29 de outubro de 2014

ELA CHEGOU!




Estava sentada na terra com uma mudinha na mão direita e a pequena pazinha azul na mão esquerda quando de repente levantou a cabeça como quem cheirasse o ar e exclamou alto Mãe, ganhei! Soltou a plantinha e a pá, ficou em pé o tempo suficiente para bater a terra das mãos nos pelos das coxas, pôs-se de quatro com a cabeça voltada para o norte e disparou a correr como um guepardo. O pai aproximou-se da mãe e ambos se abraçaram e ficaram olhando a filha que rapidamente se tornou um ponto no horizonte e depois desapareceu.
Quase três meses depois, em outro ponto do planeta, ele estava mexendo a salada para seu rotineiro jantar solitário quando a porta abriu e ela entrou. Olharam-se enquanto se aproximavam um do outro. Muito antes de que ela visse como era a casa por dentro e de que ele percebesse que deixara o grande garfo de mexer salada cair no chão os dois estavam abraçados e acoplados um no outro com seus pelos coloridos formando um desenho único e multicolorido que, para os românticos, poderia ser descrito como o prenúncio de toda uma vida de companheirismo e parceria irrestrita que começava naquele momento e não terminaria nunca antes que ambos morressem.
Muitas horas depois o que se tornara um tornou-se novamente dois e ele a levou, ainda em silêncio, para o quarto onde ela poderia tomar posse de todas as coisas que ele escolhera, comprara e fizera para ela durante todos os anos de espera desde que ele se tornara adulto até o momento em que ela abriu a porta da casa que era e sempre fora dela. Ela poderia ver como tudo fora disposto com capricho e gosto, poderia perceber na ausência de qualquer poeira ou mancha o quanto ele sempre se preocupou em manter aquele espaço que era dela sempre pronto para sua chegada.
Depois do banho no qual usou a espuma perfumada que ele escolhera para ela há mais de dois anos por causa da suavidade do perfume e da beleza da embalagem, depois de se secar com a toalha que ele escolhera para ela há mais de cinco anos por causa da cor alegre, da incrível maciez e da capacidade maior de absorção, depois de cobrir os pés cansados com os sapatinhos que ele escolhera para ela poucos meses depois de ter comprado a toalha e porque, tanto na cor alegre quanto na maciez, combinavam perfeitamente, ela saiu do quarto e veio sentar-se à mesa onde ele a esperava com o jantar que durante mais de oito anos vinha preparando para dois todos os dias à espera do que estava acontecendo só agora.
Era hora de comerem e dizerem seus nomes, não para se conhecerem que já se conheciam totalmente, mas para que cada um soubesse como as outras pessoas chamavam aquele que esperara por oito anos e aquela que acabara de chegar para ficar. Disseram seus nomes e ela acrescentou o lugar de onde tinha vindo, contou os detalhes dos longos dias de viagem, o desejo que sempre tivera de ganhar o conhecimento de onde ele estava e a emoção de finalmente ter sido atingida por essa informação vinda do ar à sua volta, de dentro de suas veias, da ponta de cada um de seus pelos.
Ele comia em silêncio enquanto ouvia suas palavras e a olhava com adoração. Ela falou da mãe que tentara ensinar paciência contando a própria história de como demorara o dia do seu ganhar e de como fora pouca a distância que tivera que percorrer da cidade vizinha onde nascera até a casa pintada de azul por onde até já havia passado umas poucas vezes sem saber que era a sua.
Então ele contou de como procurou a casa perfeita, de como foi a escolha do quarto que seria dela, do primeiro objeto que comprara para a espera, aquela cama larga, redonda e fofa cujo preço o impediu de comprar qualquer outra coisa durante os seis meses em que manteve, por empréstimo da mãe, os objetos pessoais necessários para o caso de ela ter chegado antes de a cama estar totalmente paga e ele poder comprá-los. Contou também da emoção que teve quando, aos quinze anos, ganhou do pai o jogo de escovas que ele elegeu como o mais bonito da loja onde os dois tinham ido no mês anterior comprar o presente de aniversário da mãe, de forma que, se ela tivesse chegado logo que ele começou a esperá-la teria de seu apenas uma cama magnífica e um lindo par de escovas. Ela respondeu que teria adorado isso, e estava sendo totalmente sincera.
Depois de comerem ela pegou-o pela mão e o conduziu ao quarto que era dela e que, com esse gesto ela tornava dos dois. Conduzido por ela, ele entrou no quarto com o respeito com que o homo sapien mais religioso entra em um santuário e sentindo a felicidade indescritível que a homo sapien mais maternal experimenta diante do sorriso do primeiro filho. Ela desembalou o jogo de escovas, entregou a ele a que sempre fora dela, ficou com a que sempre fora dele e os dois, de frente um para o outro, começaram a escovar os pelos um do outro com o cuidado, o amor e a alegria que colocariam nesse ato todos os dias do resto de suas longas vidas.

