14 de outubro de 2016

Temos livre-arbítrio?

Um teísta me diz que somos culpados pelo mal porque temos o livre-arbítrio.

Eu respondo: Não acredito em livre-arbítrio! Mais ainda: tenho certeza de que isso não existe. Livre-arbítrio é apenas uma invenção teísta criada para inocentar deus diante de um óbvio mundo que contradiz sua própria definição.

O que há de livre escolha quando você tem apenas duas opções, sendo uma “boa”, mas que provavelmente nem é a que uma pessoa escolheria de livre e espontânea vontade, e outra terrível, implacável e injusta? Liberdade realmente seria poder escolher entre várias opções. E não ser punido por isso.

Essa sua afirmação de que “infelizmente as decisões recaem sobre gerações” usada para justificar o sofrimento de crianças é uma das maiores hipocrisias e idiotices que já li e ouvi na minha vida. Como é que alguém pode afirmar que um deus bom e justo permite que crianças inocentes sofram porque meia dúzia de adultos fornicaram da forma que esse deus não aprova?

A primeira impressão é que só a falta de um pingo de humanidade pode levar uma pessoa a pensar dessa forma, e chego a ficar enojada. Mas, em seguida penso melhor e concluo que deve ser o medo. O pavor do inferno eterno; o pavor de perder o consolo de ser “especial”, o ser amado sobre todas as coisas por um ente poderoso; o pavor de perder a identidade de grupo que uma comunidade religiosa proporciona a cada um de seus membros; o pavor da morte sem um “depois” consolador; o pavor da vida sem razão e sem explicação; o pavor da dor de viver sem esperança de recompensa.

Concluo então que deve ser esse pavor, muitas vezes sequer assumido conscientemente, o que impede as pessoas de raciocinar sobre os preceitos da sua religião da mesma forma que raciocinaria sobre outros aspectos da vida.

Terrível e sem um pingo de humanidade mesmo devem ter sido os criadores desses preceitos nojentos! Ou talvez nem eles, talvez pela época e pelo lugar em que viviam, tiveram que buscar essas explicações e fechar a mente para a racionalidade para que pudessem continuar vivendo.

De repente muitos dos que criaram esses preceitos absurdamente desumanos o fizeram apenas porque sentiam ainda mais medo do que os teístas de hoje sentem.

Mais difícil, me parece, é justificar os exploradores da fé que enriquecem apavorando as pessoas comuns e humildes, impedindo-as de pensar enquanto dão a eles seu dinheiro suado, enquanto derramam por eles o suor do corpo sofrido que usam para erguer e manter os templos onde esses seres abomináveis fazem seus espetáculos de pavor e exploração.

Mas você que não é um explorador da fé, que talvez seja o explorado e nem saiba disso, pense um pouco sobre o que te disseram sobre o livre arbítrio e a culpa do ser humano por todos os males do mundo:

E as catástrofes naturais ou climáticas? De onde você consegue tirar a ideia de que crianças e animais podem sofrer desde sempre com as catástrofes naturais e que isso é justo? De que forma você conseguiria encaixar, racionalmente, o livre arbítrio e a responsabilidade do ser humano em coisas como essas?

Seria porque alguém derrubou a árvore errada ou não “entendeu a linguagem das pedras”? Como é possível, diante disso, acreditar que existe um deus onipotente e chamar esse deus de bom e justo? Que tipo de moral, que tipo de ética é exigido de você para que consiga fazer uma afirmação tão vil como essa?

Você me diz ainda que “O salário do pecado é a morte”. Pense: que pecado cometeu a criança que mal nasceu e já está sendo torturada pela doença, pela fome ou por maus tratos?

Será mesmo que, se pensar com cuidado a respeito disso tudo, você não será capaz de se libertar desse medo atávico e concluir que de acordo com o que você mesmo sabe ser o significado da palavra justiça, essa palavra não se aplicaria a um ser onipotente que permite que crianças sofram?

Será que você não perceberia que tem ignorado seu próprio conhecimento do que é justiça e do que é bondade quando o tema que está em pauta é o seu deus?

Além disso, peço a você que tente responder essa pergunta: Que raio de livre-arbítrio é esse que só o algoz possui e que a vítima nunca tem?

12 de outubro de 2016

FUI UMA CRIANÇA MUITO DIFÍCIL E TENHO ORGULHO DISSO



Resposta a um texto sobre a infância de antigamente (que transcrevo abaixo):

Eu cresci comendo a comida que meus pais podiam colocar na mesa, e se tivesse algo que eu não gostava tinha que comer mesmo assim. Se não comesse apanhava porque "Criança não tem querer!".

Fui obrigada a respeitar meus pais e dizer sim mesmo quando eles estavam errados porque "Criança não responde!", e tive que respeitar as pessoas mais velhas mesmo quando eram velhos FDP porque "Criança não tem opinião!"...

Tive TV só na adolescência, antes disso tinha a "televizinho" que nem sempre era uma boa porque em geral “televizinhos” não eram lá muito bem-vindos - exceto na primeira vez, quando os proprietários exibiam a televisão nova com os ares de “Eu tenho, você não tem!”.

Criança não escolhia canal, sentava no chão e, se os donos da casa serviam alguma coisa boa de comer, serviam para os adultos, não para as crianças. Tínhamos que “engolir” o desejo e ficar quietos porque "Criança não fala na casa dos outros se não apanha quando chegar em casa!".

Antes de sair para a escola eu não arrumava a minha cama porque sempre achava uma boa desculpa para não o fazer.

Apenas mexia a boca para fingir que fazia o juramento à bandeira e para fingir que cantava o Hino Nacional na escola porque achava isso uma tremenda babaquice. E ainda acho.

