29 de outubro de 2014

ELA CHEGOU!




Estava sentada na terra com uma mudinha na mão direita e a pequena pazinha azul na mão esquerda quando de repente levantou a cabeça como quem cheirasse o ar e exclamou alto Mãe, ganhei! Soltou a plantinha e a pá, ficou em pé o tempo suficiente para bater a terra das mãos nos pelos das coxas, pôs-se de quatro com a cabeça voltada para o norte e disparou a correr como um guepardo. O pai aproximou-se da mãe e ambos se abraçaram e ficaram olhando a filha que rapidamente se tornou um ponto no horizonte e depois desapareceu.
Quase três meses depois, em outro ponto do planeta, ele estava mexendo a salada para seu rotineiro jantar solitário quando a porta abriu e ela entrou. Olharam-se enquanto se aproximavam um do outro. Muito antes de que ela visse como era a casa por dentro e de que ele percebesse que deixara o grande garfo de mexer salada cair no chão os dois estavam abraçados e acoplados um no outro com seus pelos coloridos formando um desenho único e multicolorido que, para os românticos, poderia ser descrito como o prenúncio de toda uma vida de companheirismo e parceria irrestrita que começava naquele momento e não terminaria nunca antes que ambos morressem.
Muitas horas depois o que se tornara um tornou-se novamente dois e ele a levou, ainda em silêncio, para o quarto onde ela poderia tomar posse de todas as coisas que ele escolhera, comprara e fizera para ela durante todos os anos de espera desde que ele se tornara adulto até o momento em que ela abriu a porta da casa que era e sempre fora dela. Ela poderia ver como tudo fora disposto com capricho e gosto, poderia perceber na ausência de qualquer poeira ou mancha o quanto ele sempre se preocupou em manter aquele espaço que era dela sempre pronto para sua chegada.
Depois do banho no qual usou a espuma perfumada que ele escolhera para ela há mais de dois anos por causa da suavidade do perfume e da beleza da embalagem, depois de se secar com a toalha que ele escolhera para ela há mais de cinco anos por causa da cor alegre, da incrível maciez e da capacidade maior de absorção, depois de cobrir os pés cansados com os sapatinhos que ele escolhera para ela poucos meses depois de ter comprado a toalha e porque, tanto na cor alegre quanto na maciez, combinavam perfeitamente, ela saiu do quarto e veio sentar-se à mesa onde ele a esperava com o jantar que durante mais de oito anos vinha preparando para dois todos os dias à espera do que estava acontecendo só agora.
Era hora de comerem e dizerem seus nomes, não para se conhecerem que já se conheciam totalmente, mas para que cada um soubesse como as outras pessoas chamavam aquele que esperara por oito anos e aquela que acabara de chegar para ficar. Disseram seus nomes e ela acrescentou o lugar de onde tinha vindo, contou os detalhes dos longos dias de viagem, o desejo que sempre tivera de ganhar o conhecimento de onde ele estava e a emoção de finalmente ter sido atingida por essa informação vinda do ar à sua volta, de dentro de suas veias, da ponta de cada um de seus pelos.
Ele comia em silêncio enquanto ouvia suas palavras e a olhava com adoração. Ela falou da mãe que tentara ensinar paciência contando a própria história de como demorara o dia do seu ganhar e de como fora pouca a distância que tivera que percorrer da cidade vizinha onde nascera até a casa pintada de azul por onde até já havia passado umas poucas vezes sem saber que era a sua.
Então ele contou de como procurou a casa perfeita, de como foi a escolha do quarto que seria dela, do primeiro objeto que comprara para a espera, aquela cama larga, redonda e fofa cujo preço o impediu de comprar qualquer outra coisa durante os seis meses em que manteve, por empréstimo da mãe, os objetos pessoais necessários para o caso de ela ter chegado antes de a cama estar totalmente paga e ele poder comprá-los. Contou também da emoção que teve quando, aos quinze anos, ganhou do pai o jogo de escovas que ele elegeu como o mais bonito da loja onde os dois tinham ido no mês anterior comprar o presente de aniversário da mãe, de forma que, se ela tivesse chegado logo que ele começou a esperá-la teria de seu apenas uma cama magnífica e um lindo par de escovas. Ela respondeu que teria adorado isso, e estava sendo totalmente sincera.
Depois de comerem ela pegou-o pela mão e o conduziu ao quarto que era dela e que, com esse gesto ela tornava dos dois. Conduzido por ela, ele entrou no quarto com o respeito com que o homo sapien mais religioso entra em um santuário e sentindo a felicidade indescritível que a homo sapien mais maternal experimenta diante do sorriso do primeiro filho. Ela desembalou o jogo de escovas, entregou a ele a que sempre fora dela, ficou com a que sempre fora dele e os dois, de frente um para o outro, começaram a escovar os pelos um do outro com o cuidado, o amor e a alegria que colocariam nesse ato todos os dias do resto de suas longas vidas.

3 de outubro de 2014

A “PIEDOSA” HOMOFOBIA CRISTÃ



O raciocínio é o seguinte:

"Homossexuais são uma abominação e a gente queimaria todos na fogueira, mas perdemos o poder que tínhamos na Idade Média então não podemos mais queimar ninguém. Por isso a gente faz de conta que é bonzinho, vai "roendo pelas beiras" de forma cada vez menos discreta para conseguir mais e mais poder político e, por essa via, colocar E MANTER todos os homossexuais como cidadãos sem plenos direitos e pessoas execráveis que podem até ser mortas pelos "fiéis" mais exaltados devido à atenção que deram ao nosso discurso homofóbico e ao nosso "livro-de-regras-de-como-matar-e-ficar-bem-na-fita" que a gente finge que não viu e continua lutando contra eles.
A não ser, é claro, que eles virem padres, aí a gente os protege, fazendo de conta que não sabemos e não vemos que se relacionam entre si e com fieis adultos "escondidinhos" ou mudando de paróquia aqueles que preferirem menininhos cada vez que são acusados de molestar crianças; além, é claro, de plantar discursos "pios" com o objetivo de levar todos os fiéis a negarem sempre a nossa concordância e nossa responsabilidade com essas práticas".

Não estou dizendo que esse seja também o raciocínio de todos os cristãos, acho que há aqueles que apenas "compraram" o discurso-disfarce da religião à qual aderiram, sem pensar e sem se importar o suficiente para perceber quanta perversidade há por trás desse "amor divino"; há aqueles que são homossexuais e foram tão bem doutrinados a rejeitar as "abominações" que rejeitam a si mesmos com tal vigor que usam essa auto rejeição como instrumento para oprimir e odiar todos os seus iguais; e há também aqueles que usam esse "raciocínio" para justificar os próprios preconceitos, talvez porque não tenham coragem de assumir essa barbárie como opinião própria e muito sua.
 
Desculpe não ter citado os cristãos não homofóbicos, mas achei que eles não precisam fazer parte dessa lista feiosa, mesmo porque, na opinião dos homofóbicos, eles sequer são cristãos “de verdade”.