3 de outubro de 2014

A “PIEDOSA” HOMOFOBIA CRISTÃ



O raciocínio é o seguinte:

"Homossexuais são uma abominação e a gente queimaria todos na fogueira, mas perdemos o poder que tínhamos na Idade Média então não podemos mais queimar ninguém. Por isso a gente faz de conta que é bonzinho, vai "roendo pelas beiras" de forma cada vez menos discreta para conseguir mais e mais poder político e, por essa via, colocar E MANTER todos os homossexuais como cidadãos sem plenos direitos e pessoas execráveis que podem até ser mortas pelos "fiéis" mais exaltados devido à atenção que deram ao nosso discurso homofóbico e ao nosso "livro-de-regras-de-como-matar-e-ficar-bem-na-fita" que a gente finge que não viu e continua lutando contra eles.
A não ser, é claro, que eles virem padres, aí a gente os protege, fazendo de conta que não sabemos e não vemos que se relacionam entre si e com fieis adultos "escondidinhos" ou mudando de paróquia aqueles que preferirem menininhos cada vez que são acusados de molestar crianças; além, é claro, de plantar discursos "pios" com o objetivo de levar todos os fiéis a negarem sempre a nossa concordância e nossa responsabilidade com essas práticas".

Não estou dizendo que esse seja também o raciocínio de todos os cristãos, acho que há aqueles que apenas "compraram" o discurso-disfarce da religião à qual aderiram, sem pensar e sem se importar o suficiente para perceber quanta perversidade há por trás desse "amor divino"; há aqueles que são homossexuais e foram tão bem doutrinados a rejeitar as "abominações" que rejeitam a si mesmos com tal vigor que usam essa auto rejeição como instrumento para oprimir e odiar todos os seus iguais; e há também aqueles que usam esse "raciocínio" para justificar os próprios preconceitos, talvez porque não tenham coragem de assumir essa barbárie como opinião própria e muito sua.
 
Desculpe não ter citado os cristãos não homofóbicos, mas achei que eles não precisam fazer parte dessa lista feiosa, mesmo porque, na opinião dos homofóbicos, eles sequer são cristãos “de verdade”.

25 de setembro de 2014

“VERDADES” COM AS QUAIS VOCÊ DEVERIA SE IMPORTAR



Professora Divina de Jesus Scarpim

1 - A escola pública deve ser apenas um depósito de crianças e adolescentes que não têm nenhum valor e importância nenhuma.

2 - A educação dada não precisa (nem deve) ser de qualidade. Quanto mais ignorantes e alienados esses alunos forem, melhor.

3 - Crianças e adolescentes negros e/ou pobres não precisam de boa educação porque não servem para nada que não seja servir a elite “bem nascida” do país.

4 - Quando os alunos se tornarem adultos devem ser apenas subempregados sem educação e, principalmente, sem senso crítico. Se muitos deles se tornarem criminosos é só diminuir a maioridade penal e aumentar a quantidade de presídios. Alienados e bem “orientados” pela mídia, eles mesmos vão concordar com isso.

5 - Se crianças e adolescentes pobres forem mantidos dentro da escola, onde não causam danos e ajudam a mascarar estatísticas fazendo o Brasil aparecer bem no cenário internacional, está ótimo.

6 - Os pais desses alunos – que só servem para trabalhar e votar – devem ser levados a acreditar que seus filhos estão sendo educados, mesmo que isso não seja verdade.

7 - O salário e as condições de trabalho dos professores devem ser os piores possíveis porque para fazer de conta que o povo recebe educação não precisamos de bons professores.

8 - Cursos de “capacitação” para professores, livros e material escolar devem ser fornecidos sempre porque são ótimas oportunidades para superfaturamento, desvios de verba e troca de favores entre políticos e empresários.

9 - As provas avaliativas oficiais também são ótimas oportunidades para superfaturamento, desvios de verba e troca de favores entre políticos e empresários. E o salário dos professores deve estar atrelado aos resultados obtidos nessas provas para que se possa culpá-los pela baixa qualidade do ensino público e, dessa forma, “livrar a cara” dos verdadeiros responsáveis.

10 - Os ganhos desse sistema a médio e longo prazo será uma nação de classe baixa e média baixa acrítica, ignorante, submissa e manipulável.

Alerta aos alunos: - Cada vez que você desrespeita sua escola, seu professor e decide não estudar e “fazer a sua parte” para que sua escola seja cada vez pior, você está desrespeitando a si mesmo e seu desenvolvimento pessoal e intelectual. E está colaborando para que essas “verdades” percam as aspas.

