segundo ele aconteceram durante a parada gay. Eu digo que gostaria muitíssimo que tivesse alguém tão importante quanto ele, e tão indignado quanto, defendendo a comunidade LGBT das provocações e ofensas ostensivas (sem aspas) da comunidade católica e cristã que acontecem durante o ano todo, todos os anos e ao longo de muitas décadas.

Ele fala ainda das “práticas que a moral cristã desaprova e que os próprios santos desaprovariam também”, mas parece que não se importa muito com a prática do preconceito, da falta de respeito aos direitos civis e de cidadania, da incitação à violência e ao crime que a comunidade católica e cristã tem perpetuado contra milhões de seres humanos, contrariando o amor que, segundo eles mesmos, Jesus Cristo pregou e defendeu. Dom Odílio diz que a tela que retrata São Sebastião “não pode” ser usada nesses eventos; eu pergunto: Por que não pode? Se usam com frequência o próprio demônio e o inferno para criminalizar os homossexuais, se usam até mesmo Hitler para comparar o amor gay com o horror praticado por Hitler (isso sim, para mim é um crime!), por que querem mais respeito do que dão?

Dom Odílio diz ainda que uma vida sexual regrada e digna é o que pode salvar da AIDS, concordando, de certa forma, com o trecho que cita provavelmente alguma faixa, cartaz ou grito de ordem que viu ou ouviu da parada gay: “Nem santo salva do vírus da AIDS”, com isso ele está demonstrando claramente seu preconceito, a intolerância da igreja e da religião que representa, além da própria ignorância. Ele julga, de forma malevolamente preconceituosa, que TODOS os homossexuais levam vidas “desregradas e indignas” e por isso merecem ser contaminados pela AIDS, ele omite (provavelmente de propósito) o fato de que muitas pessoas que são contaminadas pela AIDS não levam “vida sexual desregrada” e não são gays e, principalmente, ele se julga no direito de dizer o que é e o que não é uma vida sexual regrada e digna; ele se julga no direito de dizer como as pessoas devem levar suas vidas! Pois que o faça na sua igreja para os seus fieis, mas que NÃO venha impor suas regras a todas as pessoas!

Dom Odílio diz que “O uso desrespeitoso da imagem dos santos populares é uma ofensa aos próprios santos e ofende também os sentimentos religiosos do povo”. E o uso dos cartazes com dizeres de “Vocês vão para o Inferno!” e outras frasezinhas tão “amorosas” quanto que os cristãos ficam segurando ao lado da passagem da alegria da parada gay, não ofende ninguém? E os discursos dos papas, bispos e padres sobre a condenação e a “necessidade” de que se tire os direitos fundamentais de cidadania das pessoas LGBT, não ofendem ninguém? Sim, senhor Odílio ninguém gosta de ser vilipendiado nos seus direitos, nos seus sentimentos, na sua essência, na sua pessoa, na sua humanidade!

E o senhor Cardeal reclama do uso “desrespeitoso” da frase “amai-vos uns aos outros” porque, segundo ele, essa frase não pode referir-se a “qualquer forma de amor”, por que ele coloca a palavra amor entre aspas eu já imagino: preconceito, homofobia, ignorância, intolerância, maldade pura. Acho que seria assim que os líderes judeus da época grafariam a palavra amor caso fossem escrever um texto a respeito do amor de Jesus por Madalena.

E ele fala desse amor que colocou entre aspas como “práticas contrárias ao ensinamento do próprio Jesus”, será que esse senhor não sabe mesmo que toda a sua igreja e a riqueza que ela possui tem por alicerce uma longa tradição de práticas contrárias ao ensinamento do próprio Jesus? Mostrar ignorância sobre a própria instituição que defende é uma vergonha que os líderes religiosos decididamente não são capazes de sentir.

Nessa altura do texto, Dom Odílio relaciona fatos para comprovar seu argumento de que a igreja católica não é homofóbica. Fica bastante parecido com o chavãozinho muito usado pelos evangélicos “Amamos o pecador, odiamos o pecado”. Tão bonitinho! Só que ele, convenientemente, não cita os muitos discursos proferidos pelo papa e por outros representantes da igreja condenando a homossexualidade como sendo “opção”, “pecado”, “abominação” e, ao mesmo tempo, condenando o uso da camisinha com o argumento MENTIROSO de que ela não evita AIDS.

Quando Dom Odílio diz que “Quem apela para a Constituição Nacional para afirmar e defender seus direitos, não deve esquecer que a mesma Constituição garante o respeito aos direitos dos outros” ele deveria pensar em usar essa mesma frase no sentido inverso, mas parece que isso não lhe ocorreu porque o direito à manifestação do preconceito deve ter prioridade sobre o direito à cidadania plena, pelo menos na visão desse senhor. E quando ele afirma “respeitamos a livre manifestação de quem pensa diversamente de nós” o que fica me parecendo é que o sentido que ele dá ao termo “livre manifestação” é diferente do meu, e do que as Constituições realmente democráticas defenderiam, afinal, o direito a propagar o preconceito e a cassação dos direitos fundamentais de cidadãos não deveria fazer parte dos “direitos” de NENHUMA instituição, por mais “sagradas” que sejam.

