5 de dezembro de 2016

NÃO ACREDITO EM EX-ATEU



Desculpe se você for uma das pessoas que se definem como tal, mas não acredito na existência de ex-ateu. E não acredito porque não se pode abrir a mente e depois fechá-la de novo. Como bem disse Einstein. Com todo respeito aos teístas não radicais.

E quando digo "abrir a mente" não estou pensando que todo teísta tem a mente fechada, no sentido pejorativo. Estou pensando (e afirmando) que todo teísta tem a mente fechada para os aspectos da sua religião ou do seu deus. Tenho certeza de que as pessoas não “abrem a mente” na totalidade e ao mesmo tempo. Fosse assim não haveria pessoas que não são racistas mas são homofóbicas, não haveria pessoas que se tornam religiosos piedosos mas defendem o “direito ao porte de armas a todo cidadão”, não haveria biólogos que sentem prazer no “esporte” da caça ou da pesca. As pessoas, quando o fazem, abrem a mente a determinadas coisas, libertam-se de determinados preconceitos, adquirem determinados conhecimentos. Alguns de nós vão abrindo a mente para uma coisa, depois para outra, às vezes com espaço de anos entre uma coisa e outra. Talvez ninguém consiga abrir a mente nessa totalidade que parecemos entender pela expressão “abrir a mente”.

Sei que existem muitos teístas que têm a mente aberta para uma série de coisas, sei que muitos deles podem ter, com respeito a um mesmo tema a mente bem mais aberta do que a mente de alguns ou de muitos ateus. Mas para os temas que envolvem seu deus e a sua fé, me desculpe mas não. Não e nunca da mesma forma. Teísmo é crença em deus ou deuses, teísmo envolve fé e fé não é lógica, fé não é e não tem como ser sinônimo de mente aberta. Abrir a mente para a fé é como segurar um floco de neve, quando você consegue, ele desapareceu.

Sei que o ateísmo não é o ápice da racionalidade, aliás, está longe disso. Sei que existem muitos ateus idiotas, intolerantes e sem noção e muitos teístas inteligentes, tolerantes e racionais, assim como existem ateus inteligentes, tolerantes e racionais e teístas idiotas, intolerantes e sem noção. Pessoas são pessoas e são maravilhosas ou execráveis independentemente da crença que adotam ou deixam de adotar. Mas, ainda assim, não acho que seja possível ser ateu, perder a fé, desacreditar da existência de deuses e depois voltar atrás. Se você desacredita da existência de um ou de alguns deuses, ou de todos os deuses que conhece, mas existe um tipo de deus em cuja existência você acreditaria sem provas caso alguém o “apresentasse” a você, ou caso você o “encontrasse” em um momento específico de sua vida, então você não é ateu, apenas ainda não encontrou o deus no qual você acredita.

Para mim um ex-ateu é alguém que nunca foi ateu, apenas pensou que fosse e, depois, "encontrou" um deus que se se adequou às suas expectativas. Esse teísta continuou sempre sendo teísta mas, quando troca de deus com um espaço de tempo um pouco maior entre um deus e outro do que a maioria, pensa que deixou de ser ateu. Por favor, entenda que não estou querendo ofender ou dizendo que há obrigatoriamente algo de errado nisso. Pessoas trocam de deus e de religião o tempo todo, alguns quando “presenciam um milagre” atribuído a outro deus, passam a acreditar nele e deixam de acreditar no anterior, outros leem o “livro sagrado” do deus no qual acreditava, ficam horrorizados com o que encontram lá, deixam de acreditar naquele deus e criam um outro com as “qualidades” e sem os “defeitos” do primeiro e passam a acreditar em um deus muito pessoal que “não está em nenhum livro”. Eu fiz isso durante muitos anos, antes de me tornar ateia. Crer ou deixar de crer é e deveria sempre ser direito de cada um. Errado é ser intolerante. Só isso.

Tem gente que se define como “ateu espiritual” e defende que o ateísmo não precisa estar desvinculado da espiritualidade. Carl Sagan, em seu livro O mundo assombrado pelos demônios diz que "A ciência não é só compatível com a espiritualidade; é uma profunda fonte de espiritualidade. Quando reconhecemos nosso lugar na imensidão de anos-luz e no transcorrer das eras, quando compreendemos a complexidade, a beleza e a sutileza da vida, então o sentimento sublime, misto de júbilo e humildade, é certamente espiritual. Como também são espirituais as nossas emoções diante da grande arte, música ou literatura, ou de atos de coragem altruísta exemplar como os de Mahatma Gandhi ou Martin Luther King. A noção de que a ciência e a espiritualidade são de alguma maneira mutuamente exclusivas presta um desserviço a ambas." E isso pode parecer um forte indício de que Carl Sagan pensava da mesma forma porque nesse trecho parece estar afirmando que também era um “ateu espiritual”.