18 de março de 2014

NEGANDO A CRENÇA: VIDA APÓS A MORTE


Não consigo acreditar em vida após a morte, em fantasmas, em espíritos, em pessoas "recebendo" ou "incorporando" outras pessoas, em reencarnação, em experiências de sair do corpo ou qualquer outro tipo de relação com o “lado de lá”. Para mim o Chico Xavier é apenas um charlatão que deu certo, talvez por acreditar na própria mentira. Não consigo acreditar na existência de alma, não vejo sentido nessa dualidade que os que aceitam a tal vida depois da morte usam para definir-nos: "Somos corpo e alma". Na minha visão somos corpo; só corpo. Quando nosso corpo está vivo é porque nosso cérebro está funcionando e todas as manifestações, que normalmente se confunde com "alma", são algo que pode, no máximo, ser chamado de mente, no sentido de que são resultados do "trabalho", ou das atividades, do nosso cérebro. Não consigo acreditar que haja alguma coisa além disso. 

Somos só corpo, a alma não existe e a mente é apenas manifestação do corpo. Especificamente do cérebro, mas não apenas do cérebro, também da interação do cérebro com o restante do corpo, com o mundo exterior e talvez com outros seres vivos independentes. Afinal, não sei se naquilo que sou há, e qual seria, a participação dos bilhões de micro-organismos que habitam o meu corpo. O que é e por que existe vida é assunto complicado, parece mágica, mas só é complicado porque não entendemos como funciona. É o que penso. 

E não acho que esta ideia de que somos só corpo seja terrível, acho que depende da maneira como você encara. Viver sabendo que não há nada além do que você é fisicamente, e mais ainda, sabendo que mesmo suas maiores certezas podem ser apenas engano do seu cérebro, pode fazer toda ou nenhuma diferença, depende de como você resolve aceitar isso. Eu chego a achar confortador e muito instigante.

Fico pensando no que existe além do que eu vejo e sinto; não no que existe além no sentido espiritual, não acredito em espírito, falo no sentido físico mesmo. Quantas coisas lembro errado? De quantas coisas esqueci? Qual foi mesmo a minha vida, a que lembro ou a que esqueci? Vou lembrar ou vou esquecer o que está acontecendo agora? Vou lembrar como exatamente como é ou vou escolher lembrar diferente sem saber o que não é assim que está acontecendo? São tantas perguntas! Eu gosto de "perder" tempo pensando nessas coisas.

E o que é esse corpo que sou? Do que é formado? Passo muito tempo me perguntando do que é feita a matéria. Sei que sou matéria, mas eu sei o que é matéria? Mesmo quando leio, e entendo, as explicações dos cientistas, eu sei o que é matéria? Acho tudo isso muito apaixonante para se pensar. Agora, quanto a viver, para o meu dia a dia, não faz diferença nenhuma. Não vou deixar de ser quem sou, de fazer o que faço, de viver como vivo e de amar como amo porque sou só matéria e porque não tem nada depois da morte.

Se houvesse outra vida, isso seria “muito absurdo demais”! Nessa outra vida teríamos uma aparência e uma essência, algo equivalente ao tal corpo e alma? Teríamos algum tipo de corpo, mesmo que não fosse constituído de matéria para que as outras pessoas nos vissem? Como seria esse “corpo”? Veríamos as outras pessoas? Poderíamos reconhecê-las? Como as veríamos? Todas se pareceriam com o que eram quando morreram, todos seriam jovens e belos ou cada um escolheria sua aparência? Como seus amigos e familiares os reconheceriam caso só os tenham conhecido na infância ou na velhice? Haveria uma terceira possibilidade mágica na qual todos se reconheceriam independentemente da aparência ou ninguém precisaria reconhecer ninguém?

Se for para termos uma essência e uma aparência, qual Eu de cada pessoa viveria novamente? A gente é muitas pessoas diferentes ao longo da vida, se uma dessas tantas pessoas que a gente foi tivesse o privilégio – ou castigo – de viver novamente, o que seria feito das outras pessoas que fomos? Todas elas estariam mortas? Como sei que eu continuo sendo eu mesmo não sendo mais aquela eu do meu primeiro ano na escola, por exemplo, o defensor da vida após a morte poderia dizer que é “a mesma coisa”: eu continuaria a ser eu depois da morte da mesma forma que continuei a ser eu depois da adolescência, talvez faça sentido, mas será que é mesmo “a mesma coisa”?