E ele diz que “A Igreja Católica afirma que as práticas homossexuais vão contra a natureza”; eu pergunto: Isso é ignorância MESMO ou simplesmente omissão conveniente? Como assim “contra a natureza”? Será que esse senhor preconceituoso e homofóbico sabe mesmo tão pouco sobre a natureza a ponto de ignorar que a homossexualidade está presente na natureza desde sempre e ocorre entre os animais assim como entre os seres humanos, e que homossexualidade NÃO é opção? Eu ouso computar essa alegação não à burrice, mas a uma pura e simples maldade, tanto desse senhor quanto da instituição que ele representa.

Dom Odílio continua num arrazoado pseudocientífico tentando justificar seus preconceitos, sua ignorância proposital e sua maldade institucional com alegações que querem convencer, contra todas as evidências, de que a “abominação” bíblica encontra qualquer respaldo na realidade. E ele ainda tem a AUDÁCIA de dar a esse discurso tosco uma aparência de preocupação social. Esse tipo de discurso fica suavemente qualificado, na minha opinião, quando o definimos como nojento.

Finalmente ele se alia (de novo) aos demais cristãos, incluindo, imagino, os que portam os cartazes de ódio nas passeatas gay, quando diz que “As ofensas dirigidas não só à Igreja Católica, mas a tantos outros grupos cristãos e tradições religiosas não são construtivas”. Podem até não ser construtivas (embora eu ache que são!), mas certamente não são TÃO destrutivas quanto têm sido o ódio e o preconceito semeados, incentivados ou simplesmente ignorados pela sua religião e pelos “tantos outros grupos cristãos e tradições religiosas” de que o senhor fala e aos quais o senhor se alia.

Para variar, como não podia deixar de ser, ele termina seu texto bem no estilo “amamos o pecador, mas odiamos o pecado” conclamando os homossexuais a “viver com dignidade”. Eu o convido, Dom Odílio, a REALMENTE viver com dignidade, respeitando o outro, seus direitos, seu amor, sua vida, sua essência. Enquanto não fizer isso, só tenho uma coisa a dizer: O senhor deveria se envergonhar!

Eis o texto que estou criticando:

PARADA GAY: RESPEITAR E SER RESPEITADO
Dom Odilo Scherer

Eu não queria escrever sobre esse assunto; mas diante das provocações e ofensas ostensivas à comunidade católica e cristã, durante a Parada Gay deste último domingo, não posso deixar de me manifestar em defesa das pessoas que tiveram seus sentimentos e convicções religiosas, seus símbolos e convicções de fé ultrajados.

Ficamos entristecidos quando vemos usados com deboche imagens de santos, deliberadamente associados a práticas que a moral cristã desaprova e que os próprios santos desaprovariam também. Histórias romanceadas ou fantasias criadas para fazer filmes sobre santos e personalidades que honraram a fé cristã não podem servir de base para associá-los a práticas alheias ao seu testemunho de vida. São Sebastião foi um mártir dos inícios do Cristianismo; a tela produzida por um artista cerca de 15 séculos após a vida do santo, não pode ser usada para passar uma suposta identidade homossexual do corajoso mártir. Por que não falar, antes, que ele preferiu heroicamente sofrer as torturas e a morte a ultrajar o bom nome e a dignidade de cristão e filho de Deus?!

“Nem santo salva do vírus da AIDS”. Pois é verdade. O que pode salvar mesmo é uma vida sexual regrada e digna. É o que a Igreja defende e convida todos a fazer. O uso desrespeitoso da imagem dos santos populares é uma ofensa aos próprios santos, que viveram dignamente; e ofende também os sentimentos religiosos do povo. Ninguém gosta de ver vilipendiados os símbolos e imagens de sua fé e seus sentimentos e convicções religiosas. Da mesma forma, também é lamentável o uso desrespeitoso da Sagrada Escritura e das palavras de Jesus – “amai-vos uns aos outros” – como se ele justificasse, aprovasse e incentivasse qualquer forma de “amor”; o “mandamento novo” foi instrumentalizado para justificar práticas contrárias ao ensinamento do próprio Jesus.

A Igreja católica refuta a acusação de “homofóbica”. Investiguem-se os fatos de violência contra homossexuais, para ver se estão relacionados com grupos religiosos católicos. A Igreja Católica desaprova a violência contra quem quer que seja; não apoia, não incentiva e não justifica a violência contra homossexuais. E na história da luta contra o vírus HIV, a Igreja foi pioneira no acolhimento e tratamento de soro-positivos, sem questionar suas opções sexuais; muitos deles são homossexuais e todos são acolhidos com profundo respeito. Grande parte das estruturas de tratamento de aidéticos está ligada à Igreja. Mas ela ensina e defende que a melhor forma de prevenção contra as doenças sexualmente transmissíveis é uma vida sexual regrada e digna.

Quem apela para a Constituição Nacional para afirmar e defender seus direitos, não deve esquecer que a mesma Constituição garante o respeito aos direitos dos outros, aos seus símbolos e organizações religiosas. Quem luta por reconhecimento e respeito, deve aprender a respeitar. Como cristãos, respeitamos a livre manifestação de quem pensa diversamente de nós. Mas o respeito às nossas convicções de fé e moral, às organizações religiosas, símbolos e textos sagrados, é a contrapartida que se requer.

A Igreja Católica tem suas convicções e fala delas abertamente, usando do direito de liberdade de pensamento e de expressão. Embora respeitando as pessoas homossexuais e procurando acolhê-las e tratá-las com respeito, compreensão e caridade, ela afirma que as práticas homossexuais vão contra a natureza; essa não errou ao moldar o ser humano como homem e mulher. Afirma ainda que a sexualidade não depende de “opção”, mas é um fato de natureza e dom de Deus, com um significado próprio, que precisa ser reconhecido, acolhido e vivido coerentemente pelo homem e pela mulher.

