23 de novembro de 2013

DE TUDO QUE ESQUECI – TRÊS

Eu esqueci que tirei um ramo verde de um arbusto brilhante e que depois de descascar cuidadosamente sua redondeza e remover suas folhas tenras o banhei em lágrimas e mergulhei-o nos meus sonhos para transformá-lo em uma varinha mágica. Deixei passar três pesadelos para maturar a magia. Testei a varinha na escuridão e transformei um besouro num sapo e um grilo em avião. Levei a varinha pra escola escondida nas páginas brancas do meu caderno de poemas e usei-a para desempedrar os olhos da professora de geografia a ponto de ela perceber que seus alunos mereciam um pouco de amor e querer mostrar um pedaço do mundo que não estava no atlas para que a turma toda pudesse fritar batatas unida e mostrar à escola inteira que na Europa pessoas felizes costumam comer batatas ao sol. Depois teve o dia do eclipse e precisei jogar a varinha mágica bem alto para que o dia tivesse sol novamente e ela desapareceu atrás daquela nuvem que tinha a forma de um caixãozinho de defunto com tons de cor de rosa.

DE TUDO QUE ESQUECI – DOIS

Eu esqueci que quando estava andando pela mata, ouvi um pio sonoro e vi que no alto da árvore sem flores e sem frutos havia um ninho pequeno e marrom. Eu quis ver o filhote que piava e jurei que não o machucaria, mas parece que a árvore não acreditou e, enquanto subia pelo tronco áspero, os espinhos furaram meus olhos. Então, sabendo que eu dizia a verdade, a borboleta dourada que me acompanhava invisível se mostrou e me levou suave até o ninho onde pude ver o pequeno filhote que acabava de sair do minúsculo ovo pintado de verde claro. Depois a borboleta dourada me deu metade de suas asas para substituir a retina perdida dos meus olhos inúteis. É por isso que muitas vezes choro quando olho para a vida que vejo tão frágil, tão triste, tão abandonada. Não entendo meu próprio choro porque não consigo lembrar que um dia conheci uma borboleta dourada e que em meus olhos estão uma parte de suas asas.

DE TUDO QUE ESQUECI – UM

Eu esqueci que quando estava deitada na grama olhando o céu veio um menino ruivo e me perguntou se eu queria conhecer outro mundo. Aceitei o convite e ele me avisou para segurar bem o pescoço porque naquele mundo era comum que as pessoas perdessem a cabeça e quando isso acontecia não havia como recuperá-la. Segurei bem mas da mesma maneira que não conseguia evitar quebrar o ovinho minúsculo que aquele japonês cuidadoso e gentil me dava cada vez que ia à granja com meu pai, não consegui perceber de que maneira nem saber o momento exato em que aconteceu. Perdi a cabeça e voltei para o meu próprio mundo com uma cabeça que o menino ruivo encontrou em um depósito de achados e perdidos e me deu porque foi a que melhor encaixou, mas não muito bem, no meu pescoço. É ela que ainda uso, não é minha e por isso está sempre pensando e agindo de forma independente e contrária ao modo como eu acho razoável que uma cabeça minha se comporte. Às vezes sinto que quem deixou essa cabeça na prateleira daquele depósito sabia o que estava fazendo. Não era para ela ser usada por ninguém.