Vamos pensar a possibilidade mais otimista, aquela que, na minha opinião, todos os que acreditam prefeririam que acontecesse: Eu poderia realmente ser eu se fosse a minha mente da fase mais lúcida no meu corpo do auge da juventude? Me parece bem difícil equacionar de forma convincente essa convivência, ou coexistência, fora da vida que vivi e das experiências que tive e, principalmente, do meu corpo do momento porque, por bem ou por mal, esse corpo, sua aparência, seu estado geral de saúde e sua carga de hormônios, afetou sempre, como é comum afetar, meus sentimentos, pensamentos e ações; como eu seria eu sem ele?. Se tiver outra vida, estarei em outra realidade e minhas interações e experiências serão outras; passarei a ser outra pessoa? Acho tudo isso muito atraente na verdade, mas ao mesmo tempo muito complexo para fazer sentido.

Uma eu com aparência jovem mas sem corpo, sem livros, sem escola e sem a “pegação no pé” dos meus pais? Minha juventude de volta sem os namoros, sem a curiosidade, o desejo ou a prática do sexo, com suas alegrias, medos, vergonhas e frustrações? Eu jovem sem as festas, sem “encucações”, sem os sonhos de futuro e sem os medos do fracasso? Essa “jovem” seria eu? Quando penso nas tantas possibilidades – tanto da minha vida quanto da vidas das outras pessoas – as perguntas são muitas, as dúvidas são todas, as possibilidades de não ser tão bom quanto pode parecer à primeira vista se tornam cada vez mais numerosas. Fica parecendo cada vez mais impossível que realmente possa existir essa tal vida após a vida da maneira que as pessoas que acreditam nessas coisas costumam afirmar que existe.

Não é por teimosia que não acredito (pelo menos eu acho que não é), é porque não encontro respostas que satisfaçam minhas questões, é porque nunca vi nenhuma evidência que pudesse me convencer e, principalmente, porque quando penso no assunto a existência de uma alma ou de uma vida após a morte me parece muitas coisas, todas elas ruins ou no máximo inúteis.

Dizem os que acreditam em espíritos que estamos aqui para evoluir, mas não consigo imaginar qual seria a utilidade dessa evolução e até onde ela chegaria. Evolução para que e até que ponto? Se eu tivesse um espírito, que tipo de evolução esse meu espírito poderia alcançar? Eu chegaria a ser o que mesmo? Um anjo? Uma fada? Uma deusa? Para que eu chegaria a esse ponto? O que eu faria depois disso? Por quanto tempo? Em troca de que e me aproveitando de que situações eu evoluiria? A tal evolução valeria o preço a pagar por ela?

Fico pensando nos horrores que existem nesse mundo, e fico pensando principalmente no sofrimento de crianças. Os defensores da ideia de evolução espiritual dizem que os horrores do mundo servem para a minha evolução, eles afirmam que sofrer e ter conhecimento do sofrimento do outro – para poder ajudar – é parte do meu “aprendizado”. Quer dizer que o sofrimento do outro existe para que eu tenha oportunidade de “ser boazinha”? Então milhões de crianças sofrem e eu, em lugar de me revoltar e de me sentir mal, devo ficar satisfeita porque posso ajudar uma ou outra? O mínimo que posso dizer é que estaria me aproveitado do sofrimento de todas as crianças. Como poderia me sentir bem assim? Acho sinceramente que se um dia eu conseguisse levar meu egoísmo a um grau tão alto a ponto de aceitar o sofrimento de crianças como algo natural e “necessário” por ser "parte do meu crescimento", eu teria INvoluído e não o contrário.

Mesmo com a justificativa comum de que o sofrimento também é "parte do crescimento do espírito dessas crianças" tenho restrições demais: primeiro que a explicação me soa como desculpa esfarrapada e egoísta para não se importar de verdade, e segundo que não vou conseguir aceitar nunca como normal nenhum tipo de sofrimento no qual aquele que sofre não saiba a razão de estar sofrendo. Uma criança muito pequena sofrendo não pode ser parte de um aprendizado, seja da minha “alma” ou da dela. Uma criança sofrendo é apenas um grande horror dentre os muitos horrores de que a vida é feita, e seria uma tremenda injustiça se fosse um acontecimento criado ou permitido propositadamente por um ser transcendental qualquer. Eu me nego, terminantemente, a dar minha adesão a um absurdo tão grande!

A reencarnação – para os que acreditam em reencarnação – tem outro ponto problemático: Renascer em outro corpo e sem a memória do corpo e da vida anterior – como defendem muitos espiritualistas – seria um absurdo de injustiça e implicaria em uma matemática tremendamente ilógica. Seria injustiça porque cada um “pagaria seus pecados”, “corrigiria seus erros” ou “repararia suas falhas” sem se lembrar de tê-los cometido. Seja qual for a nomenclatura, não consigo imaginar de que forma isso poderia servir como aprendizado para alguma coisa. Como alguém pode usar o que aprendeu em uma situação para agir melhor numa outra situação parecida se não se lembra de ter vivido aquela situação e de ter aprendido algo com essa experiência? Na hipótese de as coisas acontecerem mesmo dessa forma, o mínimo que posso afirmar é que essa tal reencarnação, se houver um ser superior qualquer envolvido, parece mais uma demonstração de sadismo, uma armadilha perversa ou, no mínimo, uma piada de mal gosto do que qualquer coisa semelhante a “evolução” ou a “justiça”.