Causa preocupação a crescente ambiguidade e confusão em relação à identidade sexual, que vai tomando conta da cultura. Antes de ser um problema moral, é um problema antropológico, que merece uma séria reflexão, em vez de um tratamento superficial e debochado, sob a pressão de organizações interessadas em impor a todos um determinado pensamento sobre a identidade do ser humano. Mais do que nunca, hoje todos concordam que o desrespeito às leis da natureza biológica dos seres introduz neles a desordem e o descontrole nos ecossistemas; produz doenças e desastres ambientais e compromete o futuro e a sustentabilidade da vida. Ora, não seria o caso de fazer semelhante raciocínio, quando se trata das leis inerentes à natureza e à identidade do ser humano? Ignorar e desrespeitar o significado profundo da condição humana não terá consequências? Será sustentável para o futuro da civilização e da humanidade?

As ofensas dirigidas não só à Igreja Católica, mas a tantos outros grupos cristãos e tradições religiosas não são construtivas e não fazem bem aos próprios homossexuais, criando condições para aumentar o fosso da incompreensão e do preconceito contra eles. E não é isso que a Igreja Católica deseja para eles, pois também os ama e tem uma boa nova para eles; e são filhos muito amados pelo Pai do céu, que os chama a viver com dignidade e em paz consigo mesmos e com os outros.

Publicado em O SÃO PAULO, ed. de 28.06.2011
Card. Odilo P. Scherer
Arcebispo de São Paulo

23 de novembro de 2013

DE TUDO QUE ESQUECI – TRÊS

Eu esqueci que tirei um ramo verde de um arbusto brilhante e que depois de descascar cuidadosamente sua redondeza e remover suas folhas tenras o banhei em lágrimas e mergulhei-o nos meus sonhos para transformá-lo em uma varinha mágica. Deixei passar três pesadelos para maturar a magia. Testei a varinha na escuridão e transformei um besouro num sapo e um grilo em avião. Levei a varinha pra escola escondida nas páginas brancas do meu caderno de poemas e usei-a para desempedrar os olhos da professora de geografia a ponto de ela perceber que seus alunos mereciam um pouco de amor e querer mostrar um pedaço do mundo que não estava no atlas para que a turma toda pudesse fritar batatas unida e mostrar à escola inteira que na Europa pessoas felizes costumam comer batatas ao sol. Depois teve o dia do eclipse e precisei jogar a varinha mágica bem alto para que o dia tivesse sol novamente e ela desapareceu atrás daquela nuvem que tinha a forma de um caixãozinho de defunto com tons de cor de rosa.

DE TUDO QUE ESQUECI – DOIS

Eu esqueci que quando estava andando pela mata, ouvi um pio sonoro e vi que no alto da árvore sem flores e sem frutos havia um ninho pequeno e marrom. Eu quis ver o filhote que piava e jurei que não o machucaria, mas parece que a árvore não acreditou e, enquanto subia pelo tronco áspero, os espinhos furaram meus olhos. Então, sabendo que eu dizia a verdade, a borboleta dourada que me acompanhava invisível se mostrou e me levou suave até o ninho onde pude ver o pequeno filhote que acabava de sair do minúsculo ovo pintado de verde claro. Depois a borboleta dourada me deu metade de suas asas para substituir a retina perdida dos meus olhos inúteis. É por isso que muitas vezes choro quando olho para a vida que vejo tão frágil, tão triste, tão abandonada. Não entendo meu próprio choro porque não consigo lembrar que um dia conheci uma borboleta dourada e que em meus olhos estão uma parte de suas asas.

DE TUDO QUE ESQUECI – UM

Eu esqueci que quando estava deitada na grama olhando o céu veio um menino ruivo e me perguntou se eu queria conhecer outro mundo. Aceitei o convite e ele me avisou para segurar bem o pescoço porque naquele mundo era comum que as pessoas perdessem a cabeça e quando isso acontecia não havia como recuperá-la. Segurei bem mas da mesma maneira que não conseguia evitar quebrar o ovinho minúsculo que aquele japonês cuidadoso e gentil me dava cada vez que ia à granja com meu pai, não consegui perceber de que maneira nem saber o momento exato em que aconteceu. Perdi a cabeça e voltei para o meu próprio mundo com uma cabeça que o menino ruivo encontrou em um depósito de achados e perdidos e me deu porque foi a que melhor encaixou, mas não muito bem, no meu pescoço. É ela que ainda uso, não é minha e por isso está sempre pensando e agindo de forma independente e contrária ao modo como eu acho razoável que uma cabeça minha se comporte. Às vezes sinto que quem deixou essa cabeça na prateleira daquele depósito sabia o que estava fazendo. Não era para ela ser usada por ninguém.

15 de junho de 2013

A DIGNIDADE DA DOR

Trabalho de Literatura: Poesia Africana

RESUMO

O que me tocou mais fundo no estudo da poesia africana foi a dor. Vi, através da lupa do texto poético, uma dor que minha pele branca mal consegue imaginar. Conhecer a terrível história, ter lido Navio Negreiro, ver e ouvir mil exemplos de preconceito claro ou velado é suficiente para se tomar partido, mas não para saber o fundo dessa dor. “Exprimir o real é árduo” e percebê-lo na leitura de quem o viveu é avassalador. Os poemas que doem me jogaram contra a parede, expuseram minha impotência, minha incapacidade de dizer. Sofri uma dor que de nada vale se não for gritada. Esse trabalho é meu grito.


