24 de dezembro de 2013

RESPOSTA AO TEXTO SOBRE A PARADA GAY, DE DOM ODILO SCHERER

O senhor Dom Odílio reclama das “provocações e ofensas ostensivas à comunidade católica e cristã” que, segundo ele aconteceram durante a parada gay. Eu digo que gostaria muitíssimo que tivesse alguém tão importante quanto ele, e tão indignado quanto, defendendo a comunidade LGBT das provocações e ofensas ostensivas (sem aspas) da comunidade católica e cristã que acontecem durante o ano todo, todos os anos e ao longo de muitas décadas.

Ele fala ainda das “práticas que a moral cristã desaprova e que os próprios santos desaprovariam também”, mas parece que não se importa muito com a prática do preconceito, da falta de respeito aos direitos civis e de cidadania, da incitação à violência e ao crime que a comunidade católica e cristã tem perpetuado contra milhões de seres humanos, contrariando o amor que, segundo eles mesmos, Jesus Cristo pregou e defendeu. Dom Odílio diz que a tela que retrata São Sebastião “não pode” ser usada nesses eventos; eu pergunto: Por que não pode? Se usam com frequência o próprio demônio e o inferno para criminalizar os homossexuais, se usam até mesmo Hitler para comparar o amor gay com o horror praticado por Hitler (isso sim, para mim é um crime!), por que querem mais respeito do que dão?

Dom Odílio diz ainda que uma vida sexual regrada e digna é o que pode salvar da AIDS, concordando, de certa forma, com o trecho que cita provavelmente alguma faixa, cartaz ou grito de ordem que viu ou ouviu da parada gay: “Nem santo salva do vírus da AIDS”, com isso ele está demonstrando claramente seu preconceito, a intolerância da igreja e da religião que representa, além da própria ignorância. Ele julga, de forma malevolamente preconceituosa, que TODOS os homossexuais levam vidas “desregradas e indignas” e por isso merecem ser contaminados pela AIDS, ele omite (provavelmente de propósito) o fato de que muitas pessoas que são contaminadas pela AIDS não levam “vida sexual desregrada” e não são gays e, principalmente, ele se julga no direito de dizer o que é e o que não é uma vida sexual regrada e digna; ele se julga no direito de dizer como as pessoas devem levar suas vidas! Pois que o faça na sua igreja para os seus fieis, mas que NÃO venha impor suas regras a todas as pessoas!

Dom Odílio diz que “O uso desrespeitoso da imagem dos santos populares é uma ofensa aos próprios santos e ofende também os sentimentos religiosos do povo”. E o uso dos cartazes com dizeres de “Vocês vão para o Inferno!” e outras frasezinhas tão “amorosas” quanto que os cristãos ficam segurando ao lado da passagem da alegria da parada gay, não ofende ninguém? E os discursos dos papas, bispos e padres sobre a condenação e a “necessidade” de que se tire os direitos fundamentais de cidadania das pessoas LGBT, não ofendem ninguém? Sim, senhor Odílio ninguém gosta de ser vilipendiado nos seus direitos, nos seus sentimentos, na sua essência, na sua pessoa, na sua humanidade!

E o senhor Cardeal reclama do uso “desrespeitoso” da frase “amai-vos uns aos outros” porque, segundo ele, essa frase não pode referir-se a “qualquer forma de amor”, por que ele coloca a palavra amor entre aspas eu já imagino: preconceito, homofobia, ignorância, intolerância, maldade pura. Acho que seria assim que os líderes judeus da época grafariam a palavra amor caso fossem escrever um texto a respeito do amor de Jesus por Madalena.

E ele fala desse amor que colocou entre aspas como “práticas contrárias ao ensinamento do próprio Jesus”, será que esse senhor não sabe mesmo que toda a sua igreja e a riqueza que ela possui tem por alicerce uma longa tradição de práticas contrárias ao ensinamento do próprio Jesus? Mostrar ignorância sobre a própria instituição que defende é uma vergonha que os líderes religiosos decididamente não são capazes de sentir.