Seria uma matemática ilógica porque se estudarmos os números da população mundial ao longo dos tempos tem uma discrepância grande demais, teríamos que imaginar uma linha de montagem fabricando almas novas porque o número de pessoas aumenta muito, e isso mais parece piada do Monty Python. Tudo bem que os defensores dessa ideia ao longo dos anos descobriram outras formas de resolver esse problema, muitas vezes com base em descobertas científicas. Um exemplo disso é que antes de se pensar e de se estudar outros planetas como possíveis mundos de alguma forma semelhantes à Terra, ninguém dizia que espíritos renascem em outros planetas, hoje é comum fazerem isso embora eu ainda não tenha lido ou ouvido nenhuma história de alguém que alegue ter lembrança de uma vida anterior e de essa vida anterior ter acontecido em outro planeta. As vidas anteriores “recordadas” são sempre de algum lugar e época aqui da nossa história mesmo, e geralmente dos lugares e épocas mais conhecidos e citados nos livros escolares.

A mim todas as histórias parecem fantasias, ilusões, imaginação ou alucinação, mesmo que, em muitos casos, as pessoas que “viveram” essas histórias realmente acreditem nelas. Na maioria dos casos que ouço não duvido das pessoas, duvido da veracidade de suas histórias, da mesma forma que duvidaria se fosse algo que acontecesse comigo mesma. Se eu tivesse uma experiência do tipo “espiritual” a primeira coisa que faria seria duvidar, portanto, não dou às pessoas mais crédito do que daria a mim mesma. E, à parte as “experiências”, existem as muitas explicações que os “estudiosos de fenômenos espirituais” dão a elas: todas as explicações “lógicas” que leio ou ouço a mim ficam sempre parecendo invencionices, “convincentes” e “convenientes”, criadas para responder o que não tem resposta. Mesmo quando tenho a forte impressão de que os estudiosos não estão mentindo, acho muito difícil dar crédito a eles, penso que, muitas vezes de forma involuntária e até inconsciente, essas pessoas estão usando, selecionando e adaptando o conhecimento para justificar sua crença e não para questioná-la.

Como estou escrevendo esse texto mais como um compêndio de “achômetro” do que como qualquer coisa que possa parecer um texto filosófico ou científico, sei que muitos vão usar o argumento de que não tenho conhecimento do tema e me aconselhar a estudar profundamente essa “ciência” antes de fazer meus julgamentos, ainda mais depois de eu ter ousado falar dos estudiosos que, como cientistas, dedicam anos de vida a esses estudos e pesquisas. Alguns vão relacionar livros e links que me ajudarão a conhecer só um pouco do que eles conhecem, porque muitos realmente estudaram esses fenômenos durante anos. Acreditem, já passei por isso e aos que pretendem me aconselhar profundos estudos, ou estudos “sérios”, minha resposta é essa: Tenho mais de um amigo que acredita que astrologia é ciência. Falam das influências de um planeta "na casa" de outro planeta, de uma constelação ou do sol, e usam tantas expressões que para mim são absurdas com a seriedade de quem está falando de geologia ou medicina. Não tenho dúvidas de que para eles aquilo tudo é ciência.

Tenho mais de um amigo que acredita que somos visitados e abduzidos por extraterrestres que nos estudam com seus instrumentos avançados e suas mentes superiores. Eles argumentam com "fatos" históricos e "científicos" para eles incontestáveis. E tenho mais de um amigo que acredita em tarô e fala das cartas, seus símbolos e seus dignificados da forma mais séria, afirmando que é ciência. Tenho mais de um amigo que faz meditação, conhece tudo sobre as "filosofias orientais", diz que a ciência milenar dos povos orientais é muito superior à nossa reles e materialista ciência ocidental. Todos eles dizem que é preciso estudar muito para entender os "mistérios" da crença "científica" que defendem. E tem os meus amigos espíritas que afirmam que espiritismo é ciência e é preciso estudar. Como nenhuma dessas "ciências" vale mais para mim do que as outras, qual eu deveria estudar? Acho que vou ficar com a "reles e materialista ciência ocidental", pelo menos ela eu uso no dia a dia e sei que funciona. Afinal, eu a estou usando agora para escrever esse texto.