Não bebia água de torneira porque não tínhamos água encanada, bebia água do poço que minha mãe puxava com um balde preso por uma corda. Um peso desgraçado que a envelheceu antes do tempo.

Andava descalça ou usava chinelos. Tinha também os sapatos “de uniforme” – horrorosos e pesadões – quando ganhava de um governo mais “generoso” em troca do voto do meu pai. Não tinha tênis, nem mesmo barato. As roupas não só não tinham marca como muitas delas minha mãe fazia, em alguns casos reformando roupas velhas que ganhava de algum parente mais afortunado.

Não existia celular, nem tablet e muito menos computador. Para ler um livro era um trabalho enorme porque a biblioteca da escola ficava trancada e ninguém podia entrar. Fiquei no pé da inspetora muito tempo até convencê-la a me deixar trancada lá para poder ler. Estudava à tarde mas ia para a escola no horário da manhã e ficava todo o período trancada na biblioteca lendo. Li toda a coleção de Monteiro Lobato assim. Só eu tive esse privilégio porque fui pentelha demais. Os demais alunos não liam nem podiam ler.

Lia também os livros de jornaleiro, em geral histórias de bang bang, que meu pai comprava ou ganhava dos colegas da fábrica onde trabalhava. Cheguei a escrever uma história de bang bang, o título era “A cidade escravizada” e tinha todos os chavões dos “bolsilivros” do meu pai. E lia os gibis do Tio Patinhas e do Mandrake que ele comprava para mim desde que descobriu que eu já sabia ler. Amei muito meu pai por isso!

Não ajudava minha mãe nas tarefas de casa se pudesse evitar, e evitava sempre que conseguia inventar alguma razão, como uma "dor de barriga" muito bem fingida. E sim, eu achava que era exploração porque queria brincar e ler!

Eu tinha horário para deitar, mas dormia a hora que queria porque aprendi a ler com pouca luz e a sonhar acordada.

Quando tirava boas notas não ganhava presentes, por isso nunca aprendi a andar de bicicleta e não tinha livros em casa, exceto raros livros emprestados e – lembrança maravilhosa! – um volume em capa dura dos Doze trabalhos de Hércules, do Monteiro Lobato que um amigo roubou em algum lugar me deu de presente. Não sei dizer quantas vezes li esse livro.

Outro amigo me emprestou A moreninha, do Joaquim Manoel de Macedo e não teve pressa de receber o livro de volta. Li uma meia dúzia de vezes, pelo menos!

Estudei contrariando a opinião de que "mulher não precisa estudar”. Notas baixas não eram castigadas uma vez que não importavam as minhas notas – porque sou mulher - e sim que eu respeitasse o professor. Mas para ser honesta não tenho muita certeza disso porque não tirava notas ruins para saber se seria castigada ou não.

Eu apanhava quando aprontava, ou quando “achavam” que alguma coisa era minha culpa. Apanhava muito, ficava com raiva e aprontava outra pior para me vingar da surra. Estava quase sempre marcada de cinta e achava isso terrível, uma humilhação a que fiz questão de não submeter meu filho.

Conheci muitas crianças que apanhavam e sofriam muito mais do que eu. Uma pena que naquele tempo espancamento não era um caso de polícia!

Não, não sou revoltada porque meus pais não agiam assim por mal, eles foram criados dessa forma e faziam o que achavam que seria o melhor para mim.

Por essas razões eu nunca, nunquinha, jamais vou endossar essa ideia absurda de que a infância de antigamente era melhor!

Certo que hoje há, em muitos casos, um excesso de permissividade, mas não é louvando as torturas do passado que vamos melhorar isso.

Sim, eu sobrevivi, mas não sinto nenhuma saudade da minha infância, ao contrário do meu filho a quem acho que consegui dar uma infância bem melhor do que a minha, principalmente tentando sempre não cometer os mesmos erros dos meus pais.

Ordem, Respeito, Disciplina, Bondade, Educação e Amor podem perfeitamente existir, se essas coisas formarem uma via de mão dupla, se formarem não uma lista de imposições, mas uma lista de frutos de uma convivência saudável. Dessa forma se pode incentivar concordância no lugar da Obediência vazia, puro fruto do medo.

Com amor e exemplos é possível formar uma pessoa decente que sinta saudades da infância que teve e que não fique pensando que é preciso espancar crianças para ser um bom pai ou uma boa mãe.

Por um mundo onde não haja só direitos. Nem para as crianças, nem para os adultos que as têm sob sua guarda.
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O texto que originou minha resposta (Não sei quem é o autor):

Eu cresci comendo a comida que meus pais podiam colocar na mesa, sempre respeitei meus pais e as pessoas mais velhas... Tive TV com 7 canais e não mexia para não quebrar, e antes de sair para escola arrumava a minha cama...
Fazia o juramento à bandeira na escola, bebia água de torneira, andava descalça, tênis barato e roupas sem marca, não tive celular, nem tablet e muitos menos computador...
Ajudava minha mãe nas tarefas de casa e não achava que era exploração infantil, tinha horário para dormir.
Quando tirava boas notas não ganhava presentes, porque não tinha feito mais que minha obrigação. Notas baixas era castigo, apanhava quando aprontava e isso era apenas um corretivo e não caso de polícia!!
E não sou revoltado e não faço análise em médico, e não falta nenhum pedaço em mim.
Se você também faz parte dessa elite, cole isto no seu mural para mostrar que sobreviveu.
Menos frescura e mais disciplina para essa geração!!!! É disso que o mundo e as crianças estão precisando!
Ordem, Respeito, Disciplina, Bondade, Educação, Obediência e Amor...
Por um mundo onde não haja só direitos, mas também DEVERES!