Nessa altura do texto, Dom Odílio relaciona fatos para comprovar seu argumento de que a igreja católica não é homofóbica. Fica bastante parecido com o chavãozinho muito usado pelos evangélicos “Amamos o pecador, odiamos o pecado”. Tão bonitinho! Só que ele, convenientemente, não cita os muitos discursos proferidos pelo papa e por outros representantes da igreja condenando a homossexualidade como sendo “opção”, “pecado”, “abominação” e, ao mesmo tempo, condenando o uso da camisinha com o argumento MENTIROSO de que ela não evita AIDS.

Quando Dom Odílio diz que “Quem apela para a Constituição Nacional para afirmar e defender seus direitos, não deve esquecer que a mesma Constituição garante o respeito aos direitos dos outros” ele deveria pensar em usar essa mesma frase no sentido inverso, mas parece que isso não lhe ocorreu porque o direito à manifestação do preconceito deve ter prioridade sobre o direito à cidadania plena, pelo menos na visão desse senhor. E quando ele afirma “respeitamos a livre manifestação de quem pensa diversamente de nós” o que fica me parecendo é que o sentido que ele dá ao termo “livre manifestação” é diferente do meu, e do que as Constituições realmente democráticas defenderiam, afinal, o direito a propagar o preconceito e a cassação dos direitos fundamentais de cidadãos não deveria fazer parte dos “direitos” de NENHUMA instituição, por mais “sagradas” que sejam.

E ele diz que “A Igreja Católica afirma que as práticas homossexuais vão contra a natureza”; eu pergunto: Isso é ignorância MESMO ou simplesmente omissão conveniente? Como assim “contra a natureza”? Será que esse senhor preconceituoso e homofóbico sabe mesmo tão pouco sobre a natureza a ponto de ignorar que a homossexualidade está presente na natureza desde sempre e ocorre entre os animais assim como entre os seres humanos, e que homossexualidade NÃO é opção? Eu ouso computar essa alegação não à burrice, mas a uma pura e simples maldade, tanto desse senhor quanto da instituição que ele representa.

Dom Odílio continua num arrazoado pseudocientífico tentando justificar seus preconceitos, sua ignorância proposital e sua maldade institucional com alegações que querem convencer, contra todas as evidências, de que a “abominação” bíblica encontra qualquer respaldo na realidade. E ele ainda tem a AUDÁCIA de dar a esse discurso tosco uma aparência de preocupação social. Esse tipo de discurso fica suavemente qualificado, na minha opinião, quando o definimos como nojento.

Finalmente ele se alia (de novo) aos demais cristãos, incluindo, imagino, os que portam os cartazes de ódio nas passeatas gay, quando diz que “As ofensas dirigidas não só à Igreja Católica, mas a tantos outros grupos cristãos e tradições religiosas não são construtivas”. Podem até não ser construtivas (embora eu ache que são!), mas certamente não são TÃO destrutivas quanto têm sido o ódio e o preconceito semeados, incentivados ou simplesmente ignorados pela sua religião e pelos “tantos outros grupos cristãos e tradições religiosas” de que o senhor fala e aos quais o senhor se alia.

Para variar, como não podia deixar de ser, ele termina seu texto bem no estilo “amamos o pecador, mas odiamos o pecado” conclamando os homossexuais a “viver com dignidade”. Eu o convido, Dom Odílio, a REALMENTE viver com dignidade, respeitando o outro, seus direitos, seu amor, sua vida, sua essência. Enquanto não fizer isso, só tenho uma coisa a dizer: O senhor deveria se envergonhar!

Eis o texto que estou criticando:

PARADA GAY: RESPEITAR E SER RESPEITADO
Dom Odilo Scherer

Eu não queria escrever sobre esse assunto; mas diante das provocações e ofensas ostensivas à comunidade católica e cristã, durante a Parada Gay deste último domingo, não posso deixar de me manifestar em defesa das pessoas que tiveram seus sentimentos e convicções religiosas, seus símbolos e convicções de fé ultrajados.

Ficamos entristecidos quando vemos usados com deboche imagens de santos, deliberadamente associados a práticas que a moral cristã desaprova e que os próprios santos desaprovariam também. Histórias romanceadas ou fantasias criadas para fazer filmes sobre santos e personalidades que honraram a fé cristã não podem servir de base para associá-los a práticas alheias ao seu testemunho de vida. São Sebastião foi um mártir dos inícios do Cristianismo; a tela produzida por um artista cerca de 15 séculos após a vida do santo, não pode ser usada para passar uma suposta identidade homossexual do corajoso mártir. Por que não falar, antes, que ele preferiu heroicamente sofrer as torturas e a morte a ultrajar o bom nome e a dignidade de cristão e filho de Deus?!