A DIGNIDADE DA DOR

Quando estudante li sobre a conquista da África, da Ásia e das Américas, nos textos escolares. Lá, essas conquistas vinham caracterizadas como uma série de acontecimentos que abrem na história da Europa um novo período chamado Renascimento, ou Grandes Navegações. É o fim da Idade das Trevas, do domínio totalitarista da Igreja que queimava pessoas em praça pública. É o homem descobrindo que é capaz de feitos que essa Igreja afirmava impossíveis, é a superação do medo do desconhecido, o heroísmo da ousadia de ir “além da Taprobana”. É o Antropocentrismo, o homem como centro do universo. Eu ficava tocada com tal audácia e heroísmo.
No princípio o outro lado da história não me foi dado nem mesmo à suspeita, não tive informações suficientes para ver e sentir que para outras pessoas (porque sim, eram pessoas!), para as pessoas dos povos submetidos e exterminados, esse período significa o fim da história. O fim da história de seu povo, o fim da história de seus antepassados; o fim da história da sua terra, da sua casa, de si mesmo como ser humano.
Eu e os demais alunos, com nossos livros escolares abertos sobre as carteiras, não conseguimos ter ideia de que estávamos lendo uma história cujo sentido consiste no triunfo do poderoso saqueador, na espoliação da terra e no enterro real e simbólico das suas vítimas. Hoje me pergunto qual dos dois enterros é o simbólico e qual é o real. Aquele que coloca sob a terra escavada o cadáver de uma pessoa torturada e assassinada como animal de carga ou aquele que coloca sob uma espessa camada de indiferença, desprezo e invisibilidade toda uma civilização?
“O Branco matou meu pai
Pois meu pai era ativo
O Branco violou minha mãe
Pois minha mãe era bela
O Branco dobrou meu irmão sob o
sol das estradas
Pois meu irmão era forte
Depois o Branco virou-se pra mim
Suas mãos vermelhas de sangue
cuspiu Netro seu desdém no meu
rosto

Doeu em mim descobrir a dor do negro, descobrir que “o negro sofre em seu corpo diferentemente do Branco” porque ele sofre por ser. Sua dor tem a dignidade profundamente melancólica do injustiçado impotente. O profundo da sua dor está na aparência da qual ele não tem como fugir, no visível que não se esconde, que não é crime mas pelo qual o negro responde todos os dias como se por crime fosse. A dor que o negro leva no corpo é tão digna que me põe humilde e me envergonha porque sou parte dessa dor e não me sei capaz de tanta dignidade.

“Aqueles que não inventaram nem
a pólvora nem a bússola
Aqueles que nunca souberam domi-
nar o vapor nem a eletricidade
Aqueles que não exploraram nem
os mares nem o céu
Mas conheceram em seus mínimos re-
conditos o país do sofrimento
Aqueles cujas únicas viagens foram
de desarraigamento
Aqueles que se humilharam
Aqueles que foram domesticados e
cristianizados
Aqueles a quem se inoculou a bas-
tardia...”

Graças à maldade pura do branco, os negros se tornaram aqueles que “conheceram em seus mínimos recônditos o país do sofrimento”. A ganância, a cegueira e a hipocrisia do branco disseram ao negro que “O negro é um animal, o negro é ruim, o negro é malvado, o negro é feio”. O branco negou ao negro o direito de ser humano e o espancou e o matou por esse crime de ser negro. A pele do negro brilhou de suor e sangue e a voz do negro foi calada porque não lhe era permitido ser gente.

O sol golpeia as costas do negro
e rios de suor ficam correndo.
Ardor!
O machim golpeia o pau
e rios de seiva escorrendo.
Ardor!
Os olhos do branco
como chicotes
ferem o mato que está gritando...
 (Tenreiro)

E com espanto e susto o negro se descobre coisa “me descubro objeto no meio de outros objetos”. O negro descobre que existem homens superiores e homens inferiores, e que ele, negro, não é nenhum dos dois: “Sentimento de inferioridade? Não, sentimento de inexistência”. Tudo que o negro aprende - pelo chicote, pelo chumbo, pelo ferro em brasa e pela humilhação da palavra cuspida - o branco é quem ensina.

GRITO NEGRO
Craveirinha

Eu sou carvão!
E tu arrancas-me brutalmente do chão
e fazes-me tua mina, patrão.

Eu sou carvão!
E tu acendes-me, patrão,
para te servir eternamente como força motriz
mas eternamente não, patrão.

Eu sou carvão
e tenho que arder sim;
queimar tudo com a força da minha combustão.

Eu sou carvão;
tenho que arder na exploração
arder até às cinzas da maldição
arder vivo como alcatrão, meu irmão,
até não ser mais a tua mina, patrão.

Eu sou carvão.
Tenho que arder
Queimar tudo com o fogo da minha combustão.
Sim!
Eu sou o teu carvão, patrão.