Acontece que em um trecho anterior a esse, Sagan explica que “Espírito” vem da palavra latina “respirar”. O que respiramos é ar, que é realmente matéria, por sutil que seja. A pesar do uso em sentido contrário, a palavra “espiritual” não implica necessariamente que falemos de algo distinto da matéria [...], ou de algo alheio ao reino da ciência "

O problema é que as pessoas em geral não usam o termo "espiritual" no mesmo sentido que Carl Sagan usou. Para a maioria das pessoas, espiritualidade é uma manifestação do espírito e espírito é “a parte não material” do ser humano, é um sinônimo de “alma”, aquilo que “o ser humano tem de imortal” é pura religiosidade. Ou então é algo semelhante demais a religião para não sê-lo. E eu, com base nisso, afirmo que "ser espiritual" contrasta com ser ateu sim porque estou usando a palavra “espiritualidade” com a conotação que as pessoas em geral dão a ela, não como o Carl Sagan a usou. E uma pessoa que se defina como “ateu espiritual" nesse sentido está enganada. Se alguém é espiritual, esse alguém não é ateu.

Pela definição, e todo mundo concorda com ela até onde eu sei, ateu é uma pessoa que não acredita em deuses. E, no meu entender, uma pessoa que não acredita em determinados deuses, mas acredita em um deus específico assim que "entra em contato" com ele, não é um ateu. E, de novo para mim, uma pessoa que não acredita em determinados deuses continua não sendo ateu quando se sente assim apenas no intervalo entre o desacreditar de tais deuses e o "encontro" com o deus no qual passa a acreditar. Penso que essa pessoa nunca perdeu a fé, houve apenas um intervalo no qual ela ainda não tinha conhecido o deus no qual acredita. Isso, em retrocesso, não torna uma pessoa ateia. E não a torna ex-ateia depois de ter encontrado seu deus. Eu, se fosse alguém assim, diria que pensei ser ateia mas depois descobri que estava enganada, não que fui ateia, ou que sou uma ex-ateia.

Muitos ateus, dentre os quais me incluo, têm problemas sérios com outros ateus e também com teístas que se dizem “ex-ateus”. Um dos problemas são aqueles ateus que só sabem ofender, que têm ideias mais conservadoras do que muitos religiosos e que não conversam, só xingam. Alguns tratam o ateísmo como se fosse religião, não sabem falar de religiosos a não ser com palavras ofensivas e se julgam os mais inteligentes seres do planeta apenas por terem lido alguns posts curtos a respeito de Carl Sagan e Darwin, mas nunca um livro inteiro. Muitos teístas, porque veem e leem os posts e comentários desses ateus radicais, pensam que todo ateu é assim. Daí, quando a gente tenta conversar com eles, esses religiosos começam logo ofendendo e chamando a gente de "ateu modinha" e outros nomes bestas assim. Esses “ateus” prestam um desserviço não só ao ateísmo, mas também às religiões e aos religiosos tolerantes e decentes.

Mas, defendendo os ateus "revoltadinhos", porque não gosto de generalizações, existem aqueles que se tornam ateus há pouco tempo e que depois mudam o discurso e passam a ser bem mais tolerantes. Acho que isso acontece porque assim que descobre que deus não existe, o ateu descobre que foi enganado, muitas vezes durante a maior parte de sua vida, e descobre, juntamente, que quem o enganou foram os religiosos. Daí ficam com raiva e descontam essa raiva xingando todos os religiosos com os quais conversa. Com o tempo a raiva passa, estudam mais, convivem mais e deixam de ser o protótipo do ateu "revoltadinho" para se tornar um ateu que luta pelo estado laico, que defende as religiões menores contra as religiões que pregam ódio e os grandes exploradores da fé que instigam esse ódio em seus cultos. Eles passam a defender também os religiosos humildes contra esses mesmos exploradores da fé. Eu fui um pouco assim. Embora não tenha sido violentamente agressiva, tive uma fase na qual tinha que me controlar mais para não ofender pessoas e às vezes não me segurava tanto quanto deveria.

Mas muitos desses ateus intolerantes na verdade não são ateus, são religiosos que por alguma razão deixaram de acreditar em deus e ficaram “de mal” não só com deus como também com os outros religiosos. Eles estão passando por essa fase entre um deus e outro de que falei lá em cima e logo se tornam um “ex-ateus”. E chegamos ao outro problema, talvez ainda mais sério, que é quando esses ateus intolerantes se tornam ”ex-ateus” intolerantes. Eles sobem no púlpito e “dão testemunho”. Eles demonizam os ateus, “mostram” com meias verdades e mentiras inteiras o quanto os ateus são maus, terríveis, perigosos. Eles não ficam satisfeito em serem “ex-ateus” e se tornam “ex-gays” prejudicando também, seriamente, a luta pelos direitos da comunidade LGBT. Alguns deles só não se tornam ex-negros por falta de possibilidade.

Sinto muito se você é uma das pessoas que se definem como ex-ateu e se te ofendo quando duvido do que você diz. Estou tentando usar a razão e mostrar a maneira como a estou usando. Estou tentando pensar filosoficamente de forma a apresentar uma teoria subjetiva e defender essa teoria com argumentos embasados. Estou deixando minhas conclusões em aberto para que qualquer pessoa possa argumentar com elas da mesma forma e no mesmo nível. Não estou pensando em diminuir ninguém e muito menos descartando o direito que toda pessoa deve ter de acreditar no que quer que seja ou duvidar do que quer que seja. Desde que não tire esse mesmo direito do outro. Estou apenas falando do que penso e explicando (ou tentando explicar) os meus motivos para pensar dessa forma. Só isso.