E as questões não param: Se, de acordo com os espíritas, estamos reencarnando para evoluirmos por que cargas d'água não evoluímos? Em muitos casos os que defendem a reencarnação buscam os outros planetas para explicar isso, dizem que as almas mais evoluídas renascem em planetas distantes. Essa explicação gera tantas questões que não consigo entender como tantas pessoas conseguem aceitá-las: Quantas almas afinal existem? Até onde chega essa tal “evolução”? Com que objetivo existem essas etapas evolutivas? Por que a população de almas não evoluídas, ou no estágio em que estamos, aumenta tanto? Vamos, em um futuro distante, descobrir um planeta povoado por nossos ancestrais reencarnados? Eles se lembrarão de nós? Quando teremos contato com as primeiras almas que chegaram ao ponto máximo de evolução? Elas agora são deuses? Então existem muitos deuses! O que eles estão fazendo agora?

Por aqui não parece haver nenhuma grande evolução; nada se tornou melhor de uma forma que não pudesse encontrar explicação perfeitamente plausível nessa sequencia de uma mesma e única vida de cada pessoa que nasceu e morreu desaparecendo para sempre ao longo da história. Nesse nosso mundinho, exceto um ou outro gênio ou grande humanista, não se pode apontar nada que remotamente se pareça com algum tipo de interferência benéfica das tais “almas evoluídas”, mas mesmo a existência dessas pessoas especiais pode ser explicada de forma natural, sem que seja necessário buscar explicações transcendentais. Portanto, não parece ser para cá que as tais “almas evoluídas” veem. Afinal, na essência, o ser humano é tão "desumano", tão absurdamente violento e mau como sempre foi. Se, com essa nossa vida efêmera, somos apenas uma parte do todo, ou uma “etapa do caminho”, cadê o resto?

Outro ponto muito importante para mim é que todas as crenças em almas, espíritos, vida após a morte que tenho visto estão sempre atreladas à crença em um determinado deus e, inclusive, colocam a tal vida eterna como sendo uma dádiva de deus. Acontece que sou ateia. Fica muito difícil uma ateia acreditar em algo que envolve diretamente a existência de deus. Os espíritas falam em deus e em Jesus; os evangélicos também falam em Jesus e em deus; os católicos falam em Jesus, nos santos e em Deus; os umbandistas falam em deus, em Jesus e em diversos santos... Como não acredito em deuses ou em santos, não tem como aderir a essa ideia. Mesmo os budistas, que creem em outras vidas desvinculando essa crença da clássica ideia de deus, não me parecem fazer sentido entre outras coisas porque eles também, pelo que sei, não explicam, de forma que faça sentido, até onde vai essa tal evolução e para que ela serve.

Sou ateia e, além de ser ateia, sou uma ateia convicta de que, se estivesse enganada e existisse um deus, eu preferiria manter a maior distância possível dele. Para muitos a vida após a morte teria o objetivo contrário ao que seria minha vontade: eles querem viver para sempre com e para deus. Eu realmente não acredito, mas se, contrariando toda a lógica desse e de qualquer mundo, eu estiver errada e essa tal vida após a morte existir incluindo nela o “prêmio” de passar a eternidade ao lado de “Deus pai todo poderoso criador do céu e da terra”, espero sinceramente que nenhuma das minhas ações praticadas ao longo da vida nunca seja suficiente para me tornar merecedora disso que, para mim, seria um castigo medonho. Não consigo imaginar uma possibilidade de deus que eu respeitasse e não consigo imaginar nenhuma possibilidade de explicação que um deus pudesse me dar e que me faria perdoá-lo por ter criado o mundo do jeito que o mundo é. Portanto, não consigo me ver ao lado de tal ser se não como tortura, e acho que nem eu mereço um castigo assim tão terrível.

Existe também uma teoria segundo a qual passaremos novamente pela mesma vida que vivemos antes, toda ela, novamente e exatamente igual. Essa teoria me parece ainda menos válida ou possível, principalmente porque existem duas possibilidades que vejo como igualmente inviáveis: ou teríamos consciência da vida anterior e, nesse caso, provavelmente faríamos outras escolhas e teríamos vidas diferentes, ou não nos lembraríamos de nada e essa hipótese me leva a perguntar qual seria então a vantagem ou o sentido dessa repetição; eu poderia agora mesmo estar vivendo exatamente essa mesma vida pela milésima segunda vez e não saber disso, em que esse “revival” poderia ajudar na minha “evolução espiritual” afinal de contas? Mas acho que essa hipótese não foi levantada pelos espíritas e sim pelos filósofos – Nietzsche se não me engano -, então é melhor esquecer por enquanto.