“Nem santo salva do vírus da AIDS”. Pois é verdade. O que pode salvar mesmo é uma vida sexual regrada e digna. É o que a Igreja defende e convida todos a fazer. O uso desrespeitoso da imagem dos santos populares é uma ofensa aos próprios santos, que viveram dignamente; e ofende também os sentimentos religiosos do povo. Ninguém gosta de ver vilipendiados os símbolos e imagens de sua fé e seus sentimentos e convicções religiosas. Da mesma forma, também é lamentável o uso desrespeitoso da Sagrada Escritura e das palavras de Jesus – “amai-vos uns aos outros” – como se ele justificasse, aprovasse e incentivasse qualquer forma de “amor”; o “mandamento novo” foi instrumentalizado para justificar práticas contrárias ao ensinamento do próprio Jesus.

A Igreja católica refuta a acusação de “homofóbica”. Investiguem-se os fatos de violência contra homossexuais, para ver se estão relacionados com grupos religiosos católicos. A Igreja Católica desaprova a violência contra quem quer que seja; não apoia, não incentiva e não justifica a violência contra homossexuais. E na história da luta contra o vírus HIV, a Igreja foi pioneira no acolhimento e tratamento de soro-positivos, sem questionar suas opções sexuais; muitos deles são homossexuais e todos são acolhidos com profundo respeito. Grande parte das estruturas de tratamento de aidéticos está ligada à Igreja. Mas ela ensina e defende que a melhor forma de prevenção contra as doenças sexualmente transmissíveis é uma vida sexual regrada e digna.

Quem apela para a Constituição Nacional para afirmar e defender seus direitos, não deve esquecer que a mesma Constituição garante o respeito aos direitos dos outros, aos seus símbolos e organizações religiosas. Quem luta por reconhecimento e respeito, deve aprender a respeitar. Como cristãos, respeitamos a livre manifestação de quem pensa diversamente de nós. Mas o respeito às nossas convicções de fé e moral, às organizações religiosas, símbolos e textos sagrados, é a contrapartida que se requer.

A Igreja Católica tem suas convicções e fala delas abertamente, usando do direito de liberdade de pensamento e de expressão. Embora respeitando as pessoas homossexuais e procurando acolhê-las e tratá-las com respeito, compreensão e caridade, ela afirma que as práticas homossexuais vão contra a natureza; essa não errou ao moldar o ser humano como homem e mulher. Afirma ainda que a sexualidade não depende de “opção”, mas é um fato de natureza e dom de Deus, com um significado próprio, que precisa ser reconhecido, acolhido e vivido coerentemente pelo homem e pela mulher.

Causa preocupação a crescente ambiguidade e confusão em relação à identidade sexual, que vai tomando conta da cultura. Antes de ser um problema moral, é um problema antropológico, que merece uma séria reflexão, em vez de um tratamento superficial e debochado, sob a pressão de organizações interessadas em impor a todos um determinado pensamento sobre a identidade do ser humano. Mais do que nunca, hoje todos concordam que o desrespeito às leis da natureza biológica dos seres introduz neles a desordem e o descontrole nos ecossistemas; produz doenças e desastres ambientais e compromete o futuro e a sustentabilidade da vida. Ora, não seria o caso de fazer semelhante raciocínio, quando se trata das leis inerentes à natureza e à identidade do ser humano? Ignorar e desrespeitar o significado profundo da condição humana não terá consequências? Será sustentável para o futuro da civilização e da humanidade?

As ofensas dirigidas não só à Igreja Católica, mas a tantos outros grupos cristãos e tradições religiosas não são construtivas e não fazem bem aos próprios homossexuais, criando condições para aumentar o fosso da incompreensão e do preconceito contra eles. E não é isso que a Igreja Católica deseja para eles, pois também os ama e tem uma boa nova para eles; e são filhos muito amados pelo Pai do céu, que os chama a viver com dignidade e em paz consigo mesmos e com os outros.

Publicado em O SÃO PAULO, ed. de 28.06.2011
Card. Odilo P. Scherer
Arcebispo de São Paulo