E o negro sente dor! O “crime” de ser negro dói na pele; foi condenado a tudo perder, menos a dor. Sua humanidade lhe foi roubada, sua história foi apagada, seus antepassados viraram cinzas e sua casa desmoronou. O negro dói porque foi jogado para fora do direito de ser parte de uma família, foi roubado do acalanto e das histórias de seus avós, do colo de sua mãe, da cumplicidade de seus irmãos. O branco que o tornou coisa não lhe deu chance de sequer falar. Apenas a dor geme, mais ainda por dentro do que por fora. O negro sem voz ficou sem futuro, sem sonho, sem esperança, sem pátria. E cada perda é uma dor.

O CERCADO
 Ana Paula Tavares

De que cor era o meu cinto de missangas, mãe
feito pelas tuas mãos
e fios do teu cabelo
cortado na lua cheia
guardado do cacimbo
no cesto trançado das coisas da avó

Onde está a panela do provérbio, mãe
a das três pernas
e asa partida
que me deste antes das chuvas grandes
no dia do noivado

De que cor era a minha voz, mãe
quando anunciava a manhã junto à cascata
e descia devagarinho pelos dias

Onde está o tempo prometido p'ra viver, mãe
se tudo se guarda e recolhe no tempo da espera
p'ra lá do cercado

Em lugar de sua língua roubada, ao negro foi dada, imposta, outra língua que era a do branco e que não tinha palavras suficientes para dizer a dor. O negro tomou essa língua, tornou-a sua e usou-a para gritar e para levantar alto sua dignidade. Em lugar de seus deuses roubados ao negro foi dado, imposto, um deus que era do branco e que não sabia sua dor. O negro tomou esse deus e esses santos para si, fez de ébano suas imagens e deu a eles os nomes de seus deuses para que esses deuses, sincretizados, levantem alto sua dignidade.

VIGILÂNCIA
Multimati Barnabé João

Este missionário está muito claro por dentro
Anda muito bem como um homem na mata
E tem um sorriso de quem está tudo perfeitamente
E chegou agora de estar no serviço de Jesus da Nazaré
Que é um sócio católico romano e compadre.
Está tudo perfeitamente claro fora deste missionário
Com sol ou com chuva ou com noite
Está tudo perfeitamente claro
Claro!

Só o que está um pouco na confusão
E este verniz raspado com o meu nome completo
Nesta carteira escolar da 4ª. classe adiantada
E eu aqui incomodado com a arma entalada na porta
Não me lembrar de ter estado dentro da pessoa
Que escreveu o meu nome completo no verniz
Nem me lembrar de ter estado fora.

Há com certeza um pormenor que me subtraiu
E que explica haver tantos dentes neste missionário.
Vou sair no cuidado sem virar costas
Acho muito escuro nesta clareza
São muitos dentes todos na mesma pessoa

O branco demorou muito para começar a ouvir o que o negro tentava dizer na sua língua feita de dor e perda - e muitos ainda não ouvem nada - mas aos poucos alguma coisa chegou à sua razão de branco e então “Os cientistas, após muitas reticências, admitiram que o negro era um ser humano”. Essa constatação científica não foi, é claro, o fim da dor porque o branco, quando lhe é conveniente e lucrativo, não costuma se importar muito com o que diz a ciência. Mas foi um progresso porque alguns

LÁGRIMA DE PRETA
Antônio Gedeão

Encontrei uma preta
que estava a chorar,
pedi-lhe uma lágrima
para analisar.

Recolhi a lágrima
com todo o cuidado
num tubo de ensaio
bem esterilizado.

Olhei-a de um lado,
do outro e de frente:
tinha um ar de gota
muito transparente.

Mandei vir os ácidos,
as bases e os sais,
as drogas usadas
em casos que tais.

Ensaiei a frio,
experimentei ao lume,
de todas as vezes
deu-me o que é costume:

Nem sinais de negro,
nem vestígios de ódio.
Água (quase tudo)
e cloreto de sódio.


Quando domina a língua que foi obrigado a aprender e finalmente pode falar, o negro grita poesia e seus poemas doem em mim porque ouço uma pessoa gritando “eu sou gente” quando sei que nunca deveria existir um mundo onde uma pessoa precisasse dizer “eu sou gente”. Ouvir o outro dizer o óbvio com essa dor tão digna e pungente desestrutura tudo que pensei ter aprendido e mostra a mim mesma que minha infância estava lendo a história errada e que meus heróis eram vilões.
A dignidade do negro mostra que “A questão não é ser negro, mas sê-lo diante do Branco”. Eu vejo isso porque vejo o preconceito hoje ainda e aqui a meu lado. E eu tomo partido, mas não posso me aliar completamente porque não posso mudar minha cor. Eu sou o vilão e isso me dói no branco da pele. Queria dizer mais, queria participar mais, queria lutar com mais força ao lado dessa dignidade, mas não posso sentir a dor do negro. Só o que consigo é imaginar, e sei que a imaginação é muito restrita e pobre e que a dor sentida é real. A dor imaginada não consegue ser real e não consegue alcançar a profundidade que só o que é verdadeiro tem. E, quando leio os poemas feitos de dor, a dor que não sou capaz de sentir me toca e me comove porque se transforma em beleza.

KARINGANA UA KARINGANA
José Craveirinha

Este jeito
de contar as nossas coisas
à maneira simples das profecias
― Karingana ua Karingana ―
é que faz o poeta sentir-se gente.

E nem
de outra forma se inventa
o que é propriedade dos poetas
nem em plena vida se transforma
a visão do que parece impossível
em sonho do que vai ser.

― Karingana!