Mais um ponto: Os que defendem a vida após a morte com esse "aprendizado", ou "evolução", envolvido geralmente evitam falar a respeito de como ficariam os animais: Que são eles? Eles também evoluem? Existe um planeta habitado por espíritos animais evoluídos? Um dia fomos animais? Em que ter sido ou passar a ser um animal pode ajudar uma pessoa se somos em muitos casos tão diferentes? Não consigo, desculpem mas não consigo pensar seriamente na hipótese de que um dia fui, por exemplo, uma giárdia e que essa vida me ajudou a “evoluir” até chegar ao estágio “espiritual” em que estou. Quando falam sobre os animais fica muito mais sem sentido do que nos argumentos que envolvem apenas os seres humanos. Essa omissão e esses argumentos de “pé quebrado” me parecem um indício muito forte de que nada disso existe; isso porque, na minha opinião, explicar de forma convincente como ficariam os animais – principalmente os menos “bonitinhos”, como as baratas e os vírus – cria uma gama de embaraços muito grande para essas teorias. De repente posso estar falando besteira e pode ter alguma teoria espírita que tenha conseguido detalhar esse aspecto e, apenas, eu não a conheça, mas pela pesquisa rápida que fiz em sites espíritas, não encontrei nada que fizesse sentido de verdade.

E, finalmente, tenho uma outra justificativa que está mais para brincadeira do que para um argumento sério mas mesmo assim acho que vale uma "analisada": Ando pensando já faz algum tempo em como seria terrível se de verdade acontecesse o que muitas pessoas afirmam sobre existir vida após a morte. Imagina a cena: Você morre e tem alguém lá do outro lado te esperando, depois chegarão outros e você vai se encontrar com todas as pessoas com quem conviveu e teve laços de amizade, amor, parentesco enquanto estava vivendo essa vidinha besta aqui na terra.

Acontece que, pelo que eu entendi, se é que entendi alguma coisa dessa ideia de vida após a morte, do outro lado você é um espírito de luz, você se livrou do seu corpo e, junto com ele, se livrou também de uma porção de coisas negativas que são inerentes à raça humana. Você está um degrau acima para se tornar um espírito puro, você está evoluindo, é um candidato a alguma coisa de suprema-pureza que eu não consigo fazer ideia do que seja. Mas, enfim, você está lá, com seu pai, sua mãe, seu primeiro namorado, seus filhos, seu marido, todas as suas melhores amigas desde aquela da escola primária até a do asilo, e todos são espíritos de luz candidatos a se tornarem um super-espírito-puro, seja lá o que isso for. Rapazes! Por favor, pensem nesses parentescos e relacionamentos que citei acima masculinizando ou feminilizando as pessoas de acordo com o que se adequar mais ao que foi (ou terá sido quando isso acontecer) a sua vida.

Imagino que, nessas condições não possa haver mentiras, meias-verdades, disfarces, segredos; e mais, imagino que o segredo seu que todos saberão não é aquele que você contaria e do jeito que você contaria, é todo e qualquer segredo; seus atos e pensamentos mais profundos. Todos vão saber as condições, o momento e o que você pensou e sentiu em cada situação da sua vida, tudo aquilo que você guarda só para você e que não diria nem sob tortura a nenhum ser humano do planeta os “candidatos a espíritos de luz” e os “espíritos de luz PHD” saberão. Ou será que você não tem nada a esconder? Nada mesmo? Nenhum pensamentozinho insidioso num momento de fraqueza? Nenhum “Foda-se, ninguém tá vendo mesmo!” naquele dia em que você estava sozinha em casa ou trancada no banheiro? Nunca se arrependeu de algo que sentiu e depois jogou aquilo debaixo do tapete-daquilo-que-não-deve-jamais-ser-levantado?

Não vou fazer uma lista de possibilidades aqui porque não quero constranger você e porque não quero me entregar que também sou humana, mas acho que ninguém escapa dessa; e isso não é verdade só para nós, mulheres. Pensem comigo, garotos: nada a esconder?

Das duas uma: ou eu sou uma anomalia, uma “freak”, uma aberração da natureza, ou todos nós temos os nossos segredinhos inconfessáveis por menos danosos que sejam. Acho que a segunda opção é a verdadeira, mas você pode tentar me desmentir se quiser.

Tenho segredos que não contaria A NINGUÉM nem sob ameaça de morte (e acho que todos temos ou então eu sou uma anomalia) e se com essa coisa de "alma" eu tiver que me tornar "transparente", abro mão de qualquer privilégio pós morte rapidinho para conservar meus segredos bem guardados!

Podemos ser boas pessoas, respeitar e valorizar os amigos, a família, a sociedade, as leis; podemos ter passado pela vida sem cometer nenhum crime, sem nunca prejudicar propositadamente qualquer pessoa. Mesmo assim não sairíamos por aí dizendo tudo, tim-tim-por-tim-tim, o que fizemos, pensamos e sentimos em todos os momentos da nossa vida.

