7 de setembro de 2016

VOCÊ GOSTARIA DE VIVER ETERNAMENTE?


Uma vez, já faz alguns anos, comecei a me perguntar de quanto tempo eu precisaria para fazer as coisas que eu gostaria de fazer, que seriam: aprender todas as línguas; ler todos os livros, relendo os melhores quantas vezes eu quisesse; conhecer todos os lugares que eu escolhesse conhecer, retornando a eles quantas vezes eu quisesse; conhecer e conviver com todas as pessoas não escrotas, aprender e praticar todas as profissões, todas as artes, todos os esportes, todos os hobbys. Pensei que com certeza demoraria muito para conseguir realizar esse desejo, mas demoraria bem menos do que a eternidade.

Pensando cada um desses desejos, percebi que estavam muito restritos, afinal, aprender todas as línguas que são faladas hoje seria aprender bem poucas línguas comparado à quantidade de línguas que já foram faladas e pensando nas muitas que ainda podem surgir. Ler todos os livros também tem restrições, mesmo tirando os muitos livros que não quero ler porque não prestam, ainda faltariam os muitos que já se perderam na história e os muitos que ainda não foram escritos. Conhecer todos os lugares não significa conhecer todos os lugares porque cada lugar já foi vários lugares e provavelmente será muitos outros ainda. Embora alguns lugares, em alguns momentos, eu decididamente não desejasse conhecer, como Auschwitz nos negros tempos de Hitler, por exemplo.

Para as pessoas valem as mesmas restrições que apontei para os lugares e as mesmas restrições dos livros: Pessoas mudam com o passar do tempo, portanto, conhecer uma pessoa maravilhosa pode significar que a convivência teria que ser longa para que se possa conhecer as várias pessoas que essa mesma pessoa é. Tantas e tantas pessoas maravilhosas já morreram, tantas e tantas ainda não nasceram e, assim como acontece com os livros, muitas pessoas eu preferia não conhecer porque não prestam.

Aprender e praticar todas as profissões, todos os esportes e todas as artes parece legal, mas tem algumas profissões que eu não gostaria de saber, muito menos de praticar, como a profissão de pastor evangélico por exemplo, e quanto às artes e ao esporte não consegui pensar exatamente em nenhuma restrição porque alguns absurdos que uns ou outros chamam de arte ou de esporte não entrariam nunca na minha definição; como a "arte" de explorar pessoas e o "esporte" da caça.

Concluí que para realizar esse meu desejo utópico de maneira satisfatória, mesmo excluindo pessoas e livros que não prestam, lugares que em determinados momentos não me interessam, profissões que não prestam e esportes e artes que não são nem esportes nem artes, eu precisaria viajar no tempo para frente e para trás a meu bel prazer. Desse modo o tempo necessário seria bastante "esticado" mas, mesmo assim, seria muito menor do que a eternidade.

Nesse ponto fiquei com dois problemas: O primeiro é a impossibilidade da viagem no tempo; o segundo é o sem graça de estar sozinha. Então pensei em possíveis soluções para esses problemas. Eu poderia viajar por planetas, galáxias e universos e encontrar outras línguas, outros livros, outros lugares, outras pessoas, outras profissões, outras artes, outros hobbys e outros esportes. Talvez cada um deles em número infinito. Eu poderia também, nesses passeios entre planetas e universos, encontrar outras pessoas que têm os mesmos poderes e desejos que eu.

Resumindo: Certamente eu aceitaria a vida eterna feliz da vida se pudesse aprender todas as línguas que existem, que existiram e que existirão; se pudesse ler todos os bons livros que já foram e que serão publicados; se pudesse conhecer todos os lugares do planeta em todos os momentos em que esses lugares existem, existiram e existirão; se pudesse conhecer e conviver com todas as pessoas não escrotas que existem, que existiram e que existirão; se pudesse aprender e praticar todas as profissões, todas as artes, todos os esportes, todos os hobbys que existem, que existiram e que existirão; e eu teria que poder fazer tudo isso aqui na Terra e em um número infinito de outros planetas habitados ao longo da vida desse e de um número infinito de outros universos.

E, além de tudo isso, tenho certeza de que eu precisaria não ser a única pessoa capaz de viver eternamente nessas maravilhosas condições, seria necessário que existissem pelo menos umas poucas pessoas que também pudessem viver essa vida comigo, e seria fundamental que essas pessoas não fossem escrotas!

Então, para dizer que aceitaria a vida eterna feliz da vida, faltam “apenas” algumas condições insuperáveis: A existência de infinitos outros planetas habitados por pessoas, a viagem no tempo, a viagem interestelar e “interuniversal” e a companhia agradável. Todas essas coisas que, até agora, só existem na minha imaginação.

Além de tudo isso, seria necessário que esse corpo que tenho se modificasse a ponto de poder fazer todas essas viagens e que essa mente que tenho se modificasse a ponto de poder armazenar todas essas experiências. Sim, porque, para mim, se não puder ter memória do que vivi, então não vivi e não me interessa viver. Não existe vida que valha viver se não houver memória!

Então, diante de todas essas impossibilidades que apontei e da aversão que tenho por todos os outros exemplos de vida eterna que já vi nas literaturas e nas religiões, acho melhor ficar quietinha e morrer, para sempre e completamente, quando chegar minha hora.

Mas se a pergunta é apenas “Você gostaria de viver eternamente?”, com toda a certeza e convicção eu responderia com um sonoro SIM. Desde que nas minhas condições, é claro.