EPÍLOGO

E para terminar esse meu trabalho, grito tímido de uma dor incompleta, desejando que seja uma homenagem a todos os que sofreram e ainda sofrem pelo crime de serem vítimas de quem olha a cor da pele como se esta fosse designativo de humanidade, escolho uma música que conheço há décadas e que nunca consegui ouvir sem chorar:


PAI JOÃO

Pai João na capoeira entoava cantos dos tempos de Zambi
Foi escravo na fazenda, mão e pé dos senhores da Casa Grande
Negro é bicho não é homem, quando o couro come, fica sossegado
Lua cheia, noite clara, nego na senzala vira cão danado
Pai João sentado em toco, cachimbo, marafo, velho curandeiro
Pros soldados nos terreiros conheceu o mais cruel dos cativeiros
Conta do amor de Catarina pelo valente negro Mateus
Sabe o quanto a dor magoa, mesmo assim perdoa todos filhos seus
Pai João então se cala, limpa uma lágrima, estende a mão
Bate asas como um pássaro, desaparece na escuridão.
Pai João então se cala, limpa uma lágrima, estende a mão
Bate asas como um pássaro, desaparece na escuridão.





REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

FERREIRA, Manuel. O discurso no percurso africano I. Lisboa: Plátano Editora, 1989

Vários poemas de: http://eumulherpreta.blogspot.com.br/ - 25/03/2013

Vários poemas de: http://www.antoniomiranda.com.br/poesia_africana/poesia_africana.html - 25 a 28/03/2013

FANON, Franz. “A experiência vivida do negro”. Pele negra, máscaras brancas. RJ, Fator, 1983.

Ruy Maurity – Coleção Sucessos – Som Livre - 1991

26 de janeiro de 2013

O FATOR DEUS


POR QUE SARAMAGO FALA TANTO EM DEUS?