Como aceitaríamos fazer isso depois de mortos e para todas as pessoas que tiveram alguma importância para nós? E ainda – com a possibilidade de que isso aconteça assim – diante de todas as pessoas e ao mesmo tempo. Dá para pensar em algo mais constrangedor? E ter que ouvir, ou saber de alguma outra forma, todos os “segredinhos sujos” dos seus pais e dos seus filhos? Por favor, escondam minha cara! Acho que se a coisa andar por esse lado a tal vida depois da morte perde muitíssimo do seu charme, não perde não?

Mas, pensando e “caraminholando” sobre o assunto, eu quis nos livrar disso e tentei encontrar uma saída: E se a gente não precisar ser transparente para todo mundo do lado de lá? Podemos restringir essa abertura plena e irrestrita da nossa pessoa a um único ser, por exemplo um outro espírito, mais evoluído que nós e que estaria, nesse caso, como uma espécie de orientador da nossa "caminhada evolutiva".

Ou, se você é religioso e prefere ele, então que esse ser mais evoluído seja Jesus, o espírito mais evoluído de todos os espíritos evoluídos que possam existir (é o que dizem...). Então tá! Só ele vai saber todos os seus segredinhos sujos. Ainda assim ficou um sentimentozinho de “sem-graça” não ficou mesmo? Em mim ficou, eu juro. E olha que nem acredito nesses espíritos evoluídos todos!

Mas quer ser mais restrito ainda? Tá bom: vamos supor então que seja deus, que exista deus e só ele tenha pleno conhecimento da sua personalidade na íntegra. Será que agora dá para encarar uma vida depois da morte e, mais ainda, uma vida depois do esclarecimento total e completo de que alguém além de você sabe TUDO?

Bem, não posso falar por você nem por ninguém, mas garanto que a correr esse risco eu prefiro que não exista vida nenhuma depois da morte. Se puder escolher abro mão, por melhor que seja e sem pensar duas vezes, de qualquer possibilidade de vida após a morte para poder conservar e levar comigo (e só comigo!) para o nada, a minha privacidade.

Daí, pensando nisso tudo, me parece bem mais interessante minha mente voltar ao nada que foi até que comecei a existir como eu, e meu corpo se dissolver espalhando os elementos que o compõem pelo mesmo ambiente de onde esses elementos vieram. O ciclo da vida me soa muito mais poético do que ter que justificar o sofrimento de crianças para uma teórica "evolução" da minha (ou de qualquer outra) "alma" até um ponto que não sei qual seja e que duvido muito que me interesse.

Na prática, acho que morrer deve ser muito legal. Sinto até uma certa ansiedade de que isso aconteça, como quem antevê o que sentirá quando chegar o dia de fazer aquela viagem previamente marcada para um país que não conhece. O mergulho no nada eterno me parece fascinante! Terrível seria o céu cristão: Sentar à direita do deus bíblico me apavoraria! Como o pós-vida das outras religiões também não me agrada, penso que saber que só o nada está do outro lado é uma das muitas vantagens de ser ateia.

Não me incomoda deixar meu filho e não me incomoda deixar netos caso eu venha a tê-los porque sei que isso é natural, então não me incomoda. Sei que não sentirei falta deles porque serei nada e o nada não sente, então isso me tranquiliza muito: nenhum aperto de saudade, oh, delícia! Meu filho provavelmente sentirá minha morte, e um possível neto, se houver, talvez sinta também, mas a dor vai passar logo porque a mãezinha ou a vovozinha velhinha morrer é normal. A dor amaina mais rápido diante do natural.

O que não quero mesmo é morrer antes da minha mãe, ela sim teria uma dor maior – a maior de todas as dores na minha opinião – e nisso sim, dói em mim pensar. Da mesma forma e pela mesma razão, não quero morrer depois do meu filho, como nenhum pai quer embora tantos passem por essa tortura. Seguindo a ordem natural a morte me parece muito boa, muito tranquila, muito agradável. O único medo que me sobra é o medo da dor, a dor que pode anteceder a morte caso ela venha por uma doença ou acidente sério; por isso, tudo o que desejo é que tenha muita morfina se eu precisar.

Enfim, acho que quando a gente morre a gente acaba e pronto. Fim, fin, fini, ende, the end, final, ACABOU! Não sobra nada, exceto alguns quilos de matéria destinada a voltar para a “tabela periódica dos elementos” à disposição da natureza para ser outra coisa, ou parte de outra coisa. Com o tempo, até a lembrança de quem fomos desaparece total e completamente. Pode ser difícil de aceitar, mas é o que parece mais lógico.

Mas preciso avisar que embora não tenha medo, não tenho nenhuma pressa de morrer. Ainda tenho muitos livros pra ler.