As imagens da Índia, de Angola de Israel e de Nova York relatadas no texto O Fator Deus, como diz o próprio Saramago ”atiram-nos com o horror à cara”. São retratos do mal e desafios a qualquer filosofia que negue sua existência. E esse mal como tal escancarado faz pensar que não foi e não poderá ser jamais respondido o tão conhecido paradoxo de Epicuro; assim citado por David Hume: “As velhas questões de Epicuro continuam ainda sem resposta. Está ela [a divindade] inclinada a impedir o mal, mas não é capaz? Então é impotente. É ela capaz, mas não está inclinada? Então é malévola. É ela simultaneamente capaz e está inclinada? De onde vem então o mal?” (HUME, 2005, p. 102).
Saramago é constantemente acusado de ter uma fixação excessiva pelo tema religião “Não raras vezes, os mais ácidos estudiosos da literatura de Saramago o acusam de ser obsedado pelas questões religiosas”. (SANT’ANNA, 2009, p. 16). Muitos chegam a argumentar que para o ateu assumido que foi Saramago, essa fixação não faz sentido, afinal, por que um ateu teria a religião como tema tão constante quando o que se espera é que, por não acreditar, o ateu simplesmente não a aborde exceto com citações leves quando e se o personagem ou enredo assim o exigir? Mas Saramago, ao contrário do que se esperaria de um ateu, coloca a religião e o próprio Deus como ponto central de várias obras, como acontece em Memorial do Convento. Por quê? se perguntam os leitores e críticos; por que um ateu teria tanto interesse em falar de Deus? Por que teria tanto conhecimento da história do catolicismo e da bíblia? e por que usaria isso como base ou como destaque para suas obras? “Uma obviedade: José Saramago é ateu. [...] O que nos causa espécie [...] é a obsessão com que o tema religioso é constantemente abordado na obra do escritor português” (SANT’ANNA, 2009, p. 41). Não seria esse um indício de que na verdade Saramago acreditava em Deus? Não, não seria. E o texto O Fator Deus é o que talvez melhor explique e melhor contradiga esse estranhamento que chega a sugerir que Saramago seria um teísta com “raiva” de deus e não um ateu “de verdade”.
Sabemos que citações da Bíblia são uma constante na obra de Saramago, “o prototexto bíblico é, geralmente, descontextualizado; desloca-se de seu contexto próximo para agregar-se ao contexto da narrativa” (SANT’ANNA, 2009, p. 66), por conta disso talvez seja produtivo nos determos um pouco nesse livro que o Nobel português mostra conhecer tão bem: A Bíblia é o livro que os adeptos de todas as religiões cristãs costumam usar para provar a existência de Deus. Para os ateus, essa prova não parece muito convincente. “A Bíblia contradiz a moral, contradiz a razão, contradiz a si mesma inúmeras vezes; mas ela é a palavra de Deus, a eterna verdade e “a verdade não pode se contradizer”. Como então o crente na revelação sai desta contradição entre a ideia da revelação como uma verdade divina, harmônica e a suposta revelação real? Somente através de auto-tapeações, somente através dos argumentos mais tolos e falsos, somente através dos piores e mais mentirosos sofismas” (FEUERBACH, 1988, p. 253-254)
As duas outras grandes religiões – judaísmo e islamismo – também têm seus livros sagrados, cada uma das três religiões dá a seu livro o mesmo valor de verdade e despreza muitas afirmações contidas nos outros. Cada um desses três deuses – que é um único Deus mas que não é visto dessa forma – é descrito como bom. Essa divisão, por todos os horrores que fomentou, é um dos maiores males da história da humanidade e não faz jus, portanto, ao que logicamente se esperaria de um Deus bom, “apenas está por saber quem há de perdoar a Deus ou castigá-lo” (MC: 177).
A aversão à intolerância religiosa é marca tanto no Saramago escritor quanto no Saramago homem, “A literatura de José Saramago é uma declaração contundente contra todos os tipos de intolerância” (SANT’ANNA, 2009, p. 167), daí que é comum ver críticos como que “tirando o peso do ateísmo” das costas do grande narrador português: “o ateísmo de José Saramago, mais que uma declaração acerca da inexistência de Deus, revela seu inconformismo diante da sociedade injusta que insiste em negar, pelos seus atos, a existência de seu divino criador” (SANT’ANNA, 2009, p. 53). Essa tentativa não faz muito sentido uma vez que indignar-se com a intolerância não torna ninguém religioso. Ou ateu.
O tempo em que se passa o enredo de Memorial do Convento é fator aparentemente escolhido com muita propriedade para o propósito crítico de Saramago, “Em Memorial do Convento, Saramago retrata a presença agressiva e inibidora do Santo Ofício em Portugal, em plena organização e atuação” (SANT’ANNA, 2009, p. 199). Essa era a época em que o Santo Ofício, em nome de Deus, vigiava os movimentos e pensamentos de todos e explorava o pobre como argamassa na construção de sua grandeza, um tempo em que ateus como Saramago se calavam, “porventura um deles pensando secretamente que o mundo está louco desde que nasceu” (MC: 28), ou queimavam nas fogueiras dos espetaculares autos de fé. “ouvido e cheiro da solene cerimônia, tão levantadeira das almas, ato tão de fé, a procissão compassada, a descansada leitura das sentenças, as descaídas figuras dos condenados, as lastimosas vozes, o cheiro da carne estalando quando lhe chegam as labaredas e vai pingando para as brasas a pouca gordura que sobejou dos cárceres” (MC: 47)
O tempo, o enredo, o clero mostrado no Memorial confirmam que embora as igrejas costumem se eximir de qualquer acusação de intolerância atribuindo os desmandos a membros isolados que, segundo dizem, não seriam “verdadeiros fiéis” o fato é que a história das religiões é escrita com muito sangue, “As Cruzadas, a Inquisição, a imposição da conversão forçada dos povos [...]? não é uma simplificação filosófica [...] o fato de atribuí-los simplesmente a uns homens que os cometeram em seu nome, ao passo que ela ficaria, continuaria sendo a Igreja infalível, continuaria sendo a Igreja pura?” (LERNER, G. (em) Deus existe?, 2009, p. 48). O que Saramago vê é que Deus estaria coberto desse sangue, caso existisse, “Domingo é o dia do Senhor, verdade trivial, porque dele são todos os dias, e a nós nos vêm gastando os dias se em nome do mesmo Senhor não nos gastaram mais depressa as labaredas por duplicada violência, que é a de me queimarem quando por minha razão e vontade recusei ao dito Senhor ossos e carne, e o espírito que me sustenta o corpo, filho de mim e de mim, cópula direta de mim comigo mesmo, infuso do mundo sobre o rosto escondido, igual ao mostrado e por isso ignorado. No entanto, é preciso morrer” (MC: p. 52).
Saramago não exime de culpa o povo, o homem comum, “nunca se chegará a saber de que mais gostam os moradores, se disto, se das touradas, mesmo quando só estas se usarem” (MC: p. 480). Mas, através de Blimunda e de Baltasar, talvez também nos aponte exceções, afinal, esses personagens estão presentes e não fazem nenhum gesto de protesto, mas também não participam da “alegria pelo espetáculo oferecido”. Quantas pessoas estavam ali como estava Blimunda, como estava Baltasar? Sem participar da “alegria” do espetáculo, mas também sem coragem de manifestar qualquer desagrado por saber que poderiam, em troca, ser protagonistas do próximo show?
Talvez com respeito aos dois principais espaços em que se passa a história contada no Memorial se possa dizer que não são escolhas aleatórias. Primeiro temos Lisboa como o centro onde tudo começa, onde o poder clerical e o poder secular se aliam como ao longo da história tantas vezes fizeram – e em tantas outras capitais –, ambos usando de subterfúgios, hipocrisias e meias verdades. E essa aliança resultará nos anos de trabalho em Mafra, o lugar onde o fator Deus, o homem comum, a morte, a dor e o medo se unem e se misturam, tanto para ficarem entranhadas nas paredes como parte da argamassa como também para figurar pelos séculos afora como obra de arte. Essa mistura da terra, dos homens e da lama de Mafra é acrescida da fantasia, da crítica e da arte narrativa de Saramago para criar o imponente símbolo de um poder opressor e vigilante que nos dias de hoje e para a maioria de nós se converteu em atração turística.
Os personagens de Saramago “falam” com os leitores. Blimunda nos diz que nem todas as “bruxas” foram queimadas, que as “bruxas” não eram más e que, se a religião pode inventar histórias de pessoas comuns com poderes fantásticos um romancista também pode. O padre Bartolomeu de Gusmão nos diz que a sede e o desejo de conhecimento pode levar uma pessoa à loucura se a insanidade dos “donos da verdade” impedirem sua livre expansão, “bem sabem que, querendo o Santo Ofício, são más todas as razões boas, e boas todas as razões más” (MC: p. 184/185). E Baltasar nos diz que o homem comum, iletrado e simples pode compreender mais e saber mais sobre o que é bom e justo do que papas e reis.
Uma marca do estilo de Saramago é sua ironia finíssima, que por vezes beira o sarcasmo e que “alfineta” de forma bastante dolorosa qualquer teísta mais convicto, “que o Santo Ofício, podendo, lança as redes ao mundo e trá-las cheias, assim peculiarmente praticando a boa ação de Cristo quando a Pedro disse que o queria pescador de homens” (MC: p. 93), outra marca saramaguiana é o uso que o escritor faz de seu conhecimento da história da religião para mostrar o quanto as pessoas se enganam quanto às “verdades” que pregam, “também em lugar certo vêm S. Domingos e Santo Inácio, ambos ibéricos e sombrios, logo demoníacos, se não é isso ofender o demônio, se não seria justo, afinal, dizer que só um santo seria capaz de inventar a inquisição e outro santo a modelação das almas” (MC: p. 310).
Sobre São Domingos ser criador da Inquisição, isso se confirma no blog heróis medievais que, inclusive, defende a inquisição como prática necessária e benéfica, como se pode ver por esse trecho que mostra bem o quanto Saramago não se enganava sobre a necessidade de combater o Fator Deus, que é essa crença insana que leva ao radicalismo e à intolerância, mesmo nos dias atuais e nos países do chamado “mundo civilizado”:

Além das conjunturas históricas que deram origem à Inquisição, devemos pôr em relevo que essa instituição existe de modo natural e necessário, embora com nomes diferentes, em toda sociedade que deseja sua própria conservação. Como acentua Rohrbacher, toda sociedade, a menos que espose um liberalismo suicida, vigia e persegue aqueles que conspiram ou trabalham pela subversão de sua estrutura. As próprias constituições dos Estados modernos cominam penas para quem tentar derrubar a forma de governo existente, em geral a republicana.

Ora, a constituição da humanidade cristã se baseia nos princípios de que é guardiã e alma a Igreja Católica. Os povos vitalmente cristãos, impérios, reinos, repúblicas, são membros vivos dessa Igreja e vivem de sua vida. Lei fundamental da sociedade cristã — disso a que se dá o nome de Cristandade — tanto para a sua existência quanto para a sua conservação e aperfeiçoamento, é a lei católica. E se não há verdadeira civilização sem a verdadeira Religião, como diz Pio X, é claro que, defendendo a verdadeira Religião, os cristãos estão defendendo a própria causa da verdadeira civilização.

Estas verdades estavam arraigadas no espírito da sociedade medieval, sincera e coerentemente católica. Não passam, portanto, de pura declamação as acusações violentas que são freqüentemente dirigidas à Igreja a este propósito. Provam apenas a ignorância e a paixão de seus autores, que transformam em mártires da liberdade de pensamento os hereges que, por seu fanatismo, desencadearam as piores desordens na sociedade de seu tempo
”.

O ateu afirma, e Saramago bem sugere nos seus livros, que Deus, por ser onisciente, saberia o que é o mal; por ser bom, não criaria – a partir do nada – nem o mal nem outra coisa qualquer que pudesse gerar ou causar a existência do mal; por ser onipotente, poderia criar um mundo sem o mal ou a possibilidade do mal – ainda que conservando o tão valorizado livre-arbítrio, que os céticos não conseguem ver mas que os teístas afirmam e reafirmam com tanta ênfase. “Saramago denuncia a incapacidade que o homem demonstra quando precisa lidar com as diferenças, e aponta as contradições da fé cristã, cujo dogmatismo separa os seres humanos, ao invés de uni-los, e animaliza-os a ponto de se trucidarem uns aos outros em nome de Deus. Para Saramago, o cristianismo com suas graves contradições históricas é, ele mesmo, a prova irrefutável da inexistência de Deus: ‘Permitiria Deus, se existisse, que em seu nome se criassem essas confusões e esses conflitos, esses ódios absurdos, estas vinganças dementes, estes rios de sangue derramado?’” (SANT’ANNA, 2009, p. 300).  Esse Deus-Todo-Bondade, se existisse, teria usado seu infinito poder para criar um mundo em que não houvesse possibilidade da existência do mal. Ou não teria criado nada.




REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

FEUERBACH, Ludwig. A essência do cristianismo. Trad. José da Silva Brandão. São Paulo: Papirus, 1988

HUME, David. Obras sobre religião. Trad. Pedro Galvão e, Francisco Marreiros. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2005

RATZINGER, Joseph; d’ARCAIS, Paolo Flores. Deus existe? Trad. Sandra Martha Dolinsky. São Paulo: Planeta, 2009

SANT’ANNA, Jaime. Em que crêem os que não crêem. São Paulo: Fonte Editorial, 2009.

SARAMAGO, José, O fator Deus, texto publicado no jornal Folha de São Paulo, em 19/09/2001 Disponível em:   http://www1.folha.uol.com.br/folha/mundo/ult94u29519.shtml. - dia: 13 Dez. 2010.
______________, Memorial do Convento. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2011

SANTIAGO FERNANDEZ;  São Domingos e a Inquisição - 1 (Autor: José de Azeredo Santos, "Catolicismo" nº 8, agosto de 1951); terça-feira, 21 de junho de 2011; http://heroismedievais.blogspot.com.br/2008/05/so-domingos-e-inquisio.html - dia:16 Dez 2012